Arborização da E. E. I. F. Tarcísio Gonçalves de Oliveira, em Aurora/CE, a partir da participação na Jornada Cidadania nas Escolas em 2018

Jamil Torquato Leite Gonçalves

Graduado em Geografia (URCA), pós-graduando em Geografia e Meio Ambiente (URCA)

Heibe Santana da Silva

Doutor em Arquitetura e Urbanismo (UFBA), docente na URCA

Sabemos que o homem, para se desenvolver em sociedade, constrói habitações, estradas e toda uma estrutura que lhe forneça condições adequadas de vida, ou seja, transforma a natureza que antes existia em sua plenitude. Essas transformações vêm acontecendo com intensidade, tendo em vista a evolução técnica e científica. O ser humano é, portanto, um agente transformador da natureza concebida erroneamente como algo inferior, que deve ser dominada e controlada. Isso expressa, de certo modo, como a sociedade aprende o conceito de natureza, haja vista que toda a sociedade e cultura criam, inventam e instituem uma determinada ideia do que seja a natureza. Nesse sentido, o conceito de natureza não é natural, sendo instituído pelos homens e constituindo-se como um dos pilares por meio do qual os homens erguem as suas relações sociais, sua produção material e espiritual, enfim, a sua cultura (Gonçalves, 2006).

Com isso, faz-se necessário repensar a construção do cidadão, como um ser consciente do seu papel em uma sociedade repleta de contradições, permeada por injustiças, egocêntrica, insensível à preservação da natureza, onde impera o capital financeiro impiedoso e perverso.

Com investimento escasso em educação, o professor deve ter habilidade, criatividade, dedicação, esforço e foco ao lidar com a carência de recursos e com a desmotivação de muitos alunos. Tem-se a proposta desafiante de superação de adversidades e limitações. Os alunos e alunas, jovens cidadãos e cidadãs, devem estar cientes que também são parte integrante do meio ambiente, como um verdadeiro organismo vivo, buscando repensar atitudes agressivas e devastadoras à natureza (Trigueiro, 2003). Conforme constata Trigueiro (2003, p. 12),

a maior parte da população não se considera como parte integrante do meio ambiente, mas o definindo como algo externo e que não inclui o ser humano. A construção de uma consciência ambiental necessita da percepção de que o meio ambiente inicia dentro de cada indivíduo, alcançando tudo que o cerca e suas relações com o universo.

Com o objetivo de promover uma dinâmica que fortaleça o conhecimento e as capacidades dos participantes, por meio de práticas que valorizam a reflexão, o debate, a organização e a ação, a Jornada Cidadania nas Escolas foi criada para ser uma tecnologia social. Desenvolvida pelo Laboratório Herbert de Souza – Tecnologia e Cidadania (LABetinho), do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ), a Jornada é uma importante oportunidade para que instituições de ensino, de todos os estados do Brasil, auxiliem suas comunidades escolares a entenderem seus papéis numa sociedade marcada pela desigualdade social, espacial, política e racial.

A Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira (Figura 1), pertencente à rede pública municipal de educação de Aurora/CE, esteve presente na Jornada Cidadania nas Escolas, realizada no ano de 2018, com o plano de arborização da unidade escolar, localizada na zona rural do município às margens da rodovia estadual CE-288. A escola foi inaugurada em 2016, com o objetivo de substituir outra unidade escolar localizada na comunidade vizinha de Malhada Funda, devido à necessidade de ampliar o acesso dos estudantes vindos das comunidades vizinhas ao sítio Angigo, bem como de proporcionar melhores condições à prática educativa e formativa.

Figura 1: Ambiente externo (à esquerda) e interno (à direita) da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira

Contudo, embora inaugurada recentemente, ainda faltava um trabalho paisagístico que favorecesse a arborização da unidade escolar. Com base nessa necessidade, surgiu a ideia do núcleo gestor escolar, criando um plano para participar da Jornada Cidadania nas Escolas, justamente para procurar resolver a ausência de árvores no entorno da Instituição. Durante a jornada, a equipe local foi formada por alunos do turno vespertino com a supervisão do autor principal deste texto, buscando concretizar ações coletivas de melhoria socioambiental dentro da unidade escolar. Além dos levantamentos de dados historiográficos e visitas à comunidade de Malhada Funda, a equipe local buscou conhecer melhor a área em que a escola está instalada a partir de uma perspectiva sociocultural, histórica e geográfica.

Partindo da participação da unidade escolar na Jornada Cidadania nas Escolas e das implicações do planejamento desenvolvido para toda a comunidade escolar, este texto tem como objetivo geral indicar como a participação da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira, impactou na promoção de práticas coletivas, legados ecológicos e paisagísticos para o ambiente escolar. Contudo, para se chegar até o objetivo geral, alguns objetivos específicos foram necessários:

  1. Identificar as principais ações ambientais desenvolvidas durante a Jornada Cidadania nas Escolas;
  2. Analisar os impactos das ações ecológicas na vida da comunidade escolar;
  3. Indicar, de modo crítico, sugestões para a manutenção das ações desenvolvidas durante a Jornada Cidadania nas Escolas.

Educação Ambiental em Geografia e arborização escolar

A Educação Ambiental deve ser um conhecimento a ser desenvolvido de modo interdisciplinar em todo o processo socioeducativo, tendo a escola como um lugar fundamental na construção da cidadania consciente, ativa e responsável. Nesse sentido, é válido ressaltar a criação, em 1999, da Lei de Educação Ambiental, nº 9.795, cujo intuito é introduzir essa temática como prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal. Nas palavras de Pedrini e De-Paula (2002, p. 12),

a Educação Ambiental, muitas vezes, ainda transita sem objetivos e métodos de ação claramente definidos ou encontra-se reduzida a um conteúdo naturalista, quando deveria ser defendida como um processo de contínua aprendizagem para o exercício da cidadania.

Contudo, é importante frisar que a Educação Ambiental não é obrigação única da escola. Ao contrário, conforme indica a Lei Federal nº 9.795/99, toda a população brasileira tem direito à Educação Ambiental, como parte do processo de ensino. Para isso, cabe:

I - Ao Poder Público, nos termos dos Arts. 205 e 225 da Constituição Federal, definir políticas públicas que incorporem a dimensão ambiental, promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e o engajamento da sociedade na conservação, recuperação e melhoria do meio ambiente;

II - Às instituições educativas, promover a educação ambiental de maneira integrada aos programas educacionais que desenvolvem;

III - aos órgãos integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente - Sisnama, promover ações de educação ambiental integradas aos programas de conservação, recuperação e melhoria do meio ambiente;

IV - Aos meios de comunicação de massa, colaborar de maneira ativa e permanente na disseminação de informações e práticas educativas sobre meio ambiente e incorporar a dimensão ambiental em sua programação;

V - Às empresas, entidades de classe, instituições públicas e privadas, promover programas destinados à capacitação dos trabalhadores, visando à melhoria e ao controle efetivo sobre o ambiente de trabalho, bem como sobre as repercussões do processo produtivo no meio ambiente;

VI - À sociedade como um todo, manter atenção permanente à formação de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação individual e coletiva voltada para a prevenção, a identificação e a solução de problemas ambientais (Brasil, 1999, s/p, grifo nosso).

Essa citação desmistifica a ideia de que somente a escola e o professor são responsáveis pela educação do indivíduo. A legislação, base para compreendermos a estrutura da Educação Ambiental, mostra que há vários atores responsáveis por essa temática, tendo cada um as suas obrigações. Da mesma forma que cabe à escola educar o indivíduo para que ele compreenda os benefícios do tema discutido neste texto, cabe à sociedade, com destaque para a comunidade escolar, a atenção, o auxílio e a presença constante no processo de ensino-aprendizagem. Isso significa, portanto, que não cabe à escola assumir o papel de nenhum desses agentes, pois o trabalho precisa ser em conjunto a fim de que todos entendam que a Educação Ambiental é um bem maior.

É notória a constante degradação da natureza, o que resulta em condições cada vez mais adversas à vida. Aquecimento global, efeito estufa, extinção de fauna e flora e o desequilíbrio ecológico são algumas das problemáticas resultantes dessa relação destrutiva do ser humano com a natureza. Desse modo, inserir a educação ambiental no cotidiano escolar sob uma perspectiva teórica e prática é fundamental. Nesse contexto, pode-se pensar em outro modelo de convivência com o meio ambiente natural. O homem estaria, a partir desse novo meio de conviver com a natureza, mantendo uma relação sustentável em um espaço social mais humanizado, solidário, justo e respeitoso à expressão da vida. Assim, a Educação Ambiental pode influir decisivamente na resolução dos complexos problemas ambientais ao formar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres (Reigota, 2001).

Discutir e buscar evidenciar informações sobre a questão ambiental contribui no processo educativo dos discentes. É igualmente importante também partirmos para a prática a fim de efetuarmos as melhorias com a criação e a preservação de áreas verdes. A Geografia, como disciplina escolar, deve proporcionar a interdisciplinaridade com a Educação Ambiental, disseminando informações, suscitando valores e reflexões acerca da preservação da natureza, em uma condição de urgência, tendo em vista nossa relação predadora com o meio ambiente natural. Com base nas palavras de Dias (2004, p. 9):

Quando os alunos não assimilam a concepção de cuidar da natureza desde o ensino infantil, torna-se mais complexa e árdua a missão de refletir sobre a questão ambiental. Enquanto processo contínuo e permanente, a educação ambiental deve atingir todas as fases do ensino formal e não formal; deve examinar as questões ambientais do ponto de vista local, regional, nacional e internacional, analisando suas causas, consequências e complexidade. Deve, também, desenvolver o senso crítico e as habilidades humanas necessárias para resolver tais problemas e utilizar métodos e estratégias adequadas para aquisição de conhecimentos e comunicação, valorizando as experiências pessoais e enfatizando atividades práticas delas decorrentes.

A maioria dos educandos não consegue compreender a necessidade de cuidar da natureza, porque se veem separados, distanciados do meio ambiente natural, como se existissem em um espaço gigantesco ainda intocado pelo homem. Vale aqui expressar uma frase usual no descarte do que não tem mais utilidade: “joga no mato”, frase que reproduz o menosprezo do ser humano por sua morada, o Planeta Terra. Essa visão, inclusive, é contraditória quando comparada à visão dos indígenas ainda existentes no Brasil. Suas culturas preservam uma relação sábia e orgânica com a natureza, sendo símbolos de resistência nesse modelo de sociedade capitalista-industrial.

É preciso, portanto, que as aulas de Geografia busquem, frequentemente, instigar as turmas a refletirem sobre a condição secular de devastação do meio ambiente. É necessária a construção de debates instigantes em que o docente apresente alguns questionamentos que provoquem os alunos a refletirem sobre nossa dependência da natureza. Indagações assim podem levar os alunos à reflexão em direção a uma conduta mais consciente e responsável na perspectiva do desenvolvimento sustentável, do equilíbrio ecológico, do respeito à natureza, bem como da busca por mais qualidade de vida.

Com isso, a Jornada Cidadania nas Escolas traz uma relação de proximidade entre a educação formal e a educação não formal. O primeiro conceito é aquele em que o processo de ensino é realizado dentro dos muros da escola, realizado a partir, principalmente, da relação do professor que media e apresenta o conhecimento, com o aluno que recebe, processa e absorve a informação repassada. No caso do ensino não formal, este é definido por Brasil (1999, s/p) como “ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente”, ou seja, uma relação que foge aos limites da sala de aula e que adiciona outros atores ao processo ensino-aprendizagem.

Além disso, essa tecnologia social tem por base os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), firmados pelas Nações Unidas com a premissa de um fortalecimento na relação entre os discentes e as unidades escolares. Nesse sentido, além de todos os outros objetivos socioeconômicos indicados pela ODS, a educação de qualidade constitui o objetivo de número 4, que pretende desenvolver uma educação de cunho inclusivo, com equidade e qualidade, além de desenvolver processos educacionais para todos os cidadãos. Esse último fator, inclusive, corrobora com a discussão anterior acerca da importância da Jornada Cidadania nas Escolas, o seu papel no desenvolvimento da educação formal e da educação não formal.

Nesse sentido, o propósito de arborizar a partir da criação de áreas verdes na EEIF Tarcísio Gonçalves de Oliveira, no cumprimento dos desafios da Jornada Cidadania nas Escolas, concretizou os conhecimentos em educação ambiental anteriormente vistos em sala de aula. A competição possibilitou aos professores e a comunidade escolar vivenciar o plantio das mudas frutíferas, com o notório engajamento da equipe Superação e demais educandos, dispostos a ajudar na melhoria do ambiente escolar, fazendo da escola um lugar afetivo para eles.

Materiais e métodos

Constatam-se problemáticas, reflexões e desafios quando se busca articular e aplicar a Educação Ambiental (EA), principalmente quando este conhecimento não é desenvolvido na formação educativa dos alunos, desde as séries iniciais. Para que estejamos na direção de um espaço verdadeiramente humano e ambientalmente sustentável são necessários esforços conjuntos, começando no ambiente familiar, também nas comunidades e, por fim, na escola, de modo que a Educação Ambiental seja internalizada, disseminada e concretizada. Assim sendo, a participação da escola na Jornada Cidadania nas Escolas 2018, agregou valores ecopedagógicos e humanos. A ação coletiva da arborização interna e externa foi iniciada, contudo permanece sendo realizada, pois é fundamental haver o acompanhamento do crescimento das mudas das árvores, bem como da inserção definitiva da educação ambiental nas aulas, não só nas aulas de Geografia como nas demais disciplinas. A arborização é uma atividade onerosa e, portanto, requer um planejamento adequado. É preciso que haja planejamento dos órgãos públicos que a realizam, plantando o vegetal na época certa e escolhendo a espécie mais adequada para cada local, em um permanente programa de Educação Ambiental (Gonçalves, 2004).

Nesse contexto, o método definido para esta pesquisa é o hipotético-dedutivo, pois foram identificadas adversidades e limitações no cotidiano escolar. Contudo, todas foram superadas. Assim, a proposta de participar da Jornada de Cidadania nas Escolas suscitou nos alunos a prática da Educação Ambiental, de modo que tais vivências pudessem ser amplamente interpretadas e debatidas no universo da Geografia Escolar, bem como em diferentes fontes de conhecimento ecopedagógico e científico. Tem-se uma pesquisa de finalidade básica estratégica sobre a percepção e a análise de possíveis problemas na formação sobre a conscientização ambiental e a construção de uma cidadania atuante, responsável e solidária. 

A pesquisa se baseia em temáticas teóricas na descrição de um fato. O fato em questão é a ausência de arborização e de áreas verdes no ambiente escolar, como também a carência na conscientização da preservação da natureza. Busca-se também explorar a temática ambiental, com a prática da arborização na Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira, dentro da Jornada Cidadania nas Escolas. A abordagem é qualitativa, analisando criticamente a realidade de uma escola pública no sertão nordestino, a fim de que supere carências e adversidades, no intuito de suscitar nos alunos a consciência ecológica, em uma relação de preservação e de respeito ao meio ambiente natural.

Na comunidade de Malhada Funda foi coletado relatos de dois moradores por meio de questionário previamente elaborado na perspectiva de conhecer aspectos culturais e historiográficos do pequeno povoado, onde está situado o grupo escolar que fora substituído pela Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira. Desse modo, emprega-se o procedimento do levantamento de informações em campo. Para o enriquecimento conceitual e teórico da pesquisa, o procedimento aplicado é bibliográfico, tendo como base livros e trabalhos acadêmicos utilizados no curso de Especialização em Geografia e Meio Ambiente, bem como referenciais para leitura e para reflexão do professor orientador.

A Jornada Cidadania nas Escolas e a arborização da E. E. I. F. Tarcísio Gonçalves de Oliveira

O plano de arborizar a Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira foi o cumprimento da proposta chave pensada para a Jornada Cidadania nas Escolas 2018. Essa proposta era subdividida em cinco desafios cumpridos ao longo das atividades, sendo que o primeiro foi a realização de um encontro com a equipe de trabalho. A escola contava com quatro turmas do Ensino Fundamental II (6° ao 9° ano, sendo uma turma de cada série), no turno da tarde, período em que foi desenvolvida a Jornada Cidadania nas Escolas. A equipe foi chamada deSuperação, sendo composta pelo facilitador (o autor deste texto) e dezesseis alunos, quatro de cada turma. Neste primeiro encontro (Figura 2) foi esclarecido como ocorreria a Jornada, a finalidade ambiental e comunitária das atividades desenvolvidas, os diálogos que deveriam ser levantados e a importância cidadã no cumprimento dos desafios.

Figura 2: Reunião de mobilização com a equipe Superação no ambiente escolar

O desafio seguinte foi pensar e discutir com a equipe sobre o que poderia ser melhorado na unidade escolar. Com base nas análises realizadas, a prioridade foi justamente a arborização da unidade escolar. Também foi decidido, com base na prioridade principal, a necessidade de uma palestra sobre a conscientização ambiental para todos os membros da escola e da comunidade local, além da ornamentação da parte externa da escola (dos muros da escola), buscando expressar mais vivacidade sobre a importância da temática à instituição de ensino, o que seria complementado com a arborização indicada como prioridade para a melhoria da escola. Desde o início das discussões de como proceder e quais as finalidades da Jornada Cidadania nas Escolas, no ano de 2018, o foco sempre foi pensar em ações que melhorassem o ambiente físico da unidade escolar. A ausência de arborização foi o centro dos debates e das futuras ações.

Assim, o terceiro desafio foi a realização de uma ação coletiva tendo como finalidade arborizar a sede da escola (Figura 3). Essa foi uma atividade realizada pelos alunos da equipe Superação, mas também pelos professores, pelos funcionários e pela comunidade escolar. Vários discentes e professores trouxeram mudas e equipamentos para cavar o solo e plantar as árvores. Os desafios seguintes (o 4º e o 5º) não estavam relacionados à arborização escolar, mas entendemos como importantes de serem citados. O quarto desafio consistiu em uma visita de campo até a Vila de Malhada Funda, comunidade onde estava a antiga escola que fora substituída pela E. E. I. F. Tarcísio Gonçalves de Oliveira. Foram realizadas três entrevistas objetivando conhecer os saberes populares e históricos da referida comunidade. O quinto desafio foi realizar uma avaliação da participação da unidade escolar na Jornada Cidadania nas Escolas.

Figura 3: Mosaico de registro do desafio 3 (nas duas primeiras linhas de imagens) e 4 (terceira linha de imagens), que consistiu em plantar algumas árvores para a arborização da unidade escolar

Dentre os pontos positivos de destaque estão o ótimo desempenho de alguns membros da equipe na realização das entrevistas na comunidade da Malhada Funda, entrevistas fundamentais para identificarmos os saberes populares locais. A ação coletiva para arborizar a escola foi satisfatória para a equipe e para a comunidade escolar. Os pontos negativos foram as dificuldades de acesso aos cursos ofertados pela Jornada Cidadania nas Escolas, visto que a unidade escolar não possuía sala de informática (existiam somente dois notebooks).

Além disso, o sinal de internet era lento e quase sempre oscilante na escola, situação que dificultou o acesso de quase todos os membros da equipe Superação aos cursos online. Os cursos formativos traziam temáticas importantes para a formação social dos discentes, como a responsabilidade social, a importância do sentimento de união e colaboração emanado das comunidades, a fim de entender as razões pelas quais é preciso preservar a natureza e zelar pelo patrimônio público. Os participantes tiveram como conquista a vivência de participar, em equipe, da Jornada Cidadania nas Escolas, uma experiência nova e rica em conhecimentos para todos, quando foi possível representar a instituição de ensino.

A Jornada Cidadania nas Escolas propôs, portanto, suscitar valores humanos e cívicos a serem praticados no cotidiano escolar dos alunos, bem como em seus lares e comunidades. Valores que podem ser internalizados para a vida, tais como, a responsabilidade, a solidariedade, o respeito para com os colegas, professores e com toda a comunidade escolar. A arborização da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira resultou em significativas melhorias para a comunidade. Uma aula embaixo de uma árvore, por exemplo, pode proporcionar um aspecto novo e atrativo para os alunos, rompendo com a rotina exaustiva da sala de aula. O professor e os alunos, em contato com a natureza, produzem um ensino-aprendizagem diversificado, com novas possibilidades para as aulas das disciplinas do currículo escolar. Sentir as melhorias no ambiente escolar com a arborização e criação de espaços verdes, contribuiu para a qualidade de vida da comunidade escolar e local.

A ação coletiva no plantio das árvores foi fundamental para que educandos e a comunidade escolar colocassem em prática o que propõe a Educação Ambiental, revitalizando ambientes verdes, em uma perspectiva de preservar a fauna e a flora, cuidar da natureza e suas múltiplas possibilidades de vida, como também fortalecer valores cívicos, humanos e de responsabilidade ambiental. Contudo, como observado na Figura 4, ainda é necessário um maior cuidado com a herança deixada pela atividade desenvolvida, hoje.

Figura 4: Frente da E. E. I. F. Tarcísio Gonçalves de Oliveira (à esquerda) e ambiente interno da unidade escolar (à direita) em 2021

As mudas de árvores plantadas durante a Jornada Cidadania nas Escolas estão crescendo; porém, sem o monitoramento adequado, pode haver comprometimento do seu pleno desenvolvimento. É necessária a irrigação diária das mudas, bem como o acompanhamento por profissionais específicos (engenheiro ambiental, biólogo, jardineiro), de modo que a arborização seja, de fato, uma conquista para a escola, para a comunidade escolar e para as comunidades vizinhas onde residem os alunos. A falta de acompanhamento é resultado da pandemia causada pela covid-19. Desde março de 2020, as escolas da rede pública, em Aurora, suspenderam as aulas presenciais adotando o método virtual e a disponibilidade de material impresso para os alunos estudarem o restante do ano letivo.

É importante que os cidadãos tenham consciência do compromisso de zelar pelo patrimônio público, seja ele qual for. Uma escola com áreas verdes, bem cuidadas, reflete os valores cívicos da comunidade na qual está inserida. Essa responsabilidade social e ambiental, infelizmente, é pouco praticada no município de Aurora/CE. Nesse sentido, essa missão é desafiante para a gestão escolar, para os educadores e para os pais dos alunos na construção da consciência ambiental das crianças, dos adolescentes e dos jovens cidadãos. Embora a proposta de arborização da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira tenha sido iniciada no cumprimento de um dos desafios da Jornada Cidadania nas Escolas 2018, é imprescindível o apoio dos gestores públicos no acompanhamento dessas áreas verdes, implementando a mesma iniciativa de modo que a preservação ao meio ambiente natural supere os desafios diários.

Vivenciamos tempos de intensa degradação e desprezo pela natureza, pela fauna e pela flora, o que tende a impactar negativamente na qualidade de vida das gerações atual e futura. Assim, é imprescindível a busca por alternativas pedagógicas que estejam em sintonia com a sustentabilidade ambiental. Portanto, a proposta da arborização e da criação de áreas verdes, deve ser continuada pelas próximas gerações de alunos, educadores e gestores que compuseram a Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira, ao longo de sua história. Os resultados atuais, conforme observados nas imagens indicadas, precisam de um maior cuidado de profissionais capacitados, seja da comunidade ou da sede de Aurora, para dar prosseguimento aos esforços emanados por todos os presentes durante a Jornada Cidadania nas Escolas.

Outro ponto que pode ter influenciado negativamente na pontuação da Equipe Superação foi a não alteração no nome da instituição. Por questões burocráticas ainda era utilizado o nome IEIF Ferreira Benício, herança do antigo prédio escolar que fora substituído. De modo que, por uma perspectiva estética, essa confusão de nomenclatura institucional pode ter prejudicado a pontuação da equipe na competição. Mesmo com o empenho de todos da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira, não foi possível ficar entre as três escolas finalistas na competição. Contudo, a participação da unidade escolar foi produtiva, sobretudo no que diz respeito ao plantio das mudas que poderão, em breve, proporcionar uma nova imagem à instituição conectada com a natureza, trazendo sombras que amenizam as altas temperaturas comuns na maior parte do ano em nosso sertão nordestino.

Considerações finais

Mesmo com tantas orientações e discussões sobre a Educação Ambiental, é necessário que novas alternativas sejam pensadas para responder à demanda de construção de uma sociedade equilibrada. Este texto responde, justamente, ao critério novidade (além de qualidade, claro!) na abordagem do tema arborização. A participação da unidade escolar na Jornada Cidadania nas Escolas, realizada no ano de 2018, foi importante para deixar um legado ecológico à comunidade escolar, além de ter permitido, como visto anteriormente, o desenvolvimento de práticas coletivas pedagógicas.

A arborização da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tarcísio Gonçalves de Oliveira continua em andamento sem a participação direta dos discentes e do professor que supervisiona a atividade, autor deste texto. Indica-se à administração escolar que realize a manutenção periódica das mudas de árvores plantadas. Do ponto de vista do relacionamento social, a união entre os alunos de diferentes turmas e idades é outro fator positivo, pois o evento aproximou discentes que antes mantinham apenas um relacionamento ocasional.

Algumas atividades planejadas não foram de fato concretizadas. O desinteresse da maioria dos alunos em realizar os cursos online reduziu nosso potencial competitivo (embora seja importante frisar que as dificuldades de conexão também foram preponderantes para o abatimento dos discentes). Assim, a maioria dos integrantes da equipe não esteve apta a receber seu certificado de participação, sendo este um dos desafios para uma parcela das unidades de ensino participantes. Essa situação de desinteresse por parte de alunos e alunas é comum nessa geração pós-moderna, imediatista, que não tem apreço pela leitura, distanciada de fontes de conhecimentos construtivistas. Este contexto é, portanto, desafiante para os educadores em seu árduo processo de ensino-aprendizagem.

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Publicado em 12 de julho de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

GONÇALVES, Jamil Torquato Leite; SILVA, Heibe Santana da. Arborização da E. E. I. F. Tarcísio Gonçalves de Oliveira, em Aurora/CE, a partir da participação na Jornada Cidadania nas Escolas em 2018. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 25, 5 de julho de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/24/arborizacao-da-e-e-i-f-tarcisio-goncalves-de-oliveira-em-aurorace-a-partir-da-participacao-na-jornada-cidadania-nas-escolas-em-2018

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