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Psicanálise e educação: um diálogo indispensável

Marcela Decourt

Psicanalista, Doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Coordenadora do Projeto de Extensão: A terceirização da função paterna na contemporaneidade e as novas formas de sofrimento psíquico  do Núcleo Séphora de Pesquisa sobre o moderno e o contemporâneo da UFRJ (www.nucleosephora.com.br)

Durante muitos anos, a psicanálise foi uma exclusividade dos médicos psiquiatras de formação germânica. Assim, só poderia conhecer realmente a psicanálise quem fosse médico e dominasse o alemão. Por esta razão, quando os primeiros livros de divulgação da psicanálise foram publicados, popularizando as ideias de Freud, estes sofreram uma grande resistência por parte de todos os professores que dominavam tal conhecimento. A divulgação do saber freudiano na cultura parecia colocar em risco aqueles que, até então, eram de fato os únicos conhecedores da obra freudiana.

Entretanto, percebe-se que, ainda hoje, há uma grande parte de psicanalistas que esforçam-se no sentido de dificultar a transmissão da psicanálise, fazendo desta "seita" um objeto de discussão restrito aos pequenos guetos psicanalíticos, onde parece circular um dialeto composto de enigmas muito misteriosos tais como: Complexo de Édipo, Inconsciente, Narcisismo, Sexualidade.

O principal objetivo deste relato que se segue é justamente fomentar uma discussão acerca da pertinência e dos limites da psicanálise aplicada ao campo da educação, já que não podemos supor que a psicanálise nada tenha a dizer e a acrescentar em relação aos novos sintomas que proliferam nas salas de aulas e que têm deixado professores, orientadores e diretores muitas vezes embaraçados.

Nesta breve comunicação, portanto, pretendo apresentar-lhes uma experiência onde a psicanálise foi convocada para auxiliar o serviço de orientação educacional de uma escola situada no Rio de Janeiro. Ao contrário de muitas instituições escolares que contratam um profissional de psicologia para atuar junto a uma equipe pedagógica, cujo principal objetivo é garantir o bem-estar de seus alunos, bem como de seu corpo docente, a escola para a qual fui encaminhada em nada parecia requerer tais garantias.

De 1999 a 2004, entrevistamos famílias e alunos desta escola e, com isso, pudemos reconhecer e formalizar os principais dilemas enfrentados por estes pais em relação à educação de seus filhos. Concluímos que estas famílias não tomam para si a responsabilidade da transmissão da castração, deixando seus filhos "sem imunidade" para responderem às exigências do laço social.

Como sabemos, os laços sociais modernos dispensaram as famílias desta sua função mais essencial - a transmissão da castração - de modo que, contemporaneamente, parece não haver mais nenhuma razão legítima para que uma criança esteja sob a orientação dos pais. Não há, no discurso social, nada que autorize que os valores de pai e mãe sejam de fato referenciais para seus próprios filhos. Ora, aprendemos com Freud que é a intervenção paterna que divide o sujeito entre desejo e gozo, de modo que todos os sintomas que decorrem daí são, na realidade, defesas contra este mal-estar radical. Desse modo, o que fazer quando o pai de família supostamente não é mais a causa do mal-estar dos sujeitos?

Na fala da equipe pedagógica, os efeitos experimentados por estes sujeitos (alunos) diante desta inoperância da função paterna no âmbito da família se traduzem nas mais diversas manifestações de fracasso escolar: crianças com dificuldades de trabalhar em grupo, com rendimento escolar insuficiente, indisciplinadas, desatentas... Enfim, o fracasso se faz presente em todas as atividades escolares que exigem destes sujeitos (alunos) autonomia, divisão de tarefas, disciplina e responsabilidade do sujeito. De acordo com esta nossa orientação podemos então dizer que o fracasso escolar pode ser compreendido como uma das novas modalidades de sintoma de uma cultura marcada pelo fracasso da função paterna.

Assistimos hoje ao crescimento de famílias que pretendem repassar para a escola suas funções mais elementares como, por exemplo, a de transmitir a ética, a moral, as boas regras de convivência social e de alimentação, bem como o respeito e a integridade. Com este movimento de terceirização, todavia, uma dicotomia se apresenta. Ao mesmo tempo em que elas delegam esta função à escola, não suportam qualquer ação educativa que evidencie a insuficiência e a inoperância da função paterna na esfera familiar. Desse modo, se por um lado a família contemporânea elege a escola como sua representante, por outro recusa frontalmente suas intervenções, esvaziando desta forma qualquer possibilidade de operatividade da função paterna terceirizada.

Com isso, os sujeitos contemporâneos, ao desconhecerem o exercício da castração no interior da própria família (esfera privada), acabam esvaziados da função de responsabilidade na esfera pública. Os efeitos desta des-responsabilização dos sujeitos podem ser verificados, por exemplo, nas dificuldades que crianças e adolescentes encontram atualmente em se engajar em qualquer atividade escolar que exija autonomia (estudar para avaliações, realizar deveres de casa), divisão de tarefas (trabalhos em grupo) e disciplina (comportamento em sala de aula, respeito às autoridades).

O que temos verificado é que os sujeitos contemporâneos (e aqui estão incluídos pais e filhos) não se responsabilizam por seus deveres, estando a todo instante exigindo seus direitos. Na realidade, é como se o mundo estivesse permanentemente em dívida com eles, sem que eles pudessem reconhecer nesta reivindicação um dos efeitos da falência da função paterna. Atravessada por esta falência, a família contemporânea parece não encontrar outra saída na contemporaneidade que não seja denegar ou terceirizar a sua função ao preço de produzir sujeitos fracassados.

Diante destes sujeitos fracassados, estamos propondo atualmente um novo passo neste trabalho de pesquisa. Com o objetivo de oferecer a estes sujeitos uma escuta psicanalítica dentro da própria instituição de ensino, estaremos inaugurando um novo dispositivo que visa desempenhar o papel das entrevistas preliminares em psicanálise. Ou seja, faremos alguns encontros com os pais destes alunos e outros com o próprio aluno, buscando identificar a gênese deste fracasso em cada uma destas famílias. Na realidade estaremos investigando como o esvaziamento da função paterna se traduz no interior de cada uma destas famílias. Acreditamos que esta talvez seja uma forma de fazer com que a psicanálise frequente e seja frequentada por aqueles que sequer reconhecem a sua existência como também a sua eficácia.

Afinal de contas, foi Freud, o pai da psicanálise, quem alertava:

"Nenhuma das aplicações da psicanálise excitou tanto interesse e despertou tantas esperanças (...) quanto seu emprego na teoria e na prática da educação"
(Freud, 1925).

Leia também: A influência da Psicanálise na Educação

Publicado em 09 de maio de 2006.

Publicado em 09 de maio de 2006