Psicomotricidade: uma prática física que estimula a prática mental

Camila Brito

Graduada em Língua Portuguesa (UVA), pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura (Kurius), professora de língua portuguesa na Escola Estadual Pedro Jorge Mota (Catarina/CE)

Segundo a Wikipédia, Psicomotricidade é a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. A Psicomotricidade está relacionada ao processo de maturação, em que o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas; é sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto, ou seja, é como se juntássemos o psíquico com o físico para que tenhamos um desenvolvimento continuo, até porque só realizamos movimentos quando o nosso intelectual faz o comando; porém, no processo do desenvolvimento cognitivo, contamos com a habilidade da afetividade para que tenhamos uma aprendizagem satisfatória e prazerosa; o processo de desenvolvimento de um individuo está diretamente ligado a querer aprender aquilo que lhe é agradável; entretanto, são poucos os que conseguem atingir esse objetivo. As crianças, no caso, precisam ser trabalhadas no que elas gostam de fazer; realizar atividades prazerosas é fundamental no seu desenvolvimento, daí a importância de conhecer a Educação Psicomotora, a junção do afetivo com o intelecto e o movimento físico.

A palavra Psicomotricidade pode ser dividida em: psi = emoção; cog = cognição; motric = movimentos humanos, ou seja, uma depende da outra, a afetividade e a aprendizagem ligadas uma à outra, interagindo de forma simples e correta, adequando-se às necessidades e desempenhando papéis interligados será alcançado um bom resultado.

Coordenação motora, Psicomotricidade, alfabetização e letramento são termos que todo professor de Educação Básica precisa conhecer e dominar, afinal um estabelece relação com o outro, porém poucos executam algumas práticas que melhoram a atividade mental da criança desde o seu primeiro contato com a educação ou com a escola, no caso a Psicomotricidade é uma prática que melhora e aperfeiçoa o desenvolvimento cognitivo e efetivo de uma criança. Poucos sabem e consideram essa prática como ludicidade, deixando de dar a importância necessária no processo de desenvolvimento.

Conhecer a fundo essa prática requer não só tempo, mais sim pesquisa, estudos e treino, praticar em sala de aula; trazer para os planejamentos semanais ou/e anual seria uma ótima forma de buscar inovação na Educação Básica. A Psicomotricidade só ganhará espaços em nossos projetos e trabalhos quando a escola cobrar do educador o conhecimento necessário a essa especificidade da educação; o que poucos sabem é que, de fato, ela direta ou indiretamente já é trabalhada em sala de aula, como quando os professores propõem aos alunos atividades envolvendo tonicidade, guardar brinquedos e organizá-los, trabalhar com massa de modelagem (animais, números, letras etc.), quando envolvem equilíbrio: brincadeiras que envolvem correr, pular, subir, descer e andar. Quando envolvem trabalhos voltados para lateralização, como riscar uma margem com uma régua, pentear o cabelo, recortar figuras; na estrutura espacial, jogos de boliche, brincadeiras de roda etc. Trabalha-se ainda a estrutura temporal, como o calendário e dias da semana, quadro de rotina, praxia global e praxia fina; enfim, são inúmeras atividades desenvolvidas em sala, no espaço do estudante, que poucos docentes sabem sua função ou a que ludicidade se estabelece na hora de aplicá-las.

A Psicomotricidade, além de envolver o psiquismo e a motricidade, é a junção do cognitivo com a emoção, com o movimento e com a idade (etapas da vida), ou seja, são aspectos fundamentais em que, se trabalhados juntos, a aprendizagem é garantida. Poucos educadores conseguem distinguir bem esses assuntos, atribuindo a ludicidade à perda de tempo e jogando sobre o aluno conteúdo em cima de conteúdo e privando-os de satisfações que ajudem em seu desenvolvimento; aliás, ajudam e muito: a criança, quando tenta se adequar à escola, em seu primeiro contato ainda na creche, ela se sente atraída pelos brinquedos e espaços direcionados a ela, como brincadeiras e enfeites; isso já chama muito a atenção dela, fazendo com que se adapte rapidamente a essa nova etapa de sua vida, facilitando sua chegada a um ambiente desconhecido por ela.

No processo de alfabetização, é notório que a criança se sente mais atraída pela imagens, cores e desenhos; isso faz com que possamos analisar o seguinte: quando apresentamos as letras (código) em uma ficha sem imagem ou colorido que seja, isso não prende a atenção; mas quando apresentamos a letra junto ao desenho e bastante colorido, a criança tende a ter uma aprendizagem mais satisfatória, assim com os números e todo o processo de alfabetização e letramento.

Para muitos professores, a ludicidade em sala de aula deixa a criança mais apta a brincar do que estudar; não conseguem juntar duas funções simples, que desempenham papel em dupla função, envolvendo grande estimulação psicomotora para o desenvolvimento infantil.

Carlos Drummond de Andrade afirma que a criança precisa, necessita brincar, ela aprende muito mais do que o que se pode deixar de apenas aplicar disciplina a ponto de deixá-la recolhida em determinado local, privando-as de quaisquer que sejam seus desejos.

Brincar com a criança não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver menino sem escola, mais triste ainda é vê-lo sentado tolhido e enfileirado em uma sala de aula sem ar, com atividades mecanizadas, exercício estéreis sem valor para a formação dos homens críticos e transformadores de uma sociedade.

A brincadeira ser vista como perda de tempo é inadmissível, pois brincar é uma das melhores atividades praticadas por todas as crianças; se divertir, distrair e se entreter é sem dúvida um dos melhores hobbies na infância e precisa ser estimulado e incentivado por pais, professores e por quem convive com nossos pequenos; precisamos formar cidadãos formadores de opinião crítica e construtiva, desde sua infância até a vida adulta; precisamos de líderes participativos na sociedade e de pessoas alegres e felizes que pratiquem desde de cedo a empatia.

O termo ludicidade ainda sofre bastante preconceito por parte de alguns profissionais da Educação, como familiares de alunos que não conseguem compreender esse termo, atribuído a apenas não fazer nada no espaço escolar.

A Psicomotricidade e a Educação Infantil

A Psicomotricidade tem fundamental importância na formação e estruturação do corpo humano; um de seus objetivos é o incentivo à prática de movimentos durante todo o processo de desenvolvimento da criança; é na Educação Infantil que a criança tem contato com algumas praticas físicas, como movimento, jogos, trabalho em equipe, brincadeiras e tarefas em grupos. As ações psicomotoras trabalham e exploram os aspectos motores, cognitivos e intelectuais; portanto, esse contato seria bem inserido se fosse durante o tempo em que ele está na Educação Infantil, quando nas creches e pré-escolas as crianças são trabalhadas em aspectos de coordenação motora fina; ela deveria ter intensidade maior com ênfase na ludicidade para aplicar a psicomotricidade nas crianças, ajudando todo o processo de aprendizagem.

Vale aqui abordar os pensamentos de dois grandes influenciadores da educação:

Jean Piaget – A criança começa sua coordenação de movimentos percebendo e pegando objetos por volta dos cinco meses. Com isso, inicia mais aceleradamente seu desenvolvimento físico motriz adquirindo novas habilidades. A coordenação motora fina na criança pode ser percebida entre os dois e os sete anos, com a sua maturação neurofisiológica que se completa e se amplia, dando a ela possibilidades de pegar com maior firmeza e corretamente determinados objetos.

Lev Vygotsky – A fala e a motricidade andam juntas. Com o desenvolvimento do sujeito, a fala dirige, determina e domina a ação que existe. Na interação criança-adulto movimentos gestuais são criados, dando à criança certo tipo de controle em suas relações sociais. Na concepção de Vygotsky (2003), para a criança, um dos fatores importantes e essenciais no seu desenvolvimento é o brincar. Este lhe dá independência com relação a suas limitações nas mais variadas situações, favorecendo na criança a capacidade de desenvolver “o pensamento abstrato, o desenvolvimento da vontade e a capacidade de fazer escolhas conscientes” (Castro; Gomes, 2010, p. 4).

A BNCC e a Psicomotricidade

Ao observarmos os campos de experiência, encontramos corpos, gestos e movimentos; a Psicomotricidade é a prática de atividades físicas que auxiliam o desenvolvimento global da criança por meio dos movimentos realizados e dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento: o conviver, o conhecer e o expressar-se ligam-se diretamente ao afetivo e ao psicológico da criança; afinal, a Psicomotricidade trabalha a esfera afetiva, intelectual e motora, favorecendo uma aprendizagem mais produtiva e assertiva.

A Educação Infantil, se bem planejada, aplicada e direcionada, é o alicerce de uma boa educação; quando o aluno tem essa Educação Infantil bem realizada, tem uma chance a mais de acompanhar todas as etapas das séries seguintes sem dificuldade e com capacidade de ser um bom estudante no decorrer de sua vida.

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Figura 1: Aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil

Referências

CASTRO, G. M.; GOMES, T. P. Brincar e desenvolvimento infantil: uma análise reflexiva. Revista FSA, v. 6, nº 1, 2010. Disponível em: http://www.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/VI.encontro.2010/GT.8/GT_08_04_2010.pdf. Acesso em: 24 ago. 2014.

Publicado em 30 de agosto de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

BRITO, Camila. Psicomotricidade: Uma prática física que estimula a prática mental. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 32, 30 de agosto de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/32/psicomotricidade-uma-pratica-fisica-que-estimula-a-pratica-mental

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