A relevância da introspecção do narrador nos personagens de “Vidas Secas”: uma contribuição com a prática docente de Literatura Brasileira no Ensino Médio

Cleiliane Sisi Peixoto

Graduada em Letras/Língua Portuguesa (UFG), doutora em Estudos Linguísticos (Unesp), professora de Linguística e Língua Portuguesa no IFG - Câmpus Goiânia

No Brasil, de 1930 a 1945, surgiram alguns nomes significativos do romance brasileiro. Tal período, caracterizado pela denúncia do social, teve a forte presença de romancistas preocupados em apontar a realidade brasileira. Assim, aparecem no cenário das letras autores, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Érico Veríssimo e Jorge Amado.

A necessidade de denunciar a realidade brasileira se explica pelo pensamento do ser humano da geração de 30, influenciado pelas transformações advindas da revolução desta geração e pelos efeitos da crise econômica mundial. Portanto, na busca pela identidade brasileira, o regionalismo ganha importância na Literatura Brasileira, levando ao extremo as relações das personagens com o meio natural e social.

Nesse clima de denúncia da realidade, os escritores nordestinos se destacam, porque presenciaram a passagem de um nordeste medieval para um nordeste inserido em uma nova realidade capitalista e imperialista. Graciliano Ramos não é a exceção no grupo dos literatos. Engajado nesse clima de denúncia e vivenciando essa nova realidade, procurou exprimir em seus romances toda gama de mudanças sociais e psicológicas pelas quais passava o Nordeste.

Não obstante fosse um homem viajado e conhecedor dos costumes de outras terras, nessa região encontrou solo propício para o desenvolvimento dos seus romances. Tal constatação se explica pelas linhas romanescas nas quais imprime a sua marca registrada: a psicologia do cotidiano nordestino.

Segundo Bosi (1988), a situação predominante nos povos do nordeste é sempre relacionada à uma falta e à dependência. Por isso, para o autor (1988, p. 9) “Graciliano Ramos vê o imigrante nordestino sob as espécies da necessidade. É a narração, que se quer objetiva, da modéstia dos meios de vida registrada na modéstia da vida simbólica”.

Assim, com o objetivo de denunciar essa realidade amarga e desgraçada sobre a qual se veem condenados os seus sobreviventes, devido à condição de vida ordinária a eles imposta pela seca, Graciliano Ramos faz de Vidas Secas (romance escrito por volta de 1937, quando a migração começa a tomar vulto do nordeste para São Paulo) o lugar em que, mediante uma chocante narrativa fictícia, essa triste realidade se configura.

Contudo, salienta Silva (1974) que é necessária a ponderação de que, por se tratar de uma ficção, o discurso narrativo não deve ser considerado um discurso do autor, mas do narrador, pois, enquanto o autor se constitui um ser vivente, o narrador, ao contrário, “vive” condicionado à sua imaginação (à imaginação do autor), existindo, portanto, somente no plano fictício.

Assim, um dos elementos mais importantes da estrutura do romance é constituído pelo ponto de vista ou foco narrativo. “A focalização compreende as relações que o narrador mantém com o universo diegético e com o narratário, o que equivale a dizer que representa um fator de primordial relevância na constituição do discurso narrativo” (Silva, 1974, p. 79). Não obstante a relevância do estudo do romance em discussão, muitos professores de Literatura Brasileira e/ou Língua Portuguesa do Ensino Médio alegam não dar o devido enfoque ao estudo da focalização na obra em sala de aula.

Assim, com o propósito de contribuir com a prática educativa docente, o presente trabalho propõe analisar o foco narrativo de Vidas Secas, com o objetivo específico de identificar a relevância da introspecção do narrador nos pensamentos e sentimentos das personagens, a fim de conhecer a sua perspectiva sobre o Homem psicológico constituinte de cada um deles, inclusive da cadela, que se apresenta humanizada no curso da narrativa.

Para tanto, este estudo se baseia nas contribuições teóricas de autores como, Silva (1974), Bourneuf e Ouellet (1976) e Leite (1987), entre outros. O texto se apresenta organizado em duas seções. A primeira, “Vidas Secas: enredo”, apresenta o enredo da obra. A segunda, “O homem psicológico”, analisa os fluxos de consciência das personagens Fabiano, sinhá Vitória, menino mais velho, menino mais novo e Baleia, a fim de discutir a importância da introspecção do narrador ao fazer o retrato dos seus pensamentos e sentimentos, revelando-nos o homem psicológico constituinte de cada um. Por fim, apresentam-se as reflexões alcançadas após o desenvolvimento do estudo.

Vidas Secas: enredo

Composto por treze capítulos, Vidas Secas narra a história de uma família sertaneja constituída pelo vaqueiro Fabiano, sinhá Vitória, dois filhos (referidos como “menino mais novo” e “menino mais velho”) e a cadela Baleia, que vive na condição de flagelada retirante na caatinga nordestina.

Fugindo da seca, ao encontrar uma fazenda aparentemente abandonada, onde a família se aloja como invasora. Ali, criaria raízes em terra alheia e tomaria conta da fazenda, do pouco gado que restara e da casa.

Quando Fabiano vai à feira da cidade para fazer compras e tentar vender um porco que matara é escorraçado pelo fiscal do governo, que lhe exige pagamento de imposto para vender a carne. Na bodega em que tomava uma cachaça, Fabiano é convidado por um “soldado amarelo” para jogar cartas.

No intuito de melhorar um pouco a sua condição financeira no jogo, perde o único dinheiro guardado. Acabrunhado, se retira do jogo sem se despedir dos parceiros. Pensa nas desculpas que daria à esposa pela perda do dinheiro até ser interrompido pelo tal soldado que o censura por ter abandonado bruscamente o carteado. Dizendo-se desrespeitado, o soldado dá voz de prisão a Fabiano. Levado para a cadeia, o vaqueiro é impiedosamente surrado e passa a noite remoendo sua revolta, em completo estado de confusão mental. Pela perda do dinheiro, sinhá Vitória vê adiado o sonho de possuir uma cama de lastro de couro, igual a de seu Tomás da bolandeira. Por isso, a revolta cresce com a rotina dos afazeres domésticos.

No quinto capítulo, o narrador revela a admiração ao pai pelo menino mais novo que, ao ver Fabiano montar a égua alazã, deseja um dia ser como ele, principalmente para demonstrar a sua coragem ao irmão mais velho e à Baleia, a cadela. Por isso, decide cavalgar num bode, mas acaba caindo numa ribanceira, sob os risos e chacotas do irmão mais velho e o olhar de censura de Baleia.

O capítulo seguinte é dedicado ao menino mais velho. Como sinhá Vitória considera um inferno a sua vida, o menino mais velho, intrigado com esta palavra, pergunta-lhe o significado de “inferno”. Revoltada com a própria incapacidade de lhe fornecer uma explicação satisfatória, a mãe expulsa-o da cozinha. Assim, humilhado, o menino mais velho procura consolo junto à cadela Baleia.

Quando chegam as chuvas de inverno, a família se reúne ao redor do fogão à lenha para se aquecer. Sonolentos, os meninos ouvem os pais mais uma vez desfiarem seus sonhos de felicidade. Fabiano, agora, vê afastado o perigo da seca.

Com a chegada do Natal, a família vai à cidade vestida de roupas de passeio. Na igreja, somente sinhá Vitória identifica-se com a atmosfera de religiosidade e procura participar da missa. Os meninos, ao contrário, sentem-se amedrontados com tanta gente.

No meio da narrativa, a cadela Baleia adoece, levando Fabiano a sacrificá-la. Todos se desesperam com o seu sofrimento, mas o pai dos meninos a alveja com um tiro de espingarda. A morte é narrada em câmera lenta pelo narrador com um propósito dramático, devido à sua humanização, segundo a perspectiva do narrador.

No décimo capítulo, Fabiano vai ao encontro do dono da fazenda para acertar as contas pelos trabalhos prestados na chácara em que reside. Os cálculos do padrão apresentam-se muito diferentes das contas preparadas por sinhá Vitória. Sentindo-se prejudicado, Fabiano reclama, mas passivamente acata a justificativa do patrão de que a diferença se deve aos juros cobrados pelo empréstimo antecipado. A miragem de permanecer na fazenda vai se desfazendo, o que deixa o vaqueiro revoltado.

Um ano após a sua injusta prisão, Fabiano reencontra o “soldado amarelo” perdido na caatinga. Chega a oportunidade de vingança, mas Fabiano sente piedade do soldado e o deixa partir, sob o pensamento de que, sendo do governo, deveria ser respeitado.

As aves de arribação anunciam a proximidade de nova seca. Fabiano procura afastar as aves a tiros, notando como sua sina era semelhante à de Baleia. Os animais começam a morrer de fome e de sede. Atemorizado, Fabiano se lembra da sua covardia diante do “soldado amarelo” e da injustiça que cometera o dono da fazenda. Infeliz e revoltado com sua impotência, volta para casa julgando-se um “cabra safado, mole” que, se não fosse tão fraco, teria entrado no cangaço e feito “misérias”.

Com a chegada da seca, Fabiano, a princípio, pensa em permanecer na fazenda. No entanto, a morte de um número cada vez maior de reses o faz se decidir a tentar a sobrevivência em outro local. Assim, todos fogem de madrugada. Ao se lembrarem de Baleia, para atenuar o sofrimento, começam a conversar, alimentando a esperança de chegarem a algum lugar onde possam ter uma vida melhor. Contudo, o sertão continuaria a mandar para a cidade pessoas como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos.

O homem psicológico

Estabelecendo uma classificação mais sistemática quanto ao narrador, mas reconhecendo que ela pode variar entre os críticos, julgamos conveniente nos embasar na tipologia de Friedman, apresentada por Leite em “O foco narrativo” (1987). Para tanto, este estudioso sugere que reconheçamos a pessoa em que a história é contata, a posição adotada pelo narrador, os canais de informações por ele usados para comunicar a história ao leitor (Pensamentos? Do autor? Dos personagens?) e a distância a que o leitor é colocado da história (Próximo? Distante?).

Devido ao fato de ser pouco possível encontrarmos somente um recurso adotado na narrativa de cada uma dessas categorias (a pessoa, a posição, o canal de informação etc.), devemos acatar a predominante para uma classificação que se propõe sistemática.

Nesse sentido, e pelos motivos que veremos detalhadamente a seguir, consideramos o narrador de Vidas Secas onisciente seletivo múltiplo, segundo a tipologia de Friedman. De acordo com Leite (1987), no caso da onisciência seletiva múltipla (Multiple selective omniscience), não há propriamente um “alguém” que narra. A história vem diretamente por meio das mentes das personagens e das impressões que os fatos e as pessoas deixam nelas.

Em virtude de o narrador traduzir os pensamentos, as percepções e os sentimentos das personagens, observamos a impressão predominantemente do discurso indireto livre. Assim, os canais e os ângulos de visão podem ser vários. A esse tipo de narrador, que não está concretamente representado no romance, Silva (1974) chama de heterodiegético, isto é, ausente da história narrada.

São esses fatores que podem ser verificados no seguinte fragmento da narrativa de Vidas Secas: “Lembrou-se da casa velha onde morava, da cozinha, da panela [...] Sinhá Vitória punha sal na comida. [...] E Fabiano aperreava por causa dela, dos filhos e da cachorra Baleia, que era como uma pessoa da família, sabida como gente” (Ramos, 2000, p. 34-35).

Desse modo, com o intuito de explicar o homem psicológico, o romance se constitui de capítulos nos quais são transmitidos, de modo fragmentário (mediante o discurso indireto livre), os sentimentos, os pensamentos, os sonhos, as frustrações, os medos e as lembranças das personagens como um todo (Fabiano, sinhá Vitória, menino mais velho, menino mais novo e Baleia).

Portanto, é devido a essa apresentação tão íntima das mentes das personagens que o narrador se revela completamente onisciente. Contudo, é imprescindível a ressalva de que, uma vez instância produtora da narração, o narrador parte do seu ponto de vista particular. Logo, os pensamentos das personagens são tecidos na narrativa segundo seus julgamentos sobre as consciências daqueles que vivem condicionados à vida sofrível e seca do nordeste brasileiro. Por isso, o leitor é colocado a uma distância muito próxima da narração.

Segundo Bosi (1988), entre a consciência narradora que sustém o enredo de Vidas Secas e a matéria narrável sertaneja, opera um pensamento desencantado que figura o cotidiano do pobre nordestino em um ritmo pendular: da chuva à seca, do bem-estar à depressão.

No que tange à conduta de cada personagem, segundo a perspectiva do narrador onisciente, logo no início do romance, o narrador começa a nos revelar o caráter de Fabiano, o pai da família que, ao ver o filho mais velho caído no chão, tem o desejo de abandoná-lo:

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado [...] meteu a faca na bainha [...] pegou no pulso do menino, que se encolhia [...] frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena (Ramos, 2000, p. 10).

Ressalta Bosi (1988) que, como os tempos do vaqueiro são maiores, a angústia e a esperança ganham mais subjetividade, sendo capazes de preencher o tempo com vagarosas fantasias. “Sinhá Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória engrossariam, a roupa encarnada de sinhá Vitória provocaria inveja das outras caboclas” (Ramos, 2000, p. 15-16).

O paraíso pretendido pelas personagens de Vidas Secas é o momento das chuvas, que traria o novo pasto. Porém, devido à irregularidade dessas, ninguém poderia prever exatamente quando começariam e quando acabariam, o que contribui ainda mais para o aumento da angústia das personagens.

Sob essa perspectiva, ao expor os pensamentos de Fabiano, o narrador julga necessária a utilização do tempo futuro do pretérito, em “sairia”, “andaria”, “seria”, registrando a dúvida, a incerteza: “Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem” (Ramos, 2000, p. 24).

Portanto, é com o objetivo de revelar o interior do chefe da família, submetido a uma vida irregular e hostil, controlada pelos caprichos da seca, que a onisciência do narrador, analista da mente e da conduta desse personagem, torna-se imprescindível.

Vejamos o que ele pensa sobre o desejo de sua mulher de possuir uma cama de lastro de couro:

Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estava ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau (Ramos, 2000, p. 23).

De acordo com Leite (1987), o sonho humilde de cama se transforma em doidice para Fabiano, porque ela é o contrário da seca: é o símbolo de uma estabilidade. Quando a seca chegar, todos sairiam de lá. Portanto, como salienta Bosi (1988, p. 20) “O cotidiano deve conformar-se com as leis da gravidade, leis de determinação natural e social que cortam as asas à fantasia e constrangem a mente a preparar-se para sofrer o ciclo imperioso da escassez”.

A consciência do narrador sobre as desgraças da vida seca permite que ele chegue ao seguinte ponto de vista sobre a insignificância da educação para a vida daqueles seres sofridos: “Precisavam [os meninos] ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás de bolandeira. Coitado. Para que lhe serviria tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do estômago doente e das pernas fracas” (Ramos, 2000, p. 24).

Pela carência de escolaridade, Fabiano, assim como todos, fala uma linguagem cantada, monossilábica, com exclamações e onomatopeias: “Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito?” (Ramos, 2000, p. 36). Segundo Bosi (1988, p. 9), isso se dá pelos retratos de sonhos e desejos de um tempo melhor: “tempo do fim das secas, com trabalho e moradia estável, de onde a família não seja expulsa pelo dono do gado nem bem finde a estação das águas”. Ressalta ainda, o crítico, que um aspecto interessante para o narrador é o processo de incomunicação, a conversa truncada na origem, o diálogo impossível.

Diante dos mais abastados, a ignorância e a submissão de Fabiano são mostradas pelo narrador de modo tão ingênuo que, ao apanhar do “soldado amarelo”, a personagem pensa: “Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita” (Ramos, 2000, p. 33). Isso porque “Governo, coisa distante e perfeita, não podia errar” (Ramos, 2000, p. 34).

Do mesmo modo, ao ter a oportunidade de dar o troco ao “soldado amarelo”, Fabiano permanece submisso: “Enfim, apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até sentiria orgulho ao recordar-se da aventura” (Ramos, 2000, p. 105).

Não obstante, o narrador onisciente ainda é capaz de prever o consequente futuro de Fabiano: “Desejaria imaginar o que ia fazer para o futuro. Não ia fazer nada. Matar-se-ia no serviço e moraria numa casa alheia, enquanto o deixassem ficar. Depois sairia pelo mundo, iria morrer de fome na caatinga seca” (Ramos, 2000, p. 98).

Apesar de expulsos da moradia pela seca, o narrador onisciente ainda relava o que geralmente são inerentes ao homem sofrido: a fé e a esperança de Fabiano em ter uma vida melhor: “Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era” (Ramos, 2000, p. 126).

Assim, Bosi (1988) afirma que a angústia e a expectativa são parentes. O sonho e as fantasias do vaqueiro são projetados no discurso mental de Fabiano e depois na interpretação que lhes dá o narrador onisciente.

Com o propósito de revelar os sentimentos e os pensamentos da esposa e mãe condicionada à hostil vida seca do Nordeste, o narrador onisciente apresenta-nos sinhá Vitória. Não diferentemente de Fabiano, suas atitudes, sonhos e pensamentos ordinários são consequências da sua condição de vida. Nesse sentido, a onisciência do narrador se torna indispensável para fundamentar sua perspectiva quanto ao caráter dessa personagem.

Desse modo, o narrador concebe sinhá Vitória como uma mulher que, mesmo sofrendo com a carência de tudo, em seu sentido amplo, ainda alimenta o sonho de possuir uma cama de lastro de coura, uma vez que se estende sobre uma cama de varas: “Outra vez sinhá Vitória pôs-se a sonhar com uma cama de lastro de couro” (Ramos, 2000, p. 44).

Por mais ordinário que esse sonho possa parecer, se constitui como significativo, pois, como mencionado anteriormente, o narrador consegue nos despertar para a extrema carência das personagens do romance, fazendo-nos perceber a importância de objeto comuns no cotidiano, mas que se constituem o sonho daqueles que não os têm.

Leite (1987, p. 60) ressalta que “A distância entre esse tipo de leitor e o universo da personagem, em cuja mente o discurso progressivamente nos localiza, tem o poder de desvendar subitamente o desconhecido no mais habitual e corriqueiro”.

Assim, enfatizando a dureza da vida daqueles seres desgraçados, o narrador onisciente apresenta uma mãe tão ignorante e carrancuda que se vê impossibilitada de ser amável até com os filhos, vítimas do sofrimento: “Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote” (Ramos, 2000, p. 54), como resultado do fato de o filho mais velho, curioso como qualquer criança, perguntar-lhe se já vira o inferno, uma vez que esse fora pela mãe definido como um lugar com “espetos quentes e fogueiras”.

De acordo com Leite (1987), por falta de definições, o filho consegue concluir, por sua experiência de vida, o que é o inferno: “devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas que moravam lá recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca” (Ramos, 2000, p. 61). Com isso, o narrador constitui a imagem que possui dos meninos mais velhos da vida no Nordeste: carentes de condições financeiras, de educação, amor e atenção.

Quanto ao menino mais novo, vive ele sob as mesmas míseras condições, carente em todos os aspectos. Não obstante, o narrador onisciente percorre o seu pensamento e descobre a sua admiração pelo pai, “A admiração a Fabiano ia ficando maior” (Ramos, 2000, p. 48), admiração que se fundamenta no modo rústico como o pai vive e lida com o trabalho. Certamente, o jeito rude de Fabiano é o único jeito de ser de um homem que ele conhece. Por isso, acha-o grande e espelha-se nele.

Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cobras a mão de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer, espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru (Ramos, 2000, p. 52).

Paradoxalmente, a cadela Baleia, apresentada com características humanas, é menos bruta que os próprios humanos do romance. Nesse sentido, se apresenta o contrassenso entre a conduta animal e a humana, ambas espécies submetidas à mesma condição de vida hostil sobre a qual a onisciência do narrador se revela fundamental.

Assim, o narrador apresenta Baleia como fiel aos seus donos, desde o momento de sua aventura na mata, para caçar um preá para amenizar a fome da família, até a hora em que, por compaixão a Fabiano, entrega-se passivamente à morte provocada por ele.

Logo no primeiro capítulo do livro, intitulado “Mudança”, o narrador já nos mostra a fidelidade da cadela em “Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá” (Ramos, 2000, p. 14) ou em “Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir” (Ramos, 2000, p. 16).

Portanto, revela-se ao leitor que, embora a cadela tenha a oportunidade de comer toda a sua caça, ela segue a sua conduta fiel à família, reservando a carne para os seus tutores, contentando-se com os ossos. No entanto, este mesmo apreço não lhe é demonstrado pelos donos, pois “às vezes recebia pontapés sem motivo”, com exceção do menino mais velho: “O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra” (Ramos, 2000, p. 55). Em outra passagem:

[Baleia] aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno [as faíscas que saíam dos gravetos, provocados por sinhá Vitória] e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas sinhá Vitória não queria saber de elogios.

– Arreda!

Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários (Ramos, 2000, p. 39).

Quando suspeitam de que a cadela está em perigo, Fabiano arma a espingarda para matá-la. Baleia “Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta da bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia” (Ramos, 2000, p. 86). Aqui, notamos a perspectiva do narrador quanto à situação na qual a cadela se vê submetida e concluímos a sua confessa admiração por ela.

Entretanto, diante do fato, Baleia julga conveniente não contrariar a decisão de seu dono: “Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia” (Ramos, 2000, p. 86). Por mais que sentisse vontade de morder Fabiano por atirar contra ela, a sua consideração pelo dono é maior que a recusa da morte.

Assim, devido aos fluxos de consciência das personagens revelados pelo narrador onisciente múltiplo seletivo, o romance nos permite conhecer os Fabianos, as sinhás Vitórias, os meninos mais velhos, os meninos mais novos e as Baleias submetidos às mais hostis condições de vida no nordeste brasileiro, conhecimento que somente é possibilitado pela introspecção do narrador em seus pensamentos e sentimentos.  

Considerações finais

Este estudo analisa o foco narrativo de Vidas Secas, com o propósito específico de identificar a relevância da introspecção do narrador nos pensamentos e sentimentos das personagens, a fim de conhecer a sua perspectiva sobre o homem psicológico constituinte de cada um deles. O estudo foi motivado pelo intuito de contribuir com a prática docente dos professores de Literatura Brasileira e/ou Língua Portuguesa do Ensino Médio.

O desenvolvimento do trabalho nos levou à constatação de que o recurso da introspecção se faz pertinente, pois revela o ponto de vista do narrador acerca do íntimo das personagens, contribuindo para a ampliação da visão do leitor a respeito das realidades diversas da existência humana.

Cabe salientar, conforme Bourneuf e Ouellet (1976) explicam, que o nascimento do romance inteiramente consagrado à sugestão da vida psicológica surgiu há muito tempo, sendo a maioria das obras francesas de grande relevância constituídas por romances de análise. Isso porque, segundo os autores (1976, p. 229-230), “o romance é o domínio fenomenológico por excelência, é o lugar por excelência para estudar a forma pela qual a realidade nos aparece ou nos pode aparecer”.

Desse modo, somos levados à óbvia constatação de que é exatamente nesse sentido que a onisciência do narrador de Vidas Secas se torna de grande relevância como propiciadora do nosso conhecimento sobre a conduta dos Fabianos, sinhás Vitórias, meninos mais velhos, meninos mais novos e Baleias do nordeste que, condicionados à ordinária situação de carência, são, em geral, criaturas infelizes, humilhadas e destroçadas.

Devido ao infortúnio de se inserirem em um mundo sem amor e sem alegria, acabam não encontrando sentido para suas vidas. O que as sustenta são a fantasia e o sonho. Sonham com um tempo melhor: o tempo do fim das secas. “No âmago da condição humilhada e ofendida, os que a partilham transmutam em fantasia compensadora as carências do cotidiano” (Bosi, 1998, p. 19).

Referências

BOSI, A. Céu, inferno – Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988.

BOURNEUF, R.; OUELLET, R. O universo do romance. Coimbra: Almedina, 1976.

LEITE, L. C. M. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1987.

RAMOS, G. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SILVA, V. M. de A e. A estrutura do romance. Coimbra: Almedina, 1974.

Publicado em 23 de agosto de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

PEIXOTO, Cleiliane Sisi. A relevância da introspecção do narrador nos personagens de “Vidas Secas”: uma contribuição com a prática docente de Literatura Brasileira no Ensino Médio. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 31, 23 de agosto de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/31/a-relevancia-da-introspeccao-do-narrador-nos-personagens-de-rvidas-secasr-uma-contribuicao-com-a-pratica-docente-de-literatura-brasileira-no-ensino-medio

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.