Um olhar sobre as pinturas de Portinari de forma lúdica

Mônica Ferreira Fortes

Professora de Artes na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, graduada em Educação Artística (UEMG), especialista em Artes Visuais (Faculdade do Vale Elvira Dayrell)

Escolher um conteúdo artístico para ser trabalhado nas aulas de Arte é algo que sempre me estimulou, pela variedade de temas e assuntos a serem abordados. O universo dos artistas e das obras de arte é um universo vasto. Entretanto, olhar essas obras é perceber o que se pode aprender com mais profundidade sobre o elemento artístico, o contexto de criação do artista e seu objeto de estudo. A percepção é algo que todo professor deve explorar, experimentar e desenvolver.

O universo de uma obra é sempre muito rico. Numa única obra podemos explorar aspectos, não só artísticos por serem demonstrados pelo artista, como também, perceber traços de cultura, do encantamento do artista e da sua sensibilidade.

Desse modo, e com estes propósitos, iniciei minhas aulas sobre o artista Portinari. Era algo novo para a turma. Eles seriam apresentados à série para explorá-la em termos de teor artístico, apreciação e criação, como também para perceberem traços da cultura do Brasil, fazendo relações com as brincadeiras que já conheciam e com outras ainda desconhecidas.

Precisei pesquisar mais sobre a vida do artista, a fim de iniciar o projeto. Encantei-me ainda mais por ele, pois vi um artista extremamente dedicado e sensível à realidade do Brasil. Para tratar deste tema com crianças precisei perceber as nuances e outros aspectos antes despercebidos, a fim de constituir uma narrativa, com imagens interessantes para serem mostradas.

Por serem aulas para crianças, não queria algo tão extenso, mas algo que pudesse despertar o interesse delas para o tema. Desse modo, selecionei algumas fotos sobre aspectos da vida do artista.

Na escolha das obras da série “Brincadeiras de Crianças”, percebi traços de nossa cultura retratados de uma maneira poética. Algumas das brincadeiras, até esquecidas atualmente, nas telas de Portinari ganharam colorido, vivacidade e beleza plástica, algo que o artista certamente traz do menino Candinho, do que ele mesmo viveu na sua infância.

Encontrei, numa edição da revista Carta Fundamental de 2013 um artigo cujo tema era “Portinari para crianças”. A revista relata a vida de Candinho e fala sobre suas obras, assim como algumas poesias. Esse material completou a 1ª parte do projeto.

Reverenciar pessoas que acrescentaram bens imateriais ao Brasil é muito importante, pois valoriza a nossa cultura e o orgulho de sermos brasileiros.

Aspectos da vida do artista apresentado como contação de histórias

A narrativa da história de vida de Cândido Portinari deu-se de forma natural, como se eu estivesse contando uma história de um livro infantil. Dei entonação na voz e mais vida à narrativa, para que o clima sobre o assunto viesse à tona e o interesse dos alunos fosse, cada vez mais, estimulado. Contei a história munida de imagens da vida do artista. Iniciei a proposta da seguinte forma:

“Há muito tempo, no ano de 1903, aconteceu na cidade de Brodowski o nascimento do famoso artista da arte brasileira, Cândido Portinari. Ele era filho de imigrantes italianos que vieram para o Brasil por dias melhores. Candinho, como foi assim chamado, morava numa fazenda de café com seus pais e irmãos.

Desde pequenino, o artista manifestou seu talento para o desenho. Observador e participante ativo, sua infância foi cercada por brincadeiras e brinquedos típicos daquela época e, posteriormente, retratado em suas obras.

Algumas de suas brincadeiras favoritas eram jogar futebol, pular carniça, soltar pipa, piões e muito mais. Veio a pintar, em suas telas, com leveza e com cores que chamavam a atenção do público.

Um dia perguntaram a ele, por que ele pintava crianças brincando. Assim ele respondeu: “Sabem por que eu pinto tanto menino em gangorra e balanço? Para botá-los no ar, feito anjos”.

Mas Portinari não queria somente pintar suas brincadeiras de infância. Ele queria pintar o povo brasileiro, os trabalhadores do Brasil, suas festas, pessoas, lugares e jeitos de ser. O pintor e escritor, Israel Pedrosa, diz que “nenhum pintor pintou mais um país do que Portinari pintou o seu”. De fato, quando completou seus 15 anos, ganhou uma bolsa para estudar na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Por volta dos 25 anos, ganhou um prêmio com a pintura do retrato do poeta Olegário Mariano. A pintura lhe permitiu ir à Europa e, lá, ver os museus e as obras de artistas famosos (como Pablo Picasso). Esta experiência o ensinou e influenciou nas suas pinturas. Até 1903, o artista ficou em Paris e foi nesta época que ele também conheceu a sua esposa uruguaia, Maria Martinelli, com a qual teve um único filho, João Cândido Portinari.

Na Europa, Portinari nunca se esqueceu do povo brasileiro e, lá, declarou o que seria objeto de sua pintura após retornar para o Brasil: “A paisagem onde a gente brincou a primeira vez e a gente com quem conversou não sai mais da gente e eu quando voltar, vou ver se consigo fazer minha terra”. O artista queria pintar a sua cidade, o que viveu e o que estava acontecendo no Brasil. “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodowski como ela é [...]. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor”, disse ele.

Dito e feito! Chegando ao Brasil, começou a retratá-lo. Na sua 1ª exposição, apresentou a temática brasileira com algumas cenas de sua infância: o circo, a roda infantil, dentre outras imagens. Algumas destas obras traz a cor marrom como predominante, simbolizando a terra vermelha amarronzada do Brasil.

Além de pintor, Cândido Portinari era poeta e ilustrador de livros. Por isso, também lhe foi solicitado que pintasse lugares públicos e de renome internacional. Seu último trabalho foi o painel Guerra e Paz, encontrado atualmente na sede da ONU, em Nova York.

Infelizmente, Portinari faleceu, em 1962, intoxicado com suas próprias tintas. Contudo, o mais importante é que suas obras permaneceram e são de grande valor. Somam enorme riqueza de detalhes que, sem dúvida, fazem com que ele seja considerado um dos melhores pintores do Brasil”.

Após a contação da história sobre Portinari, citei alguns trechos para mostrar como era o artista quando criança. Uma outra maneira de estimular a imaginação dos alunos.

Candinho foi uma criança que aproveitou muito sua infância brincando de bola, pipa, pula sela (em alguns lugares se chama pula carniça ou pula mula), e tantas outras brincadeiras ao ar livre. Quando menino, ele nadava em rios, empinava pipas e jogava pião e futebol com seus irmãos e outros garotos na praça em frente ao cemitério. Desde pequeno, gostava de desenhar e pintar e na escola era muito solicitado para ilustrar os cadernos dos colegas (Revista Carta Fundamental, 2013, p. 27).

Figura 1: Circo, 1933, óleo sobre tela, 60x73cm

Fonte: www.portinari.org.br

Contar histórias

A importância de contar histórias para crianças é defendida por vários autores. Uma história toca, sensibiliza e torna o aprendizado mais lúdico, permitindo que a criança desenvolva a sua imaginação.

Fanny Abramovic (2009, p. 17) diz que contar histórias é

suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras ideias para solucionar questões [...], é através de uma história que se podem descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica. É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula.

A etapa da contação é, sempre, muito envolvente e fascinante. Perceber os olhinhos atentos e curiosos ao tema da história, faz com que eu me coloque à disposição para algumas perguntas que possam surgir.

Busato (2003) também fala sobre a importância de contar histórias:

Contar histórias para formar leitores, para fazer da diversidade cultural um fato, valorizar as etnias, manter a história viva, para se sentir vivo, para encantar e sensibilizar o ouvinte, para estimular o imaginário, articular o sensível, tocar o coração, alimentar o espírito, resgatar significados para a nossa existência e reativar o sagrado (p. 45-46).

Desde a infância sou fascinada e estimulada por histórias infantis e poemas. Encantava-me a escuta das histórias e a sua narração, assim como a declamação de poemas que sempre realizávamos na escola. Adorava a sonoridade, o envolvimento, o imaginário, as personagens e pensar sobre o que estava por acontecer até a completa finalização. Era gostoso explorar esse lado artístico que entendo como uma referência para minha prática como educadora.

Em seu artigo, Mainardes (2008) fala sobre o processo de envolvimento com o tema que é dado pelo contador de história, envolvendo os ouvintes na narração:

Por isso, contar histórias é saber criar um ambiente de encantamento, suspense, surpresa e emoção, no qual o enredo e personagens ganham vida, transformando tanto o narrador como o ouvinte. O ato de contar histórias deve impregnar todos os sentidos, tocando o coração e enriquecendo a leitura de mundo na trajetória de cada um (p. 5).

Por que não o fazer a partir de uma pesquisa mais detalhada sobre a vida do artista? Um professor que traz essa abordagem ou usa deste tipo de recurso, não somente pode trabalhar valores implícitos, subjacentes à história, como explorar o conteúdo a ser aprendido de uma maneira lúdica, deixando a aprendizagem do aluno mais gostosa e significativa.

A importância de trabalhar a leitura de imagem

Proporcionar a leitura de imagem na apreciação de uma obra permite que o aluno, além de conhecer seus elementos artísticos, se depare com um universo até então desconhecido e desenvolva a sensibilidade do olhar diante de um outro mundo, o mundo sob a vertente do artista. De acordo com Barbosa (1998),

apreciar, educar os sentidos e avaliar a qualidade das imagens produzidas pelos artistas é uma ampliação necessária à livre-expressão, de maneira a possibilitar o desenvolvimento contínuo daqueles que, depois de deixar a escola, não se tornarão produtores de arte. Através da apreciação e da decodificação de trabalhos artísticos, desenvolvemos fluência, flexibilidade, elaboração e originalidade – os processos básicos da criatividade (p. 18).

Ao observar uma obra de arte e aprender com ela, o aluno se nutre também de inspiração para suas próprias criações e é estimulado em seu processo criativo.

Em seu artigo Educação do olhar: leitura de imagem, Portinari e educação, Oliveira (2011) ressalta que

o exercício de olhar, de ver o diferente, de desvelar significados e critérios exige um trabalho contínuo de educação do olhar que articule percepção, imaginação, conhecimento, produção artística, e ao mesmo tempo, valorização e respeito pela multiplicidade e diversidade de pontos de vista, dos modos de ver e estar no mundo (p. 1).

Escolher a melhor maneira de estimulá-los para a leitura de imagem é algo que os docentes precisam pesquisar. Eu escolhi o método Image Watching como parte do que eu buscava, além das minhas próprias percepções visuais e vivências. Embora a metodologia proponha um roteiro para seguir, ela não é rígida, permitindo ser abordada de acordo com as situações que foram acontecendo em aula. De acordo com a resposta da turma, mostrei alguns aspectos artísticos da linguagem visual, bem como aspectos culturais que envolviam a obra.

Algumas perguntas nasciam deles e outras perguntas eram instigadas por mim. Precisei ser flexível em relação às etapas da metodologia, de acordo com as situações que foram acontecendo.

O sistema de Ott, se utilizado de forma fixa e sem respeitar a ordem da leitura dos alunos, pode ser repetitivo e cansativo. Uma boa atividade de leitura deve ser construída com base na interação com os aprendizes (Arslan; Iavelberg, 2006, p. 19).

Esse novo olhar do aluno tem de ser estimulado aos poucos e cabe a nós, educadores, fazer com que isso aconteça.

O método Image Watching

Apresento o roteiro para leitura de imagens que foi desenvolvido por Robert Willian Ott, na década de 80. Esse método foi criado, inicialmente, para ser utilizado por seus alunos na observação de obras em museus.

No artigo Conhecendo o Image Watching e a Abordagem Triangular: reflexões sobre as imagens, Baliscei, Stein e Alvares (2017, p. 124) argumentam que é imprescindível o desenvolvimento de “um sistema educativo que proporcione meios de aprender olhando para os objetos, não particularmente para seu valor material, mas para a experiência das ideias e da qualidade estética que eles podem conter”.

Segundo o mesmo artigo, no Brasil, o Image Watching ganhou destaque em 1988, após um curso em que Robert William Ott o apresentou no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP).

Durante esta pesquisa, me deparei com um projeto singular chamado, Oficina de Arte, Brincadeiras de Criança, Arte de Portinari, que definia as etapas do método de uma maneira mais prática. Embora não cite o verbo no gerúndio, como é a proposta da metodologia, eu assim o coloquei conforme os demais livros e trabalhos científicos que fazem referência ao método.

  1. Sensibilizando: Cria uma predisposição para a apreciação das imagens;
  2. Descrevendo: Para aproveitar tudo o que uma imagem pode oferecer, os olhos precisam percorrer o objeto de estudo com atenção. Mostrar a imagem e dar um tempo para que a criança a observe cuidadosamente. Elas irão descrever o que veem. A partir desse exercício de ver, elas poderão posteriormente identificar e interpretar os detalhes visuais.
  3. Analisando: É hora de perceber os detalhes. As perguntas feitas pelo professor devem ter por objetivo estimular o aluno a prestar atenção na linguagem visual, com seus elementos, texturas, dimensões, materiais, suportes e técnicas.
  4. Interpretando: A partir das ideias colocadas pelos alunos, o professor poderá aproveitá-las para as diversas possibilidades pedagógicas. Liste-as e eleja, com as crianças, as que correspondam aos objetivos de ensino. Todos devem ter espaço para expressar as próprias interpretações, bem como sentimentos e emoções. Mostre outras manifestações visuais que tratem do mesmo tema e estimule-os a fazer comparações (cores, formas, linhas, texturas, organização espacial etc.).
  5. Fundamentando: Levantadas as questões que balizarão o trabalho é tarefa dos alunos buscar respostas. Elabore, junto com eles, uma lista com os aspectos que provocam curiosidade sobre a obra, o autor, o processo de criação, a época etc. De acordo com a faixa etária, os interesses e o nível de conhecimento da classe/turma podem oferecer textos de diversas áreas do conhecimento para pesquisa, bibliografia e sites para consulta.

Todas as etapas descritas levam para a última categoria do Image Watching denominada Revelando, que será detalhada posteriormente.

Como a leitura de imagem foi trabalhada

A escolha das obras apresentadas aos alunos se deu pelo aspecto afetivo e visual. Por exemplo, a temática Pipa despertou a familiaridade com o tema do artista, pois vivenciei essa brincadeira na infância. Refletindo sobre minha prática como educadora percebo que todas as minhas vivências ou sentimentos experimentados na infância, serviram de material em potencial para conduzir a minha prática docente.

Em sua monografia, Brincando e vivenciando arte, Souza (2015) cita Dorfles (1987) dizendo: “toda nossa capacidade significativa, comunicativa e fruitiva, é baseada em experiências vivenciadas por nós ou por outros antes de nós, mas de qualquer modo feitas nossas”.

Fazendo referência ao método Ott, a etapa de “sensibilização” teve, como pontos de partida a história contada e as imagens apresentadas do artista. Sobre a temática Pipa, utilizei um vídeo com música com a mesma finalidade. No projeto foram trabalhadas várias obras. Para este artigo escolhi a temática Pipa a fim de relatar por qual maneira se deu a leitura da imagem.

Pipas e suas versões

Sempre gostei muito de pipas. Brincava de soltá-las, na infância, e essa temática de Cândido Portinari sempre me fascinou por sua leveza, cores e movimento. Quanta Arte podemos aprender na construção de uma pipa! Combinação de cores, harmonia, detalhes e formas.

E com a ação de soltar uma pipa? O contraste dela com o céu, aquele céu azul turmalina ou com nuvens em branco ou, simplesmente, um céu cinzento de chuva, contrastando com suas cores vivas. Quanta leveza e suavidade em sintonia! Pipas nos remetem a sonhos. Neles, podemos “voar” nas alturas, percebendo formas e nos sentindo um pouco pássaros na imensidão.

Somente quem teve essa vivência na infância sabe descrever a sensação. Assim, justifico a escolha desse tema no projeto. Portinari traduziu, em suas obras, a beleza de uma pipa, trazendo mais encantamento e sensibilidade ao nosso olhar.

Senti não poder ter experimentado esse tema com a turma de forma prática, na construção das pipas. Mas isto pode fazer parte de um outro projeto e, quem sabe, fazer voar essas pipas cercadas de beleza no céu.

Desse modo, apresentei as obras abaixo e deixei que os alunos focassem seus olhares sobre elas. Em seguida, pedi que falassem sobre o que mais tinham gostado e por quê.

1ª Obra

Figura 2: Brodowski, 1942, óleo sobre tela, 55,5x46cm

Fonte: www.portinari.org.br

2ª Obra

Figura 3: Pipas, 1941, óleo/guache/caneta tinteiro, 28,5x26cm

Fonte: www.portinari.org.br.

3ª Obra

Figura 4: Meninos soltando pipas, 1938, guache, 35x28,5cm

Fonte: www.portinari.org.br.

4ª Obra

Figura 5: Meninos soltando pipas, 1943, guache, 16x11,5cm

Fonte: www.portinari.org.br.

5ª Obra

Figura 6: Meninos soltando pipas, 1941, óleo sobre tela, 73x60cm

Fonte: www.portinari.org.br.

6ª Obra

Figura 7: Meninos soltando pipas, 1947, óleo sobre tela, 73,5x60,5cm

Fonte: www.portinari.org.br.

Depois mostrei um vídeo curto, Cândido Portinari - as pipas, para sensibilizá-los sobre o tema. No vídeo há algumas das obras apresentadas acima com uma música (Aleluia, de Handel), ao fundo. Logo, novamente pedi que expressassem suas percepções a respeito, e alguns comentaram que gostavam de soltar pipas, mas nem todos.

Nos relatos, uns observaram mais o céu, dizendo que as pipas se soltavam em locais abertos de natureza. Todos falaram das pipas coloridas presentes nas obras, identificando a presença de meninas na 6ª obra e de meninos construindo pipas (na 6ª obra e na 3ª obra). Somente uma aluna percebeu diferenças das tonalidades entre as obras (no que se refere ao céu). Escolhi mostrar com mais detalhes esse aspecto, sugerindo que olhassem as tonalidades presentes na forma como o artista retratou o céu, em cada obra, indo do branco total ao branco com nuances amarronzadas, cinza, azul mais claro e azul mais escuro com um pouco de preto.

Na 1ª obra, o céu apresentado dá a sensação de chuva a caminho (com as nuances amarronzadas).

Na 2ª obra, há a imagem das pipas soltas no ar. Isso foi observado por uma aluna como uma particularidade diferente das demais obras, com crianças. Ela é uma obra mais abstrata, em que Portinari enfatiza a forma ao invés da brincadeira com a pipa. Está presente na obra uma linha ondulada em preto, com fundo em branco e cinza. Há a presença de linhas abaixo, parecendo desenhos abstratos.

A 3ª obra apresentada traz a impressão de que as crianças estão começando a brincadeira, construindo as pipas para soltá-las. É uma obra com cores e tons suaves. Um dos alunos notou que a criança estava construindo a pipa no canto da tela. Mostrei que, nessa obra, o azul do céu apresenta-se bem claro e fiz algumas observações, tais como “a obra dá a sensação de crianças construindo as pipas” e “as pipas não se encontram tão altas assim”. Notamos a proximidade das crianças com a terra, apresentadas em 1º plano, e a presença de um caminho, dando a impressão de estarem indo para outro lugar.

Na 4ª obra, há um azul royal, diferente também das outras obras. As duas crianças dão ao observador atento a impressão de serem maiores que as demais. As roupas das crianças apresentam formas geométricas mais evidenciadas.

Na 5ª e na 6ª obras, o céu já apresenta um azul um pouco mais escuro, remetendo o leitor da obra ao fim da tarde.

A 5ª obra oferece a sensação de que as pipas, de algumas crianças, se soltaram (o que foi também observado por uma aluna) e que os meninos estão em movimento, com seus cabelos ao vento, como se quisessem ir atrás da pipa bailando no ar.

Na 6ª obra, há um traço maior de luminosidade dado pelo branco em contraste com o céu. Os detalhes do sombreado, iluminando o rosto e o corpo das crianças, mostram este efeito.

Apontei, também, a linha do horizonte em cada obra, com as cores vivas e coloridas das pipas identificadas em contraste com o céu. Deixei que explorassem as diferentes tonalidades de azul, na folha de caderno.

Atividade artística a partir das observações das obras

Realizamos uma atividade artística a partir do que os alunos viram. Ressalto que, segundo a proposta da metodologia, essa etapa se chama “Revelando”. É o momento em que o aluno pode explorar o que aprendeu por meio de uma produção artística podendo ser visual, sonora, cênica ou textual.

Nesse momento, poderiam explorar uma releitura das obras do artista ou outra forma de criação. Mas o objetivo foi apresentar para a escola as obras de Portinari para que todos pudessem conhecê-las. Contudo, havia pouco tempo para isto. Fiz, então, a opção pela reprodução da própria obra do artista, ou seja, uma releitura.

Uma releitura é feita quando cada um, do seu jeito, realiza uma nova criação a partir da obra do artista. Trata-se de reler, imprimindo a sua própria interpretação e adicionando a sua própria visão nela, mudando alguns aspectos da obra ou trazendo para o contexto atual.

O processo de construção se deu da seguinte forma:

  1. Cada um escolheu a obra do artista que mais gostou para o seu trabalho artístico;
  2. Xeroquei as imagens das obras escolhidas para serem trabalhadas;
  3. Pela observação, fizeram a reprodução dela utilizando tonalidades diferentes (o que ficou bastante interessante).

Mostra dos trabalhos produzidos e apresentação para a escola

A Semana da Criança havia chegado e foi o momento de expor o trabalho para toda a escola. Duas alunas se dedicaram tanto ao trabalho que quiseram contar, antes, sobre a vida do artista para a escola. Ensaiaram duas aulas antes, e o artigo da revista Carta Fundamental sobre o artista serviu de referência. No momento da apresentação elas leram parte do artigo e citaram os poemas de Portinari.

Essa etapa foi bastante gratificante, pois os alunos se prontificaram a fazer a montagem dos trabalhos na parede. A turma estava muito envolvida e as outras turmas da escola, também. A importância desta etapa está em conformidade com a dimensão “Fruição”, da BNCC:

Fruição: refere-se ao deleite, ao prazer, ao estranhamento e à abertura para se sensibilizar durante a participação em práticas artísticas e culturais. Essa dimensão implica disponibilidade dos sujeitos para a relação continuada com produções artísticas e culturais oriundas das mais diversas épocas, lugares e grupos sociais (p. 195).

Fotos da mostra

Figura 8: Foto de 5 de outubro de 2018

Figura 9: Foto de 5 de outubro de 2018

Considerações finais

Todo o percurso de construção da proposta deste trabalho foi gratificante, desde a pesquisa mais detalhada da história de Portinari e das suas obras, passando pelo envolvimento de todos com as leituras das imagens até chegarmos à Mostra Artística.

Os alunos se dedicaram do início ao fim do projeto, tanto para conhecerem a vida do artista e aprenderem sobre suas obras, como na construção de seus trabalhos. Cada etapa da aprendizagem pode ser construída de maneira sensível e envolvente, pois todos estavam abertos para que assim fosse.

Quando utilizamos novas formas de trabalhar, como explorar o recurso contação de histórias ou mesmo mostrar a leitura de imagem, fazendo relações com algo do cotidiano dos nossos alunos, há facilidade na aprendizagem da linguagem visual e compreensão dos objetivos.

O projeto possibilitou o estímulo a um nível maior de atenção e concentração. Após a vivência, as crianças fizeram as atividades com capricho, desde uma simples maneira de colorir, dentro da técnica, até desenhos com riqueza de detalhes, pois havia incentivo e envolvimento de todos.

Acredito que os professores possam desenvolver seu potencial criativo, trazendo histórias e experiências sensoriais para a sala de aula, a fim de construírem, junto aos alunos, um ensino-aprendizagem mais significativo.

Para tanto, devemos estar abertos “ao novo”, experimentando novas práticas e ideias, com nossos alunos, pois as aulas de Arte (ou mesmo de outra disciplina), devem ser leves e envolventes, valiosas para experimentações e grandes descobertas.

Referências

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Publicado em 20 de setembro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

FORTES, Mônica Ferreira. Um olhar sobre as pinturas de Portinari de forma lúdica. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 35, 20 de setembro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/35/um-olhar-sobre-as-pinturas-de-portinari-de-forma-ludica

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