Confraria do Vento - trinta minicontos
Marcelo Calderari Miguel
Mestrando em Ciência da Informação (PPGCI/UFES), pesquisador do Ifes - câmpus Cariacica
Quadruplicada queimada
Ao regressar ao meu lar, vislumbro o crepúsculo envolto em fumaça, o sol lutando para descansar sob um véu de cinzas opacas. Que espetáculo! Contudo, uma surpresa desagradável aguardava-me no quintal. Mais um incêndio, adicionando uma dose de tensão à cena. Não é apenas o cerrado e o pantanal que ardem em chamas, mas também a natureza do meu próprio quintal, o branco lençol estendido no varal. É como se o jardim proclamasse: "Adeus, paciência! Olá, caos!".
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Intrépida obsessão
Entre o amargor do desejo e a amarga ilusão desfeita, resta apenas o vazio. Fiz de nossas paixões um festim impávido, onde prazer e dor se entrelaçavam. No fim, a fome insaciável de controle nos devorou, sufocando-nos na prisão de nossas próprias existências. Não sinto mais do que o eco de um amor envenenado pela importunação. Restou apenas o silêncio e a dúvida se algum dia fomos verdadeiramente livres.
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Doce poder
— Pai, como se torna coronel?
— Bem, meu filho, é uma história que envolve muita astúcia e... certos eventos peculiares. Meu avô, para alcançar tal predicado, precisou "persuadir" o tio dele a se retirar, de uma maneira, digamos, bastante irretorquível. Depois, meu pai seguiu os mesmos passos, mas com um toque mais... cataclísmico. Já no meu caso, a ascensão ao título de coronel foi ainda mais singular: meu irmão mais velho teve um "abalroamento" inesperado com a motocicleta que ajustei.
— Ah, entendi... E quanto ao licor de cacau, tens tomado?
— Com certeza, meu rebento – diz o coronel. Este fluido é um verdadeiro ditador das garrafas. Dá um golpe certeiro em quem o prova e logo todos estão sucumbindo à sua cadência, obedecendo às suas barafundas sem hesitar. Líder no libar.
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Lute contra os próprios demônios
Ao adentrar a caverna escura, deparei-me com uma cena intrigante: um morcego em um aparente embate com sua própria imagem refletida em uma poça d'água. Sua expressão intensa sugeria uma batalha interna, enquanto um sapo, observando à distância, exibia uma indiferença notável. Essa situação insólita me fez questionar: estaria o sapo cansado de sua rotina monótona e buscando novas aventuras? E o morcego, estaria ele tentando desvendar mistérios internos ou apenas lidando com suas próprias sombras? As profundezas da caverna escondem segredos que desafiam até mesmo nossas expectativas mais exóticas. Nesse embate entre a autoimagem e a indiferença, a fronteira entre o eu e o mundo exterior se torna borrada, deixando-nos imersos em um universo de incertezas e reflexões.
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Desastrosa aterrissagem
Era tarde demais para impedir o cometa errante; o astro já havia feito contato com a terra firme.
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Barulho que se espuma
À beira-mar, sob o véu do crepúsculo, um espectador anônimo contemplava o horizonte com olhos curiosos. Contava os segundos, como se esperasse algo além da mera passagem do tempo. De repente, uma rajada de vento agitou as águas e um pequeno caranguejo, astuto e desafiador, emergiu da areia. Com um gesto rápido e determinado, o crustáceo levou consigo o último vestígio de um pedaço de rocha.
O espectador, surpreso com a ação improvável do caranguejo, não pôde deixar de soltar uma risada incrédula. "Bem, parece que o mestre da praia acaba de reivindicar sua última conquista!", pensou, enquanto observava o caranguejo desaparecer na escuridão da noite, carregando sua "preciosa" rocha.
Num misto de admiração e diversão, o espectador refletiu sobre a imprevisibilidade da vida à beira-mar. "Quem diria que um caranguejo seria o responsável por levar embora o último pedaço de rocha?", riu consigo mesmo. Talvez, afinal, o verdadeiro tesouro da praia não fossem as pedras, mas sim os pequenos momentos de arrebentação que ela proporcionava.
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De colegial para jornalista
No quarto do motel envolto em penumbra, uma cena digna de novela se desenrola: seu cônjuge repousa junto ao compatriota na cama, ambos entregues a um sono profundo. Enquanto isso, o clique do cão do revólver ressoa, como se o destino estivesse prestes a decidir seu próximo capítulo. A mão trêmula segura a arma, oscilando entre os dois, em um jogo perigoso de escolhas e consequências…
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Mensagem do delegado
"Senhora, seu jovem prodígio está prestes a se ajustar à sociedade", disse o agente, com mãos nada trêmulas, como se estivesse atenuando a realidade, enquanto o brilho das algemas reluzia nos pulsos do jovem detido ao lado.
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Cabal e continuum
‘A vida transita’, replicou o coveiro no postremeiro expediente.
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Assento em mim
A engenhosidade que tive se pôs em milagre. Eu sou a lacuna dessa manifestação.
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Canchas do vento
Vende-se um portento que, embora faça-se usado, revela-se inexplorado.
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Apartado domínio
Na solenidade e baixa, encontrou a patroa, onde a autoridade se confunde com a vulnerabilidade. No ar, sugere-se que o verdadeiro controle é intrínseco, subvertendo expectativas. Abrem-se paragens, interpretações múltiplas: quem, realmente, detém o intimorato.
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Professorado
Lecionaram tudo. E postaram a culpa no docente.
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Prior
Fui me confessar ao padre. O que ele disse? Uma danada prédica.
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Rebentamento
Um vindouro lindo pela frente. O punhal veio pelas costas.
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Rebento
Copulei com o passado. Fui acordado por nenéns.
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Sem constância
Na vida, as coisas são tão imprevisíveis. Até a tramontana se perde no GPS! Mas quem precisa de um GPS quando se pode se perder e se encontrar várias vezes no labirinto chamado permanência?
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Dia incomum
Banho de leito? Hoje, o leito está seco.
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Fadário
Xícara vazia, futuro em branco.
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Geringonça e refúgio
Fizeras uma escavação, desentulharia algo ali.
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Entrando numa fria
Vivera em perfeita sintonia consigo mesma até o casamento. Seu consorte exigia tanta atenção que mal teria tempo para respirar. No entanto, em meio ao caos do lar, encontrava refúgio na despensa. Ali, entre os potes de conserva, onde os legumes eram submetidos à pressão e temperos, descobria uma calmaria há muito esquecida, onde podia recuperar seu equilíbrio e respirar longe das tensas demandas do matrimônio. Cada frasco era um símbolo da vida doméstica, mas também um lembrete de que, mesmo envoltas em rosca e pressão, podia encontrar conservação e perpetuar sua sanidade mental.
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Viajante
Ao entrar na caverna escura, deparei-me com uma cena inusitada: um morcego estava em uma espécie de confronto com sua própria imagem refletida em uma poça d'água. Parecia estar profundamente envolvido, enquanto um sapo, observando à distância, parecia completamente indiferente. Aquela estranha situação me fez questionar: onde foi parar o romantismo do sapo? Será que ele nunca teve a chance de ser beijado?
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Precisamos conversar!
Pediu a torta capixaba mais cara, na semana mais visada. Cuspiu na audácia. Comeu somente a azeitona.
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O banco, banquete
A clientela parada, o tempo avança, e a revolta paira no ar. De repente, a senha é anunciada, ecoando como um chamado convencional, em vez de preferencial, deixando no ar a dúvida sobre quem realmente possui prioridade.
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Cândido áditos
Apareceu-me um ser alado, envolto em um camisolão alvejado, proferindo palavras de condoimento. Mal consegui decifrar seu dialeto celestial, vindo de uma galáxia distante — sei lá o quê. Quando ele bradou: “Amanhã te aguardarei nos portões do céu”, recusei o convite... perplexo com o termo “pórticos”. Ora, livre arbítrio serei meu guia e, nem se despedisse, iria.
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Suas incógnitas
Por que nem tudo na vida é abelhudice? A resposta para muitas curiosidades só o tempo suprime, mas será que sucumbiria?
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Neuroimagem em erupção
Esperei dias e madrugadas, entre a perspicuidade do amor e a neurodivergência dos desesperados. Esperei entre pontes e ataduras, assimilação e intercorrência. E sentido não veio. Estava pousado de mim.
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Reconhecimento
Chegue! Quem me albergaria gira.
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Última palavra do gelo
Diante do calor insuportável, busquei conselho no iceberg oceânico. Ele sugeriu um estilo de vida sustentável, mas logo se derreteu. Se foi por água abaixo.
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Infindável arremedo
Num reino longínquo, a rainha, vaidosa, exigia que seu reflexo no espelho fosse pago. O espelho, falante, sugeriu uma mudança: tornar-se objeto público, assim todos pagariam pela verdade. Assim, a majestade aprendeu: a beleza real não reside só na aparência, mas na utilidade que damos às coisas.
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Publicado em 02 de abril de 2025
Como citar este artigo (ABNT)
MIGUEL, Marcelo Calderari. Confraria do Vento - trinta minicontos. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 25, nº 12, 2 de abril de 2025. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/25/12/confraria-do-vento-trinta-minicontos
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