História passando na sua timeline: possibilidade de uso do Facebook nas aulas

Fabiano dos Santos Silva

Licenciado em História, especialista em Acessibilidade Cultural (UFRJ), agente de Apoio à Educação Especial na SME/RJ

Lilian Morgana Alves da Silva

Graduada em Pedagogia (UERJ), professora de Educação Infantil na SME/RJ

Na unidade escolar em que exercia o magistério, em geral os alunos demonstravam certa indiferença para os estudos e isso se agravava na disciplina de História, vista como de segunda classe ou, como eles costumavam dizer, uma “disciplina decorativa”, por ser associada à memorização de datas, nomes e eventos. Entretanto, podemos perceber a importância do ato de estudar História, no que Boschi (2007, p. 8) diz:

Muito mais do que decorar fatos, precisamos buscar compreender por que as coisas aconteceram de determinada maneira. E por que as coisas não aconteceram do mesmo jeito em todas as sociedades humanas. Entender como o mundo se tornou o que é e não algo diferente. Mas do que encontrar respostas, estudar História é aprender a fazer perguntas.

Infelizmente, alguns docentes continuam a ofertar uma aula de História totalmente descontextualizada da atualidade, fazendo com que a disciplina continue a ser estigmatizada como “disciplina decorativa”.

A maior parte dos alunos do Ensino Médio são da geração conhecida como “nativos digitais”, termo criado por Marc Prensky (2001), que os define como pessoas que cresceram tendo acesso às novas tecnologias e passam grande parte de seu dia fazendo uso delas. Isso tem feito com que essas pessoas tenham necessidades diferentes das pessoas que as antecederam, tornando necessário que os professores dos nativos digitais adaptem suas práticas pedagógicas às demandas desse público tão específico.

O objetivo da proposta visava a produção de textos originais dos alunos, juntamente com o desenvolvimento da sua capacidade de argumentação bem como seu estudo autônomo (nos momentos em que os discentes estivessem fora da sala de aula). Percebendo que os alunos passavam grande parte de seu tempo acessando a internet, em especial o Facebook, conclui que eles poderiam aumentar seu tempo de estudo, caso estivessem associados ao Facebook.

É importante observar que alunos dessa região do Pará têm muita dificuldade de locomoção até as universidades, devido à falta de infraestrutura das estradas do local. A experiência ajudou a preparar os alunos para o ingresso no Ensino Superior a distância (EaD) tendo em vista a semelhança existente entre os comentários do Facebook e os fóruns EaD.

Desenvolvimento

No início do ano, os alunos deveriam ingressar no grupo do Facebook da turma, pois a cada semestre eram postados no grupo dois textos que faziam relação com os conteúdos tratados em sala de aula. Na escolha, optava-se por textos acadêmicos, que abordassem recortes dos assuntos que mais despertam a atenção e a curiosidade dos alunos. Como exemplos, podemos citar textos sobre: a religião egípcia, a Guerra Fria, a Segunda Guerra Mundial, a situação dos trabalhadores na Revolução Industrial, as cidades gregas e tantos outros temas.

As leituras eram disponibilizadas em PDF, para que os alunos pudessem ler em seus smartphones, independentemente do local em que estivessem. A seleção do texto ocorria de forma muito criteriosa, procurando lançar mão daqueles que não fossem muito densos, ou seja, de leitura tranquila e de fácil compreensão, visto que os alunos não tinham costume de ler textos acadêmicos.

Após a leitura, o aluno deveria fazer, no mínimo, quatro comentários na postagem: um comentário expondo suas impressões acerca da leitura, outro comentário relatando diferenças e semelhanças entre o texto e o livro didático e, por fim, responder a dois comentários feitos pelos demais alunos da classe. Essas interações deveriam ocorrer em dias diferentes.

O Facebook funciona no sistema de timeline, em que os algoritmos expõem no topo algumas publicações. Geralmente, essas publicações são as que têm mais curtidas e mais comentários. Dessa forma, quando os alunos iniciavam sua interação, com a publicação, a postagem aparecia no topo da timeline dos demais colegas que participavam do grupo. Isso permitia que o aluno, quando conectado à rede social, fosse recordado de participar e de acompanhar os comentários dos demais colegas de classe, conforme publicados.

Mesmo havendo um mínimo de quatro comentários por aluno e por texto, em geral, os alunos normalmente excedem esse quantitativo, visto que tanto o assunto do texto quanto a forma como eram feitas as postagens estavam associados ao seu cotidiano, possibilitando interação com os demais colegas de classe, ainda que fora do seu horário de estudo. Além dos comentários, os alunos postaram letras de músicas, poesias, imagens e memes que se relacionavam com o assunto em debate, mostrando que a aprendizagem se tornou significativa. Moretto (2014, p. 18) diz que aprendizagem significativa é “dar sentido à linguagem que usamos; é estabelecer relações entre os vários elementos de um universo simbólico; é relacionar o conhecimento elaborado com os fatos do dia a dia, vividos pelos sujeitos da aprendizagem ou por outros sujeitos.”

Associado aos debates que já existiam no Facebook, periodicamente, os alunos estudavam em grupo, quando o professor tinha a oportunidade de tirar as dúvidas dos componentes em relação ao texto e ao conteúdo estudado em sala. Na aula posterior, era feito o “duelo dos textos”. O duelo era um debate acerca das semelhanças e das diferenças que os alunos haviam encontrado entre o texto disponibilizado e o texto do livro didático.

Resultados

De início, houve resistência por parte dos alunos. Contudo, o projeto foi bem-aceito, por associar a rede social preferida dos alunos com o estudo da disciplina de História, tornando o estudo prazeroso e descontraído. Houve uma participação considerável dos alunos, não só nos momentos que ocorriam no Facebook, como também nos momentos de debate em na sala de aula. Podemos perceber, também, um maior envolvimento com a disciplina, que passou a ser vista como uma disciplina crítica e associada à realidade.

Concordando com isso, Moretto (2014, p. 15) diz que “o esforço de quem ensina é fazer com que as crianças desenvolvam a capacidade de atribuir significado ao que estão fazendo”. Acompanhando a evolução dos comentários dos discentes no decorrer da aplicação do projeto, foi notória a evolução da sua capacidade argumentativa e do uso de argumentos, fato notado pelos próprios alunos.

Conclusões

A LDBEN preconiza, em seu Art. 35, que uma das finalidades do Ensino Médio é preparar o aluno para o prosseguimento nos estudos e para que ele continue estudando. Desse modo, os debates realizados por meio do Facebook, assemelham-se aos fóruns dos Cursos Superiores na modalidade a Distância (EaD), a modalidade que mais cresce no Brasil; ela atende a uma demanda reprimida e possibilita que pessoas que vivem distante dos grandes centros urbanos, sem disponibilidade de frequentar aulas na universidade por questões financeiras, acessem o Ensino Superior.

Um dos principais recursos utilizados nas universidades são os fóruns de debate para troca de ideias entre os alunos, tal qual se realiza nas salas de aula presenciais, tendo a vantagem de serem debates assíncronos. Os fóruns no Facebook, acabam por preparar os alunos para a EaD, visto que boa parte dos alunos consegue dar continuidade aos estudos no Ensino Superior por essa modalidade de educação.

Mesmo não tendo como objetivo preparar o aluno para o Ensino Superior, o projeto foi ao encontro do que diz Moretto (2014, p. 20):

Assim, se a escola se serviu dos conteúdos selecionados naquele momento para desenvolver a capacidade de pensar e as habilidades de observar, relacionar, estruturar, analisar, justificar, sintetizar, correlacionar, inferir, entre outras, então preparou o cidadão para o exercício de uma profissão, desenvolvendo suas competências.

Referências

BOSCHI, Caio Cesar. Por que estudar História? São Paulo: Ática, 2007.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996.

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Nativos digitais, imigrantes digitais: quinze anos depois. In: BUENO, André; CREMA, Everton; ESTACHESKI, Dulceli. Para um novo amanhã: visões sobre aprendizagem histórica. Rio de Janeiro: Laphis; União da Vitória: Sobre Ontens, 2016.

MORETTO, Vasco Pedro. Prova: um momento privilegiado de estudo, não um acerto de contas. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.

PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants. On the horizon, v. 9, n° 5, p. 1-6, 2001.

WHITE, Ellen G. Educação: um modelo de ensino integral. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira. 2015.

Publicado em 28 de junho de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Fabiano dos Santos; SILVA, Lilian Morgana Alves da. História passando na sua timeline: possibilidade de uso do Facebook nas aulas. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 24, 28 de junho de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/25/historia-passando-na-sua-timeline-possibilidade-de-uso-do-facebook-nas-aulas

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