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Nunca te vi, sempre te amei

Mara Lúcia Martins

Escolas-Irmãs: uma parceria que possibilita acima de tudo a troca

O Programa Escolas-Irmãs do Governo Federal - inserido como um dos ramos da Mobilização Social do Programa da Fome Zero - tem sua base na premissa de que só com as trocas poderemos conseguir uma melhor visão do mundo. É por meio do reconhecimento e da aceitação das diferenças, que encontramos o diálogo, essencial para o progresso da mente. É aí que o projeto se ancora: trocar informações é mais do que conhecer o outro e sustentá-lo no que ele tem de deficitário, é também dizer sobre o que se ganha na troca, que acima do assistencialismo, beneficia todos os lados.

O objetivo do programa é que as escolas - comunidade escolar: estudantes, pais, professores e funcionários das escolas de Ensino Fundamental e Médio de todo o país e até do mundo -, de diferentes perfis, diferentes realidades sociais, culturais e locais, façam entre si um intercâmbio para que haja trocas de experiências e materiais (as trocas vão desde equipamentos de informática, acervo bibliográfico, até merenda escolar), e assim possam trabalhar a inclusão social.

Com a troca é feita uma valorização da cidadania e da autoestima que permite que essas escolas se tornem mais do que parceiras e passem umas às outras a ideia de confiança, estímulo, integração e respeito mútuos.

O Programa

O Programa foi iniciado em 2003, por iniciativa de Frei Betto e Cláudia Garcia que pertenciam à Assessoria da Presidência da República e pretendiam trabalhar em prol do bem comum. "Hoje, temos a participação de mais de 100 escolas no projeto e cerca de 55 mil pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente no Programa. Acredito que esse número vá crescer porque estive visitando alguns sindicatos e instituições ligadas à área educacional que se mostraram muito interessadas em participar do programa", nos contou a Assessora/ Coordenadora do Programa Rosângela Rondon Rossi, muito entusiasmada com o seu trabalho e que esteve recentemente no Rio de Janeiro para aumentar o número de instituições envolvidas no Programa.

Só o entusiasmo dos promotores não é maior do que o dos que participam diretamente do Programa. Tanto professores como alunos falam da maravilhosa sensação da troca de experiências como aprendizado: "O que mais nos motivou foi o fato de que o Projeto não era assistencialista, mas uma troca de experiências, de cultura entre duas escolas. (...) O encontro foi maravilhoso, mágico!", contou a Diretora do Colégio Acadêmico COC (Limeira/SP) Telma Ciarrocchi, que tem como escola-irmã a Escola Estadual Indígena Tupi Guarany YWY Piaú, de Peruíbe /SP.

Nessa parceria foram desenvolvidas ações de preparação de cartilhas de hábitos de higiene; confecção de materiais pedagógicos com material reciclável; campanha para a arrecadação de produtos de higiene; e apresentações culturais, onde os professores e alunos visitaram uma escola à outra e os alunos ficaram encantados com os hábitos uns dos outros. Uma aluna da 7ª série do Colégio Acadêmico COC, Marília, definiu assim a visita à sua escola-irmã: "Aprendi a ser mais grata pelo que tenho, a ser mais solidária com as pessoas, a respeitar e a perceber que as diferenças não estão tão longe como eu pensava".

O que mais impressiona são os relatos dos professores e diretores, porque, às vezes, pensamos que todo o tempo que eles estudaram ou trabalharam nas suas escolas pudesse dar conta de tudo que a vida poderia oferecer de bom. Mas aí vem uma escola lá do interior, cheia de dificuldades materiais, mas com um rico potencial humano e faz com que todos aprendam e muito. A Diretora do Espaço Aberto (São Paulo/SP) Mônica de Souza é mais uma das entusiastas do Programa e nos conta sua experiência: "Este projeto é mais um passo na construção de um Brasil mais democrático, mais justo e solidário. É uma grande oportunidade para nossa comunidade escolar exercer a cidadania e ampliar a sua visão deste país tão lindo, tão desigual, mas cheio de esperança".

Quem pode participar

As escolas podem ser públicas ou particulares e representarem universos diferentes, tais como: escolas comunitárias e indígenas, rurais e agrícolas, remanescentes de quilombolas, militares e de ensino especial. Primeiramente, elas trocam entre si correspondências, fazem intercâmbio de experiências, de ideias, descrevem a culinária ou uma festa típica de sua região e falam de suas dificuldades e de seus sonhos.

Além das escolas do país, existe a participação no Programa de pelo menos duas escolas estrangeiras. Uma das escolas estrangeiras é de Cistella, na Espanha - fica na zona rural e atende a filhos de produtores. Ela tem como escola-irmã, no Brasil, um colégio que fica no interior da Bahia, em uma comunidade quilombola, rica em folclore e artesanato. Entre elas já houve troca de correspondências entre as crianças.

Como se dá o contato de uma escola com outra

O primeiro passo para se ter uma escola-irmã é se cadastrar como escola que deseja manter contato com outras. Nesse passo, deve-se responder às especificações da escola cadastrada para fazer parte de um banco de dados, onde também são perguntadas quais as especificações que se deseja conhecer de outras escolas. Para se fazer o primeiro contato com uma escola-irmã é necessário que a Assessoria Especial de Mobilização Social do Presidente da República intermedeie a apresentação de uma escola à outra, sempre sugerida pela Assessoria, mas de acordo com o perfil escolhido. Assim, é assinado um documento chamado "Termo de Adesão".

Firmado o "Termo de Adesão" entre as duas Escolas-Irmãs, é elaborado o Projeto de Ação, que consiste na definição da forma de funcionamento do intercâmbio entre as escolas. A partir das escolhas é assumido um compromisso de sempre se manter o contato, que pode ser por correspondência ou até por visitação de uma escola à outra, mas que fica, nesse momento, inteiramente sob a responsabilidade das escolas parceiras. Professores, alunos e funcionários, depois de formada a parceria, são os únicos responsáveis pela manutenção da comunicação e as atividades de "troca" escolhidas por eles, sem nenhuma tutela da coordenadoria do Programa.

Uma das muitas experiências

A diretora da Escola Espaço Aberto Educação Infantil, de São Paulo (SP), Mônica Soares, que faz parceria com a Escola Rural Reunida Municipal Maria da Glória V., de Farias, de Itapema (SC) conta, com muito entusiasmo como foi o contato com a sua escola-irmã: "Somos uma Escola de Educação Infantil, localizada na Vila Mariana, que trabalha com crianças de 2 a 7 anos. Começamos procurando uma escola que fosse diferente, num lugar distante e com outra realidade socioeconômica e cultural. Encontramos essa escola rural. Nas conversas, percebemos que a biblioteca da escola era precária e que poderíamos ajudar fazendo campanhas com nossas crianças".

A primeira campanha foi feita em 2004, quando a escola paulista fez duas grandes arrecadações: livros infantis e vídeos. "Uma mãe de aluno, proprietária de uma pequena agência dos Correios, se prontificou a enviar o nosso material e mandamos também fotos da nossa escola e da cidade de São Paulo. Foi um sucesso! As professoras de lá se animaram e logo recebemos mais fotos das crianças e da escola de Santa Catarina", conta Mônica Soares.

E assim como deseja o Programa, não ficou só nisso. Em 2005, o intercâmbio continuou: "Já enviamos uma caixa de instrumentos musicais e, atualmente, estamos empenhados na campanha de jogos educativos. Estamos iniciando, também, um intercâmbio pedagógico com nossos alunos do Pré, que incluirá o envio de desenhos e de uma fita cassete com depoimentos e perguntas das nossas crianças sobre a diferente realidade das duas escolas. Enfim, estamos caminhando", diz Mônica. E o que é mais importante: juntos!

Rio de Janeiro possui três escolas-irmãs

No Rio de Janeiro, existem três escolas que participam do Programa. Uma delas é o Colégio Curiosa Idade, situado em Laranjeiras (Zona Sul da cidade). O Colégio participa como escola-irmã de uma escola em Berilo, localizada no Vale do Jequitinhonha (MG) e já teve várias experiências de trocas. O encontro das escolas é assim definido pela coordenadora e diretora Fátima Amorim, do Colégio Curiosa Idade: "Você sabe o que é Berilo? Berilo tem cor? Berilo tem cheiro? Anda? Nossa... Quanta emoção senti no dia em que conheci Berilo! A partir daí, uma nova possibilidade se apresentava. Berilo virou então um símbolo para mim. Bem, deixemos de mistérios! Berilo é uma cidade localizada no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. É especial para mim porque tem uma escola simples como a vida das pessoas que lá vivem... Mas uma escola rica pelas pessoas que nela convivem".

Fátima Amorim falou do contato que eles, do colégio, tiverem com a escola de Berilo - Escola Estadual Ribeirão do Altar: "trocamos muito com os alunos e professores de lá, por meio de correspondência, material, conversas e muito carinho. Começamos em 1998 a nossa parceria com a troca de correspondência - com fotos, inclusive - entre os alunos do pré-escolar e os alunos de Berilo e nos conhecemos por intermédio da TV Escola disponibilizou os vídeo deles para nós - conhecendo, assim, a carinha deles, uma escola em contato com a outra. Foi uma experiência ímpar para todos". "De Berilo já chegaram publicações feitas pelos alunos de lá sobre Medicina Natural e Ervas para a Curiosa Idade e nossas crianças ficaram tão entusiasmadas que resolveram tocar nossa horta, baseadas as informações dos 'irmãos'", nos falou, com muito entusiasmo, Fátima Amorim. No Rio de Janeiro, o ponto alto da troca se dá quando a Escola Curiosa Idade promove o Leilão de Arte Anual, onde os trabalhos de arte feitos pelas crianças são leiloados e os lances, dados pelos pais, são arrecadados para Ribeirão Altar. A verdadeira parceria, de irmã para irmã!

Atuações futuras

A Assessora/Coordenadora do Programa Rosângela Rondon Rossi, por e-mail, nos informou que está previsto, para o dia 12 de junho de 2006, um seminário, em Brasília (DF), que contará sobre as conquistas e desafios do Programa, com a participação de: Frei Betto, um dos organizadores do Programa; da Presidente do Faça Parte, do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do Centro de Voluntariado de São Paulo, da Associação Comunitária Despertar; da embaixadora da Boa Vontade da Unesco Milú Villela; e do professor Carlos Alberto Lima (da Ordem dos Advogados do Brasil / RJ).

A última iniciativa que beneficiou o Programa Escolas-Irmãs foi produzida por servidores públicos da Presidência da República, da Casa Civil, da Biblioteca da Presidência da República e do Censipam. Eles doaram à Escola Municipal Myriam Pelles Pereira Ervilha, localizada em Santo Antônio do Descoberto (GO), mais de 1.000 livros que vão desde Carlos Drumonnd de Andrade até a escritora Dora Duarte que esteve na solenidade de entrega dos livros à escola. Gratificados com o resultado, os servidores produzirão um informativo para incentivar os que ainda não participaram do Programa.

Em julho ou agosto Rosângela estará novamente aqui no Rio de Janeiro em busca de novas parcerias. Desejamos imensa sorte a ela e ao belíssimo programa.

Para fazer contato:

Site: www.brasil.gov.br/escolasirmas
E-mails: escolasirmas@planalto.gov.br ou mobsocial@planalto.gov.br
Telefone: (61) 3411-2897
Fax: (61) 3226-9385
Correspondência endereçada à: Assessoria Especial da Presidência da República, Praça dos Três Poderes, Anexo II, sala 214, CEP 70150-900 - Brasília/DF.

16/5/2006

Publicado em 16 de maio de 2006