A vida em uma gota d'água

André Flávio Soares Ferreira Rodrigues

Biólogo, doutor em Ciências, professor do Departamento de Ciências Naturais (UFSJ)

A biofilia – afinidade pela diversidade biológica – é uma característica comum aos humanos. Nós, humanos, não só gostamos da diversidade biológica como também precisamos dela (Primack; Rodrigues, 2001). Tanto é verdade que, de algumas décadas para cá, estamos reaprendendo a importância de preservar essa diversidade. Essa afinidade que temos com a natureza e sua diversidade são dependentes da maneira como percebemos o mundo, e essa percepção, por sua vez, está limitada pela nossa capacidade sensorial. Nossa limitação sensorial não nos permite, por exemplo, ouvir sons ultrassônicos ou infrassônicos, assim como não podemos enxergar nas frequências aquém do vermelho ou além do violeta. Da mesma forma, organismos microscópios, embora muito abundantes, nos passam despercebidos devido ao seu diminuto tamanho. Uma miríade de organismos unicelulares, como bactérias, arqueias, protozoários e algas unicelulares, além de plantas, fungos e animais microscópicos, nos cercam o tempo todo, embora, muitas vezes, não tenhamos a consciência da existência deles ou da diversidade existente nessa vida microscópica.

Os ambientes aquáticos são ótimos lugares para observar a diversidade microscópica. Além dos oceanos, os rios, ribeirões, córregos e lagos estão repletos de vida microscópica. Em uma única gota d’água é possível encontrar incontáveis bactérias, inúmeros protozoários, algas e animais microscópicos. Esses organismos formam populações que compõem comunidades, assim como os seres macroscópicos. Mesmo que não possamos observar essa comunidade sem o auxílio de um microscópio, esses organismos estão interagindo, competindo por recursos, reproduzindo, predando e sendo predados por outros organismos. Desse modo, os mesmos princípios da ecologia que se aplicam ao universo macroscópico podem ser aplicados ao universo microscópico. A limitação aqui apresentada entre dois universos (macroscópico e microscópio) tem somente a função de destacar a vida microscópica. Como todas as coisas da natureza, a interação sempre existe entre os organismos; portanto, não são, de fato, universos separados.

No universo macroscópico, as plantas têm importante papel na fixação do carbono, produzindo carboidratos pelo processo denominado fotossíntese. Esse processo, além de produzir gás oxigênio, é de suma importância para o ecossistema, pois converte a energia da luz solar em energia química na forma de carboidratos. Portanto, esses organismos são chamados de produtores. A energia na forma de carboidrato é incorporada na biomassa dos vegetais e estará disponível para os demais organismos consumidores. De modo semelhante, as algas microscópicas são responsáveis pela produção primária no universo microscópico. Porém, por definição, as algas não são os únicos seres responsáveis pela fotossíntese entre os organismos microscópicos. Várias cianobactérias e vários protozoários em simbiose com organismos fotossintetizantes também contribuem nesse processo (Raven et al., 2014). A energia luminosa, por outro lado, não é a única forma de energia que chega ao universo microscópico. Assim como ocorre no universo macroscópico, a energia pode estar na forma de biomassa, ou seja, associada à matéria. Se tomarmos como exemplo um curso d’água (como um córrego), vamos perceber que, além da entrada de luz que permitirá o processo fotossintético pelos produtores, haverá também entrada de matéria orgânica. Essa matéria favorecerá o crescimento de bactérias que, assim como os produtores, servirão de alimento para protozoários e animais microscópicos que, por sua vez, também servirão de fonte de energia para outros organismos predadores (Dajoz, 2005).

Podemos concluir que, assim como a luz, a entrada de matéria orgânica é benéfica à vida microscópica, porém nem sempre isso é verdade. Existe uma quantidade limitada de matéria que pode ser processada pelos organismos de um corpo d’água. A maioria de nós, infelizmente, já testemunhou o lançamento indiscriminado de grande quantidade de matéria, na forma de esgoto, em rios, córregos, ribeirões etc. O lançamento desse esgoto nos ecossistemas aquáticos sem o prévio tratamento é extremamente prejudicial, uma vez que entradas diárias de matéria que ultrapassem a capacidade de processamento dos ecossistemas irão provocar desequilíbrio. Como consequência do lançamento indiscriminado de matéria nos cursos d’água, observa-se a alteração da paisagem e das comunidades de organismos. O desequilíbrio, de maneira geral, favorece algumas espécies que terão aumento populacional. Por outro lado, espécies que não suportam a alteração podem ter suas populações muito reduzidas ou até mesmo excluídas desses locais. O resultado desse processo é a redução da diversidade.

Como as alterações nas populações de organismos microscópios não podem ser observadas sem ajuda de um microscópio, nós, humanos, só nos damos conta das mudanças quando a paisagem é alterada. Frequentemente os ambientes aquáticos das áreas urbanas apresentam aspecto e odor desagradável. Além disso, as margens já apresentam modificações e raramente a vegetação nativa é mantida ao longo de seu curso. Com isso, a identificação histórica e cultural que a população tem com o curso d’água vai aos poucos sendo perdida (Figueiredo, 2006). Por fim, a opinião da população a respeito do curso d’água vai se modificando ao longo do tempo. Os ambientes poluídos e alterados acabam se tornando um problema e, na tentativa de sanar o problema, adota-se como estratégia mais frequente a canalização, quando possível, dos cursos d’água.

Tal medida, apresentada inclusive como saneamento básico, resolve os problemas da paisagem alterada, mas sepulta definitivamente o curso d’água, alterando consequentemente a comunidade de organismos que ocorre nele. Sem a entrada de luz, os fotossintetizantes não conseguem sobreviver, assim como grande parte dos demais organismos que dependem direta ou indiretamente da produção primária fotossintética. As populações de organismos que dependem mais do aporte de matéria, por outro lado, tornam-se abundantes. Apesar do aumento de algumas populações, o resultado da canalização, além da alteração da paisagem, é a redução da diversidade desses ambientes.

Devido às consequências negativas tanto da perda da paisagem como da diversidade desses ecossistemas, alguns países já estão investindo no processo de resgatar os corpos d’água canalizados (daylighting) com projetos urbanísticos que promovem a criação de parques lineares que, além de restaurar a vegetação da borda, se tornam excelentes locais para atividades físicas com áreas destinadas para caminhada e ciclovias (Travassos et al., 2017). No Brasil, essa discussão ainda está muito incipiente, e alguns estudos apontam que os parcos projetos de daylighting se destinam aos bairros mais centrais e mais nobres (Travassos et al., 2017), deixando, infelizmente, mais uma vez, a periferia em segundo plano.

Referências

DAJOZ, R. Princípios de Ecologia. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

FIGUEIREDO, G. J. Riacho do Ipiranga: um paradigma histórico, cultural e ecológico para o Brasil. O mundo da saúde, São Paulo, v. 30, nº 4, p. 607-610, 2006.

PRIMACK, R. B.; RODRIGUES, E. Biologia da conservação. Londrina: Planta, 2001.

RAVEN, P.; EVERT, R. F.; EICHHORN, S. E. Biologia Vegetal. 8ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 2014.

TRAVASSOS, L.; PENTEADO, C. L.; FORTUNADO, I. Urbanização desigual: rios, mídia e modernização ecológica. Espacio Abierto Cuaderno Venezolano de Sociología, v. 26, nº 2, p. 61-81, 2017.

Sugestões de vídeos sobre o assunto

TV UFSJ. Série Gota d’Água, Ep. 1: Existe vida em uma gota d’água? TV UFSJ, São João del-Rei, 2018. 1 vídeo (3min35s). Disponível em: https://youtu.be/HHi4rb2nJgQ. Acesso em: 5 ago. 2022.

TV UFSJ. Série Gota d’Água, Ep. 2: Existe energia em uma gota d’água? TV UFSJ, São João del-Rei, 2018. 1 vídeo (3min08s). Disponível em: https://youtu.be/WPWBq0Y9Fz8. Acesso em: 5 ago. 2022.

TV UFSJ. Série Gota d’Água, Ep. 3: Existe matéria em uma gota d’água? TV UFSJ, São João del-Rei, 2018. 1 vídeo (3min15s). Disponível em: https://youtu.be/0lKQJFaFKhM. Acesso em: 5 ago. 2022.

TV UFSJ. Série Gota d’Água, Ep. 4: Os cursos d’água e você! TV UFSJ, São João del-Rei, 2018. 1 vídeo (5min20s). Disponível em: https://youtu.be/4wp5eeqwjPw. Acesso em: 5 ago. 2022.

Publicado em 06 de setembro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

RODRIGUES, André Flávio Soares Ferreira. A vida em uma gota d'água. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 33, 6 de setembro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/33/a-vida-em-uma-gota-dagua

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.