Sala de aula invertida no ensino remoto emergencial em Educação de Jovens e Adultos

Tarcilo David Lôbo Galvão

Professor da rede estadual da Bahia, engenheiro agrônomo, licenciado em Química, mestre em Engenharia Ambiental e doutor em Energia e Ambiente

Este relato de experiência foi desenvolvido para avaliar a aprendizagem e as ferramentas remotas, com a utilização da metodologia ativa, a partir da observação de estudantes do eixo VII do curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA), na disciplina de Química, ministrada no Colégio Estadual Polivalente de Amaralina, Salvador/BA. O período da atividade em questão ocorreu de março a agosto de 2021, em equivalência ao ano letivo de 2020; foi executado em três unidades em regime de ensino remoto emergencial, em função da pandemia da covid-19 (SARS-Cov-2).

Nesse período atípico, após um ano de escolas fechadas, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC/BA) ajustou a forma e o tempo letivo dos cursos, aplicando, assim, o ensino remoto por meio da utilização integrada das ferramentas Google Meet e Google Classroom.

Em 2020, ocorreu o maior índice de evasão já registrado na disciplina de Química do eixo VII. O índice estimado ficou em torno dos 75%. Entre as possíveis causas de desistência dos estudantes estão a falta de infraestrutura das instituições educacionais e a precariedade ou ausência dos recursos tecnológicos (smartphones e computadores) por parte dos estudantes, impossibilitando a participação daqueles que normalmente frequentavam as aulas presenciais. Situação adversa, também, para os professores. Muitos não tinham habilidades com as ferramentas disponíveis e tiveram que passar por autotreinamento, em serviço. Importante destacar que o curso referente à proposta remota foi desenvolvido com instrumentos particulares dos docentes.

Nesse contexto foi aplicado, no curso de Química, eixo VI, o método ativo conhecido como sala de aula invertida. Por meio do ensino remoto emergencial (ERE) foram verificados tanto o desempenho da metodologia como os seus impactos no ensino, em virtude da pandemia.

Em uma adaptação da sala de aula invertida foram utilizados aplicativos do Google Workspace: o serviço de comunicação por vídeo, Google Meet, e o Google Classroom, sistema de gerenciamento de conteúdo e trabalhos para escolas. Contudo, como ainda não existe uma forma única de realizar a inversão da sala de aula, como destacam Jonathan Bergmann e Aaron Sams em Sala de aula invertida: uma Metodologia Ativa de Aprendizagem (2020), não há metodologia específica a ser replicada ou checklist que garantam os seus resultados (Bergmann; Sams, 2020, p. 10).

Inverter a sala de aula, portanto, relaciona-se com a mentalidade de deslocar a atenção do professor para o aprendiz e para o seu aprendizado. Notam-se que salas invertidas vizinhas podem apresentar diferenças no meio das semelhanças. Geralmente, o método ativo sustentado pela sala de aula invertida é um dos componentes do ensino híbrido (presencial e online). Na literatura especializada, porém, não foi encontrada nenhuma experiência ou relato da aplicação do método para o ensino remoto. O fato motivou a exploração proposta neste trabalho.

Objetivo geral

Verificar a viabilidade da aprendizagem, por ensino remoto emergencial, com o auxílio do mais usual método ativo, sala de aula invertida, por meio da observação dos estudantes do eixo VII da EJA na disciplina de Química, ministrada no Colégio Estadual Polivalente de Amaralina.

Objetivos específicos

- Avaliar a aplicação do método moderno, ainda não usual, sala de aula invertida, utilizando o regime remoto, por meio das ferramentas Google Classroom e Google Meet;

- Analisar o desempenho do método ativo sala de aula invertida e os seus impactos no sentido de amenizar a deficiência do ensino em virtude da pandemia da covid-19;

- Observar se o método em questão é viável e possível de ser implantado como agente transformador do ensino tradicional;

- Fomentar pesquisas futuras, sobre a temática, com maior amostragem.

Competência desenvolvida

A partir do método sala de aula invertida, no contexto atípico da pandemia, se observou uma modificação nas relações em sala de aula, com a promoção da melhoria da aprendizagem e uma maior atenção dos estudantes. Verificou-se também que o uso das ferramentas do Google Workspace, Google Meet e o Google Classroom, fortaleceram o desenvolvimento da metodologia ativa, demonstrando a viabilidade da sua implementação no ensino remoto emergencial.

Método de ensino sala de aula invertida

Segundo Bergmann e Sams (2020, p. 4-5), a sala de aula invertida nasceu de uma experiência durante o ano letivo de 2007/2008, quando assumiram a pré-gravação de vídeos das aulas de Química, incluindo as preparatórias para o exame de Advanced Placement (AP). Em noites alternadas, os estudantes assistiam aos vídeos e faziam anotações sobre seus aprendizados. Descobriram, no processo, que dispunham de mais tempo tanto para as atividades de laboratório quanto para o trabalho de resolução de problemas em Ciências. Afirmaram que o modelo se mostrou mais eficiente do que as preleções presenciais e os deveres de casa convencionais.

Entre as mais simples das metodologias ativas, a sala de aula invertida facilita a compreensão que existem outros modelos de ensino e abordagem que podem ser aplicados, sendo o ponto de partida para o Ensino Híbrido. É possível ser adaptado às condições que se apresentam, entretanto não devem perder o seu fundamento. Possivelmente, alguns professores já aplicam sala de aula invertida e não percebem. Em Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a Educação (2015), Michael Horn e Heather Staker destacam a inversão promovida pelo método, uma vez que promove uma atuação mais independente do aluno e acompanhamento mais contínuo do professor: 

É o único método ativo e que recebeu maior atenção da mídia até agora é a sala de aula invertida, assim denominada porque inverte completamente a função normal da sala de aula. Em uma sala de aula invertida, os estudantes têm lições ou palestras online de forma independente, seja em casa, seja durante um período de realização de tarefas. O tempo na sala de aula, anteriormente reservado para instruções do professor, é, em vez disso, gasto no que costumamos chamar de “lição de casa”, com professores fornecendo assistência quando necessário (Horn; Staker, 2015, p. 42-43).

Na obra Metodologias ativas para uma educação inovadora (2018), Lilian Bacich e José Moran descrevem a metodologia, sala de aula invertida, destacando seu potencial em ambientes virtuais de aprendizagem. Para os autores, o método possibilita aos estudantes e aos professores a personalização das estratégias de aprendizagem, por meios tecnológicos, com atividades específicas aos alunos:

Na abordagem da sala de aula invertida, o conteúdo e as instruções recebidas são estudados on-line, antes do aluno frequentar a aula, usando as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), mais especificamente, os ambientes virtuais de aprendizagem. A sala de aula torna-se o lugar de trabalhar os conteúdos estudados, realizando atividades práticas como resolução de problemas e projetos, discussão em grupos e laboratórios. No entanto, o fato que as atividades que os estudantes realizam on-line poderem ser registradas no ambiente virtual de aprendizagem cria a oportunidade para o professor fazer um diagnóstico preciso do que o aprendiz foi capaz de realizar, as dificuldades encontradas, seus interesses e as estratégias de aprendizagem utilizadas. Com base nessas informações, o professor pode sugerir atividades e criar situações de aprendizagem totalmente personalizadas (Bacich; Moran, 2018, p. 27).

Em um modelo híbrido, sustentado e de rotação, ocorre revezamento de local pelos estudantes, conforme as instruções dos professores ou de acordo com o horário determinado para a tarefa. Da mesma maneira acontece com outros métodos, tais como, o Rotação por Estações e o Laboratório Rotacional. O modelo Rotação Individual é híbrido e disruptivo.

No estudo Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação (2015), os pesquisadores destacam que a inversão ocorre quando a explicação do conteúdo, antes feita em casa, passa a ser em aula, assim como a aplicação da atividade sobre o conteúdo, antes realizada em casa, passa a ser realizada, também, em sala.

Nesse modelo a teoria é estudada em casa no formato on-line, e o espaço da sala de aula é utilizado para discursões, resolução de atividades. O que era feito em classe (explicação do conteúdo) agora é feito em casa, o que era feito em casa (aplicação de atividades sobre conteúdo) agora é feito em sala de aula (Bacich; Tanzi Neto; Trevisani, 2015, p. 56).

Assim, por meio do ensino remoto, ao invés da lição de casa tradicional, o tempo das aulas é aproveitado em atividades ativas, tais como a prática de resolução de problemas e a discussão de questões da disciplina.

Descrição detalhada da experiência

Este trabalho foi desenvolvido no Colégio Estadual Polivalente de Amaralina, com estudantes de quatro turmas de Química do eixo VII, da Educação de Jovens e Adultos. A proposta ocorreu no primeiro semestre do ano 2021, em equivalência ao ano letivo de 2020. Diante da realidade imposta pela pandemia, a metodologia sala de aula invertida, nas aulas de Química, precisou passou por adaptação para se adequar ao ensino remoto.

Para a efetivação do ensino, as ferramentas fornecidas foram os aplicativos do Google, a sabre, o Google Meet (comunicação de vídeo) e o Google Classroom (sala de aula). Os registros da frequência dos alunos, as anotações das notas das avaliações, assim como do material bibliográfico postado foram realizados no aplicativo Padlet. Para melhorar a comunicação entre as partes foi utilizado o aplicativo WhatsApp. O curso foi planejado com aulas síncronas e assíncronas. As aulas assíncronas foram realizadas no Google Classroom e as síncronas no Google Meet.

Toda metodologia adotada pelo professor para a adaptação do método sala de aula invertida (as postagens de vídeos e de outros materiais para leitura, incluindo as atividades que seriam aulas expositivas no sistema tradicional, foi feita nas aulas assíncronas no Google Classroom. No método tradicional, elas corresponderiam às lições de casa. Ao inverso, nas reuniões por meio de aulas síncronas do Google Meet, foram realizadas discussões sobre os vídeos ou materiais para os estudos complementares (apresentação em slides ou textos elaborados pelo professor), além das atividades. No sistema de ensino tradicional, esta aula seria realizada em formato expositivo.

Em resumo, a inversão ocorreu da seguinte maneira:

  1. Nas aulas assíncronas (que, no sistema tradicional, seriam as lições de casa) eram postados vídeos, materiais para estudo e atividades a serem feitas;
  2. Nas aulas síncronas (equivalentes às aulas expositivas), o conteúdo era centrado na discussão dos vídeos, no material bibliográfico e na elaboração das atividades;
  3. As postagens das aulas assíncronas aconteciam, geralmente, 5 dias antes das aulas síncronas.

Resultados e avaliação da aprendizagem

Do total de 40 estudantes, verificou-se que doze assistiram às aulas síncronas e às assíncronas. Ou seja, 30% do total dos alunos frequentaram o curso de Química. Sendo assim, 70% do total assistiram apenas às aulas assíncronas.

Os estudantes que participaram das aulas síncronas e assíncronas obtiveram o conceito Construído (C), pois estavam presentes na totalidade da aplicação do método. Aqueles que frequentaram apenas as aulas assíncronas e se limitaram à elaboração das atividades, postando suas tarefas no Classroom, tiveram os conceitos Em construção (EC) e A construir (AC). Destes, 25 estudantes foram EC e 3 estudantes, AC.

Entre os vídeos postados, um deles foi gravado pelo professor da disciplina e outro por uma estudante. As demais produções audiovisuais compartilhadas foram gravações educativas de sites especializados e/ou pertencentes ao professor (materiais de livre acesso e reprodução). No Classroom foram realizadas as postagens dos vídeos e do material bibliográfico para complementar os vídeos, assim como as atividades. Quinzenalmente, era realizado o planejamento das aulas curriculares.

O restrito número de estudantes que participaram do curso impossibilitou que o foco da proposta fosse sobre resultados quantitativos, por isso a avaliação foi centrada em aspectos qualitativos. Destaca-se um aspecto negativo da experiência, a saber, o fato de que alguns dos estudantes participantes das aulas, em alguns momentos, ficavam excessivamente preocupados em responderem as atividades, negligenciando a parte teórica e o material postado. Essa atitude implicou na reprodução de vídeos curtos ou de parte deles, em aulas síncronas, a fim de minimizar os prejuízos. Esse fato gerou prejuízo no tempo para discussões de questões e de temas relacionados ao currículo. Para suprir a deficiência de comunicação do Classroom foi usado o aplicativo WhatsApp, pois o Classroom possui apenas um mural acessível para todos. Muitas vezes, a comunicação ficou atrasada, com o tempo de acesso, às informações, demorado.

Considerações finais

Os vídeos são ótimos instrumentos facilitadores da aprendizagem. Os estudantes se mostraram interessados em assistir, avaliar o material apresentado e discutir sobre os temas abordados. Sendo bem dosado e de boa qualidade, o método é viável e eficiente, se comparado às ferramentas do ensino tradicional.

No contexto emergencial, a aplicação de vídeos na sala de aula invertida, minimizou a ausência de laboratórios presenciais de Química, pois foram apresentados vídeos que continham atividades laboratoriais, algumas inviáveis para serem realizadas in loco.

No método sala de aula invertida, observou-se que professor trabalha bem mais do que em aulas presenciais. Além das atribuições indispensáveis, a utilização do WhatsApp, por meio de grupo e individual, fortaleceu a ideia de que o professor está sempre online. Assim, alguns estudantes consideravam que o professor estava o tempo todo disponível, entrando em contato em momentos indesejáveis. Por outro lado, contatou-se que a inversão estabelece um ótimo processo de comunicação, visto que os estudantes estão acostumados com os recursos de digitais, cresceram e se desenvolveram acostumados à internet, ao YouTube, ao Facebook e ao Instagram. Portanto, não houve dificuldade de adaptação às dinâmicas no Google Classroom e no Google Meet.

O ensino remoto facilitou o estudo para os estudantes que trabalham durante o dia, característica comum à EJA, pois podiam assistir aos vídeos e estudar o material bibliográfico em qualquer horário disponível, complementando a aprendizagem das aulas síncronas.

A metodologia intensificou a interação entre o estudante e o professor, especialmente por ser uma circunstância de trabalho com menor quantidade de alunos. O sistema invertido possibilitou ainda uma aprendizagem personalizada. O professor identifica seus estudantes de forma individualizada e, consequentemente, se dedica a cada um considerando suas dificuldades em aprender. 

O método também facilitou a relação do estudante com seus pares. Os momentos online, de reuniões remotas pelo Google Meet, possibilitaram o sentimento de conjunto e proximidade.

O WhatsApp, por seu poder de comunicação, ofereceu a oportunidade da comunicação entre estudantes e professor e entre estudantes e seus pares. O grupo de WhatsApp, do eixo VI, foi o elo que fortaleceu essa ligação. Nas aulas síncronas, observamos a satisfação dos alunos participantes.

Diferentemente do ensino híbrido que funciona com um espaço remoto e um espaço presencial, a metodologia ativa e sustentada da sala de aula invertida pode ser aplicada, desde que se trabalhe com dois ambientes virtuais. É recomendável, portanto, a repetição do experimento, aqui, estudado, com uma amostra maior e mais significativa. Assim, será possível apresentar resultados não apenas centrados em dados qualitativos, mas qualitativos. Este relato é apenas um ponto de partida para desdobramentos, análises e discussões futuras sobre a experiência do ensino remoto na Educação de Jovens e Adultos. 

Referências

BACICH, Lilian; MORAN, José. Metodologias ativas para uma educação inovadora. Porto Alegre: Penso, 2018.

BACICH, Lilian; TANZI NETO, Adolfo; TREVISANI, Fernando de Melo. Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

BERGMANN, Jonathan; SAMS, Aaron. Sala de aula invertida: uma metodologia ativa de aprendizagem. Rio de Janeiro: LTC, 2020.

HORN, Michael; STAKER, Heather. Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a Educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

Publicado em 02 de agosto de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

GALVÃO, Tarcilo David Lôbo. Sala de aula invertida no ensino remoto emergencial em Educação de Jovens e Adultos. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 28, 2 de agosto de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/28/sala-de-aula-invertida-no-ensino-remoto-emergencial-em-educacao-de-jovens-e-adultos

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