Eu de cá, eles de lá

Maria Dionésia Santos da Silva

Professora do CETI Severo Maria Eulálio, em Santa Cruz do Piauí/PI

A experiência das Olimpíadas de Língua Portuguesa em minha vida profissional não foi a primeira e, acredito, não será a última. Porém, num momento assim, no meio de uma pandemia e fora da sala de aula, nem eu havia passado e muito menos cogitava passar. Contudo, sabendo que a vida é uma caixa de surpresas, aberta a cada instante vivido, não só eu como todos fomos pegos desprevenidos e, de repente, estávamos no meio de um isolamento social, no ápice de uma pandemia viral que envolvia o mundo todo. Mesmo assim, veio até nós esse grande desafio de, mais uma vez, trabalhar esse projeto com nossos alunos, nós de cá e eles de lá. Então, surgiu a necessidade de nos reinventarmos com um planejamento que fosse inovador e ousado, com o objetivo de estimular e a leitura e a escrita dos alunos, levando-os a vivenciar, de maneira diferente, o papel de observador, pesquisador, leitor e escritor de artigos de opinião com base em situações-problema do seu cotidiano, mesmo de forma remota.

Como professora, sempre gostei de trabalhar a autoestima dos meus alunos, pois acredito que a valorização daquilo que fazemos é muito importante para dar um passo à frente com mais estímulo. Mas como colocar em prática esse desejo se o momento não nos permitia estar em consonância em uma sala de aula? Que estratégias seriam certeiras para que nossa participação se tornasse concreta? E assim foram surgindo muitas dúvidas entre nós, professores, pois a participação nesse período de tantas incertezas nos trouxe espanto, negação, incoerência e medo do desconhecido, até porque cada um estava de um lado: eu de cá, eles de lá, em nossas próprias casas.

Nesse contexto, o planejamento e a reinvenção entram como ferramentas de fundamental importância para fazer a diferença. O que fazer? Como fazer? Ler mais, pesquisar mais, interagir com os alunos pelos meios de comunicação possíveis (telefones, mensagens nos grupos de WhatsApp, visita no portão da casa do aluno, material impresso enviado ao aluno, videoaulas e chamadas de vídeo, entre outros).

Na primeira etapa do processo ocorreu a sensibilização assistindo a vídeos informativos com orientações sobre as Olimpíadas, bem como a leitura dos cadernos docentes com sequências didáticas dos gêneros trabalhados; li, também, a revista Na Ponta do Lápis, que mostra entrevistas, artigos, relatos, textos de finalistas de edições anteriores etc. Tudo isso para darmos o primeiro passo de preparação do material que seria enviado ao aluno como forma de incentivos e motivação.

Na etapa seguinte era preciso envolver os alunos, ampliar conhecimentos sobre o artigo de opinião, gênero que seria trabalhado nas turmas de 3º ano do Ensino Médio. Daí gravei vídeos explicativos, mostrando tudo sobre as Olimpíadas, explicando o conceito de artigo de opinião, suas características e o passo a passo para a construção textual. Foram feitos ainda vídeos em que tive a oportunidade de ler exemplos de vários artigos e, mesmo eu ficando do lado de cá, pude interagir com eles na interpretação dos trabalhos de maneira dinâmica.

No desenvolvimento do projeto, remotamente, houve motivação para a pesquisa e observação do lugar onde se vive para enriquecer a produção, anotando os problemas e os pontos positivos. Quando menos eu esperava, recebi uma ligação, uma mensagem em privado para tirar dúvidas; pouco a pouco fui recebendo a escrita de alguns textos.

Confesso que não foi possível cumprir completamente os objetivos desejados, mas chegou-se a um produto final que culminou em belos textos, contribuindo positivamente no aprendizado da maioria dos alunos e, de certa forma, das suas famílias, que, mesmo distantes da escola, encontraram forças para escrever as belezas e dificuldades do lugar onde vivem.

Finalizo este relato dizendo que, mesmo perante tantas dificuldades, foi um trabalho de grande relevância para minha profissão, que tanto amo: ser professora. Diante disso, espero que estas simples e verdadeiras palavras sejam lidas e que sirvam de motivação para desencadear outros projetos voltados para a leitura e produção de textos não só no período das Olimpíadas, mas também em outros momentos da vida escolar.

Publicado em 02 de agosto de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Maria Dionésia Santos da. Eu de cá, eles de lá. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 28, 2 de agosto de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/28/eu-de-ca-eles-de-la

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