Indústria cultural e seu impacto na educação

Júlio César Soares Dias

Licenciando em Pedagogia (UENF)

Lucimar da Silva Pereira Junior

Licenciando em Pedagogia (Isepam) e Ciências Sociais (Unicsul)

O presente artigo trabalha a questão da indústria cultural e sua influência na educação contemporânea. Usando meios modernos de comunicação, a ideologia do consumo permeia toda a cultura contemporânea, de forma que todos os meios de comunicação capturam essa ideologia e a reproduzem.

“Indústria cultural” é um termo utilizado por Theodor Adorno; o autor afirma que o capitalismo chegou ao seu último estágio e que toda a cultura se tornou fator econômico, de modo que a indústria se apodera de cada espaço da vida humana para transformar em um modo de gerar valor; assim, tudo se padroniza, os bens culturais buscam ser apenas uma forma de reprodução do lucro e por isso tentam alcançar o máximo de pessoas, perdendo a complexidade e destruindo culturas locais, já que essas não teriam muito alcance e, portanto, não gerariam lucro para as empresas.

Dito isso, o texto busca demonstrar que todo esse “fazer cultural” não está isento de valores e transmite valores individualistas para a sociedade; educados desde pequenos a valorizar o desejo individual por meio das mais variadas propagandas, os indivíduos perdem a dimensão coletiva da sociedade, ficando cada um na sua bolha.

Dessa forma, a educação, tendo dever de formar o senso crítico dos indivíduos, deve conscientizá-los da padronização cultural criada pelo consumo de massas e lhes dar meios de convívio que incentivem valores humanos como criatividade e senso de coletividade, entre outros, para que, desse modo, a sociedade não seja imersa num círculo vicioso, irrefletido de consumo nem se perca no individualismo.

Indústria cultural e internet

Hodiernamente, a sociedade transfigurou-se de forma a se tornar extremamente complexa. Somos bombardeados por informações e propagandas a todo momento; propagandas que vão desde a tela da TV até os mais simples aparelhos de celular.

Empresas como o Facebook estão o tempo todo adquirindo dados pessoais de seus consumidores nos mais variados gostos de forma gratuita. Todas essas informações têm por objetivo atingir nossas preferências e nos apresentar os produtos mais atrativos.

De fato, na modernidade todos são iguais, pois todos seguem a mesma ordem: consumir. Pensadores como Max Horkheimer e Theodor Adorno, observando as mudanças que ocorriam nas relações sociais – que mudaram para formas consumistas – e como essas mudanças tomavam toda a sociedade, escreveram sobre o assunto e criaram o conceito de “indústria cultural”, já que todos os produtos culturais eram tomados pela indústria, padronizados e transformados em modo de gerar lucro, existe toda uma ideologia que está em toda parte dos meios de comunicação e da sociedade e que justifica esse modo de vida.

O trabalhador atual quase sempre trabalha em dupla jornada, para ganhar o seu sustento; e em seu tempo livre, trabalha consumindo a cultura que a indústria produz. Refletindo isso com um exemplo moderno, os likes que damos em páginas ou memes do Facebook geram receita para as empresas donas daquela página, pois páginas ou posts com muitos likes atraem propagandas.

Fazemos isso gratuitamente; de fato, é uma dupla alienação, pois não temos consciência de que aquele momento de diversão é, na realidade, um trabalho; estamos selecionando para as empresas qual conteúdo é bom e qual não é para colocar propagandas; além disso, estamos gerando receita para aquela empresa e não estamos sendo remunerados por isso; pelo contrário, pagamos o acesso à internet para ter o direito de trabalhar gratuitamente para o Facebook.

Esse é um nível de alienação jamais pensado na história. Nas palavras de Adorno (2002, p. 108), “por isso, a integração do tempo livre é alcançada sem maiores dificuldades; as pessoas não percebem o quanto não são livres lá onde mais livres se sentem, porque a regra de tal ausência de liberdade foi abstraída delas”. Então, os indivíduos na Modernidade perderam o senso de liberdade e acreditam que a liberdade se encontra no ato de consumir; essa crença os prende à alienação e impede uma conscientização verdadeira sobre o ato de ser livre.

Paulo Freire (1979, p. 15) explica que

a conscientização implica, pois, que ultrapassemos a esfera espontânea de apreensão da realidade para chegarmos a uma esfera crítica na qual a realidade se dá como objeto cognoscível e na qual o homem assume uma posição epistemológica. A conscientização é, nesse sentido, um teste de realidade. Quanto mais conscientização, mais se "des-vela" a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto frente ao qual nos encontramos para analisá-lo. Por essa mesma razão, a conscientização não consiste em "estar frente à realidade" assumindo uma posição falsamente intelectual. A conscientização não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato-ação-reflexão. Essa unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou transformar o mundo que caracteriza o homem.

Nesse sentido, estar consciente e ser livre implica, nos dias de hoje, estar consciente da ideologia do consumo e das formas com que esse consumo limita a reflexão e a liberdade. Por isso, a educação passa a ter papel fundamental como ferramenta de libertação da consciência a caminho da reflexão, pois a realidade dada por si só não pode nos levar à reflexão. O homem comum olha o consumo como algo natural; é dominado e alienado naturalmente pelos meios de comunicação. Ao invés de o homem, por meio da práxis, transformar o mundo, ele aprende a transformar a natureza para sobreviver, criando mais material de consumo. Por consequência, o acontece o mesmo com o dinheiro que ganha pelo seu trabalho: ele consome, reproduzindo um ciclo vicioso. Nesse sentido, a educação atual, nas palavras do próprio Adorno (2003), contribui para a alienação humana.

O consumo de massa

A indústria cultural, quando se instala na sociedade, se apropria da cultura e pela sua produção institui o consumo de massa. As novas gerações são apresentadas ao mundo e às suas novas formas de consumo, de modo que se tornam cada vez mais dependentes delas. Pessoas das idades mais variadas aderem ao consumo de massa, mas existem idades mais propícias a serem instigadas a esse consumo. Tomemos a infância como ponto de partida, visto que a idade da infância é a da formação psico-bio-social da criança. Dessa forma, a cultura na qual esse indivíduo vive e apreende valores vai ser crucial para sua formação como cidadão.

A Modernidade, tendo como base a cultura de massa, ou seja, é a cultura na qual os bens de produto cultural são monetizados; ela não transmite de fato os valores históricos daquele povo, mas apenas o que mais facilmente vai se reproduzir pelas massas, gerando mais capital para os industriais. Podemos notar várias problemáticas dessa forma de fazer cultura que existe nos dias atuais: de fato, as brincadeiras que foram passadas por gerações, como cirandas, jogos e músicas, têm de concorrer com os jogos eletrônicos e os brinquedos desenvolvidos em fábricas.

O que se nota é um perder da cultura infantil, dos jogos que culturalmente eram rotineiros na infância, e um emergir de uma cultura digital, eletrônica, que acompanha a era das massas. O grande obstáculo para a permanência dos jogos e brincadeiras tradicionais é a competição que se deve fazer para se tornarem atrativos às futuras gerações.

Nesse quesito, as brincadeiras eletrônicas e digitais têm grande vantagem, já que possuem ao seu lado um aparelho ideológico que justifica o consumo e permeia todos os meios de comunicação, milhares de crianças sendo bombardeadas por hora pelas mais variadas propagandas; cada bem cultural é monetizado. A indústria cultural, segundo Adorno (2002), quer padronizar todos e os fazer acreditar que estão entre pares, apagando suas particularidades. O autor complementa dizendo que,

para todos, alguma coisa é prevista a fim de que nenhum possa escapar; as diferenças vêm cunhadas e difundidas artificialmente. O fato de oferecer ao público uma hierarquia de qualidades em série serve somente à quantificação mais completa. Cada um deve-se portar, por assim dizer, espontaneamente, segundo o seu nível, determinado a priori por índices estatísticos, e dirigir-se à categoria de produtos de massa que foi preparada para o seu tipo (Adorno, 2002, p. 271).

Tudo é transformado em consumo e todos em consumidores; um processo objetivo em que toda a nossa atuação no mundo se resume a consumir para gerar mais valores à indústria; toda subjetividade, toda criatividade é capturada para esse fim. A diferença da cultura ancestral, passada de geração em geração, é que ela carrega uma história particular, leva consigo valores – e não são valores com finalidade lucrativa; seu único fim e o brincar da criança.

Toda cultura “contaminada” pela indústria cultural tem por objetivo gerar lucro, tem como fim o máximo de engajamento da criança naqueles jogos; quanto mais um jogo vicia, mais ele é benquisto pela indústria, mais propagandas se carregam nele e mais se lucra. Então, a indústria tem o consumo por base e o consumo não busca nenhum desenvolvimento dos seus consumidores como fim, apenas, gerar mais consumo.

Quase nenhuma crítica é desenvolvida na educação em relação ao consumo e a como se apagam culturas locais e tradicionais com o progresso da indústria cultural, como se objetificam as crianças e os jovens na reprodução do seu desejo e como isso os aliena de seu papel histórico-político, já que o desejo abandona “a vocação de ser mais” e passa para a mercadoria (Freire; 2001, p. 11).

Educação e emancipação

A indústria cultural se globalizou e está se espalhando pelo mundo; hoje em dia, qualquer acontecimento pode ser monetizado por meio do YouTube e de outras redes sociais. A cultura cada vez mais vai perdendo sua particularidade para dar lugar ao lucro a ser atingido por uma “cultura de massa”; o consumo captura as futuras gerações desde cedo; é cada vez mais necessário o consumo consciente, já que os recursos naturais são escassos e o sistema capitalista depende de constante produção de mercadorias.

Todas essas questões devem ser tratadas no âmbito da educação. A isenção diante dos acontecimentos contribui para um futuro inevitável de barbárie, o esfacelamento cultural e ambiental da nossa sociedade. As novas tecnologias permitiram maior alcance da informação – mas também da desinformação.

Nos dias atuais, qualquer fake news pode competir pela atenção do público de igual para igual na internet com um artigo científico, de modo que uma sociedade pode se basear informações falsas que, por conseguinte, irão influenciar as escolhas políticas que irão determinar o nosso futuro como espécie.

A democracia depende de uma formação crítica perante a realidade para seu funcionamento; é preciso que as informações verdadeiras, baseadas em pesquisas e critérios científicos, possam alcançar as massas. É necessário conhecimento verdadeiro para cidadãos autônomos fazerem escolhas verdadeiramente democráticas.

À vista disso, “uma democracia com dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu conceito, demanda pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado” (Adorno, 2000, p. 141-142). Assim, a formação dos educandos está atrelada a reconhecer e julgar a realidade com senso crítico. Os autores ressaltam que uma formação, para ser emancipatória, deve estar em equilíbrio nestes dois critérios: apresentar a realidade e criticar o que se vê (Adorno, 2000).

Deve haver equilíbrio entre a obrigação e a autonomia; a educação que não respeita esse equilíbrio se torna ineficaz por ensinar autonomia sem o dever ou cai no autoritarismo do dever sem a liberdade. O conceito que o autor elabora para apontar essa questão é a “semiformação”, uma espécie de sujeição do indivíduo a determinado aspecto que deve ter a formação.

Considerações finais

A semiformação educa o indivíduo para ser servil à indústria cultural, já que com autonomia, mas sem conhecimento da realidade, o indivíduo não consegue reconhecer os momentos em que está se alienando. Como mencionado, por exemplo, sem o conhecimento de que o momento de lazer no Facebook é uma forma de gerar renda para a empresa do aplicativo, o indivíduo sem ser remunerado por isso impede o indivíduo de qualquer revolta, pois continuará alienado.

Portanto, a educação deve apresentar a realidade em seus aspectos mais variados; é preciso, frente à complexidade da sociedade atual, ensinar não só o básico (como que se encontra no currículo); é preciso acrescentar ao ensino um conhecimento crítico diante das novas formas com que a indústria cultural tem se apresentado nas redes sociais e nas novas tecnologias.

A falta de um conhecimento crítico em face às questões atuais do consumo de massa e dos efeitos que as redes têm na própria semiformação objetifica o educando para que ele possa ser subserviente à cultura da sociedade de massa. O acrítico é sempre sujeitado, sujeita-se.

Para uma formação em que se valorizem a cultura local, os valores coletivos e a subjetividade para além do consumo, é preciso educar para a emancipação. A emancipação é a busca do “ousar saber”, ou seja, uma produção de consciência verdadeira, que – mais que uma necessidade educacional – se torna hoje uma exigência política.

A indústria cultural na contemporaneidade demanda tipos de educação. Educação por um consumo consciente, que leve em conta a preservação da natureza; uma educação que busque esclarecer o que ocorre na internet e nas redes sociais, que permita autonomia e senso crítico aos usuários; uma educação que busque preservar as culturas locais, que valorize as culturas que resistem à monetização cultural empregada pelo capitalismo. Dessa forma, se combate a semiformação, a formação que não leva em conta a necessidade de autonomia do indivíduo, objetificando-o, e se abre a possibilidade de um educar para emancipar.

Referências

ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000.

______. Tempo livre. In: ______. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Organizado por Ana Maria Araújo. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.

______. Conscientização: teoria e prática da libertação - uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.

Publicado em 08 de fevereiro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

DIAS, Júlio César Soares; PEREIRA JUNIOR, Lucimar da Silva. Indústria cultural e seu impacto na educação. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 5, 8 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/5/industria-cultural-e-seu-impacto-na-educacao

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