Educação Inclusiva em tempos de pandemia: relato de experiência em uma escola da rede pública de Campina Grande/PB

Anna Keyla Gonçalves Barbosa

Mestranda em Ensino na Temática de Deficiência Visual (IBC), graduada em Pedagogia (UEPB)

É sabido que a pandemia causada pelo novo coronavírus trouxe-nos uma realidade diferente da qual estávamos habituados. Além do afastamento social, a forma de comunicação e os meios de lecionar trouxeram desafios antes não abordados no meio escolar. As atividades realizadas em sala de aula com acompanhamento integral do apoio escolar-cuidador, profissional da educação para o atendimento a crianças com alguma deficiência – e do professor de sala de aula regular, agora, acontecem via internet e por ligações telefônicas. Apesar de já se saber que a realidade dos alunos de escola pública, na maioria das vezes, é precária, pois nem todos os alunos têm acesso à internet ou ao celular; essa realidade tornou-se ainda mais evidente neste momento. O professor, por sua vez, para amenizar as consequências desse distanciamento físico do meio escolar, continuou à procura de estratégias para além dos meios tecnológicos, usando a impressão de atividades e asdisponibilizando nas casas dos alunos ou as deixando na escola para que os pais as buscassem.

Figura 1: Entrega do material didático e lembrancinha do Dia das Crianças

Relato de experiência

A escola onde foi realizada a vivência é uma instituição de pequeno porte que conta com quatro salas de aula, uma sala de informática, uma pequena sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE), uma cozinha, uma sala para secretaria/diretoria, um depósito para merenda, três banheiros, sendo um para os meninos, um para as meninas e um para os funcionários, pátio e uma lavanderia. No entanto, a instituição possui uma área mínima para a realização de atividades recreativas e não dispõe de sala de leitura ou de sala de orientação às crianças e aos pais. Também não há sala de professores. O corpo docente da casa é composto por sete professores; o corpo técnico pedagógico e de serviços gerais, por gestora, duas supervisoras, orientadora pedagógica, uma psicóloga, secretária, duas merendeiras, três auxiliares de serviços gerais e quatro porteiros.

Figura 2: Utilização do material dourado no início do ano letivo

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996 (LDBEN), Art. 32, § 4, o ensino a distância pode ser utilizado em situações emergenciais, mas deve ser priorizado o ensino presencial. Assim sendo, as escolas estão autorizadas a realizar “atividades letivas que utilizem recursos educacionais digitais, tecnologias de informação e comunicação ou outros meios convencionais” (Brasil, 2020a, p. 1). Após uma semana de aula, em março de 2020, a prefeitura da cidade de Campina Grande suspendeu as aulas por quinze dias e, depois, por tempo indeterminado em todas as escolas do município.

Formação e capacitação de professores e funcionários: é essencial a preparação socioemocional de todos os professores e funcionários que poderão enfrentar situações excepcionais na atenção aos alunos e respectivas famílias, como também a preparação da equipe para a administração logística da escola. A formação de professores alfabetizadores; a formação de professores para as atividades não presenciais; a capacitação de professores para o uso de métodos inovadores e tecnologias de apoio são também ações indispensáveis do replanejamento curricular no contexto pós pandemia (Brasil, 2020, p. 1).

Desse modo, pensando no desenvolvimento dos alunos e na capacitação docente, a Secretaria de Educação ofertou cursos aos professores para a utilização do Google Meet, da plataforma Classroom e do WhatsApp com o uso de pod como recursos tecnológicos para auxiliarem nesse momento e viabilizarem as aulas remotas.

Figura 3: Figuras geométricas com detalhes em alto-relevo

Figura 4: Material concreto, figuras de montagem

Figura 5: Formas geométricas concretas

Figura 6: Adaptação de uma atividade de Matemática com papelão e bolas meia taça

Figura 7: Mapa em alto-relevo

Figura 8: Confecção dos materiais

Para subsidiar as práticas de docência e pagar as horas departamentais, havia reunião semanal com o corpo docente e com o apoio escolar da escola pelo Google Meet. Nessas reuniões, ofertavam-nos direcionamentos para as ações das semanas seguintes, bem como a possibilidade de refletirmos sobre novas perspectivas a partir das experiências compartilhadas entre os professores.

Entender que existem desigualdades e que elas não são naturais, mas que são resultados de uma ordem social injusta, é fundamental para adentrar no pensamento de Freire. São estas injustiças que fazem os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres esfarrapados. Porém, não basta apenas compreender esta conjuntura e assumir uma postura de sofrimento solidário, de pena (Dickmann; Dickmann, 2019, p. 19).

Figura 9: Reunião virtual com corpo escolar

Assim, como afirmam Dickmann e Dickmann, é necessário que, para além do entendimento sobre as injustiças na ordem social, tome-se uma decisão frente ás diversidades para que a realidade seja minimamente alterada. O professor exerce um papel de grande importância nesse âmbito, uma vez que ele alcança diversos alunos e seus familiares. Frente às dificuldades, um professor com atitudes positivas inspira todos à sua volta.

Figura 10: Árvore genealógica em alto-relevo

Metodologia

O acompanhamento aos alunos do 4º ano deu-se no início do primeiro bimestre ainda no mês de março. Minhas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos com diferentes graus de deficiência (baixa visão e cegueira total) ocorreu da seguinte forma: organizamos os grupos em trios, com as cadeiras para que eu ficasse próxima a eles, um em cada lado e mais um na cadeira da frente. Desse modo, eu conseguia ditar o conteúdo passado pela professora e eles conseguiam acompanhar o que estava acontecendo em sala de aula. O auxílio, para além da ajuda na escrita por meio do ditado, também ocorria com materiais didáticos pedagógicos, como figuras geométricas e material dourado, disponibilizados pela escola, os quais eram utilizados nas aulas de acordo com os conteúdos ministrados. Apesar de ter permanecido no auxílio aos alunos por apenas cinco dias, pude perceber o interesse deles por materiais concretos assim como mais tranquilidade em participar das aulas, pois quando não entendiam a explicação sobre algum assunto, sentiam liberdade em me perguntar a respeito. Assim, ao repetir a informação, concretizava-se o aprendizado.

Na segunda semana de aula, fui transferida para a sala do 5º ano. O atendimento nessa turma restringia-se a duas alunas. Com elas, fiz a mesma dinâmica descrita, sentando próximo delas de modo que a escuta ficasse mais acessível. Também auxiliei pelo ditado, tanto na forma de escrita, como no modo de responder as atividades, auxiliando-as com a leitura do enunciado. Nessa turma, atuei por dois dias presenciais e, em seguida, houve o primeiro recesso para o início da quarentena devido ao novo coronavírus. Então, a realidade inusitada a qual fomos expostos, trouxe a necessidade de reinvenção das práticas pedagógicas, sobretudo para cuidadores ou professores de apoio pedagógico. O profissional de apoio tem contato exclusivo e direto com os alunos e as alunas atendidas. O medo de não conseguir tornar a experiência significativa ou de causar distanciamento dos discentes foi substituído pela fé e pela cooperação unindo toda a equipe da escola, alunos, professores e funcionários.

Figura 11: Utilização de podcast e envio para a turma

Durante o período de aulas remotas, as atividades foram transcritas e entregues a aluna que aqui denominarei de X para manter a sua privacidade. Todos os conteúdos e materiais foram confeccionados além do proposto, de modo concreto para facilitar o aprendizado com atividades a seram respondidas diariamente. Por vezes, realizava-se a correção por vídeo chamada. A escola também dispunha de livros transcritos em braille. Quando as aulas foram suspensas, presencialmente, as obras em braille foram entregues aos pais dos alunos como mais uma forma de diminuir os impactos do distanciamento do meio escolar.

Figura 12: Contação de história

No decorrer do processo de distanciamento social, passei a contribuir através da contação de histórias diariamente e com a confecção de materiais para os alunos da sala de AEE. Essas solicitações de remanejamento foram feitas pela gestora da escola, de acordo com as necessidades dos alunos.

Figura 13: Aluna com deficiência visual realizando atividade

Os conteúdos passados às alunas com deficiência visual, eram também realizados de forma integral. Foram utilizados materiais de tecnologia assistiva (imagens em anexo) como mapas em alto-relevo com cola quente, formas geométricas concretas, mapas em texturas diferentes e vídeo chamada para acompanhar o desenvolvimento da atividade sanando as possíveis dúvidas. Para além do contato com os professores e com as alunas, o contato com a família foi muito importante, tanto para a entrega das atividades quanto para a realização e o desenvolvimento da aprendizagem.

Conclusão

Concluímos que o período de distanciamento social e do meio escolar, foi bastante desafiador tanto para os professores quanto para os alunos. Contudo, em meio às dificuldades foi possível observar que a união do corpo escolar em torno de um propósito maior, traz resultados positivos. Foi necessário ressignificar desde as metodologias de ensino até a forma de falar com os alunos para dar direcionamento nas atividades. Essa foi uma oportunidade de repensar as práticas pedagógicas, tentando aproximar o aluno, mas sobretudo de observar a concretização do ensino do lado de fora do espaço escolar. Ainda temos muito o que melhorar, mas consideramos válidas e significativas todas as tentativas.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEB, 2010.

BRASIL. Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Lei nº 9.394/96. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm Acesso em: jul. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Parecer CNE/CP Nº 11, de 7 de julho de 2020. Orientações educacionais para a realização de aulas e atividades pedagógicas presenciais e não presenciais no contexto da pandemia. Brasília, julho 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 544, de 16 de junho de 2020. Dispõe sobre a substituição das aulas presenciais por aulas em meios digitais, enquanto durar a situação de pandemia do novo coronavírus - covid-19, 2020a. Disponível em: http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-544-de-16-de-junho-de-2020-261924872. Acesso em: 30 jul. 2021.

DICKMANN, Ivo; DICKMANN, Ivanio. Primeiras palavras em Paulo Freire. 3ª ed. Chapecó: Livrologia, 2019.

Publicado em 15 de fevereiro de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

BARBOSA, Anna Keyla Gonçalves. Educação Inclusiva em tempos de pandemia: relato de experiência em uma escola da rede pública de Campina Grande/PB. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, nº 6, 15 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/6/educacao-inclusiva-em-tempos-de-pandemia-relato-de-experiencia-em-uma-escola-da-rede-publica-de-campina-grandepb

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