A importância de alfabetizar psicopedagogiando

Ana Paula da Silva

Graduada em Pedagogia (Unemat)

Gleice Marangueli da Silva

Graduada em Pedagogia (Instituto Cuiabano de Educação)

Kaiti Alves Martins Pastor

Graduada (FAEL)

Luiza Oliveira de Souza

Graduada em Pedagogia (Unemat)

Noeli Santiago de Oliveira

Graduada em Pedagogia (Unemat)

Naturalmente, o desenvolvimento de cada educando é diversificado, cada um tem suas características próprias e seu próprio ritmo de desenvolvimento em aprender. Em busca de um equilíbrio superior e constante, sabe-se que o conhecimento é indispensável para que a pessoa possa viver como ser humano integral. Para adquirir conhecimentos, é preciso exercitar nossa mente; a leitura é essencial e a base de tudo. Todavia, a forma como as crianças são ensinadas a ler é vital para o sucesso delas e o professor deve propor a leitura como atividade valiosa, significativa e divertida.

Evidentemente, a aprendizagem e a construção do conhecimento são processos naturais e espontâneos de cada indivíduo e estão envolvidos na ação educativa. Existem várias dificuldades de aprendizagem, mas cada aluno tem um jeito de ser e de aprender que reflete a expressão individual de uma mente, muitas vezes sutil, delicada e até genial, mas que aprende de maneira diferente. Cada ser é único e tem uma história de vida. Porém é preciso conhecer o aluno e como ele aprende.

É pelos conhecimentos veiculados pela Psicopedagogia, que o professor pode fazer com que o aluno desperte seu processo de aquisição da leitura e da escrita. Portanto, a Psicopedagogia deve estar aberta à busca constante de significados de um olhar diferenciado à própria vida; a autoestima na relação professor e aluno é uma construção, uma interpretação motivada por vivências pessoais e experiências sociais nas quais as capacidades intelectuais e os afetos imprimem nuances sobre as expectativas futuras e o sucesso escolar, porque, mais do que ler, é necessário leiturizar, ou seja, compreender o processo de alfabetização a partir de uso e valores da leitura e escrita.

Breve histórico da Psicopedagogia

A Psicopedagogia surgiu na fronteira entre a Pedagogia e a Psicologia, a partir das necessidades de atendimento de crianças com distúrbios de aprendizagem, consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional. A Psicopedagogia vem prosperando no meio pedagógico com importantes contribuições da área da Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística e Epistemologia. A Psicopedagogia busca uma percepção mais integradora do prodígio da aprendizagem e uma atuação de natureza mais preventiva. Segundo Sampaio (2011, p. 21),

na Europa, em 1946, foram instituídos os primeiros grandes centros psicopedagógicos por Boutonier e George Mauco, com direção médica e pedagógica. Esses centros reuniam conhecimentos da área da Psicologia, Psicanálise e Pedagogia e procuravam readaptar crianças com comportamentos socialmente inadequados na escola ou no lar de sua família.

Essa inquietação propiciou o surgimento da Psicopedagogia institucional, uma abordagem na qual psicólogos e psicopedagogos convivem com os professores e alunos em um ambiente integrado. A Argentina foi um dos lugares em que a Psicopedagogia mais se desenvolveu, adquirindo status de ciência, reconhecida e valorizada no contexto da Educação e da Saúde. Foi na década de 1970 que a Psicopedagogia surgiu no Brasil, em que, no momento, as dificuldades de aprendizagem eram atreladas a uma disfunção neurológica denominada disfunção cerebral mínima.

Todavia, no Brasil como em outros países, surgiram profissionais preocupados acima de tudo em acolher crianças que não podiam se adaptar à escola. Consequentemente, essas crianças sofriam discriminações e eram às vezes deixadas à margem, sem informação sequer sobre seus direitos. Dessa forma, presumia-se que o simples fato de ir à escola estaria vinculado ao ato de aprender, tendo em vista que nem todos tinham a consciência de que aprender era um processo complexo e que estavam sujeitos a muitas variáveis e circunstâncias.

A Psicopedagogia é um campo que estuda e propõe-se a compreender as diversas matrizes psíquicas presentes nos movimentos e nas ações dos sujeitos envolvidos no aprender e no ensinar, ou seja, aprendentes e ensinantes envolvidos na ação educativa; é também uma área de atuação e pesquisa humana comprometida nos campos de percepção e aprendizagem, percebendo que elas dão influência aos aspectos familiares, educacionais e sociais.

Portanto, na ótica da Psicopedagogia o aluno que não consegue aprender é entendido e trabalhado não como alguém que possui deficiência, mas como um aprendiz que possui estilo de aprender diferente, que está diretamente relacionado ao estilo de família e da comunidade a que pertence, ou seja, deve-se pautar no processo educacional e nas capacidades de aprendizagem que estão acessíveis a esse aluno e de acordo com sua especificidade, porque a finalidade da Psicopedagogia é o ato de ensinar e aprender.

A Psicopedagogia aliada à prática pedagógica

O êxito dos processos de aprendizagem reside no sistema de relações psicossociais, constitutivas de tais processos, que os faz possíveis e eficazes. Nesse sentido, a análise e a compreensão do vínculo entre professor e aluno são indispensáveis aos que desejam entender o processo de construção do conhecimento. Todavia, a Psicopedagogia surgiu com a preocupação do professor para compreender a aprendizagem de seus alunos. Para Fernández (1991, apud Ramos; Faria, 2001, p. 91),

o aprender ocorre no diálogo com o outro. Supõe a energia desejante, o desejo de dominar, saída da onipotência, contato com a fragilidade humana, alegria da descoberta, desprender-se e libertar-se. Envolve o corpo e o prazer. Para aprender, precisamos da criatividade, do desejo e de meios adequados.

Desse modo, a Psicopedagogia aproxima-se da Pedagogia e enfatiza a subjetivação salientando o interacionismo, ou seja, defende a ideia de que o ato de ensinar e aprender necessita de interação, do intercâmbio de experiências e evidencia a importância da simbolização na construção da aprendizagem. Nesse sentido, o aprender é caracterizado pela superação qualitativa do esquema lógico anterior que cada um possui. Assim, é imprescindível a existência do desequilíbrio, no qual a assimilação e acomodação se complementam e se transformam. Fernandez (2001, apud Beuclair, 2009, p. 51) comenta que

é preciso, no campo psicopedagógico, sempre incorporar novos saberes e conhecimentos sobre a inteligência, o corpo, o desejo e o organismo pela real razão de que estes são os fundamentais níveis imbricados no ato humano de aprender: cada sujeito, em seu processo de aprendência, possui sua própria modalidade de aprendizagem, ou seja, cada um, em sua singularidade, possui suas próprias condições, suas limitações e meios para acessar conhecimentos e construir saberes.

Se educar é humanizar, humanizar é interagir e ajudar a pensar. Então a aprendizagem caracteriza-se por ser uma construção intrínseca a partir do processo histórico, pessoal e social investida de significação simbólica. O professor é visto pelo aluno como um modelo de ponto de partida para aprender. Essa aprendizagem inicia-se nas relações estabelecidas, com as subjetivações e as sínteses pessoais. O ideal é que essa interação seja afetuosa e com controle plausível da conduta do aluno; do inverso tornam-se escassas e privadas.

Portanto, a Psicopedagogia contribui para sanar essas dificuldades propondo intervenção psicopedagógica, a qual visa abrir espaços objetivos com diagnóstico precoce e suporte apropriado para que esses alunos com dificuldades de leitura e escrita possam ter desenvolvimento adequado, igualando suas chances pessoais e profissionais às de seus colegas, porque quando os professores têm uma relação psicopedagógica é mais fácil analisar o porquê de seu aluno não aprender e quais os fatores que levam o aluno a ter dificuldade no processo de aprendizagem.

Subjetividade do ensino-aprendizagem

A formação educativa deve estar sedimentada no exercício de aprender a aprender; em um pensar sobre a prática que não se limita a atividades imediatas e isoladas e a uma posição política que não despreza o saber-fazer instrumental, entendido como o desenvolvimento de meios para a obtenção de algum objetivo. Nesse sentido, Charlot Pimenta e Ghedin (2002, p. 97, apud Ramos; Faria, 2001, p. 28) comentam: “ensinar não é a mesma coisa que fazer aprender, ainda que, muitas vezes, para fazer o aluno aprender o professor tenha que ensinar”.

Com isso, a eficácia da intervenção do educador é sentida a partir de seus efeitos sobre o desempenho dos educandos, ou seja, na mediação do conhecimento, na relação professor-aluno, na subjetividade e na objetividade com que são produzidos os pensamentos. Santos (1989, apud Ramos; Faria, 2001, p. 28) reitera que

a aprendizagem passa pelo processo intelectual, o fazer pedagógico tem que se preocupar em saber se a ação educativa possibilita ao educando desenvolver uma atividade intelectual, isto é, aprender e qual o seu significado, e o seu sentido para o educando. Isso evidencia que o trabalho educativo é uma atividade eminentemente intelectual e que supõe um saber fazer.

Sendo assim, a assunção do trabalho educativo como atividade intelectual pressupõe a construção de um conhecimento sobre o saber fazer do educador e da educadora que reconheça sua natureza socialmente construída, que questione a forma com que se relaciona com o contexto social e com que se apropria das possibilidades transformadoras geradas na relação interativa dos espaços socioeducativos. Irredutivelmente, Ramos (2001, p. 44), em sua linha de pensamento, expõe que

aprender é aprender com alguém, sendo necessário o circuito entre a necessidade e a satisfação, o receber e o dar, o sentir e o agir. A sala de aula é um diálogo ativo sobre um relacionamento do qual esse mesmo diálogo faz parte. Inúmeras vezes a figura do professor vem representar os objetos internos, através dos quais os conflitos são vividos.

Dessa maneira, ao ensinar o professor serve como suporte à expressão dos desejos e metas, ainda que se considerem as condições e limitações da prática docente. Ensinar e aprender são práticas indissociadas: não se pode pensar em estabelecer relação de um sem o outro. O ensino e a aprendizagem supõem uma aceitação de limites por parte dos professores e dos alunos, um posicionamento frente às diferenças de como ser professor e como fazer para que o conhecimento circule e não provoque impasses frente às especificidades dos alunos.

O processo de alfabetização vai muito além de ensinar a ler e a escrever: é o que Freire chama de “produção de conhecimento” e “construção da identidade pessoal e social”. Ser capaz de nomear a própria experiência é parte do que significa “ler” o mundo e começar a compreender a natureza política dos limites, bem como as possibilidades que caracterizam a sociedade mais ampla (Freire; Macedo, 1990, p. 9).

Nessa perspectiva, é pela aprendizagem que os educandos avançam e é por ela que se explica o processo de evolução histórica e social, tornando possível o conhecimento do mundo físico, possibilitando a descoberta de novas teorias, métodos e condições de vida.

Portanto, aprendizagem é um fenômeno do dia a dia. Não se aplica apenas às situações de ensino formal. A capacidade para aprender está presente desde o nascimento e significa um potencial de desenvolvimento que ocorre na medida em que o ser humano amadurece suas estruturas cerebrais e seu sistema nervoso.

Autoestima: relação professor e aluno

Sem dúvida, a autoestima é uma construção, uma conquista baseada em uma história preexistente, ou seja, uma história identitária. Para aprender é preciso aceitar a presença do outro e desenvolver vínculos afetivos, é importante aceitar a dependência, o pertencimento, o reconhecimento das diferenças e semelhanças nas circunstâncias educativas formais e informais.

Por conseguinte, sabemos que o ambiente escolar não pode responder por todas as dificuldades, mas pode favorecer o processo de amadurecimento psíquico, que depende do controle das forças internas, que impelem para a ligação com a vida, com o saber, ou para o desligamento, a ruptura com o conhecimento e com o outro como as situações intersubjetivas e as expectativas pessoais.

Em suma, os afetos são partes integrantes da subjetividade. As manifestações afetivas denotam a construção do psiquismo, mostram a estrutura da personalidade e as experiências pessoais. Ensinar é despertar o que está adormecido, é uma atividade que requer atenção contínua, uma mudança de forma de alternativa para superar as diferenças e o novo que a cada instante se apresenta. Ramos e Faria (2001, p. 47) apontam que

a aprendizagem é um processo de construção e reconstrução de conhecimentos, em que as referências do passado têm valor de ligação, de continuidade e integração das experiências vividas. O conhecimento está relacionado com a objetividade e a subjetividade, com o desejo e a realidade. A elaboração psíquica e as novas aprendizagens só ocorrem à medida que cada sujeito se diferencia do outro, interage, amplia seu conhecimento pessoal e social numa perspectiva mais dinâmica do mundo e de si mesmo.

Desse modo, é preciso confiar no trabalho pedagógico desenvolvido pela escola e pelo professor; esse profissional pode transformar o sujeito biológico em ser de cultura. Assim, deve-se favorecer o surgimento do semelhante, a aceitação da diferença, porque o desejo se formula no impossível, na subjetividade e o conhecimento se formula no possível ou na objetividade.

Para Piaget (1990), a abordagem construtivista é de suma importância na relação entre professor e aluno e entre alunos, em cooperação, para o conhecimento da linguagem escrita a ser construído. O meio influencia o desenvolvimento dos indivíduos de forma a acelerá-lo ou retardá-lo, mas a ação do sujeito é que é considerada fundamental para a construção do conhecimento.

Entende-se que o conhecimento não está dado e que não é passivamente adquirido mediante a ação do meio sobre o sujeito. Sendo assim, o processo de construção é muito valorizado e os erros são analisados como hipóteses constitutivas do processo de ensino-aprendizagem. Todavia, o docente tende a se interessar por conhecer os aspectos ligados ao meio nos quais os alunos vivem agregados para que o ensino-aprendizagem aconteça, bem como que sua prática educativa obtenha sucesso no que se refere à ação de ensinar.

O papel da escola aos diversos olhares no processo de alfabetização

Para Soares (2008, p. 47), o termo alfabetização pode ser definido como “ação de ensinar/aprender a ler e a escrever”. Entretanto, o aprendizado da leitura e da produção escrita se constitui de um conjunto de habilidades, comportamentos e conhecimentos que compõem um longo e complexo processo, o qual inclui a alfabetização e o que vem sendo chamado de “letramento”.

Cabe, então, perguntar: qual seria a especificidade da alfabetização nesse longo e complexo processo? Sendo assim, o processo de alfabetização compreende fundamentalmente a aprendizagem da tecnologia da escrita, ou seja, é específico da alfabetização levar o aluno a identificar e a estabelecer as correspondências entre sons e letras e a dominar o funcionamento do sistema de escrita.

Por princípio, a escola é uma das possibilidades de desenvolvimento para o ser educando, não importando a idade. Assim, os professores precisam prestar atenção ao período de formação e ao contexto de desenvolvimento de seus alunos. Sabemos que a escola tem sua especificidade e que o processo de escolarização transforma as experiências cotidianas, se pensarmos essas relações de forma dinâmica.

Além disso, as aprendizagens na vida cotidiana têm significados inerentes, elas são significativas em si mesmas, uma vez que decorrem das práticas sociais e culturais, das condições de vida e da organização de cada grupo humano. As aprendizagens na escola, por sua vez, encontram seu significado na história das ideias e no complexo desenvolvimento da consciência humana, aspectos bem menos evidentes que os das aprendizagens na vida cotidiana.

Certamente, o conhecimento aprendido na escola pode não ter aplicabilidade imediata na vida cotidiana, mas a importância de aprender a ler e escrever vai ser percebida pelos alunos se eles sentirem que os conceitos escolares e o processo de construção desses conceitos são pertinentes para o seu desenvolvimento global. Será por essa via como do desenvolvimento do sujeito que o aprendizado da leitura e da escrita poderá atingir a vida prática desse aluno.

Consequentemente, as interações sociais com outras pessoas ajudando e dando suporte constituem fatores essenciais para o desenvolvimento do aluno. Daí a necessidade de considerar o valor e o papel das interações na sala de aula quando se ensina a ler e escrever.

Vygotsky (1988) retrata que a aprendizagem é um processo mediado, individual e coletivo, que faz despertar processos internos de desenvolvimento. Esse processo envolve pelo menos três componentes: a memória, a consciência e a emoção, a que se somam outros componentes, como o próprio desenvolvimento, a linguagem e a cultura do aluno no processo de desenvolvimento humano.

O desenvolvimento proximal pressupõe compartilhamento de saberes e ações para que os alunos aprendam e se desenvolvam como sujeitos sociais. Mais do que um suporte, a zona de desenvolvimento proximal é uma possibilidade de construção compartilhada de conhecimento. Ao aprender, por exemplo, a escrita, os alunos desenvolvem a capacidade de participar de atividades colaborativas qualitativamente com novas descobertas nas quais descortinam novos horizontes.

Vygotsky (1988) ainda explicita que “é o aprendizado escolar e social que pode proporcionar às crianças esse desenvolvimento cultural, transformando o ser humano de ser biológico em ser histórico-cultural”. Para isso, precisa mobilizar as oportunidades de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita e interações sociais que ocorrem na sala de aula como as funções psicológicas superiores.

Todavia, a aprendizagem é vista como um processo construído mediante a linguagem nas interações e ações entre professores e alunos, tanto no plano individual quanto no plano coletivo. Por meio da linguagem, os conceitos cotidianos vão dando lugar à elaboração de conceitos científicos, novas palavras são aprendidas e os significados das palavras corriqueiras vão sendo ampliados com novas acepções. Com isso, pode-se considerar a aprendizagem como um processo discursivo que implica a elaboração conceitual da palavra, que, por sua vez, só pode acontecer quando as pessoas se encontram e fazem uso da linguagem em seus grupos culturais.

Na perspectiva sócio-histórica, aprender é mais do que memorizar, porque envolve, além da memorização de conteúdos significativos para o aluno, o raciocínio, a capacidade de fazer relações entre o que aprende na escola e o que vive fora dela e entre os próprios conteúdos. Aprender é compreendido como um processo múltiplo, o que implica que deve haver também múltiplas formas de ensinar os conteúdos escolares. Assim sendo, avaliar esse processo exige múltiplas metodologias, próprias para cada situação de ensino-aprendizagem vivenciada.

Leitura e escrita no contexto social

Como atividade social, a leitura pressupõe a interação entre um escritor e um leitor que estão distantes, mas que querem se comunicar. Fazem isso dentro de condições muito específicas de comunicação, cada um desses sujeitos como escritor e o leitor tem seus próprios objetivos, suas expectativas, seu conhecimento de mundo; o ensino de leitura não é uma etapa pontual que se esgota na alfabetização.

Precisamos saber ler e compreender não só o que está escrito nas linhas, mas o que está por trás delas: os não ditos, o duplo sentido, as intenções, que muitas vezes ficam apenas esboçadas, que não são explicitamente codificadas, porque hoje, mais do que nunca, a sociedade exige pessoas suficientemente capazes de gerir as informações, de selecioná-las, organizá-las, interpretá-las e utilizá-las para solucionar problemas específicos de sua área de atuação.

Nos dias de hoje, não basta apenas se apropriar da tecnologia da escrita ou estar alfabetizado. É preciso possuir, entre outras, habilidades de ler, compreender e usar textos presentes no nosso dia a dia, como notícias, reportagens, poemas, artigos, contas de telefone, água e luz, bilhetes, cartas, e-mails, tabelas, quadros de horários, mapas etc.

Vygotsky (1988) aponta que no processo de ensino-aprendizagem de leitura e escrita, deve-se enfatizar a criação de contextos sociais que estimulem a produção de zonas de desenvolvimento proximal. Assim, são entendidas como espaços de possibilidades que se estabelecem com base nas capacidades ou competências já consolidadas pelo aluno em direção a outras que estão em vias de se tornar desenvolvimento efetivo graças à ajuda ou mediação de outro mais experiente – como é o caso do professor.

Todavia, no processo sócio-histórico, mostra-se essencial saber quem são os alunos, seus interesses, seu cotidiano, seus gostos culturais, suas práticas de leitura e de escrita. Vivemos num mundo de escrita e nossos alunos já chegam à escola com alguns conhecimentos sobre a língua que vivenciam em seu cotidiano. Esses conhecimentos precisam ser valorizados e considerados ao se ensinar a ler e a escrever, tendo em vista os grupos socioculturais aos quais esses alunos pertencem.

Por sua vez, o que conta como aprendizagem de leitura e escrita na sala de aula só pode ser analisado se são consideradas as interações discursivas, as ações dos participantes e as suas histórias (Gomes, 2005). Antes de alunos e professores entrarem para a sala de aula, o que vai contar para ser estudado e compreendido como leitura e escrita não está definido, mas deve e pode ser construído pelos participantes da sala de aula.

Resultado e discussão

Muitas vezes os alunos precisam ir para o laboratório de aprendizagem por causa do fracasso escolar ou o problema de aprendizagem deve ser sempre um enigma a ser decifrado que não deve ser calado, mas escutado. “Para entender o significado do problema de aprendizagem sintoma, deveremos descobrir a funcionalidade do sintoma dentro da estrutura familiar e aproximarmo-nos da história individual do sujeito e da observação de tais níveis operando” (Fernández, 2001, p. 38). Dessa forma, quando surgir o “não sei” como principal resposta, o psicopedagogo deve perguntar-se o que não está permitido saber.

As letras estão presentes em vários lugares, porém ensinar o aluno a ler exige do responsável, pais e professores serem os intermediadores da leitura para que os alunos, por meio de leituras convencionais buscassem estratégias facilitadoras nesse processo de leitura, que leva os alunos muitas vezes a ter dificuldades de aprender que estão relacionadas diretamente com o ambiente familiar desestruturado, condições precárias de vida, insucesso social, cultural, problemas emocionais e condições de saúde.

Outro aspecto que pode influenciar no déficit de aprendizagem é a falta de atenção e a memória, os quais comprometem o desempenho escolar dos alunos. Segundo Vygotsky (1988), a dificuldade da aprendizagem da escrita reside no fato de que ela se caracteriza como uma linguagem mais mecânica do que a fala, dependendo, portanto, de um treinamento artificial por parte do aprendiz. Para o autor, a escrita é concebida como simbolismo de segunda ordem, pois representa primeiramente os sons da linguagem oral, passando a designar relações e entidades reais, tornando-se posteriormente um simbolismo de primeira ordem.

Os alunos que são encaminhados ao laboratório de aprendizagem são atendidos de preferência em contraturnos; a organização do cronograma para com esses alunos inicia-se com diagnóstico dos alunos, organização do horário de atendimento, atividades que serão desenvolvidas e portfólio, dentre outras; os fatores que levam esses alunos a muitas vezes ter dificuldades de aprender a ler estão relacionados diretamente com ambiente familiar desestruturado, condições precárias de vida, insucesso social, cultural, problemas emocionais e condições de saúde. No espaço escolar o professor se depara muitas vezes com alunos copistas, que não desenvolveram a prática de leitura e escrita das letras que estão presentes em vários lugares.

Ensinar o aluno a ler exige do responsável, pais e professores serem os intermediadores de leituras convencionais, buscando estratégias facilitadoras nesse processo, estimulando esses alunos com vários textos ou atividades com vocabulário simples, cujo sentido é facilmente compreendido; textos com palavras simples de duas ou três silabas; textos estruturados, com estruturas de frases repetidas e atividades voltadas para a realidade do aluno de acordo com o nível de aprendizagem.

Por conseguinte, com os alunos que têm dificuldades em aprender, a transposição das práticas de leitura e escrita se faz mediante o nível de conhecimento que eles já possuem. Esses conhecimentos se referem a experiências adquiridas pelos leitores no cotidiano, ou seja, nas leituras pessoais do cotidiano com culturas diferentes.

O trabalho desenvolvido no laboratório de aprendizagem na Escola Estadual Professor João Florentino Silva Neto acontece com cooperação, interatividade, experiência e vivência contextualizada das aprendizagens, numa junção de trocas de conhecimentos entre os professores da instituição.

Ao longo desta pesquisa, ficou evidente a importância do funcionamento desse ambiente, contribuindo para a qualificação dos processos de aprendizagem, amenizando as futuras dificuldades. Portanto, esse espaço é um ambiente que oportuniza aos alunos momentos significativos que auxiliam na superação das dificuldades de aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento das atividades e avanços significativos nos processos cognitivos.

Conclusão

Este trabalho com abordagem da importância de alfabetizar psicopedagogiando, que descortina os horizontes do professor visa o conhecimento e o entendimento das possibilidades de ideias, as quais norteiam a prática pedagógica do professor, bem como construir novos saberes diante das dificuldades encontradas no âmbito educacional com alunos que possuem dificuldades de leitura e escrita.

Com a realização do levantamento bibliográfico dos trabalhos que abordam questões relacionadas às dificuldades de aprendizagem no processo escolar, é preciso ressaltar que a interação em sala de aula como princípio metodológico da proposta de ensino não depende apenas da forma como os exercícios são elaborados e propostos aos alunos. O fator mais decisivo consiste na compreensão, por parte do professor, dos pressupostos que sustentam toda a abordagem metodológica adotada, selecionada e utilizada, ou seja, a colocação em prática desse princípio metodológico vai depender fundamentalmente de como professor e aluno produzem sentido.

A problematização possibilita a reflexão sobre a questão da prática pedagógica do professor que atua na escola do campo diante das dificuldades encontradas nas aprendizagens dos alunos, com o intuito de entender e agir de forma positiva sobre as dificuldades identificadas, fazer acontecer a aprendizagem de forma dinâmica e conduzir o aluno a superar os limites, que muitas vezes são impostos por/com ou sem problemas de déficits cognitivos, físicos ou afetivos.

Dessa forma, a pesquisa nos instigou a identificar e descrever as possíveis contribuições acerca da alfabetização e da Psicopedagogia na organização do trabalho escolar, o qual é outro fator decisivo no processo de aprendizagem dos alunos. A forma como se organiza o trabalho escolar pode propiciar ou dificultar o encaminhamento de determinadas estratégias didáticas em sala de aula. Criar contextos mais favoráveis de ensino-aprendizagem depende, certamente, das interações entre os alunos e entre professor e alunos.

A pesquisa foi realizada a partir das leituras sobre a importância de alfabetizar psicopedagogiando; com base nas fundamentações, pode-se afirmar que tais interações serão concretizadas tanto pela estrutura das atividades desenvolvidas, que devem envolver alunos e professores em diferentes discussões temáticas, quanto pelas propostas de encaminhamento dos exercícios: trabalho em duplas, troca dos exercícios feitos em sala, discussões coletivas em torno dos resultados das respostas dadas aos exercícios.

Portanto, as perspectivas atuais da Psicopedagogia e os desafios futuros são questões primordiais para construir novo saberes e abrir espaço para mudanças, desenvolver potencialidades de autonomia, de expressão e de discussão, o que requer uma permanente e dinâmica busca pela competência e profissionalização, porque a Psicopedagogia é um campo que estuda e propõe-se a compreender as diversas matrizes psíquicas presentes nos movimentos e nas ações dos sujeitos envolvidos no aprender e no ensinar, ou seja, aprendentes e ensinantes envolvidos na ação educativa.

Questionário aplicado

Escola Estadual Professor João Florentino Silva Neto

1. Como é o atendimento para com os alunos que são atendidos no laboratório de aprendizagem?

Os alunos encaminhados para o laboratório de aprendizagem são atendidos de preferência em contraturno.

2. Como é a organização do cronograma de atendimento para com esses alunos? Quem organiza esse cronograma?

A organização do cronograma de atendimento aos alunos na sala de laboratório de aprendizagem inicia-se com diagnóstico dos alunos, organização do horário de atendimento, atividades que serão desenvolvidas e portfólio, dentre outas.

3. Quais fatores levam o aluno a muitas vezes ter dificuldades de aprender a ler?

Os fatores estão relacionados diretamente com o ambiente familiar desestruturado, condições precárias de vida, insucesso social, cultural, problemas emocionais e condições de saúde. Outro aspecto que pode influenciar no déficit de aprendizagem é a falta de atenção e a memória, os quais comprometem o desempenho escolar desses alunos.

4. Será possível algum aluno desenvolver a escrita sem saber ler?

Sim. No ambiente escolar, o professor depara muitas vezes com alunos copistas, mas a quem falta desenvolver a prática de leitura.

5. Como ensinar o aluno a aprender a ler?

As letras estão presentes em vários lugares, porém ensinar o aluno a ler exige do responsável, pais e professores ser os intermediadores da leitura para os alunos por meio de leituras convencionais, buscando estratégias facilitadoras nesse processo.

6. Quais tipos de textos ou atividades a serem trabalhadas para despertar no aluno o gosto pela leitura?

São vários textos ou atividades que devem ser desenvolvidos para despertar o gosto pela leitura do aluno, como textos com vocabulário simples, cujo sentido é facilmente compreendido; textos com palavras simples, de duas ou três sílabas; textos estruturados com frases repetidas e atividades voltadas para a realidade do aluno de acordo com o nível de aprendizagem.

7. Como é realizada a transposição das práticas de leitura e escrita com os alunos que têm dificuldades em aprender?

A transposição das práticas de leitura e escrita com alunos que apresentam dificuldade de aprendizagem se faz através do nível de conhecimento que já possui. Esses conhecimentos se referem a experiências adquiridas pelos leitores no cotidiano, ou seja, nas leituras pessoais no cotidiano com culturas diferentes.

Referências

BEUCLAIR, João. Para entender Psicopedagogia: perspectivas atuais, desafios futuros. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak, 2009.

FREIRE, Paulo; MACEDO, Donaldo. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artmed, 1991.

GOMES, Maria de Fátima Cardoso. A aprendizagem e o ensino da linguagem escrita: caderno do professor. Belo Horizonte: Ceale/FaE/UFMG, 2005. (Coleção Alfabetização e Letramento.)

PIAGET, Jean. Epistemologia genética. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

RAMOS, Maria Beatriz Jacques; FARIA, Elaine Turk. Aprender e ensinar – diferentes olhares entre didática e ensino. Porto Alegre: Ed. PUCRS, 2001.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2008.

SAMPAIO, Simaia. Dificuldades de aprendizagem: a Psicopedagogia na relação sujeito, família e escola. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak, 2011.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Publicado em 22 de novembro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Ana Paula da; SILVA, Gleice Marangueli da; PASTOR, Kaiti Alves Martins; SOUZA, Luiza Oliveira de; OLIVEIRA, Noeli Santiago de. A importância de alfabetizar psicopedagogiando. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 43, 22 de novembro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/43/a-importancia-de-alfabetizar-psicopedagogiando

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