As tecnologias digitais e a relação entre família e escola na Educação Infantil: uma revisão de literatura

Raquel Haas Quintans

Mestranda em Novas Tecnologias Digitais na Educação (UniCarioca)

Cláudio Henrique dos Santos Grecco

Doutor em Engenharia de Produção (Coppe/UFRJ), professor do Mestrado em Novas Tecnologias Digitais na Educação do UniCarioca

A presença da família na escola e a sua constante interação com o corpo escolar é tema que levanta profícuos debates. Nos tempos da pandemia da covid-19, em que os portões das escolas foram trancados, os alunos deixaram de ir para a sala de aula e precisaram se afastar do ambiente presencial em suas casas, acompanhando as aulas virtualmente.

A integração da escola com a comunidade local exige a colaboração e a corresponsabilidade de todos, pois se propõe a envolver os diversos atores com a cultura escolar. É preciso que ocorra a busca de meios que tornem possíveis a garantia de sua participação e de seu protagonismo em ações planejadas de forma coletiva, por meio de uma escuta ativa e dialógica a fim de valorizar o lugar de fala dessas pessoas, refletindo a respeito das demandas locais. Entende-se que a promoção de um espaço de ensino que privilegie o protagonismo, as vivências e os diálogos também deve ser uma meta a ser alcançada para se ter uma escola pública de qualidade que garanta o acesso de todos e a igualdade de direitos. Algo que não foi visto durante o período crítico da pandemia.

Essa abordagem indica alguns avanços alcançados nas últimas décadas no aspecto legislativo e no que tange à visão democrática da escola. Observa-se, entretanto, alguns retrocessos quando se volta para o mundo tecnológico. Existe a necessidade da elaboração de políticas públicas que visem à universalização do acesso às tecnologias digitais de forma igualitária para que o estabelecimento da comunicação entre a escola e as famílias seja uma realidade.

O objetivo do presente estudo é realizar uma revisão de literatura para verificar os estudos atuais realizados no cenário educacional brasileiro a respeito do uso de tecnologias digitais para uma maior interação escola/família na Educação Infantil. Para tanto, utilizamos os pressupostos teórico-científicos de Demo (2001), Libâneo (2004), Freire (2006), entre outros estudiosos que discutem acerca do ensino e percebem a escola como um ambiente democrático, um lugar de todos.

Metodologia

Trata-se de uma revisão de literatura realizada no período de outubro a novembro de 2023, amparada pela consulta em livros, artigos científicos e dissertações encontradas em sites voltados à publicação de produções acadêmicas nacionais (revistas da área de ensino e educação) ou relatos de experiência que divulgam resultados obtidos em pesquisas de estudos de caso (Centro Universitário UniCarioca e Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

A presente abordagem é caracterizada como qualitativa de caráter exploratório, pois dá acesso a um arcabouço mais atual das discussões a respeito do uso das tecnologias digitais para o estabelecimento do vínculo entre família/escola, visto que esses recursos se tornaram o canal de comunicação mais dialógico e eficiente entre os membros da comunidade escolar durante o período pandêmico. De acordo com Gil (2021, p. 176 apud Pontes; Siqueira, 2021, p. 7), esse tipo de pesquisa "baseia-se no pressuposto de que a realidade pode ser vista sob muitas perspectivas".

As ponderações sobre as teorias e as práticas de ensino foram aprofundadas na pandemia, exigindo a ampliação do conhecimento de pesquisadores, professores, gestores de escolas e demais profissionais interessados em temas que influenciam o aprendizado dos alunos da Educação Básica. Então, o foco do estudo está na possibilidade de aproximação do objeto com o fenômeno estudado.

A coleta de dados foi marcada por testagens com termos booleanos e de forma intercalada no Google: ("Tecnologias Digitais"), AND/OR ("Interação"), AND/OR ("Escola"), AND/OR ("Família"). A seleção do filtro, para que o período inicial de busca mostrasse os trabalhos publicados a partir dos últimos cinco anos, alcançou a ocorrência de aproximadamente 16.000 resultados. Essa foi considerada uma quantidade significativa de produções e demasiadamente ampla dentro da temática abordada. Então, optou-se por considerar apenas as quinze primeiras páginas do site de busca, fazendo a limitação dos números de trabalhos selecionados com a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão.

Dentre os trabalhos encontrados na base de dados do Google foram selecionados e arquivados em pastas (no computador) 16 arquivos. Todos os arquivos publicados em Português (brasileiro), com livre acesso (sem pagar taxa), disponíveis na íntegra e online, tendo suas submissões aprovadas entre os anos de 2019 e 2023. Também foram excluídos artigos, teses, dissertações, resumos e relatórios de estágio produzidos fora do período dos últimos cinco anos ou em outro idioma, além de retirar da amostra os trabalhos que tratavam sobre os riscos da exposição das crianças às telas cujas abordagens eram focadas em adolescentes, com a perspectiva histórica da escola-família como instituições sociais ou sobre gestão escolar.

Sob esses critérios de inclusão e exclusão, o processo de seleção dos textos passou por uma filtragem mais rigorosa com a leitura prévia (título, resumo e palavras-chave; introdução e conclusão) dos trabalhos selecionados. Isso colaborou para a escolha dos textos mais atuais, relevantes e/ou que coadunavam com o objetivo do presente estudo. Após esse processo, foram excluídos mais cinco trabalhos, restando apenas 11 produções, entre elas oito artigos e três dissertações.

Resultados e discussão

Apresentamos, aqui, os resultados encontrados na revisão de literatura realizada entre outubro e novembro de 2023 cuja proposta é investigar o cenário nacional atual acerca do uso das tecnologias digitais no estabelecimento de um canal comunicativo entre escola e família. Os trabalhos científicos selecionados foram publicados no período de 2019 a 2023, marcando a realização de uma discussão teórica pautada nos desafios encontrados no isolamento social ocorrido na pandemia ou em experiências de práticas de ensino voltadas à mudança do ser-estar-fazer da escola em tempos atuais.

O Quadro 1 apresenta informações dos trabalhos selecionados para a construção do estudo. Dentre eles, quatro (36%) em 2021, cinco (46%) em 2022 e dois (18%) em 2023. Os trabalhos enfatizam mais a preocupação da escola com o processo adaptativo de ensino remoto para a continuidade do ano letivo escolar – o que também foi importante – e uma preocupação menor com a participação e o envolvimento da comunidade escolar ou o ensino das crianças no pós-pandemia. Compreende-se que a escola tem papel de agente principal quanto à organização do ensino, promovendo a interação entre pessoas que fazem parte de um determinado cenário educacional.

Quadro 1: Material selecionado para a construção do estudo (2019-2023)

Título

Autor(es)

Tipo

Ano

Revista/Instituição

Qualis Capes

Compartilhamento de informações e conhecimento: desafios educacionais, tecnológicos e familiares em tempos de pandemia

ALVES, M. A. B. et. al.

Artigo

2022

Conhecimento & Diversidade

B1

Relação família-escola em tempos de covid-19: discutindo questões cotidianas

CARIUS, A. C.; OLIVEIRA, M. A.

Artigo

2022

Revista Humanidades e Inovação

B3

Uso de tecnologias digitais para fortalecimento da comunicação escola/família numa instituição da rede estadual do Rio Grande do Norte

CARMO, A. C. L. C.

Dissertação

2023

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

-

A interação entre as famílias e a escola por meio de mídias digitais: o caso da Escola Municipal Paulo Renato Souza

GOUVEIA, I. G.

Dissertação

2021

Centro Universitário UniCarioca

-

A interação entre famílias e escola por meio de mídias digitais: o caso de uma escola pública do município do Rio de Janeiro

GOUVEIA, I. G.; SIQUEIRA, A. P. L.; MÓL, A. C. A.

Artigo

2022

Revista Educação Pública

B1

A família está digitando... As comunidades virtuais de famílias no WhatsApp em escolas e seus desdobramentos para a coordenação pedagógica

MANDELERT, D. V.; MOCARZEL, M. S. M. V.

Artigo

2023

Revista Educação e Cultura Contemporânea – Reeduc

A2

Fortalecimento de vínculos entre família e escola na Educação Infantil

PONTES, S. E. R. S.; SIQUEIRA, R. A. F.; CARNEIRO, E. S.

Artigo

2021

Ensino em Perspectivas

-

Tecnologias e educações: um caminho em aberto

PRETTO, N. L.; BONILLA, M. H. S.

Artigo

2022

Revista Em Aberto

B1

A educação na pandemia: as relações escola e família permeadas pela tecnologia

SANCHES, E. C.; TOQUETÃO, S. C.; MONTEIRO, S. N.

Artigo

2021

Revista Interdisciplinar em Educação e Territorialidade – RIET

A1

A escola e a família como base no desenvolvimento do aluno durante e após a pandemia da covid-19

SILVA, F. J. A. et. al.

Artigo

2022

Research, Society and Development

A3

A participação da comunidade escolar por meio das tecnologias digitais

SILVA, P. F. T.

Dissertação

2021

Centro Universitário UniCarioca

-

Silva (2021) destaca que a possibilidade de se estabelecer uma parceria entre escola/família/comunidade é uma iniciativa que põe o aluno no lugar de protagonista do ensino, pois essa união de forças serve para fomentar os projetos educativos, fortalecendo a confiança e o diálogo no sentido de mudar o que não está dando certo. Essa perspectiva escolar foi ampliada com o surgimento das tecnologias digitais que passaram a ser implementadas como ferramentas de comunicação nas escolas. Ao explorá-las, as unidades de ensino permitem o incentivo à participação e à compreensão de todos a respeito dos caminhos traçados para a educação das crianças naquele ambiente, corroborando para que os projetos pedagógicos sejam concretizados e contando com a ajuda dos responsáveis para que a criança tenha um melhor proveito de sua vida escolar.

A própria literatura reconhece que a comunicação família/escola deve ser construída de forma aberta e permanente. A escola precisa saber fazer a escolha dos meios que sirvam para informar e envolver os pais, sendo que a capacidade de os envolver no processo de construção dos saberes das crianças, assim como defendem Mandelert e Mocarzel (2023), é a sétima competência para ensinar. No entanto, a comunidade escolar deve ser convocada a atuar em parceria e com uma comunicação clara, efetiva e acessível para que ocorra a compreensão dos atores sociais. Esses relacionamentos devem ser estabelecidos para reafirmar o compromisso com o trabalho coletivo, com atividades colaborativas (reuniões, debates, encontros, entrevistas etc.) que contem com a participação de funcionários, pais e de outros membros (avós, tios etc.). Essas ações devem servir para viabilizar o compartilhamento das obrigações básicas, o fomento do diálogo entre família/escola, a escuta para a resolução de problemas e a tomada de decisões (Mandelert; Mocarzel, 2023).

Freire (2006, p. 16 apud Carmo, 2023, p. 45) também entra na discussão a respeito da escola ser um lugar de todos e com ampla participação da comunidade escolar. Ele sugere que as pessoas não devem ser convocadas à escola somente para receber

instruções postuladas, receitas, ameaças, repreensões e punições, mas para participar coletivamente da construção de um saber, que vai além do saber de pura experiência feita, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito de sua própria história.

Alguns estudos demonstram que a disponibilidade da família para frequentar o pátio da escola pode surtir um impacto positivo na aprendizagem das crianças (seja na melhora da aprendizagem, no atendimento ou até do comportamento do aluno), independentemente do poder aquisitivo ou do status social dessas pessoas. Considera-se que os responsáveis devem ter a capacidade de se enxergarem como aliados no processo educativo de seus filhos, visto que a família é "um grupo de pessoas interligadas por conexões parentais e o primeiro grupo social que o indivíduo pertence e tem contato" (Pontes; Siqueira, 2021).

É no seio familiar que a criança tem suas primeiras experiências de socialização e aprendizagem a respeito dos aspectos culturais, dos valores e das crenças. Isso traz várias implicações, inclusive educativas para o desenvolvimento humano. As ações pedagógicas devem ser voltadas para a inserção da criança no ambiente escolar, garantindo seus direitos e permitindo a presença da comunidade local com a sua participação no conselho escolar, na associação de pais e mestres, nas reuniões e nas comissões. O foco deve ser a preparação do "projeto pedagógico-curricular e acompanhamento e avaliação a qualidade dos serviços prestados" (Silva et al., 2022).

A integração, relação e comunicação entre as partes dentro da comunidade escolar se tornou um fator ainda mais relevante na covid-19, pois a escola se viu diante da necessidade de lidar com os desafios impostos pelo ensino remoto (manter vínculos, afetos e engajamento). O foco da problemática ficou na imposição de demandas pedagógicas difíceis de atender, ocorridas de forma desorganizada, pois ensinar/formar crianças em um cenário sem a sua presença física em salas de aula, sem ter a interação entre os sujeitos (pais, alunos, professores, funcionários e comunidade) se mostrou algo quase impossível (Silva et al., 2022).

As formas de se estabelecer, hoje, a comunicação entre a comunidade local e a escola, fazem parte de um discurso acadêmico mais recente. A participação de todos é fortalecida não somente pela relação escola/família, mas pela integração entre todos que fazem parte do processo educativo – equipe pedagógica, docentes, alunos e familiares/responsáveis (Carmo, 2023). Essas ações voltadas à abertura do diálogo e ao estreitamento de vínculos ganham ainda mais força na utilização de tecnologias digitais, que trazem "novas formas de fazer, aprender, interagir, ser e estar em sociedade" (Pretto; Bonilla, 2022).

Gouveia Siqueira e Mól (2022) destacam que a internet (ciberespaço) levou a comunicação humana a uma outra esfera. A vida conectada passou a exigir que todos tenham um e-mail, um perfil em redes sociais ou em aplicativos de mensagens. Hoje, é possível usar a internet para fazer uma infinidade de coisas, como: falar com algum parente ou amigo que está distante, fazer networking, falar sobre política, aprimorar hobbies, gerenciar os negócios ou trocar ideias. Os autores ainda destacam que diversos recursos digitais podem ser utilizados pela escola como instrumentos de comunicação, servindo para o repasse de notícias, informações e/ou o fornecimento de materiais educativos em plataformas e blogs.

Para Carmo (2023), a internet permitiu a criação de canais que servem para o estabelecimento "de comunicação entre escola e família" e para a escolha de caminhos viáveis ao processo educativo, com a "construção e reconstrução das práticas escolares e a escolha de ações assertivas" que atendam às demandas de um determinado contexto a partir de diversos olhares.

Desafios da relação família/escola em tempos de pandemia

A pandemia da covid-19 mudou a vida de toda comunidade escolar, levando professores, famílias e crianças a interagirem por telas de celular, notebooks ou tablets. Esse momento que a sociedade experimentou afetou a educação de maneira ímpar. O fechamento das escolas e a interrupção das rotinas levaram a sala de aula para dentro da casa das famílias e a educação passou a ser experimentada por meio de plataformas digitais e aplicativos. A ideia era dar continuidade ao ano letivo e ao desenvolvimento infantil, mas isso resultou na alteração de "relacionamentos e papéis", além de mudar "as atividades habituais de cuidados infantis, escola e recreação" (Silva et al., 2022).

Sanches, Toquetão e Monteiro (2021) argumentam que enquanto os alunos acompanhavam as aulas junto aos seus familiares, de casa, as equipes escolares tiveram que buscar formas alternativas – e às pressas – para que a interação entre escola e comunidade escolar não fosse interrompida. Era preciso fomentar a parceria família/escola para que a falta de vínculos não prejudicasse o andamento e o acompanhamento das aulas. Os autores afirmam que foi possível perceber que as escolas tiveram que repensar suas práticas e administrar novas formas de interações a fim de acolher suas crianças. Dessa forma, constituíram, numa velocidade nunca observada e com seus próprios recursos, novos referenciais de práticas pedagógicas.

Para Silva et al. (2022) é preciso admitir que a construção de relações entre família e escola nem sempre é um caminho fácil, pois exige comprometimento, dedicação e tempo. O isolamento social revelou uma trajetória cheia de nuances pautadas por pressões e circunstâncias, fazendo com que muitas famílias precisassem de acordos especiais ou/e apoio extra para que se envolvessem ativamente na vida escolar de seus filhos e os ajudassem na escola. Os autores afirmam que no período pandêmico houve uma complexa situação social e educativa que aprofundou ainda mais as desigualdades sociais, pois para as famílias com condições financeiras favoráveis o ensino remoto era visto como uma solução, mas para as famílias com baixo nível socioeconômico ou mais vulneráveis, esse era um problema que as afastava ainda mais da escola. Dessa forma, diante de uma população com pouca formação, que não sabia usar as plataformas ou mídias e tinha pouco ou nenhum acesso a um sinal de internet de qualidade, o desafio era dar continuidade ao ano escolar sem "deixar para trás os diferentes grupos [...] que, infelizmente, foram esquecidos na educação pandêmica". Os autores concluem que a pandemia evidenciou séculos de inconsistências, falhas e retrocessos em relação às políticas públicas que, em tese, deveriam ser pautadas pela inserção das tecnologias digitais no ensino. Assim, os efeitos adversos da ausência de políticas públicas à educação se tornou ainda mais perceptível.

Entretanto, para Gouveia, Siqueira e Mól (2022), o ensino remoto demandou intensa participação das famílias na realização e no acompanhamento das atividades escolares. Foi preciso que ocorresse a adaptação das pessoas a esse novo modo de saber-fazer a escola, com a reestruturação das atividades escolares. A comunicação e o diálogo foram estabelecidos de forma virtual e as tecnologias digitais eram a via considerada mais acertada para superar as novas limitações impostas pela pandemia.

Nesse cenário, se observou muitos responsáveis diante da obrigação de continuarem com seus trabalhos durante esse período, dificultando a frequência das crianças às aulas e a realização das atividades. A participação dos responsáveis no dia a dia da escola era insuficiente, porque tinham de trabalhar e as crianças eram deixadas sozinhas, com outro familiar ou com pessoas conhecidas (Carius; Oliveira, 2022).

Desse modo, a análise pode ser dividida em dois extremos, quando a relação entre família e escola pode ser verificada em dois mundos distantes: o mundo das classes populares (escola pública) e o mundo das classes média e alta (escola privada). A primeira realidade evidencia a falta de compasso entre a cultura da escola e a cultura das próprias famílias. Carius e Oliveira (2022) afirmam que é possível dizer que quanto maior a distância entre as realidades socioeconômicas, menor o diálogo entre os dois grupos. Na segunda realidade, a educação é vista sob a ótica empresarial, ampliada "pelas políticas educacionais neoliberais" que coloca as famílias como consumidoras. Novamente, o diálogo que se pretende estabelecer é prejudicado.

A verdade é que os processos escolares passaram por rápidas e profundas mudanças durante a pandemia. A intensa presença das tecnologias digitais, as aulas em ambientes virtuais e a constante necessidade de colaboração dos familiares marcaram o processo pedagógico nesse período, exigindo de toda a comunidade escolar a capacidade de se reinventar, buscando soluções eficientes para enfrentar os desafios que surgiam pelo caminho. As tecnologias digitais serviram para o compartilhamento de informações, de conteúdo escolar e de uma maior aproximação das famílias (mesmo que de forma virtual) com a escola, possibilitando a participação, o interesse e o comprometimento de pais e crianças no cumprimento das tarefas da escola (Alves et al., 2022).

Dispositivos mais utilizados na comunicação entre escola e família na Educação Infantil

O contexto do ensino remoto colocou a sociedade em uma realidade que demandou o acesso a outras possibilidades de trocas e convivências. As pessoas tiveram que ser empáticas diante das realidades distintas que surgiam. Foi preciso aprender a olhar as diversas camadas que tangiam a vida de meninos e meninas, assim como de suas famílias, e que não se restringiam aos aspectos pedagógicos, mas atravessavam os aspectos sociais, econômicos e psicológicos (Pontes; Siqueira, 2021). Além disso, muitas famílias tinham afazeres (trabalho, consulta médica, curso etc.) que impediam o acompanhamento frequente da rotina escolar das crianças. O uso das tecnologias digitais veio para possibilitar a aproximação desse público com a escola (Gouveia; Siqueira; Mól, 2022).

O uso de recursos tecnológicos digitais estreitou os laços na comunidade escolar no período do ensino remoto, ampliando a colaboração das famílias no processo de aprendizagem das crianças. De acordo com Gouveia, Siqueira e Mól (2022), os recursos tecnológicos digitais se transformaram em valiosos canais de interação e aproximação entre família/escola cujo propósito era a aproximação das partes envolvidas, mantendo as crianças interessadas pelos estudos. Esse foi um desafio para professores e gestores escolares, especialmente para os que já atuavam em escolas públicas.

Coube aos professores o estabelecimento de processos que servissem para a construção de um conhecimento participativo e para que as experiências educativas estivessem de acordo com o desenvolvimento das habilidades e das competências preconizadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Nessa perspectiva, o uso das tecnologias auxiliou na interação família-escola na Educação Infantil e colaborou para a continuidade das tarefas escolares (Gouveia, 2021).

O Quadro 2 mostra os recursos tecnológicos usados, as características encontradas nas vivências oferecidas às crianças e as experiências vinculadas com esse mundo tecnológico.

Quadro 2: Uso das tecnologias para a interação família-escola na educação Infantil

Características encontradas nas vivências oferecidas às crianças

Experiências vinculadas

Recursos tecnológicos

Oferecer meios para que as famílias consigam ajudar as crianças a construírem o conhecimento no momento de distanciamento

Uso de aplicativos de comunicação síncrona e assíncrona entre as professoras e os responsáveis pelas crianças (WhatsApp e YouTube)

Aplicativo de comunicação - envio de mensagens instantâneas; Plataforma de vídeos disponível na internet

Possibilitar o diálogo entre escola e família

Devolutiva das vivências através dos grupos de WhatsApp, criados para comunicação em período de isolamento social

Aplicativo de comunicação - envio de mensagens instantâneas; Vídeo chamadas).

Desenvolver a autonomia e a aprendizagem das crianças

Contação e apreciação de histórias em vídeos, realização de observações das características físicas das crianças, história de vida de cada uma delas relatada pelas famílias, brincadeiras com o corpo etc. Uso de multimídias: imagens, músicas, vídeos etc.

Plataforma de vídeos disponível na internet. Banco de imagens.

Estimular a criação de vínculos, a afetividade e o acolhimento na família e na escola

As famílias eram convidadas a ficar diante de um espelho. O adulto falou o nome da criança em frente ao espelho, citando as características que a tornam especial. Nome e história da escolha do nome. As famílias realizaram a contação para as crianças de como foi a escolha.

Aplicativo de comunicação - envio de mensagens instantâneas; Aplicativos de gravação de vídeos. Câmera fotográfica - integrada aos smartphones dos responsáveis pelas crianças.

Proporcionar ações destacando os valores humanos

Os valores humanos foram enfatizados, em especial o amor, ao fazer parte de uma vivência. As crianças refletiram quem fazia parte de sua família em um momento de contar quem mora com ela.

Plataformas de vídeos; Banco de imagens; Aplicativo de comunicação - envio de mensagens instantâneas.

Favorecer momentos de interação entre a criança/família e a escola

As famílias puderam enviar seus registros às professoras considerando diversos materiais, tempos e espaços. Como exemplo, registros da hora da higiene e alimentação, registros de como as crianças contaram e conheceram cada cômodo da casa, manipulação de papelão, as brincadeiras e locais de passeio preferidos de cada uma delas.

Plataformas de vídeos; Aplicativo de comunicação - envio de mensagens instantâneas; Câmera fotográfica - integrada aos smartphones dos responsáveis pelas crianças.

Fonte: Pontes e Siqueira, 2021, p. 8-10.

Dentre os instrumentos mais encontrados na literatura consultada, as mídias digitais foram recursos que ajudaram na interação entre família/escola. Eles ampliaram a participação e o diálogo entre as famílias e os profissionais da Educação Infantil. Como mostrado na Figura 1, estão o WhatsApp (50%), o Facebook (25%), o YouTube (17%) e o aplicativo (app) da escola (8%). Essas mídias digitais foram usadas como ferramentas tecnológicas para o ato educativo e serviram para o compartilhamento das atividades pedagógicas, assim como para a promoção da integração da gestão com a coordenação pedagógica escolar. Esses instrumentos serviram ainda como redes de apoio emocional e psicológico para os integrantes da comunidade escolar.

Figura 1: Recursos tecnológicos mais utilizados pelas escolas

Com a rapidez das mudanças nas práticas pedagógicas os professores passaram a recorrer às soluções que já estavam disponíveis no mercado. A exemplo do WhatsApp, recurso mais apontado pelos autores (50%) como meio de fortalecimento da relação entre família e escola, se estabeleceu uma comunicação bilateral, deixando de lado a utilização de "circulares, comunicados e alguns outros que permitiam alguma interação, como a agenda escolar, mas sempre de forma limitada e controlada pela ação da escola" (Mandelert; Mocarzel, 2023, p. 4).

Compreende-se que a construção dessas comunidades virtuais (grupos no WhatsApp) interferiu na organização do trabalho escolar e deu contornos ainda mais complexos a essa relação. Essas mídias ofereceram um "ponto de encontro virtual" permanente, a partir do qual as famílias passaram a ter a oportunidade de discutir problemas, falar das demandas educativas diárias, fazer sugestões, reivindicações, tirar dúvidas e verificar acontecimentos relacionados à turma de seus filhos (Mandelert; Mocarzel, 2023).

Conclusão

A presente revisão de literatura mostrou que a pandemia transformou a forma como a sociedade via a educação, mudando a maneira de saber-fazer a escola. Esse processo ocorreu de forma urgente, sem planejamento e sem a previsão de políticas públicas para garantir o acesso de todos ao ensino remoto, aprofundando as desigualdades sociais e acentuando as diferenças entre o ensino público e o privado.

Enquanto algumas famílias conseguiram acompanhar a rotina escolar dos filhos, ainda que virtualmente, outras foram lançadas à margem do ensino, pois tinham que continuar trabalhando e deixando seus filhos com parentes, vizinhos ou desconhecidos. Essas famílias também não tinham condições de pagar por um bom sinal de internet e garantir que a criança tivesse todos os aparatos possíveis para o acompanhamento das aulas.

A observação dessas duas realidades permitiu o levantamento de discussões acerca da relação família/escola e de como recursos digitais podem promover a aproximação entre esses agentes para a melhoria do ensino na Educação Infantil. A relação família/escola é vista como essencial tanto para a aprendizagem como para o desenvolvimento do aluno, porém em algumas realidades os responsáveis mal sabem o que acontece com o filho na escola, seu comportamento e problemas a enfrentar.

Recomenda-se a realização de estudos voltados para o encontro de caminhos viáveis que caibam dentro da realidade da escola pública. Estudos que foquem no fortalecimento da comunicação com a comunidade escolar, permitindo uma maior participação dos pais, com a sua presença no pátio da escola. O uso das tecnologias digitais é ainda visto como uma barreira por muitas famílias.

Referências

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Publicado em 29 de janeiro de 2025

Como citar este artigo (ABNT)

QUINTANS, Raquel Haas; GRECCO, Cláudio Henrique dos Santos. As tecnologias digitais e a relação entre família-escola na Educação Infantil uma revisão de literatura. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 25, nº 4, 29 de janeiro de 2025. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/25/4/as-tecnologias-digitais-e-a-relacao-entre-familia-e-escola-na-educacao-infantil-uma-revisao-de-literatura

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