Guerra do Paraguai

Marcelo Goulart de Oliveira dos Santos

Licenciado em Historia (UNIRIO), pós-graduado em História e Cultura Afro-Brasileira (UCAM)

Anotemos de início que o Paraguai, antes da guerra, tinha sido um caso único na América Latina. Seu modelo econômico era à procura do desenvolvimento autônomo a partir de suas próprias forças. Por isso tinha praticado o isolamento e fechado seu mercado ao exterior. Em função desse procedimento, por exemplo, não havia solicitado qualquer empréstimo ao exterior. Mas isso mudou radicalmente como consequência da guerra, ao ponto que, finalmente, "residentes da Grã-Bretanha fizeram seu primeiro grande investimento no Paraguai imediatamente após a guerra, nos anos de 1871 e 1872, comprando duas emissões do governo paraguaio por um total de 1.505.400 libras esterlinas" (Rippy, 1959, p. 124).

O processo de formação das nações da bacia platina – Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil – está ligado à Guerra do Paraguai; os motivos para a Guerra devem ser buscados nos interesses ingleses, pois sem essa análise de lutas políticas e de territórios não teria como entender as causas do conflito no Paraguai.

O principal fator da Guerra está ligado ao governo do ditador do Paraguai, Francisco Solano López, por colocar em prática sua política expansionista, com a finalidade de aumentar seu território, tomando as terras dos países vizinhos e alcançar o mar, através do porto de Montevidéu.

O ditador Francisco Solano López tinha por objetivo criar o Grande Paraguai, com o inicio da invasão e a inserção do Uruguai, parcelas do território da Argentina e províncias do Brasil (do Mato Grosso e do Rio grande do Sul), onde começou o conflito armado; os países da Tríplice Aliança buscaram proteger seus interesses e se colocar como as potências da região.

De recuo em recuo, Lopez alcançava os confins do Paraguai, conduzindo consigo os restos lamentáveis de um exército destroçado. E, na medida em que se retirava, obrigava a população civil a segui-lo: na retaguarda do exército ia a legião de velhos, mulheres e crianças maltrapilhos, descalços e quase nus, sofrendo as mais horríveis privações, pois nada se cultivava, a não ser o ódio contra o inimigo implacável que o perseguia (Gomes, 1966, p. 241).

Na América do Sul, os governos mantinham relações que ajudaram a estabelecer variados projetos nacionais; o Brasil foi colônia portuguesa, e nos países vizinhos havia soberania francesa e espanhola, isso fazia com que as colônias buscassem espaço, inclusive por meio de suas independências. Desde a vinda da corte portuguesa, em 1808, o Brasil tinha boa relação com os países vizinhos (Escosteguy Filho; Kodama; Muaze, Salles, 2012, p. 109).

Durante as invasões napoleônicas, Dom João trouxe a corte para o Rio de Janeiro e determinou atacar os domínios franceses na Guiana e os espanhóis da Banda Oriental do Rio Uruguai, um lugar de disputa entre monarquias ibéricas. A Guiana era base dos franceses e dava acesso para a Amazônia e a outros lugares do norte do Brasil. Os países que ainda estavam em formação nessa época, da região da Prata, foram de suma importância para definir fronteiras e de espaços de atuação nacional, pois essa região era ponto de atenções internacionais na América do Sul.

No governo joanino, era claro de perceber os interesses na região da Prata. Napoleão invadiu a Espanha e logo depois a troca do monarca espanhol por um parente dele que foi indicado ocasionou um vazio de poder que afetou a organização administrativa das colônias espanholas, incluindo seus conflitos internos, pelo fato de quererem construir novas referências governativas.

O governo joanino observava com certo anseio esses conflitos e disputas, principalmente na região da Prata. Carlota Joaquina, que era casada com D. João VI, conspirou com os grupos leais ao trono da Espanha a fim de assegurar a autoridade, em oposição aos partidários da independência, que estavam ligados nos interesses comerciais de Buenos Aires (Escosteguy Filho, Kodama, Muaze; Salles, 2012).

Outro assunto importante a mencionar aqui é que a região da Prata sempre foi disputada pelas coroas espanhola e portuguesa, pelo fato de ser região de fácil acesso à América.

Na região da Prata houve sequências de governos que queriam a independência; Napoleão controlava a Espanha, onde ele poderia trazer desconforto ao governo de D. João VI. As relações entre Brasil e Inglaterra, que vêm desde o começo do império, foram marcadas por tensões, o Brasil precisava do apoio da Inglaterra e ao mesmo tempo precisava se esquivar dos “ataques” dela.

É de suma importância mencionar aqui no texto a Questão Christie, um incidente diplomático entre os impérios da Inglaterra e do Brasil, que começou em junho de 1861, logo depois do naufrágio do navio Prince of Wales no Rio Grande do Sul. Houve denúncias do cônsul inglês que mostravam o saque e a tripulação assassinada; os britânicos disseram que a população daquele lugar ajudou no roubo, sem contar que fizeram acusações às autoridades do Brasil dizendo que foram negligentes e que estavam de acordo com o saque ao navio. Em 1862, o embaixador W. D. Christie certificou que o governo inglês achava que as justificativas do governo eram limitadas e ao mesmo tempo considerava criminosas as autoridades daquele lugar e pedia reembolso pelo saque e pedia que se punissem as autoridades envolvidas (Escosteguy Filho; Kodama; Muaze; Salles, 2012).

No mês de junho de 1862 houve outro acontecimento que piorou as relações diplomáticas: três oficiais britânicos “bêbados” do navio Forte ofenderam guardas e começaram um conflito. No mesmo ano, a esquadra de guerra inglesa prendeu cinco navios brasileiros de comércio como garantia de indenização.

O governo inglês se recusou a aceitar a decisão em questão, dada pelo rei Leopoldo, da Bélgica. O Império brasileiro desfez as relações diplomáticas com a Grã-Bretanha, sem contar que o rei da Bélgica ficou de acordo com o Brasil, e até 1865 essas relações diplomáticas ficaram desfeitas, até que o governo britânico se desculpou formalmente com o Império brasileiro.

Pomer (1984, p. 40) relata que os empréstimos adquiridos pelo Brasil e outros países aliados foram de modo a afirmar que “a guerra foi paga, basicamente, com dinheiro fornecido pelos ingleses”.

Voltamos à Guerra do Paraguai; o Uruguai era o ponto de conflito entre Argentina e o Brasil, e houve uma divisão entre os partidos Colorado e Blanco, na qual havia uma aliança com os dois países; isso aumentou ainda mais as aflições no Uruguai.

Juan Manuel Rosas estava em ascensão ao poder, e em 1835 redefiniu-se o rumo em prol aos centralistas e a criação de uma política de autoridade sobre Buenos Aires e as outras províncias. Isso causou desconforto com o Império brasileiro, que percebia que a Argentina estava ruim, ou seja, a navegação na Prata estava ameaçada. Juan Manuel apoiou os Blancos no Uruguai e o Brasil apoiou os colorados, que tinham apoio também de grupos federalistas das províncias da Argentina, de Corrientes e Entre Ríos.

O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, renovou as pretensões de Rosas, de formar na Prata um grande império, rival do Brasil. Para isso preparava-se solícita, mas dissimuladamente; e só aguardava um pretexto para entrar em cena (Pombo, 1960).

No ano de 1850, iniciou-se uma Guerra civil, que levou os militares brasileiros a agir no ano de 1852; Urquiza de Entre Ríos venceu esse conflito, e os Blancos, que Juan Manuel Rosas apoiou, foram derrotados pelos militares brasileiros, tendo Luís Alves de Lima e Silva como comandante; foi quando ele se tornou marquês e conde de Caxias, por seu grande feito nesse conflito, em que saiu vitorioso. Juan Manuel, com seu declínio, saiu de cena em relação à Argentina e o governo brasileiro e grupos aliados em relação ao Uruguai ficaram aliviados.

O cenário que se encontrava na Argentina não foi normalizado; mesmo com o poderio nas mãos de Urquiza sobre a Argentina, Buenos Aires não reconheceu. Com isso, reiniciou-se a guerra civil; Mitre, que era militar e político da Província de Buenos Aires, no dia 17 de setembro de 1861 venceu os militares de Urquiza, no conflito conhecido como Batalha de Pavón; em 1862, Mitre foi eleito presidente da República Argentina.

Paraguai havia alcançado crescimento e prosperidade em meio à rivalidade com o Uruguai, Rio de Janeiro e Buenos Aires na Prata. O Paraguai tinha uma identidade nacional peculiar e ao mesmo tempo isolada e diferente dos Estados ao redor, por causa do tipo de colonização, por ser periferia na parte central da colônia espanhola, ou seja, era um lugar em que só a paisagem importava, havia uma população dominada por índios guaranis aldeados.

Dom Gaspar de Francia organizou uma política de isolamento externo e a manutenção interna do sistema de aldeamentos administrado pelo Estado (Escosteguy Filho; Kodama; Muaze; Salles, 2012, p. 125).

Em 1862, enquanto Mitre prosperava na Argentina, os Blancos tomaram o poder no Uruguai, com Bernardo Berro como representante; seu governo era voltado para a nacionalização das fronteiras e a cobrança de impostos aos estrangeiros, o que afetava fortemente os interesses do Brasil naquele local, principalmente dos gaúchos que viviam no Uruguai, que chegavam a cerca de 20% da população. Isso ocasionou pressão sobre o governo imperial, forçando uma interferência no Uruguai; em Montevidéu havia grande área comercial brasileira e financeira, por isso o governo Blanco percebia como evolutiva a rivalidade com o Brasil e havia diplomacia conturbada entre ambos os países.

Aconteceu o progresso no governo Blanco, que teve uma nova nomeação, pois Bernardo Berro renunciou e Atanasio Cruz Aguirre assumiu o seu lugar; ele se viu pressionado e buscou apoio do ditador Francisco Solano López, que não gostava da intervenção brasileira, pois tinha medo de que fosse apenas o inicio para um breve combate contra o Paraguai; o ditador sinalizou e “deixou no ar” interferir militarmente se o Brasil ocupasse o Uruguai. O Brasil invadiu mesmo assim, em 1864; com isso instaurou um governo provisório que voltou às medidas nacionalistas dos Blancos, então López percebeu uma chance de avançar naquela região e ter acesso tranquilo à Prata.

Na Argentina, Mitre crescia e com isso começou um momento de estabilização após a ação de Buenos Aires; ele apoiava os Colorados e mantinha acordo de seus interesses com o Brasil, que fez uma intervenção no Uruguai; Solano López prendeu a embarcação do Brasil Marquês de Olinda, o que fez com que Carneiro de Campos se tornasse presidente da província de Mato Grosso. Caxias virou comandante dos exércitos parceiros com o desligamento de Mitre; o trabalho de Caxias na guerra trazia aflição no gabinete progressista naquela hora, pois ele fazia parte do Partido Conservador; as guerras entre ministros progressistas e Caxias na frente dos militares fizeram com que em 1868 entrasse em declínio o gabinete liderado por Zacarias de Góes e Vasconcelos, e o poder Moderador trouxe uma crise política no Império que foi até o declínio da monarquia.

A Guerra do Paraguai tem seu início por causa da rivalidade em torno da região da Prata no período da “Era das Independências”. Para entender como começou a guerra, é importante avaliar a convivência das Províncias do Rio da Prata e o Império brasileiro. Não podemos deixar de mencionar que a criação do Império do Brasil está totalmente relacionada às relações internacionais com países vizinhos, principalmente com países economicamente fortes. Essa relação ligada ao Império brasileiro fez com que evoluísse o sentimento nacional.

As relações internacionais proporcionaram a demarcação de fronteiras, até mesmo a intervenção em outros países que já tinham independência, com tratados, entre outros. Essas relações internacionais ajudaram a fazer a manutenção nas estruturas que havia desde o período colonial, como a escravidão, e até na sociedade brasileira, principalmente com os militares, permitindo que Brasil influenciasse o seu modo de trabalhar; percebemos como foram de suma importância para o Brasil essas relações internacionais, que levavam em conta as diferenças que havia entre republica e monarquia e a importância da manutenção das estruturas do antigo Regime; o Brasil teve relações internacionais bem conflituosas, com guerras e intervenções, isso tudo tem a ver com suas intenções na região da Prata, principalmente na Província Cisplatina, que sofreu intervenções durante um século; foi onde se iniciou a Guerra do Paraguai, quando alguns países da América do Sul entraram em uma guerra, o pior conflito armado e sanguinário do nosso continente. Até mesmo a Inglaterra, que tinha relações com a América do Sul e era um país potente, manteve situações tensas com o Brasil e outros países da América.

Referências

ESCOSTEGUY FILHO, João Carlos; KODAMA, Kaori; MUAZE, Mariana; SALLES, Ricardo. História do Brasil II. v. 2. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2012.

GOMES, Luiz Souza. América Latina: seus aspectos, sua história, seus problemas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1966. (1ª ed. 1961).

POMBO, Rocha. História do Brasil. Rev. e atual. por Hélio Vianna. 9ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1960.

POMER, Léon. Paraguai: nossa guerra contra esse soldado. São Paulo: Global, 1984.

RIPPY, E. British investments in Latin America. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1959.

Publicado em 07 de junho de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SANTOS, Marcelo Goulart de Oliveira dos. Guerra do Paraguai. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 21, 7 de junho de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/21/guerra-do-paraguai

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