Entre o descritível e o interpretável com base na ideologia inconsciente do discurso

Alexandre Dijan Coqui

Professor, doutorando em Ciências da Educação, especializando em Gestão Pública Municipal, licenciado em Pedagogia e Letras, especialista em Gestão Educacional (UFSM) e em Ciências da Linguagem com Ênfase em EaD (UFPB), secretário municipal de Educação de Jacaraci/BA, coordenador de Polo UAB

Douglas Manoel Antônio de Abreu Pestana dos Santos

Docente pesquisador em Educação e Neurociência Aplicada (Abepee/Unesp), associado à SBNeC/USP

Este ensaio objetiva uma reflexão do capítulo “Quando a falha fala: materialidade, sujeito, sentido”, da obra de Eni Puccinelli Orlandi Discurso em Análise: sujeito, sentido, ideologia; a autora pretende ali discorrer sobre a materialidade, sujeito e sentido na análise de discurso com destaque no digital, ponderando sobre a inserção das tecnologias como forma de linguagem e como elas desencadeiam de forma própria e virtualizada.

A tecnologia digital extrapola o sentido de transformação de imagens, sons, textos, quer fixos quer em movimento, ou a confluência de todos esses elementos em uma linguagem numérica (0 e 1), conhecida como sistema binário, mas sua materialidade discursiva, ou melhor, em que se realizam os efeitos de sentido (Charaudeau; Maingueneau, 2020), a transposição do sistema numérico na programação de sistemas tecnológicos a imagens num espaço virtual.

Nos estudos de Levy (1996), o virtual é a possibilidade do real; por exemplo, na tecnologia empregada pelas universidades no formato de Educação a Distância, os indivíduos e toda a estrutura de informação e comunicação se virtualizam, não estão presentes em elementos físicos e geográficos, e a própria temporalidade se desintegra nesse universo factível, o processo comunicativo deixa de ser simultâneo, os interlocutores em certas situações aguardam o retorno de uma mensagem fora do tempo em que ela foi produzida, porém, não se opõe ao real, mas ao atual.

Nesse espaço virtual, denominado por Levy (1999) como ciberespaço ou rede, em que circula a materialização do discurso, mesmo distante geograficamente, sem contato com elementos físicos ou fora da temporalidade em que o ato comunicativo acontece, o ciberespaço é uma forma de comunicação; em muitos casos, a resposta a uma fala que se materializa entre os sujeitos pode levar dias, meses ou até anos; por conseguinte, os sentidos atribuídos à fala podem ser falhos, as pessoas mão estão fisicamente próximas ou em contato direto com uma folha, mas em contato com um discurso virtual que se atualiza em contextos e sentidos na evolução social. Assim, cria-se um universo de possibilidades de sentidos, como afirma Levy ao definir a rede: “o universo oceânico de informações que ela abriga”.

Eis aqui a reflexão de Orlandi (2017, p. 69) no capítulo “Quando a falha fala: materialidade, sujeito, sentido”,capítulo da obra Discurso em Análise: sujeito, sentido, ideologia: “não se pode reduzir a questão do digital desligando-se das demais que fazem parte da reflexão sobre qualquer forma de linguagem”. Podemos aqui descrever o digital e os aspectos tecnológicos abordados na análise de discurso, do mesmo modo apresentada por Levy (1996), denominado como virtual.

A reflexão feita por Orlandi inclui a memória, quer na textualidade como anáfora, quer no interdiscurso com alusão a conhecimentos anteriores e sua materialização no discurso, quer na conservação ou na transformação, este último renova a questão de memória e conservação diante das novas tecnologias (Charaudeau; Maingueneau, 2020), também na análise da ideologia, “relação imaginária dos indivíduos com sua existência, que se concretiza materialmente em aparelhos e práticas” (p. 267), tanto na história, na subjetividade, na individualização e na materialidade.

A perspectiva de conjunto é a seguinte: estando os processos discursivos na fonte da produção dos efeitos de sentido, a língua constitui o lugar material onde se realizam estes efeitos de sentido. Essa materialidade específica da língua remete à ideia de "funcionamento" (no sentido saussuriano), por oposição à ideia de "função" (Gadet; Hak, 1997, p. 172).

No mesmo sentido, a

perspectiva discursiva e com ela a noção de materialidade [...]. É pelo fato que se chega à afirmação de que só existe matéria, definindo-a como um conjunto de objetos individuais, representáveis, figuráveis, móveis, ocupando cada um uma região determinada no espaço (Orlandi, 2017, p. 70-71).

Isso nos indica a materialidade da língua no sentido entre os interlocutores e, citada por Orlandi, a questão do que seria a língua sem o discurso no trabalho de Saussure e, quando a língua falha no espaço virtual, concretiza-se em um discurso ideológico inconsciente; aqui não possui o significado de intencional ou não, mas os processos mentais nos indivíduos, semelhantemente a um iceberg, têm a parte invisível, submersa pela água. Um resgate automático da memória da textualidade ou da história do indivíduo que a materializa no espaço ou no sentido do leitor, porém, o resgate da memória do interdiscurso é de extrema importância nesses sentidos da falha na fala.

Um exemplo apresentado por Orlandi (2017): “O silêncio em cena” por “O silêncio em cana” (p. 79) são falhas que possuem uma ligação material entre “a ideologia e inconsciente”; para o sentido o sujeito precisa ativar a memória do interdiscurso, isto é, a partir da memória externa gerada por discursos anteriores e, posteriormente, a memória interna (Charaudeau; Maingueneau, 2020), formando a base de sentidos dentro dos discursos. Assim, para compreender essa formulação de uma falha apresentada por Orlandi há o resgate de outros discursos internalizados no sujeito.

Em síntese, se o sujeito não possuir memória de outros discursos não conseguirá compreender o sentido de censura no período da ditadura militar, mas poderá, diante de um novo contexto ideológico e histórico compreender “o silêncio em cana” na falha da palavra “cena” como a repressão social e o silêncio dos vulneráveis em questão racial e, suscitando tantos outros sentidos diante da falha.

A relevância da falha no virtual, interesse deste ensaio, mostra o prestígio da escrita discutido por Saussure (2006, p. 35) ao refletir que “as impressões visuais são mais nítidas e mais duradouras que as impressões acústicas [...], a imagem gráfica acaba por impor-se à custa do som”. Hoje essa imagem não é apenas gráfica, mas virtual e, inclusive, atemporal, dado que não pode ser controlada por um tempo específico, mas modificada nos diversos contextos em que os sujeitos a apropriam.

Corroborando as discussões defendidas na obra Discurso: estrutura ou acontecimento, Pêcheux (1997) trata do descritível e do interpretável, a contar do resultado de um evento ou do próprio fenômeno, subordinado a outros ou deles à sua consequência; assim, é impossível avaliar quando se deu o início ou o seu fim, imbricado pelo descritivo e interpretado e, por sua vez, a partir de uma ideologia inconsciente na possibilidade dos sentidos.

Para Pêcheux, todo enunciado é passivo de transformar-se em algo diferente de si mesmo, sendo o descritível a partir de sua estrutura léxico-sintática, ou melhor, a imagem representada do discurso em sua organização que possibilita espaço para o interpretável relacionado às memórias e à ideologia inconsciente do sujeito diante da fala.

Para concatenar as diversas reflexões apresentadas, Jacques Aumont (2004, p. 116), em sua obra O olho interminável (cinema e pintura), valida as possibilidades de sentido, no virtual a fala que falha, mas no visual, pintura, a ideologia inconsciente está latente; “o visual nunca vem sozinho [...] o efeito simbólico, aliás também ele multiplicado. O ouro do quadro (moldura) clássico – como dos interiores do templo [...] deixa transparecer a riqueza, ele a ostenta”; o real (moldura) e o símbolo é o que é interpretável diante de um contexto, não fixando na pintura em si, mas no adorno que a emoldura; nesse contexto, pode-se entender que a falha está no distanciamento da pintura, que deveria ser o foco do sentido, e passa a ser a moldura como elemento de poder social.

O efeito simbólico é fonte interpretável, uma vez que o quadro simboliza um valor não apenas pela moldura, mas pela obra, e com um certo grau de status da obra o seu autor e o contexto; em outras palavras, não é apenas a pintura em si, mas o conjunto da obra e os sentidos reais e simbólicos. Ao percebermos a falha na fala no sentido virtual, é o conjunto que possibilita ao sujeito dentro de uma expressão dar um sentido, levando em consideração não apenas sua memória, mas as relações do imaginário e sua existência, associadas a suas crenças e valores, naturais ou sobrenaturais.

Dessa forma, as reflexões descritas neste texto dão espaço a uma relação com o ato falho descrito por Freud (2014), não modificando o caminho do estudo, mas criando apenas uma relação de sentido, uma vez que o ato falho na Psicanálise é aquele que difere do seu significado, ou seja, o sujeito possui uma intenção consciente e que deseja expressar; portanto, a interpretação pode ser contrária; os exemplos apresentados por Orlandi (2017) seguem esse padrão, as possibilidades de falhar são inúmeras e formam diferentes movimentos dos sentidos, sendo necessário um repensar a forma material do significante diante do digital em um espaço virtual.

Referências

AUMONT, Jacques. O olho interminável [cinema e pintura]. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. Coord. Trad. Fabiana Komesu. 3ª ed. 4ª reimpr. São Paulo: Contexto, 2020.

FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 13: conferências introdutórias à Psicanálise. Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Trabalho original publicado em 1916-1917).

GADET, Francoise; HAK, Tony. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Trad. Bethania S. Mariane. 3ª ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso em análise: sujeito, sentido, ideologia. 3ª ed. Campinas: Pontes, 2017.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

______. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. (Coleção Trans).

PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni Puccinelli Orlandi. Campinas: Pontes, 1990.

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística geral. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 27ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

Publicado em 15 de março de 2022

Como citar este artigo (ABNT)

COQUI, Alexandre Dijan; SANTOS, Douglas Manoel Antônio de Abreu Pestana dos. Entre o descritível e o interpretável com base na ideologia inconsciente do discurso. Revista Educação Pública, v. 22, nº 9, 15 de março de 2022. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/22/9/entre-o-descritivel-e-o-interpretavel-com-base-na-ideologia-inconsciente-do-discurso

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