As cartas reutilizadas pela mestra Chiquinha Leite em Três Barras/MG como fonte para o estudo do tropeirismo

Danilo Arnaldo Briskievicz

Doutor em Educação (PUC-Minas), professor do IFMG - câmpus Santa Luzia

Francisca Leite Teixeira nasceu em Diamantina/MG por volta de 1840. Sua vida transcorreu de maneira linear no Norte de Minas, como era de se esperar de uma menina de família de classe média ligada ao comércio. Estudou em boas escolas. Conseguiu seu diploma de normalista. Fez o concurso público para professora da escola mista de Três Barras (atual distrito de Três Barras da Estrada Real), um povoado entre Diamantina e Serro, e passou em primeiro lugar. Colocou sua escola por volta de 1884 e nela permaneceu até cerca de 1901. No total, 17 anos de regência escolar no pequeno povoado mineiro. Ela ensinou a seus alunos as primeiras letras e Matemática Elementar. Escrever, ler e fazer contas, essa era a missão da sua escola. Depois de se afastar da escola de Três Barras, foi morar no Itambé (atual cidade de Santo Antônio do Itambé) e comprou uma fazenda de 80 alqueires em Casa de Telha (atual cidade de Serra Azul de Minas). Seu último registro documental é de 1911, ano provável de sua morte. Não teve filhos. Não se casou. Seu testamento não foi localizado em arquivos públicos.

A história da professora Chiquinha Leite poderia ser resumida no parágrafo acima, não fosse um detalhe: sua escola em Três Barras/MG passava anualmente por exames oficiais para conferir seu funcionamento regular e o aprendizado dos seus alunos. Algumas avaliações escritas ficaram guardadas no Arquivo Municipal da Instrução Pública, transferido para o Iphan do Serro/MG na década de 1990. Além disso, para preparar seus alunos para os exames escritos diante da banca examinadora anual, a professora precisava treiná-los com cópias e mais cópias de lições diárias em papel. Era preciso, pela memorização, ensiná-los a ler, escrever e contar. Para isso, ela pediu e conseguiu com seu protetor, o tenente Joaquim Casemiro Lages, residente em Diamantina, seu amigo Josefino Hemetério da Silva, morador do distrito de Inhaí e, dispondo de seu próprio arquivo pessoal, várias cartas que se tornaram papel reutilizado para que os seus alunos exercitassem a escrita.

As cartas/lições, cartas/exercícios ou cartas/provas eram guardadas pacientemente pela mestra Chiquinha Leite como comprovantes de funcionamento de sua escola. As cartas reaproveitadas em lições comprovavam sua atuação cotidiana como professora do magistério público em Três Barras. Não sabemos o motivo, mas as cartas/lições se tornaram arquivo morto da Instrução Pública e acabaram parando no Arquivo do Iphan do Serro/MG.

Entre as lições escritas e provas de avaliação anual da escola mista de Três Barras e a produção da atual pesquisa sobre esse corpo documental passaram-se quase 140 anos. O tratamento conceitual das informações das cartas e das lições nos proporcionou um duplo olhar sobre a mestra Chiquinha Leite e sua trajetória de vida em Três Barras: primeiro, em relação à sua rede de relações pessoais e familiares – as suas sociabilidades –, resultantes de como ela sobrevivia como mulher necessitada de renda mensal para manter sua vida numa cidade toda ela calcada na economia do ouro e do diamante e suas interfaces históricas com o comércio de tropas no Norte de Minas do século XIX; segundo, em relação à sua escola, seus métodos de ensino, suas lições de escrita de reprodução de frases de cunho moral, suas lições de Matemática Elementar, enfim, sua atuação como a primeira mestra de uma escola para meninos e meninas no povoado entre Diamantina e Serro.

A reutilização de cartas familiares na Escola Mista de Três Barras durante a regência da mestra Chiquinha Leite foi o que nos levou imediatamente a perceber que tínhamos uma história diferente acontecendo no século XIX entre o Serro e Diamantina. Numa certa oportunidade de outra pesquisa relacionada à história da educação na Comarca do Serro do Frio entre os séculos XVIII e XX (Briskievicz, 2020), nos deparamos no Arquivo do Iphan do Serro com um número muito grande de cartas em que havia lições escolares. É surpreendente ter diante dos olhos cartas de família reaproveitadas para exercícios escolares, com cópias e mais cópias de textos retirados de manuais de Matemática e Língua Portuguesa.

Depois de transcrevermos carta por carta, lição por lição, pudemos com clareza estabelecer um critério de apresentação delas, e descobrimos que se tratava de três volumes de cartas, ligadas a três pessoas diferentes. Havia uma surpreendente unidade nos blocos de cartas.

O primeiro bloco, com o maior número de correspondências, proveio do protetor de Chiquinha Leite e de seu irmão, o major José Leite Teixeira. Trata-se do tenente Joaquim Casemiro Lages, o fundador do mercado público de Diamantina, na Praça Barão do Guaicuí, e padrinho do major. A relação comercial, familiar, de interesses comuns entre os Leite Teixeira e os Lages se mostra de imediato na confiança de Joaquim Casemiro em liberar correspondências comerciais com detalhes de sua vida para sua protegida, a mestra Chiquinha Leite. São no total 20 cartas, divididas em dois grupos: no primeiro, 16 missivas escritas por Francisco José Veloso Soares; no segundo, outras quatro cartas enviadas por Antônio José de Queirós. O período das cartas compreende os anos de 1860 a 1864, e a etapa cronológica dos exercícios ou lições escolares ficam entre 1880 a 1889.

O segundo conjunto de cartas pertencia a Josefino Hemetério da Silva, amigo de Francisca Leite, morador no distrito de Inhaí, pertencente à cidade de Diamantina/MG. São quatro cartas mostrando o cotidiano mercantil das tropas e suas encomendas, a circulação de mercadorias e informações do período de dois anos, ou seja, de 1876 a 1877. Por sua vez, os exercícios escolares dos alunos da mestra Chiquinha cobrem os anos de 1884 a 1885.

O terceiro volume de cartas pertenceu à própria mestra Chiquinha Leite. São três cartas recebidas por ela com comunicações diversas, na maioria ligadas ao negócio das tropas; duas cartas escritas pela própria professora de Três Barras, uma delas com encomenda de joia e contrarrecibo para que o pagamento fosse confirmado e retornasse às suas mãos; e muitas lições escritas por seus alunos e que se mantiveram registradas às cartas. O período desse terceiro volume compreende os anos de 1881 a 1890 e execícios de alunos entre os anos de 1885 a 1890.

Os exercícios ou lições escritas parecem ter sobrevivido ao tempo justamente por servirem como comprovantes de funcionamento regular da escola, pois, devido à infrequência dos alunos, a mestra Chiquinha achou por bem ter registros escritos em caso de alguma necessidade de comprovação legal. As cartas e os exercícios sobreviveram pelo preciosismo da mestra de Três Barras em afirmar que as crianças e jovens frequentavam sua casa para as lições cotidianas. Além do comércio, Chiquinha se dedicava a ensinar, e ninguém podia afimar o contrário. Havia provas escritas.

Percorrer as cartas e os exercícios ou lições escolares nos proporciona dupla oportunidade de conhecimento da realidade da mestra Chiquinha ou de seu cotidiano no povoado de Três Barras. A primeira é compreender de forma alargada as relações comerciais entre os tropeiros e os negociantes das serranias, aprofundar as sociabilidades que se desenvolviam entre a compra e a venda de mercadorias entre o Rio Vermelho e Inhaí, num roteiro bastante abrangente, ou entre o Serro e Diamantina, num roteiro de polarização comercial do século XIX. Além disso, a segunda oportunidade se mostra na possibilidade documental de investigar a continuidade da escola de Três Barras e indicar ainda mais o percurso formativo de alguns alunos e alunas da mestra Chiquinha. Vida cotidiana entre aulas, festas e joias. Vida profissional escolar de lições diárias. Vida comercial em rede de parceria com tropeiros e tantos outros comerciantes do Norte de Minas. Tudo isso nos possibilitam as cartas encontradas ao acaso no Arquivo do Iphan do Serro e agora agrupadas em três blocos para contar a história da mestra Chiquinha Leite, entre a escola e o comércio.

Neste estudo nos propomos a analisar o primeiro bloco de cartas pertencentes a Joaquim Casemiro Lages, um dos mais importantes comerciantes de Diamantina e do Norte de Minas na segunda metade do século XIX, responsável pela edificação do maior mercado de tropas da região, que, depois de reformado e restaurado ao final do século XX, tornou-se equipamento cultural fundamental para a cultura local.

Joaquim Casemiro Lages: tropeirismo em Diamantina

Chiquinha Leite e seu irmão o major José Leite receberam desde muito cedo a proteção incondicional do negociante Joaquim Casemiro Lages. Prova disso é que, no dia 1º de janeiro de 1863, José Leite Teixeira agradeceu nas páginas do jornal diamantinense O Jequitinhonha ao seu padrinho, o tenente Lages, e dona Vicência da Silva os desvelos paternais em sua longa enfermidade (O Jequitinhonha, nº 99, 3.01.1863, p. 4). Alguns anos depois, José Leite, já casado, comprou sua casa e montou seu comércio em frente à moradia e comércio do tenente Lages, formando na Praça Barão de Guaicuí (atual Praça do Mercado) um circuito de chegada e saída de tropas provindas de Minas Novas, Inhaí e Mendanha por um lado, e do Rio Vermelho, Casa de Telha (atual cidade de Serra Azul de Minas), Itambé (atual cidade de Santo Antônio do Itambé), Serro, Três Barras, Capivari, Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras por outro.

As relações familiares entre Chiquinha e o major José Leite com os Lages parece anteceder à geração de seus pais. O tenente Lages era um homem mais velho em relação aos seus protegidos. Antes do nascimento de Chiquinha Leite, por volta de 1838, o primeiro mercado público de Diamantina já funcionava desde pelo menos 1835, construído pelo próprio tenente Lages, em lugar onde ele residia e comerciava, mantendo ali um rancho para os tropeiros (Martins, 2014).

O irmão de Chiquinha Leite nasceu e se tornou afilhado do tenente Lages. Ser afilhado de um grande negociante era fundamental para se colocar bem na sociedade diamantinense do século XIX. O costume de dar um dos filhos para o melhor amigo batizar era também uma forma de vincular socialmente os laços comerciais e de amizade entre as famílias. Os pais de Chiquinha e José se tornaram então compadre e comadre do tenente Lages. Isso talvez explique as fortes relações afetivas entre os protegidos do tenente Lages e o porquê da liberdade de Chiquinha em lhe pedir cartas para serem reutilizadas por seus alunos em Três Barras/MG. Relações familiares, relações de confiança, relações comerciais. Sociabilidades consagradas na pia batismal. Como afirma Botelho (2013, p. 292),

é inegável que afilhados constituíam recurso de poder importante de que dispunham os padrinhos. [...] Pais e padrinhos aparecem, na pia batismal, partilhando responsabilidades sobre a criança. Nesse sentido, ideologicamente, as distâncias sociais se minimizam. Simbolicamente, a hierarquia existente no compadrio de daria entre padrinhos e afilhados [...]. Mas pais e padrinhos em princípio são tidos nessa elação como “iguais”. Entre eles deveria haver solidariedade, na intenção do benefício das crianças. Era provavelmente a partir desse aspecto simbólico que afilhados e suas famílias geravam expectativas em relação aos padrinhos, sobretudo no que diz respeito à proteção de seus parentes rituais. Daí a escolha frequente dos padrinhos mais bem situados na hierarquia social e que, portanto, disporiam também de mais recursos, não só econômicos para proteger seus afilhados. Não é à toa que, até os dias atuais, padrinho e madrinha são utilizados para designar benfeitores.

No testamento do tenente Joaquim Casemiro Lages as relações de compadrio se confirmam. Pelo visto, muitos comerciantes próximos queriam estabelecer relações de compadrio com ele (Martins, 2007). É que o tenente Lages nasceu por volta de 1810 em Conceição do Mato Dentro, filho de dona Ana Maria da Assunção e do capitão Francisco Rodrigues Lages. Ele deixou em seu testamento de 16 de maio de 1889 algumas informações importantes sobre seu lugar na sociedade de Diamantina do século XIX. Católico, era irmão de compromisso das irmandades do Santíssimo Sacramento, da Ordem Terceira do Carmo, da Ordem Terceira de São Francisco, de Nossa Senhora do Amparo, de Nossa Senhora do Rosário e da Casa de Caridade de Diamantina. O tenente se dizia solteiro, mas assumiu que teve duas filhas: uma por nome de Maria Casemira da Silva Lages, que foi casada com Félix da Silva Pereira, e outra chamada Regina Maria Lages, residente à época em Itabira do Mato Dentro, ambas filhas de Maria de tal (Biblioteca Antônio Torres, 1889, Maço 99).

Depois das disposições pias iniciais como de costume, a parte financeira do seu testamento revela o patrimônio do tenente Lages: da sua terça parte deixou 100$000 réis para a Casa de Caridade de Diamantina; 200$000 réis para as netas de dona Josefina Augusta Vieira e filhas de dona Ana Augusta Pereira com João Avelino Pereira, em iguais partes para Carmelita e Maria Elgita; 100$000 réis para dona Angélica Augusta Vieira e os livros e o oratório; 300$000 réis em partes iguais para suas três netas filhas de Maria Casemira da Silva Lages; 100$000 réis para sua neta, filha de Regina Maria Lages; 100$000 para sua sobrinha Ambrosina, filha de sua irmã Beatriz com Coelho Linhares; 120$000 réis para sua afilhada Maria José, filha de dona Maria Salomé com Sebastião Alves Pereira; 100$000 réis para sua afilhada Maria Josefina, filha de Augusta Afonsina de Oliveira e Américo da Costa França; 100$000 réis para sua afilhada Ermelinda, filha de dona Maria Ambrosina da Silva com Francisco Domingues de Oliveira; 100$000 réis para sua afilhada Jacinta Cândida da Costa, filha de Antônia Cândida da Costa com Silvestre Amâncio da Costa; 600$000 réis para seus netos e netas filhos de Regina Maria Lages em divisão idêntica para todos; 400$000 para seu testamenteiro e o que sobrasse seria destinado para dez órfãs que o testamenteiro achasse necessitadas. Sua casa e rancho na Praça Barão de Guaicuí já tinham sido vendidos a Vicente Afonso pela quantia de 9:000$000 (nove contos de réis) cuja dívida devia ser paga em prestações para suas duas filhas herdeiras (Biblioteca Antônio Torres, 1889, Maço 99). Apenas pela apuração simples das disposições testamentárias chegamos à soma de 11:320$000 (onze contos, trezentos e vinte mil réis) do patrimônio do tenente Lages que se tornou dinheiro vivo para seus herdeiros.

O tenente Lages mantinha correspondência com Francisco José Veloso Soares, comerciante residente no distrito de Araçuaí, município de Minas Novas à época. No ano de 1854, Veloso Soares reconheceu juridicamente a paternidade de sua filha dona Alexandrina Ricarda Velosina Soares, amasiada com Agostinho José de Almeida, ambos residentes em Raimundo Fernandes de Souza (Biblioteca Antônio Torres, 1854, Maço 133). Sua vontade era de que, a partir da perfilhação, sua filha fosse legitimada como sua herdeira.

Quais as relações comerciais e pessoais ligavam o tenente Joaquim Casemiro Lages e seu amigo Francisco José Veloso Soares durante quatro anos de intensa troca de correspondências entre Diamantina e Araçuaí? Quem revela esse cotidiano comercial e familiar são as cartas transformadas em documento escolar da mestra Chiquinha.

O tenente Lages e Veloso Soares vendiam e compravam gêneros de todo tipo. Eram comerciantes estabelecidos nas suas localidades e dispunham de tropas para entregar e receber suas mercadorias, assim como receber e pagar as contas. As cartas mostram uma intensa troca de mercadorias entre as tropas ligadas a Veloso Soares e o tenente Lages. É provável que ambos também tivessem sido tropeiros em sua juventude e, com os lucros comerciais, puderam se estabelecer, montando seus próprios negócios a partir do amplo conhecimento das rotas tropeiras em direção a Minas Novas e adjacências. Tomemos por exemplo, o carregamento citado em carta de 08 de janeiro de 1860:

Meu amigo e Senhor depois de estimar sua boa saúde para avisar o recebimento da sua estimada de 20 de dezembro passado, ficando satisfeito com as vendas dos gêneros em tudo e por tudo, já diz o ditado, nem sempre assim, nem mesmo pior. Agora remeto-lhe 22 alqueires de boa farinha de mandioca. Um alqueire de goma que me dizem há falta e está com bom preço, 2 alqueires de milho – 4 barris de azeite – 4 alqueires de sabão; além da farinha já dita, vão mais 2 alqueires que não é devendo porque, 1 é para o amigo senhor Lages pôr na sua mesa, e outro é para o amigo Maia, assim como um barril de azeite por ter já encomendado, porém este é para pagar. Dizem-me que dá bom dinheiro nesse lugar um varal de marrecos, remeto-te casais e pato. Se umas encomendas que passo ao amigo Maia o dinheiro do barril de azeite não chegar, vossa senhoria dará o que faltar. Desejo a vossa senhoria continue a gozar sempre boa saúde e [fez] e que disponha com franqueza da sincera vontade de quem com pureza. Recebo as 50 varas de algodão segundo a quadra serve, e para ir remediando enquanto não vem mais oitenta que quando aparecer aí vossa senhoria me fala o favor, escolher e comprar (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/01/1860).

A carga da tropa levou de uma só vez para Diamantina 22 alqueires de farinha de mandioca da boa, 1 alqueire de goma, 2 alqueires de milho, 4 barris de azeite, 4 alqueires de sabão, marrecos e patos. Além disso, eles negociaram 50 varas de algodão. A conta é bastante simples: 1 alqueire de farinha pesa atualmente cerca de 60 quilos, ou seja, se eram 22 alqueires o total daria cerca de 1.320 kg; já o alqueire de milho, por exemplo, correspondia a 75 kg, somando nesse envio 150 kg. O mais são medidas relativas ao contexto do século XIX, como por exemplo, o barril ou pipa de azeite que podia girar em torno 250 litros. Os comerciantes usavam o serviço de transporte dos tropeiros para fazerem transitar suas mercadorias de um lugar ao outro do Norte de Minas, pois esses tropeiros eram profissionais que exerciam o transporte de todo tipo de mercadoria, incluindo gêneros alimentícios (secos e molhados), materiais de toda sorte, animais e também escravos por meio de muares e montados em cavalos. Os tropeiros trabalhavam em rotas comerciais que dinamizaram o abastecimento das populações mineiras desde o século XVIII até metade do século XX. Nesse sentido, promoviam a interligação das mais remotas localidades mineiras às grandes cidades do oitocentos – Minas Novas, Diamantina e Serro –, especializando-se em encomendas e transações comerciais de todo tipo.

Não se deve esquecer de que, por conta das tropas, as mercadorias chegadas aos portos do Rio de Janeiro e de Santos de toda parte do mundo alcançavam as mais distantes localidades mineiras. Os tropeiros eram o último elo de transporte de mercadorias dos produtores locais e das grandes empresas internacionais que operavam nos portos brasileiros. Na carta de 08 de janeiro de 1860 encontra-se um exercício de cópia da descrição das operações elementares de somar, subtrair, multiplicar e dividir, sem nome e sem data (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/01/1860).

As relações entre o tenente Lages e Veloso Soares continuaram em outra carta:

Ilustríssimo Senhor Joaquim Casimiro Lages - 12 de março de 1861

Meu prezado amigo e senhor, primeiro que tudo estimarei que vossa senhoria esteja na posse de perfeita saúde, e que assim continue sempre. Recebi tudo quanto me veio a viagem passada, e com tudo fiquei satisfeito; agora remeto-lhe 32 alqueires de fubá, 18 botelhas de azeitinho em 4 latas contando 4 ½ cada lata e 42 morangas alto e mais para se vender pelo o estado, não entrando outras que vão destinadas para seu uso, 6 pas e 4 melancias e uns quiabos a vossa senhoria, outras para o Maia e minha comadre Maria que tudo vai recomendado o Gervásio para fazer essa entrega, porque sei quanto é apreciável na cidade essas miudezas da roça; o azeitinho é para vender pelo estado, e desejo saber o estado do toucinho para mandar o capado a estes que principie os frios para ele não desmerecer; e me remeterá 12 [...] de bacalhau ficando tudo pago e assim mais os remédios constantes desse assento incluso; assim como peço a vossa senhoria queira me esclarecer que novidade há sobre as notas do tesouro que corre por aqui há dúvida sobre elas, para minha inteligência; e se há também alguma coisa sobre a casa bancária. Aqui fico como sempre a disposição de vossa senhoria como quem é com estima. P.S. - Agora me dizem que o toucinho está a 5 [$ r] e a 6 [$ r], e pedem-se 2 a vossa senhoria queiram mandar-me 1 pano que [preço] ao 2 pouco mais ou menos, e uma bruaca de sal (Iphan Serro, Doc. 39. Cx. 14, 12/03/1860).

As mercadorias transitadas entre Araçuaí e Diamantina com a carta de 1860 são dos mais variados tipos, indo do fubá, azeitinho, melancias, quiabos, sal, remédios até bacalhau. Mas outra informação chama nossa atenção: trata-se das operações bancárias. Os comerciantes estavam interessados em dominar o assunto das notas do Tesouro Nacional. Isso significa que os rendimentos dos comerciantes eram reinvestidos em casas bancárias, uma forma de corrigir o valor monetário frente à inflação. Nesse tipo de comércio era fundamental ter capital de giro para adquirir muita mercadoria de uma vez – na maioria das vezes de produtores locais –, a fim de revendê-la para outras praças, para que assim todos obtivessem seus lucros com as vendas. Na carta de 12 de março de 1860, encontramos o exercício de cópia sobre a lição “As cousas do mundo”, de autoria do aluno Carlos da Costa Coelho, datado de 08 de julho de 1880. Trata-se de uma lição moral e de língua portuguesa ao mesmo tempo, inúmeras vezes na escola da mestra Chiquinha Leite (Iphan Serro, Doc. 39. Cx. 14, 12/03/1860).

Em outra carta do dia 08 de maio de 1861, Veloso Soares prosseguiu em seu comércio com o tenente Lages e seu amigo Maia, ambos de Diamantina:

Meu prezado amigo e senhor estimo sua saúde e que continue sempre vigorosa tanto quanto lhe desejo; remeto-lhe 12 alqueires de arroz – 7 ½ de feijão – 3 ½ [dos] de fubá 10 barris de azeite, e um mais que vai separado amarrado de azeitinho que levou 30 botelhas daqueles antigas grandes, e não destas pequenas de patente; sei que o Rodrigo mandou encomendar cá para a Penha uns barris de azeitinho e que pagava a 1 [$ r] a botelha; vossa senhoria mande o trazer a ele que ficando com esse fica bem servido porque vai muito perfeito e quando o não queira, na botica do [Lepa] que sempre foi bom freguês [assim] vão mais 29 botelhas em 6 folhas a saber quatro folhas das mais pequenas levam 4 ½ cada uma, uma maior delas todas com 6 B. e a outra que vai com marca de papel com 5 B. que assim faz o número de 29 B. Vossa Senhoria fará o favor dar ao Maia a conta que ele pedir, e me mandar um saco de sal, e 8 [...] de bacalhau, vão uns sacos de quiabos que o Gervasio vai recomendado para fazer entrega (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/05/1861).

A cada carregamento, uma carta estabelecia outras tantas sociabilidades. A distribuição das mercadorias ia, ao que parece, muito além do mero comércio, fazendo parte do processo pequenos agrados e a confirmação de relações de afeto e de confiança entre os comerciantes e os tropeiros. Era uma verdadeira rede de negócios e sociabilidades, mantidas cotidianamente por conta da necessidade de lucros comerciais, mas também por conta da prática de valores reconhecidos como importantes nessas transações, como o respeito, a capacidade de negociação, a honradez e o cumprimento do que estava escrito nas cartas. Cada carta tinha um carregamento (mercadorias) e um encarregamento (sociabilidades): mercadorias que encarregavam compromissos sociais mútuos. Nessa carta encontra-se o exercício de cópia de descrição das operações matemáticas elementares do aluno Antônio Cardoso, realizado no dia 29 de dezembro de 1887 (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/05/1861).

Na carta da carregação da tropa do dia 06 de fevereiro de 1862, Veloso Soares elogia a capacidade de negociação do tenente Lages para a venda do feijão de safra ruim:

Meu prezadíssimo amigo e senhor, depois de estimar a continuação de sua boa saúde, sou a dizer-lhe que fiquei satisfeito com as vendas dos gêneros a viagem passada, que o feijão segundo está um tanto [furado] julguem não alcançar tanto. Agora remeteu-lhe 5 alqueires de arroz, 1 Bo de feijão são, e 26 ½ alqueires de fubá, se houver bacalhau são e bom, me fará obséquio mandar ½ arroba, e assim mais dar ao amigo Maia a quantia que lhe pedir para pagar-se do que lhe estou devendo; torno avisar a vossa senhoria não se esquecer da encomenda da pendula tal qual a sua, que é traste indispensável em casa de família (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 06/02/1862).

Nessa carta, Veloso Soares denomina relógio de parede ou carrilhão de “pendula”. É o mesmo relógio com pêndulo e pesos, já encomendado anteriormente. O interessante é a explicação de que esse relógio seria um traste importante – objeto de uso caseiro –, indispensável em casa de família. Entende-se que o relógio de parede, além de marcar o compasso do tempo das atividades caseiras, também era objeto que demonstrava certa ilustração, pois exigia certa habilidade de leitura dos números para sua codificação. Além disso, no século XIX era comum que a reforma dos pesos e medidas – o relógio também era um medidor de horas – fosse tratada como uma adequação aos mercados dos grandes centros urbanos do Brasil e do Exterior. Nessa carta está escrita a lição moral “As cousas do mundo”, de autoria do aluno Joaquim Bernardo da Silva Torres, da escola de Três Barras (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 06/02/1862).

A carta do dia 16 de junho de 1862 completa ainda mais o quadro de informações sobre os negócios de Veloso Soares no Araçuaí:

Meu prezado amigo e senhor, muito estimarei que esta ache a vossa senhoria com vigorosa saúde, e que assim continue como lhe desejo; agora é que vais a minha tropa tendo tido sua demora por que mandei buscar uma condução de sal ao Mucuri, e não mando levar algum sal por dizerem que aí agora está barato e não me faz conta vendê-lo assim, fico esperando algum [...] de bom preço para aproveitar; remeto-lhe agora 4 alqueires de arroz, 6 [...] de feijão, 3 [...] de goma, a saber, 2 ½ de goma clara boa, e ½ mais trequeira dessa chamada avoadeira, e 7 alqueires de mangaritos para serem vendidas indo ¼ para vossa senhoria e mais outro para outras pessoas que o Gervasio vai incumbido para entregar; vossa senhoria fará o favor dar ao amigo Maia o dinheiro que ele pedir para a conta que lá devo, e assim o que pedir meu afilhado Agostinho para a compra de uns couros que preciso (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 16/06/1862).

Nessa carta ficamos sabendo como Veloso comprava o sal. Ela enviava suas tropas – ou alugava – para o Vale do Mucuri, provavelmente para a região próxima à atual cidade de Teófilo Otoni, para comprar em maior quantidade e revender nos mercados do Norte de Minas. Tudo indica que o mercado do Mucuri importava a preços módicos o sal – talvez do porto do Rio de Janeiro – que podia ser revendido pelo comerciante do Araçuaí com boa margem de lucro. A rede de comerciantes não conhecia limites geográficos. O mangarito era usado para agradar seus amigos. O comerciante Maia aparece mais uma vez como fornecedor de produtos – talvez o vinho – que interessavam e muito a Veloso Soares. Nessa carta reaproveitada na escola de Três Barras pela mestra Chiquinha Leite, há o registro da lição moral “As cousas do mundo”, e de “Trabalhai, pois, caros meninos”, do aluno Sebastião de Medeiros (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 16/06/1862).

Observando com mais demora o formato das cartas, fica bem claro que Veloso Soares havia aprendido na escola como formalizar uma correspondência comercial. Usou sempre o mesmo padrão: uma saudação inicial de estima pela saúde do destinatário, a relação dos produtos enviados, as providências de pagamentos e recebimentos, indicação das demandas para a próxima remessa e a saudação final com a assinatura.

Na carta do dia 25 de dezembro de 1862, Veloso Soares revela como se davam as relações de confiança para os pagamentos e a entrega do dinheiro dos carregamentos. Em certo momento, como se lê em seguida, ele explica que o dinheiro ia dentro da carta e era conferido diante do seu afilhado Agostinho. Faltando uma certa quantia de 20$000, ele revela como era o processo das contas:

Meu estimadíssimo amigo e senhor, tenho presente a estimada carta de vossa senhoria de 20 do presente vinda pela tropa que muito estimei pela certeza de sua boa saúde; e muito satisfeito fico sempre das vendas dos meus gêneros por intermédio de vossa senhoria do que lhe sou muito obrigado; porém vou lhe participar um engano que desta vez houve contra mim de 20$000 que foi infalivelmente no contar do dinheiro porque a carta chegou com o [fino] de duas [...] perfeitamente fechada, constando da lista das vendas descontado as quantias distribuídas por partes, remeter-me vossa senhoria 96$000, e os duzentos réis que veio com o Gervasio, e abrindo em a carta só achei 76$000 e os duzentos, que consta de 2 notas de 20$000, 2 de 10$000, 3 de 5$000, e 1 de 1$000, faltando para os 96$200 – 20$000 como presenciou meu afilhado Agostinho. Vai o [por ] para trazer o cavalo que aí ficou doente, e eu responsável pela dívida que vossa senhoria tiver feito com o tratamento dele, que me fará obséquio fazer assento que quando for a tropa será pago, e por tudo a vossa senhoria muito obrigado fico e confessarei como sempre (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 25/12/1862).

Na carta fechada havia a relação das vendas: depois de todas as contas pagas, o tenente Lages devia colocar junto da carta 96$000 réis, mas havia apenas 76$000 réis. Além disso, outro valor de 200$000 réis havia sido conduzido pelo Gervásio, o responsável pela tropa. Numa ida a Diamantina, com todas as contas feitas – pagamentos e recebimentos – sobraram para Veloso Soares quase 300$000 réis. Considerando essa conta, se por mês Veloso Soares conseguia enviar pelo menos quatro carregamentos nas tropas ele arrecadava cerca de 1:200$000 (1 conto e 200 mil réis) com o mercado de Diamantina. Isso sem contar suas vendas para outras praças. Um rendimento mensal de cerca de R$ 147.600,00 envolvia sua amizade com o tenente Lages. Quantas outras relações como essa eram estabelecidas ao mesmo tempo por Veloso Soares? Impossível saber apenas pela leitura das cartas da escola da mestra Chiquinha Leite. Nessa carta encontram-se os registros de dois exercícios da aluna Júlia Marques de Siqueira. O primeiro, datado de 18 de maio de 1889, é uma cópia das operações matemáticas básicas; o segundo, datado de dois dias depois, 20 de maio, é uma cópia da lição moral “As cousas do mundo” e “Trabalhai, pois, caros meninos” (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 25/12/1862).

No dia 08 de fevereiro de 1863, descobrimos que o mais importante da tropa de Veloso Soares, de nome Gervásio, era na verdade, seu escravo:

Meu estimadíssimo amigo e senhor. Estimarei que vossa senhoria esteja na posse de perfeita saúde, e que assim continue tanto quanto lhe desejo vai a nossa tropa, e já vou sentindo a falta do nosso escravo Gervasio que tanto me custava para pô-lo no estado que ele se achava que bem me descansava; me sinto a sua falta, e pesar de o ver assim, e me sinto a falta do seu braço que bem se tem abatido, quando deve de dar louvores a Deus por escapar com a vida que eu já considerava perdida, que por mais um dia que demorasse o doutor não o poda salvar; não está ainda são porque a ferida não ligou no meio do braço, porém promete breve estar são; vai meu afilhado Agostinho com a tropa levando 10 alqueires de fubá, 8 barris de azeite, 2 alqueires de feijão novo e 20 sacos de sal que desejo ache o menos o preço de 8$000, rogo a vossa senhoria ajudá-lo na venda principalmente do sal indo o mesmo com algum pequeno prato ou se achar que ele encostado virá a dar esse preço me fará o favor encostá-lo e promover a venda, senão por [mim] alguma coisa dos 8$000 com será que se venda porque para a outra viagem tenho mais a mandar; vossa senhoria se pagará do que fiquei lhe devendo da despesa do cavalo, e do bom vinho que deve vir nesse garrafão. Remeto-lhe 6 melancias que de miudezas de roça é uma das boas estimarei cheguem perfeitas e não como da outra vez (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/02/1863).

O ferimento no braço do escravo Gervásio quase lhe tirou a vida. O médico salvou sua vida. Mas por que tanta preocupação com um escravo para um rico comerciante de Araçuaí? A questão deve ser compreendida no contexto da economia da escravidão: Gervásio havia sido treinado para a condução das tropas para que seu proprietário ficasse em casa comerciando ou livre para fazer outras tarefas; ele tinha um valor diferenciado dos outros escravos pelo aprendizado do funcionamento das tropas. Era um escravo que provavelmente sabia ler e escrever, sabia negociar com outros comerciantes de seu patrão e dominava os caminhos das tropas pelas serranias, elemento fundamental para a segurança de todos os tropeiros. Ao que tudo indica, Gervásio substituía o próprio Veloso Soares nas tropas, sempre acompanhadas de seu afilhado Agostinho. Nessa carta encontramos o exercício de cópia da lição moral “As cousas do mundo”, do aluno Carlos da Costa Coelho, sem data (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 08/02/1863).

Na carta de 04 de janeiro de 1864, Veloso Soares manteve a cordialidade de sempre, reportando-se ao ano novo com votos de que não houvesse assassinatos de proprietários por seus escravos:

Meu prezadíssimo amigo e senhor, muito boa saúde, festas e estas lhe desejo com a entrada do novo ano, e que [sejam] anos mais felizes de incômodo, de moléstias e desastres e assassinados como foi o passado; o assassinato de Leonardo da Barra, pelo o seu escravo já produziu outro; vésperas do ano bom aqui nos meus vizinhos do Tambori, João Batista italiano casado com a filha do finado Joaquim da Rocha foi assassinado pelos escravos. Remeto 36 ½ alqueires de boa farinha de mandioca estimarei que alcance bom preço de 6$000 como me disseram que a pouco se vendeu, além destes vão mais 2 alqueires que o Gervasio entregará um a vossa senhoria que lhe faço mimo e o outro ao nosso Maia, a quem vossa senhoria entregará o dinheiro que ele pedir para as encomendas que lhe faço; vai mais 13 ¼ alqueires de boa goma que me dizem está com bom preço e por isso diminui dois alqueires e meio de farinha nos 36 ½ acima dito ficando farinha de mandioca 34 alqueires (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 04/01/1864).

As relações entre os senhores e seus escravos recebeu a atenção de Veloso Soares por conta do receio de que o gesto de matar seus proprietários se tornasse comum. Isso colocaria em risco a base da economia da escravidão que era a obediência e submissão ao cativeiro ou a negociação da alforria pela via na coartação, o que poderia gerar lucros para os donos de escravos. Nessa carta temos duas lições escritas pela aluna Júlia Marques de Siqueira, em que ela repetiu exaustivamente a escrita de “As cousas do mundo”, nos dias 1º e 3 de março de 1889: “As cousas do mundo são como a lua que nunca permanece da mesma maneira antes para cada dia tem a sua figura. [...] Aula pública Três Barras 1 de março de 1889” (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 04/01/1864). A última carta de Francisco José Veloso Soares usada como folha de exercícios de caligrafia na escola mista de Três Barras pela mestra Chiquinha Leite data de 10 de maio de 1864. Contudo, a carta ficou ilegível com o passar do tempo. Restou legível apenas um exercício do aluno Sebastião de Medeiros. A lição do dia era copiar a máxima moral “As cousas do mundo” com perfeição (Iphan Serro, Doc. 39, Cx. 14, 10/05/1864).

Nas 20 cartas doadas pelo tenente Joaquim Casemiro Lages para reutilização como material escolar na sala de aula dos alunos da mestra Chiquinha Leite em sua escola de Três Barras, o maior número pertencia a Francisco José Veloso Soares, num total de 16. As outras quatro cartas do tenente Lages foram enviadas por Antônio José de Queirós e correspondem aos anos de 1863 a 1864.

Sobre o comerciante Antônio José de Queirós, pouca coisa sabemos pela falta de documentos em arquivos públicos de Diamantina ou do Serro. Isso se explica pela forma de negociação entre o tenente Lages e o Queirós, uma vez que ao que parece, a principal transação comercial entre eles era de café, provindo da atual cidade de Passa Tempo, que na época das cartas pertencia ao município de Oliveira, distrito criado com a denominação de Passa Tempo, pelo Decreto de 14/07/1832, e Lei Estadual nº 2, de 14-09-1891, subordinado ao município de Oliveira. Elevado à categoria de vila com a denominação de Passa Tempo, pela Lei Estadual nº 556, de 30-08-1911, desmembrado de Oliveira. Elevado à condição de cidade com a denominação de Passa Tempo pela Lei Estadual nº 893, de 10-09-1925. As sociabilidades do Queirós eram distantes de Diamantina, por isso nada de documentos de fórum ou compras de imóveis.

A segunda carta (incluindo seu anúncio), que restou do arquivo da escola da mestra Chiquinha Leite trocada entre Antônio José de Queirós e o tenente Lages de certa maneira retoma nossa argumentação em torno das idas e vindas em relação à mentalidade dos chamados “liberais” em relação à manutenção da escravidão no Brasil. Nesse caso, como já analisado, o jornal O Jequitinhonha, de Diamantina, principal porta-voz dos liberais no Norte de Minas, oscilava entre uma defesa aberta da escravidão e ao mesmo tempo a publicação de anúncios de escravos fugidos. A carta do Queirós evidencia essa ambiguidade dos anos 1860:

Ilustríssimo Senhor Joaquim Casemiro Lages.

Passatempo, 21 de Junho de 1864.

Não sei se meu amigo terá ido ao jubileu, e se foi: boa [ento] feliz [deiagm] de coração lhe desejo. Leva o Firmino 64 arrobas de café, em 2 de cará, e peço o seu favor a respeito, e quando vossa senhoria só tiver de falar da venda e remessa carta vir a lista que toma o trabalho de fazer poupando o trabalho da carta que bem só pode dispensar entre amigos e de mais a coisa é muito respeitada, e às vezes ou quase sempre em ocasiões muito apertadas remeto para ter a bondade mandar publicar no Jequitinhonha esse anúncio acerca do tal escravo fugido e pode ser repetido 2 ou 3 vezes. Sou com toda a consideração. De vossa senhoria. Amigo certo e obrigado. Antonio José de Queiroz (Iphan Se-Dc, Doc. 46, Cx. 15, 21/06/1864).

Réis 800$000

O abaixo assinado se obriga a doar oitocentos mil réis em dinheiro corrente a quem lhe apresentar o seu escravo José, pardo escuro, idade hoje 34 anos, alfaiate e carrieiro, boa estatura, com certo jeito nas costas com sinais de ventosas na barriga pisando papagaio, comprado no Sincorá ao senhor Rego, e fugiu a treze [...] para os sertões da Bahia. Cidade do Serro, 24 de junho de 1864. Antonio José de Queirós (Iphan Serro, Doc. 46, Cx. 15, 24/06/1864).

O anúncio encomendado para publicação no jornal O Jequitinhonha se insere na mentalidade escravista oitocentista. Era comum que anúncios de recaptura circulassem por várias cidades e o prejuízo do proprietário fosse ressarcido com a devolução do escravo fugido. Mas o que chama a atenção no anúncio solicitado é o valor da recompensa. Trata-se de um escravo que possuía habilidades tão específicas que fez seu proprietário oferecer o valor de 4 escravos novos para tentar recuperá-lo. Alfaiate, carrieiro, boa estatura, leitor e escrevente, o escravo José não era um qualquer, mas conhecido por suas habilidades ou ofícios. Seus ofícios valiam dinheiro. O que está em jogo também é perceber que na economia da alforria, José podia perfeitamente pleitear sua libertação em pagamentos combinados com seu senhor. Parece que essa opção não estava em jogo, o que em grande medida pode ter contribuído para a fuga de José. Algo de melhor estava no horizonte do escravo denunciado como fugitivo.

A carta e o anúncio do Queirós passaram pelas mãos dos alunos da escola da mestra Chiquinha Leite de Três Barras. A carta recebeu exercícios de cópia da lição moral chamada “Trabalhai enquanto sois moços”, sem registro do nome do aluno, além de outra lição moral com o título “A vida do homem útil”, de autoria do aluno João José Lira (Iphan Serro, Doc. 46, Cx. 15, 21/06/1864). Ambos exercícios foram escritos em 1885. O anúncio era anexo à carta e recebeu também um exercício de cópia da lição moral “Um menino dócil”, do aluno Joaquim Vieira Lopes, sem data: “A vida do homem útil por mais curta que seja assemelha-se a um precioso metal que mostra grande [peso] em um pequeno volume 1 2 3 4 5 6 7 8 9 0 A preguiça é um pecado mortal, o homem preguiçoso não pode ser feliz Joaquim Vieira Lopes” (Iphan Serro, Doc. 46, Cx. 15, 24/06/1864).

Quadro 1: Cartas de Joaquim Casemiro Lages (1860-1864) e exercícios de alunos (1880-1889)

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de descrição das operações, sem nome

08-01-1860

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de descrição das operações Carlos

15-02-1861

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia “As cousas do mundo”, de Carlos da Costa Coelho

12-03-1861

08-07-1880

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício sem nome

05-04-1861

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercícios de cópia de “As cousas do mundo”, de Joaquim Bernardo da Silva Torres

06-02-1862

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia da descrição das operações, de Antonio Cardoso

08-05-1861

29-12-1887

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia da descrição da operação de somar, lição “As cousas do mundo” e “Trabalhai, pois, caros meninos”, de Sebastião de Medeiros

16-06-1862

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia definição de pesos e medidas de Gonçalo

25-09-1861

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, sem nome

06-10-1862

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de “As cousas do mundo” de Joaquim Bernardo da Silva Torres

08-12-1862

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

  1. Exercício de cópia de descrição as operações, de Júlia Marques de Siqueira
  2. Exercício de cópia de “As cousas do mundo” e “Trabalhai, pois, caros meninos”, de Júlia Marques Siqueira

25-12-1862

18-05-1889

20-05-1889

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Carlos da Costa Coelho

08-02-1863

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

  1. Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Joaquim B. da Silva Torres
  2. Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Carlos da Costa

28-03-1863

[sem data

04-04-1884

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, sem nome

19-07-1863

[sem data]

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

  1. Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Júlia Marques de Siqueira
  2. Idem

04-01-1864

01-03-1889

04-03-1889

Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages [Doc. 39, Cx. 14]

Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Sebastião de Medeiros

10-05-1864

04-03-1889

Antônio José de Queirós a Joaquim Casemiro Lages [Doc. 42, Cx. 15]

Exercício de cópia de sistema métrico, de Júlia Marques de Siqueira

20-03-1863

20-01-1889

Antônio José de Queirós a Joaquim Casemiro Lages [Doc. 46, Cx. 15]

  1. Exercício de cópia de “Trabalhai enquanto sois moços”, sem nome
  2. Exercício de cópia de “A vida do homem útil”, de João José Lira

21-06-1864

[sem data]

08-07-1885

Antônio José de Queirós a Joaquim Casemiro Lages [Doc. 38, Cx. 14]

Exercício de cópia de “Um menino dócil”, de Joaquim Vieira Lopes

24-06-1864

[sem data]

Antônio José de Queirós a Joaquim Casemiro Lages [Doc. 38, Cx. 14]

  1. Exercício de cópia de “As cousas do mundo” e “Trabalhai enquanto sois moços”, de Júlia Marques de Siqueira
  2. Exercício de cópia de “As cousas do mundo”, de Marcos
  3. Exercício de escrita de carta, de Júlia Marques de Siqueira

12-09-1864

[sem data]

02-03-1889

11-03-1889

Obs.: Os números identificam o documento original no Arquivo do Iphan do Serro; as letras descrevem os exercícios dos alunos.

Fonte: Iphan Serro.

Figura 1: Mercado Municipal de Diamantina em reforma, 1938/1940

Fonte: Queiroz, 2010.

Figura 2: Mercado Municipal de Diamantina, c.1940, Eric Hess

Fonte: Queiroz, 2010.

Considerações finais

Chiquinha Leite colocou sua escola mista no povoado de Três Barras depois de sua aprovação em concurso público promovido pela Inspetoria da Instrução Pública da Câmara Municipal do Serro por volta de 1882. A escola da mestra Chiquinha funcionou em sua casa na atual Rua Bela Vista – comprada com seu próprio dinheiro – no período entre 1884 a 1901.

A mestra Chiquinha dedicou 17 anos de sua vida aos seus alunos de Três Barras. Sua remuneração anual era paga pela Província de Minas Gerais na Coletoria do Serro, para onde ela se deslocava para assinar o recibo de seu pagamento. Durante 17 anos indo e voltando de Três Barras para o Serro, ela era conhecida dos comerciantes e havia criado sua rede de sociabilidades na Inspetoria da Instrução Pública e com os homens do poder da Câmara Municipal, uma vez que, como professora da cadeira pública, ela tinha contato com os pais dos seus alunos, a maioria eleitores qualificados, aptos a eleger vereadores, deputados e senadores. A mestra Chiquinha, assim como o padre e os fazendeiros de Três Barras, tinha seus candidatos e devia, obviamente, fazer campanha para eles, apesar de mulher ainda não poder votar. A mestra Chiquinha era uma autoridade local e dispunha de prestígio político pelo cargo e pela proximidade com as famílias dos eleitores.

Durante os 17 anos de sua permanência em Três Barras, Chiquinha Leite negociava mercadorias com o Rio de Janeiro (ela compreendia e operava essa rota comercial e os caminhos até Três Barras, usando sua boa relação com os tropeiros) e principalmente operava seu comércio acionando a rede de contatos com os tropeiros do Norte de Minas, ligada diretamente ao seu irmão José Leite Teixeira e ao tenente Joaquim Casemiro Lages, ambos de Diamantina. Mas se equivoca quem pensa que a rede comercial de Chiquinha Leite acionava apenas tropeiros próximos a Três Barras, pois os documentos dão conta de suas relações de pequenos favores (compra e construção de moinhos, encomendas específicas de facão e foice, encomenda de joias de ouro), compra de terras e fazendas, negociação de gado bovino praticamente em todo o Norte de Minas, para ser mais exato, do Rio Vermelho até Inhaí, ou seja, passando por Casa de Telha, Itambé, Serro, Capivari, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras, Diamantina e São João da Chapada.

O processo de efetivação das parcerias comerciais se dava de duas maneiras: primeiro, por compra direta dos fazendeiros de Três Barras e envio por tropas contratadas por pagamento de carreto para o mercado de tropas de Diamantina; essa rota deve ter sido a mais lucrativa para ela; segundo, pela compra direta do Rio de Janeiro (a carta dos charutos mostra isso) e produtores locais e distribuição por encomenda onde houvesse rancho de tropas, ou seja, em praticamente todo o Norte de Minas. Ela não precisava estar nos lugares para realizar suas vendas, uma vez que da encomenda de seus clientes até o recebimento do dinheiro em suas mãos, ela usava a mão de obra dos tropeiros, com quem mantinha estreitas relações desde sua juventude por conta do tenente Lages e mesmo de seu irmão José Leite.

Além do mais, o comércio de Chiquinha Leite usando a rede de tropeiros pelos caminhos das serranias era uma atividade bastante lucrativa – ela não produzia diretamente as mercadorias, mas comprava e repassava com seu lucro garantido – e se somava ao rendimento fixo de sua escola mista de Três Barras. Foi essa habilidade de negociar com tropeiros e lecionar para seus alunos que marcou sua vida durante os 17 anos de professora de escola pública no povoado que estava entre grandes dois grandes mercados públicos, o do Serro e o de Diamantina. Dessa forma, compreendemos melhor como era o cotidiano da mestra Chiquinha, uma vez que ela tinha duas atividades remuneradas diárias – um olho nas tropas, outro nos alunos – e precisava manter seus contatos em dia, o que justifica sua ida regular a Diamantina para a semana santa (as joias compunham seu traje de mulher rica e capaz de pagar suas contas e garantir seus negócios) e ao Serro para receber seu salário (sua autoridade local importava para os homens do poder eleitos por voto direto dos eleitores qualificados de Três Barras).

Não encontramos nos arquivos públicos pesquisados qualquer reclamação sobre faltas ou questões morais ligadas à mestra Chiquinha Leite. Ela, de fato, foi se tornando “dona” Chiquinha: mulher adulta, solteira, católica, rica, autônoma, funcionária pública respeitada e politicamente influente na sua comunidade (Silva, 2017, p. 173-180). Talvez seja interessante usar a expressão “dona do próprio nariz”, ou seja, Chiquinha Leite, mesmo numa sociedade patriarcal, regida pelo sistema do padroado e pelo sistema das mercês, conseguiu criar seu espaço de atuação em redes de sociabilidades de alta complexidade espalhadas pelo Norte de Minas, muitas vezes protegida, claro, por “homens de negócio” – seu irmão e seu protetor –, mas aparentemente confortável nessa posição social de independência, autonomia e livre circulação pelo território mineiro dominado pelo mandonismo de coronéis, padres, políticos e inspetores escolares.

A convivência dos moradores do Norte de Minas com economia do ouro e do diamante desde o século XVIII parece ter proporcionado certa legitimidade para a atuação de Chiquinha Leite na rede de tropeiros e comerciantes do século XIX. Isso se explica por uma lógica interna dessa economia: o que vale não é objetivamente quem detém o recurso financeiro, mas quanto desse recurso estará disponível para as negociações. Dito de outra maneira: Chiquinha Leite possuía capital financeiro para investimento, bem como propriedades (casas, gado, joias, fazenda) e bens de família (o irmão era rico comerciante em Diamantina) para garantir suas transações comerciais. Ela tinha dinheiro, e, na economia do ouro e do diamante, o dinheiro se faz linguagem universal, independentemente da cor, do gênero e do estado civil.

Assim, podemos concluir, com base na leitura pormenorizada das cartas/exercícios escolares, o que estava subentendido em suas entrelinhas.

Primeiro, Chiquinha Leite e mesmo os tropeiros operavam comercialmente com a mão de obra escrava, como era comum à época. Ela deve ter sido afetada diretamente, assim como os tropeiros mais ricos, com a Abolição da Escravidão, pois perdeu mão de obra doméstica (serviçais, mucamas, escravos de ganho) e auxiliar em seus carregamentos (carrieiro, encarregado, mensageiro etc.). Além disso, com o fim da escravidão, perdeu importante ativo financeiro de alta liquidez para seus negócios. Aos tropeiros, fique claro, os escravos também eram mercadoria e eram levados e vendidos como tal. Infelizmente não temos cartas que contem a relação dela com seus escravos, apenas uma carta restou de um amigo do tenente Lages pedindo para publicar no jornal O Jequitinhonha um anúncio de seu escravo fugido no exorbitante valor de 800$000 réis e outra que dava conta do escravo Gervásio como responsável pela tropa de Francisco José Veloso Soares. Os participantes da economia escravista nunca foram anônimos, exceto quando o tema se tornou um tabu social.

Segundo, dona Chiquinha vivenciou a transição da Monarquia brasileira para a República de viés positivista. Ela procurou, imediatamente, compreender a situação, marcando um encontro com o inspetor da Instrução Pública do Conselho de Intendência do Serro. Não houve sucesso imediato, mas a conversa deve ter acontecido, pois a “dona” Chiquinha era uma autoridade local em Três Barras. Ela repactuou com a nova elite política serrana, muitos dos antigos monarquistas “viraram a casaca” tornando-se republicanos de primeira hora, para reposicionar-se no cenário de instabilidade. Não podemos nos esquecer de que seu irmão estava ligado em Diamantina aos liberais ou “luzias”, que tardiamente comandavam as ações do Império de D. Pedro II.

Por fim, a mestra Chiquinha Leite era quase invisível na sociedade patriarcal das serranias do século XIX. Não fosse a economia do ouro e do diamante, chão estruturante de sua existência, onde a lei da posse do dinheiro predominava, ela ficaria ainda mais invisibilizada como professora de Três Barras. Ela se fez visível como a joia de ouro que levava ao pescoço nas festas públicas em Diamantina, uma verdadeira metáfora cotidiana de sua valorização como mulher, negociante e professora pública municipal.

Referências

ARQUIVO IPHAN DO SERRO. Documentos avulsos. Escola Mista de Três Barras (cartas e exercícios escolares). Bloco Joaquim Casemiro Lages. Cartas de Francisco José Veloso Soares a Joaquim Casimiro Lages: Doc. 39, Cx. 14, 08/01/1860, 15/02/1861; 12/03/1861; 05/04/1861; 06/02/1862; 08/05/1861; 16/06/1862; 25/09/1861; 06/10/1862; 08/12/1862; 25/12/1862; 08/02/1863; 28/03/1863; 19/07/1863; 04/01/1864; 10/05/1864.

ARQUIVO IPHAN DO SERRO. Documentos avulsos. Escola Mista de Três Barras (cartas e exercícios escolares). Bloco Joaquim Casemiro Lages. Cartas de Antônio José de Queirós a Joaquim Casemiro Lages: Doc. 42, Caixa 15, 20/03/1863; Doc. 46, Caixa 15, 21/06/1864; Doc. 46, Caixa 15, 21/06/1864; Doc. 38, Caixa 14, 24/06/1864; Doc. 38, Caixa 14, 12/09/1864.

BIBLIOTECA ANTÔNIO TORRES. Documento de Francisco José Veloso Soares. Perfilhação: Francisco José Veloso Soares [1º ofício], 1854, Maço 133.

BIBLIOTECA ANTÔNIO TORRES. Documento de Joaquim Casemiro Lages. Testamento: Tenente Joaquim Casimiro Lages [1º ofício], 1889, Maço 99.

BIBLIOTECA NACIONAL. Hemeroteca. O Jequitinhonha, nº 99, 3.01.1863.

BOTELHO, Silvia Maria Jardim. Compadrio e patriarcalismo: relações familiares e de poder (São João del-Rei, 1780-1850). In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. A Província de Minas, 2. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2013. p. 283-311.

BRISKIEVICZ, Danilo Arnaldo.  Comarca do Serro do Frio: História da Educação entre os séculos XVIII e XX. Curitiba: Appris, 2020.

MARTINS, Marcos Lobato. Breviário de Diamantina. Uma história do garimpo de diamantes nas Minas Gerais, século XIX. Belo Horizonte: Fino Traço, 2014.

MARTINS, Maria Fernanda. Os tempos da mudança: elites, poder e redes familiares no Brasil, séculos XVIII e XIX. In: FRAGOSO, João Luiz Ribeiro; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de (org.). Conquistadores e negociantes. História de elites no Antigo Regime nos trópicos, América Lusa, séculos XVI e XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 195-222.

QUEIROZ, Maria da Graça Soto. Diamantina: imagens. Brasília: Iphan – Programa Monumenta, 2010.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Donas mineiras do período colonial. São Paulo: Unifesp, 2017.

Publicado em 29 de janeiro de 2025

Como citar este artigo (ABNT)

BRISKIEVICZ, Danilo Arnaldo. As cartas reutilizadas pela mestra Chiquinha Leite em Três Barras/MG como fonte para o estudo do tropeirismo. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 25, nº 4, 29 de janeiro de 2025. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/24/32/as-cartas-reutilizadas-pela-mestra-chiquinha-leite-em-tres-barrasmg-como-fonte-para-o-estudo-do-tropeirismo

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