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Museu Casa do Pontal

Karla Hansen

Viagem às raízes da cultura brasileira

Chegamos, enfim, ao Museu Casa do Pontal, considerado o maior e mais siginificativo acervo de arte popular brasileira. À primeira vista, é uma chácara, com muitas plantas e belos jardins, criados por Burle Marx. Fomos recebidas pela coordenadora do projeto educacional do Museu, a arte-educadora Juliana Prado, que nos entreteve, enquanto esperávamos a chegada de um grupo de alunos de quarta série de uma escola municipal para fazer a visita ao Museu.

Ali, no escritório, uma construção à parte da Casa, Juliana nos mostrou um quadro com as visitas agendadas até julho deste ano. Contou que, com o aluguel dos ônibus, possível depois que o projeto educacional do Museu teve o patrocínio da Petrobras, a procura aumentou muito, o que os obrigou a fazer uma lista de espera. De modo que as visitas deste ano, ainda são àquelas que estavam na lista de espera do ano passado. A ordem de prioridade é dada às escolas públicas das redondezas. Mas, a coordenadora garante que não há porque desanimar, ainda há horários disponíveis para receberem grupos este ano, tanto de alunos de escolas públicas, quanto os de escolas privadas, além de crianças e jovens de projetos sociais e, também, grupos de professores.

Mais ou menos quinze minutos depois de café e conversa, o ônibus, desses de viagem interestadual, chegou trazendo umas quarenta crianças da quarta série de uma escola municipal e suas professoras. O transporte sai de graça para as escolas públicas e também para os professores. Logo, não ter veículo próprio, nem recursos para alugar uma van ou um ônibus, não são mais desculpas para não ir ao Museu Casa do Pontal, que fica no bairro do Recreio dos Bandeirantes (Estrada do Pontal, nº 3295).

A visita é teatralizada, o que quer dizer, que os grupos são conduzidos pelas galerias do museu por artistas educadores, que cantam, contam histórias, trovas, versos de Cordel, apresentam pequenas peças de teatro de Mamulengo e propõem desafios às crianças, envolvendo-as no universo da cultura popular, de forma lúdica e participativa.

A visita desperta lembranças comuns, o que traz o sentimento de pertencer àquele universo apresentado nas peças dos artesãos, que estão na raiz da cultura brasileira. Afinal, quem não conhece canções populares como "Mulher rendeira" ou "O cravo brigou com a rosa"? Quem nunca brincou com barro?

Decidimos acompanhar o grupo de umas vinte e poucas crianças, de nove a 11 anos de idade, que começou a visita pela entrada principal do museu, enquanto que o outro grupo partiu de uma entrada secundária, fazendo um percurso diferente da exposição.

Embaladas por cantigas, versos e desafios puxados pela guia, as crianças percorrem a primeira galeria, a das profissões. Não vi uma que estivesse dispersa ou distante. O encantamento é visível!

Todo o museu é organizado de forma temática, ou seja, cada espaço reúne peças que remetem a um determinado tema. São, ao todo, 12 diferentes áreas, distribuídas em dois andares. No primeiro piso, estão as seguintes áreas: Profissões; Ciclo da Vida (parto/amamentação/brincadeiras/escola/casamento/morte); Festas Populares (Boi-Bumbá/Folia de Reis/Maracatu/Cavalhada); Mamulengos; Jogos e Diversões (circo e jogos populares); Areias e Bichos (garrafas de areia e esculturas de animais); Arte Incomum (o imaginário, o inconsciente do artista), Arte Erótica (opcional); Fatos Históricos (Cangaço/Escravidão/História do Brasil) e Carnaval. No segundo piso estão expostas, ainda, peças relativas aos temas: Religião (santos/vida de Cristo/presépios/Orixás) e Ex-votos.

Segundo Juliana, uma boa visita não deve durar mais de uma hora e meia, para que não sobrecarregue os alunos, o que pode acabar gerando cansaço e desinteresse. Ela também recomenda que os grupos, ao agendar as visitas, optem por um determinado tipo de roteiro. Por exemplo, aos alunos do ensino fundamental recomenda-se um itinerário que vai das profissões aos jogos e diversões e daí, seguem para o gran finale, o Carnaval, uma obra impressionante do artista Adalton, uma "geringonça" que recria os desfiles do Sambódromo, com movimento dos bonecos e samba-entredo de verdade nos alto-falantes.

Já para os adolescentes de ensino médio é interessante explorar outros temas, como o da Arte Incomum, com peças que remetem ao imaginário, aos símbolos e ao inconsciente do artista e o dos Fatos Históricos, como o Cangaço.

Além de observarem as peças, de aprender de que material elas são feitas, as crianças aprendem a reconhecer os diferentes estilos dos artistas, um pouco sobre sua vida e sobre sua forma de trabalho. Artistas populares são homens e mulheres simples, agricultores, trabalhadores modestos, que, com sua arte dão um sentido especial às suas vidas e à vida de sua comunidade. O trabalho, na maioria das vezes, é feito de forma coletiva e não existe uma preocupação com a autoria, com quem assina a obra, como é comum no meio artístico urbano.

Juliana explica que, trabalhando dessa forma, os artistas populares nos permitem falar com as crianças sobre valores, como solidariedade, sobre a importância do trabalho coletivo, a tolerância e a socialização do saber, já que, quase todos, aprendem seu ofício em família, ou são discípulos de outros artistas. Outro aspecto a ser abordado, de acordo com a coordenadora, é o das diferenças entre o mundo urbano e o rural, o tradicional e o moderno, o cotidiano e as festas, ou o ciclo da vida, temas que também são muito presentes no universo da arte popular.

Ela destaca, ainda, um outro fator importante da visita ao Museu Casa do Pontal: a quebra de tabus e de preconceitos, tanto em relação a museus considerados espaços de guardar "coisas velhas", como em relação à origem dos artistas populares. Juliana conta que o preconceito contra o "paraíba" é frequente e que, nesses casos, os artistas educadores são orientados a questionar e a discutir o assunto com os alunos. "Ao perguntar se alguém no grupo é filho ou tem algum parente de outro estado, eles ficam quietos. Depois, timidamente, começam a aparecer aqueles que dizem que têm, sim, um tio ou uma avó, nordestina, quando, às vezes, eles mesmos são imigrantes. Com a exposição, descobrem que aquele universo é bem familiar, acabam 'dando aula', e saem com a autoestima lá no alto!"

Essa descoberta, aliás, tem um sabor especial, uma espécie de encantamento, para qualquer um que vá à Casa do Pontal. Foi o que deve ter acontecido também com o escritor português José Saramago, que fez uma visita solitária ao museu, num dia em que a casa estava quase fechando para visitação. Juliana conta que o escritor insistiu com o responsável para deixá-lo ver a exposição e o encarregado permitiu a visita, sem saber quem era o senhor com sotaque estrangeiro. Foi lá, diante de uma peça de cerâmica, que Saramago teve um insight, sobre os protagonistas do romance que estava escrevendo - em "A Caverna", os personagens principais são artesãos que trabalham com barro.

Exposições Itinerantes

As exposições do acervo do Museu Casa do Pontal já percorreram outros estados e até outros países. Aqui, no Rio de Janeiro, o projeto educacional organiza exposições itinerantes regulares, em diversos municípios, por intermédio de convênios com as secretarias municipais de cultura. A próxima exposição será em Nova Iguaçu e ficará aberta de 3 de maio a 2 de junho de 2006, no Espaço Cultural Silvio Monteiro.

Atendimento Exclusivo para Professores

Teve início, neste ano de 2006, o atendimento gratuito a grupos de professores. Nesses encontros, os professores fazem uma visita guiada teatralizada ao Museu e participam de debates sobre os desdobramentos pedagógicos interdisciplinares que o contato com o acervo pode proporcionar. Com exceção dos meses de julho e dezembro, os professores podem agendar visitas para grupos de no mínimo 10 e no máximo 25 participantes, sendo necessário, para isso, agendar a visita com antecedência por telefone e fax. As visitas são realizadas toda penúltima terça-feira e na última quarta-feira de cada mês.

Para particulares, a visita custa 10 reais para adultos e 5 reais para estudantes, idosos e professores brasileiros.

O Museu Casa do Pontal fica na Estrada do Pontal, 3295, Recreio dos Bandeirantes.
Telefone: (21) 2490 3278 - Fax: (21) 2490 4013
Página na internet: www.popular.art.br/museucasadopontal

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Publicado em 09 de maio de 2006

Publicado em 09 de maio de 2006