Relato de experiência: trabalhando as emoções na Educação Infantil

Gleice Marangueli da Silva

Graduada em Pedagogia, pós-graduada em Psicopedagogia (Instituto Cuiabano de Educação), professora na Secretaria Municipal de Educação de Cáceres/MT

Este relato de experiência tem como desígnio apresentar vivências da turma da Educação Infantil de cinco anos no período matutino na Escola Municipal Santo Antônio do Caramujo, localizada no Distrito de Caramujo, no município de Cáceres/MT. Atendendo na modalidade remota e presencial, o aluno tem acesso aos conteúdos através de apostilas mensais, nas quais a professora utilizou a ferramenta WhatsApp para orientar as atividades propostas por meio de vídeos, áudios e mensagem de texto; uma parte foi no ambiente escolar, haja vista os direitos garantidos na BNCC, explorando assim todos os campos de experiências e tendo como prioridade as experiências de cada educando, por meio das interações e brincadeiras, respeitando sempre o ritmo de aprendizagem e valorizando a capacidade de cada aluno.

Desse modo, o presente relato está embasado no projeto político-pedagógico (PPP) da escola, está em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com o Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil (RCNEI, de 1998); havia relatos, por parte de algumas famílias, de que os alunos estavam desmotivados para realizar as atividades propostas no ensino remoto e que queria voltar para a escola, para encontrar os amiguinhos, a professora, brincar no parquinho e comer o lanchinho da escola; preocupada com a saúde física e mental dos alunos, resolvi trabalhar as emoções, para poder ajudar de forma significativa esses alunos.

A atividade foi desenvolvida no segundo semestre; uma parte foi no ensino remoto e outra presencial na instituição escolar; diante dessa situação desafiadora e nova para todas as partes envolvidas, foram trabalhadas a emoção e a afetividade com os alunos, no sentido de valorizar os sentimentos relatados por eles, identificando os tipos de sentimentos, para que assim pudéssemos contribuir de maneira eficaz para o desenvolvimento integral deles.

O papel das emoções nas aprendizagens e nos relacionamentos dentro da escola exige que se pense em educar as emoções e em fazer com que se tornem aptos a lidar com suas frustações, que aprendam a negociar com os outros, a reconhecer as próprias angústias e medos; trabalhar com sentimentos é possibilitar sua manifestação, favorecer uma tomada de consciência de si mesmo, de suas intolerâncias, alegrias, mágoas, desejos etc., buscando identificá-los e ter a possibilidade de aprender a lidar com eles.

De acordo com a BNCC, em seu campo de experiência O Eu, o Outro e o Nós, foram proporcionados momentos de roda de conversa em que a professora fez apontamentos dos sentimentos e emoções que sentimos, incentivando as crianças a falar a respeito de emoções, sentimentos e maneiras de agir em determinadas situações. Alguns alunos se manifestaram relatando que sentiam muita falta da escola, dos amiguinhos, das interações com pares da mesma turma e de outras faixas etárias, do parquinho, de brincar na rua, sentiam a ausência de socializar e de trocar experiências. As interações são fundamentadas nos princípios e valores e em vivências que oportunizam o protagonismo infantil na construção da identidade, nas relações de respeito consigo, com outro e a com a natureza.

As crianças são incentivadas a reconhecer, a identificar e a expressar suas emoções por meio de propostas de aprendizagem que primam por vivências, histórias e jogos digitais, entre outros, elaborados pela professora, tudo com intencionalidade pedagógica, visando ao desenvolvimento integral. Essas vivências favorecem o processo de autoconhecimento e possibilitam a validação das emoções, o acolhimento dos sentimentos e a construção da identidade. A criança é protagonista em todos os contextos; ela não só interage como cria e modifica a cultura e a sociedade. Na concepção de Wallon, tanto a emoção quanto a inteligência são importantes no processo de desenvolvimento da criança, de forma que o professor deve aprender a lidar com o estado emotivo da criança para poder estimular melhor seu crescimento individual.

No âmbito da Educação Infantil, no ensino presencial a inter-relação da professora com o grupo de alunos e com cada um é constante, dá-se o tempo todo, na sala, no pátio ou nos passeios, e é em função dessa proximidade afetiva que se dá a interação com os objetos e a construção de um conhecimento altamente envolvente. Conforme Krueger (2013), a escola, por ser o primeiro agente socializador fora do círculo familiar da criança, torna-se a base da aprendizagem se oferecer as condições necessárias para que ela se sinta segura e protegida. Portanto, não restam dúvidas de que se torna imprescindível a presença de um educador que tenha consciência de sua importância não apenas como mero reprodutor da realidade vigente, mas sim como agente transformador com uma visão sociocrítica da realidade.

Nesse sentido, Antunes (2008) afirma que o professor muitas vezes é quem melhor pode ajudar o aluno a desenvolver e descobrir qualidades e talentos e surpreender-se com as revelações, com a responsabilidade, com a disciplina e a felicidade. A disciplina aumenta a autoestima do aluno e, quanto maior for a autoestima do aluno, mais se tornará disciplinado, nutrindo assim esse ciclo de disciplina e autoestima. A escola tem papel fundamental no desenvolvimento socioafetivo da criança, estabelecendo a relação com o outro para o desenvolvimento da aprendizagem Afirma Almeida (2005, p. 106):

A escola, tanto quanto a família, tem seu papel no desenvolvimento infantil, e a relação professor-aluno, por ser de natureza antagônica, oferece riquíssimas possibilidades de crescimento. Os conflitos que podem surgir dessa relação desigual exercem um importante papel na personalidade da criança.

No campo de experiência Traços, Sons, Cores e Formas, foram propostos jogos pedagógicos como jogo da memória, utilizando os emojis, para os educandos se divertirem em família, brincando e aprendendo; todos gostaram muito e socializaram no grupo de WhatsApp da turminha com vídeos; foi proposto também que colorissem as emoções de acordo com suas preferências e desejos; nas atividades, procurei sempre enfatizar o contexto do aluno, assim valorizando sua cultura local e social, tornando a aprendizagem mais significativa e prazerosa. Foi verbalizada e mostrada para o aluno a forma geométrica dos emojis. Foram desenvolvidas atividades de recorte e colagem das emoções, cada um com seu ritmo; com a mediação da professora, os educandos escolheram os emojis, recortaram, pintaram e colaram numa folha sulfite, fazendo suas produções artísticas e socializando com os coleguinhas da sala de aula; percebi que esse trabalho fomentou o interesse e aprimorou a aprendizagem deles.

Ao falar em aprendizagem, deve-se ter em mente o processo de ensino-aprendizagem, já que uma não acontece sem o outro e isso é a forma mais concreta do que se nomeia “interação social”, ou seja, não existe ensino-aprendizagem sem as interações, sem as trocas, sem o convívio, o que pode ser mais bem vivenciado, intermediado, levado a cabo pela via da afetividade e a compreensão das suas implicações no processo.

A Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017, p. 41), no campo de experiências Traços, Sons, Cores e Formas, aponta que

conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras. Com base nessas experiências, elas se expressam por várias linguagens, criando suas próprias produções artísticas ou culturais, exercitando a autoria (coletiva e individual) com sons, traços, gestos, danças, mímicas, encenações, canções, desenhos, modelagens, manipulação de diversos materiais e de recursos tecnológicos. Essas experiências contribuem para que, desde muito pequenas, as crianças desenvolvam senso estético e crítico, o conhecimento de si mesmas, dos outros e da realidade que as cerca. Portanto, a Educação Infantil precisa promover a participação das crianças em tempos e espaços para a produção, manifestação e apreciação artística, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da expressão pessoal das crianças, permitindo que se apropriem e reconfigurem, permanentemente, a cultura e potencializem suas singularidades, ao ampliar repertórios e interpretar suas experiências e vivências artísticas.

Os alunos eram motivados a desenhar no quadro o que estavam sentindo naquele dia; esse momento de reciprocidade entre professor e aluno é fundamental para o processo de ensino-aprendizagem.

No campo de experiência Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação, pude observar que os alunos participaram de roda de conversa em sala de aula, quando puderam se manifestar pela oralidade; foram realizados momentos de leitura com o tema De onde vêm os sentimentos?, com momento de interpretação oral e escrita; eles produziram textos e desenho expressando o que entenderam da historinha, fizeram recontos de histórias, usando sua imaginação e criatividade no mundo da fantasia.  A leitura faz com que viajemos para bem longe através das fantasias, sem sair de casa. Na Educação Infantil, é importante promover experiências nas quais as crianças possam falar e ouvir, potencializando sua participação na cultura oral, pois é na escuta de histórias, na participação em conversas, nas descrições, nas narrativas elaboradas individualmente ou em grupo e nas implicações com as múltiplas linguagens que a criança se constitui ativamente como sujeito singular e pertencente a um grupo social.

A Base Nacional Curricular (Brasil, 2017, p. 42) no campo de experiências: Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação, cita que

a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer. As experiências com a literatura infantil propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas, poemas, cordéis etc. propicia a familiaridade com livros, com diferentes gêneros literários, a diferenciação entre ilustrações e escrita, a aprendizagem da direção da escrita e as formas corretas de manipulação de livros. Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua.

Várias histórias foram contadas; uma delas foi o monstro das cores, em que construí os monstros em EVA para tornar a aula mais atrativa e mais significativa a interação com os alunos; a atividade foi satisfatória, teve o envolvimento de todos os alunos; ao fim, cada aluno teve a oportunidade de escolher um monstrinho e recontar ou criar sua própria história. Além disso, foram confeccionados pelos alunos palitoches dos emojis; haja vista o interesse e o capricho de todos os envolvidos, foi muito bom esse momento de trocas de experiências.

No campo de experiência Espaço, Tempo, Quantidades, Relações e Transformações, foram abordadas atividades em que eles pudessem expressar seus sentimentos com clareza e confiança, demonstrando suas habilidades e competências sempre com entusiasmo e alegria; todos os dias fazíamos a contagem dos alunos, em que cada um demonstrava seu sentimento por meio de emojis que estavam na parede; outro recurso pedagógico foi a lata das emoções, em que cada educando expressava como estava se sentindo. Eles gostavam muito desse momento, a participação era grande e a felicidade estava estampada em seus rostos, com alegria; então fazíamos a soma de quantos alunos estavam felizes, tristes, com raiva, amor... e assim fazíamos a conta. Foram propostas atividades de roda de conversa, nas quais eles tinham total liberdade de expressar os sentimentos e falar do dia anterior; esse era um momento riquíssimo de troca de experiências.

Assim, a instituição escolar cria oportunidades para que as crianças ampliem seus conhecimentos do mundo físico e sociocultural e possam utilizá-los em seu cotidiano.

Conclusão

As atividades propostas foram exitosas e significativas para o educando, levando ao processo de aprendizagem por meio de trocas de experiências, de acordo com a BNCC, em que o professor é o mediador do conhecimento e o aluno é o protagonista do seu próprio conhecimento. Pelos registros, pude observar o quanto eles cresceram de forma cognitiva, pessoal, física e emocionalmente com esses momentos. Se aprendem a escolher a emoção no momento e de maneira adequada, tornam-se sujeitos capazes de viver a vida em plenitude. Para isso, seria necessário que se desenvolvessem atividades na Educação Infantil desde a primeira infância.

De acordo com a BNCC, os estudantes precisam ser capazes de

aprender a agir, progressivamente, com autonomia emocional, respeitando e expressando sentimentos e emoções; atuar em grupo de maneira funcional e se mostrar aptos a construir novas relações, com respeito à diversidade e se mostrando solidários ao outro; saber quais são e acatar as regras de convívio social.

As crianças que aprendem essas competências socioemocionais vão crescer tendo consciência de quem são, dos pontos fortes que têm para contribuir com a sociedade e de como podem trabalhar para desenvolver essas áreas.

Referências

ALMEIDA, A. R. S. A emoção e o professor: um estudo à luz da teoria de Henri Wallon. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 13, nº 2, p. 239-249, maio/ago. 1997.

______. A emoção na sala de aula. 5ª ed. São Paulo: Papirus, 2005.

ANTUNES, C. Como ensinar com afetividade. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2008.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Curricular Comum BNCC. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 26 ago. 2021.

______. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Vol. 1, 2 e 3. Brasília: MEC/SEB, 1998. Acesso em: 26 ago. 2021.

CÁCERES. Projeto político-pedagógico da Escola Municipal Santo Antônio do Caramujo. Cáceres, 2020.

KRUEGER, Magrit Froehlich. A relevância da afetividade na Educação Infantil. Florianópolis: Instituto Catarinense de Pós-Graduação em Psicopedagogia, 2013.

ZANLUCHI, Fernando Barroco. O brincar e o criar: as relações entre atividade lúdica, desenvolvimento da criatividade e Educação. Londrina: O Autor, 2005.

Publicado em 14 de junho de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Gleice Marangueli da. Relato de experiência: trabalhando as emoções na Educação Infantil. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 22, 14 de junho de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/22/relato-de-experiencia-trabalhando-as-emocoes-na-educacao-infantil

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