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Uma arrebatadora aventura medieval

Karla Hansen

Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi coisas maravilhosas em minha vida. Fiz coisas maravilhosas em minha vida. Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou."

De quem é essa "voz"? Em que tempo ela vive ou viveu? Que coisas maravilhosas ela fez e viu? Quando o mundo foi um milagre? E de que escuridão ela está falando? É atrás das respostas para todas essas perguntas que o leitor(a) é arrastado(a) por exatas 372 páginas da "História do Rei Transparente", novo romance da já consagrada escritora espanhola, Rosa Montero.

Com estilo ágil e direto, a romancista nos conduz ao mundo estranho e, ao mesmo tempo familiar, da Idade Média, onde a sociedade era, basicamente, divida em senhores feudais, membros do clero, guerreiros e servos. Mas, ao contrário do que se costuma crer, a Idade Média em que vive a jovem camponesa Leola, a protagonista e narradora da história, também é uma montanha-russa de mudanças, onde viver é extremamente perigoso, como no sertão de Guimarães Rosa.

Rosa Montero conta que fez uma extensa pesquisa sobre o período medieval, primeiro por paixão e, depois, como parte do trabalho de escrever o romance. De maneira que a trama, ainda que seja uma ficção, cheia de peripécias e de magias, nos transporta para o contexto histórico da França, do século XII, nos apresenta inúmeros personagens, modos de viver e de pensar da época. Esse transporte ao universo medieval é tão arrebatador, que somos capazes de sentir cheiros, temperaturas, ouvir os ruídos, de sofrer quando nossa heroína está em perigo ou de comemorar junto com ela suas vitórias.

No início, a vida de Leola é dura, arando os campos ao lado de seu pai e de seu irmão e assistindo, bem ao lado das plantações, às batalhas diárias, com hora marcada para começar e acabar, entre os "homens de ferro" - exércitos de seu senhor e os exércitos inimigos, de um senhor feudal vizinho. A convivência diária e tão próxima com a guerra e com a morte, no entanto, não faz da adolescente uma serva submissa e amedrontada. De espírito livre, ela se recusa a acreditar que, como diziam os frades da época, "este mundo é um vale de lágrimas e nós nascemos para sofrer".

Leola quer ter outra vida. Ela sonha, ao lado de seu amado, o também camponês Jacques, com o mítico reino de Avalon - onde a vida é uma eterna primavera - e com o fim das injustiças contra os camponeses, cuja eventual rebeldia é sumariamente eliminada. Por essa razão, ela acredita que os servos deveriam aprender a combater e a manejar armas para, assim, derrubarem o perverso sistema de servidão imposto pelos senhores feudais, ideias avançadas para uma menina de 15 anos da Idade Média.

Mas, o que era um sonho de liberdade, se torna um golpe do destino. Leola se vê sozinha no mundo - seu pai, seu irmão e seu namorado são arregimentados para a guerra -, e o único modo de sobreviver é disfarçando-se de cavaleiro. Não foi difícil para nossa heroína roubar uma armadura de um dos muitos cavaleiros mortos nos campos de batalha, alguns tão ou mais jovens quanto ela. É dessa forma, vestida de cavaleiro, que ela vai enfrentar inúmeros desafios ao longo de sua vida, num tempo marcado pela violência e pela ignorância.

Mas este também é um tempo em que Leola vai conhecer um mundo que está mudando rapidamente, um mundo jamais imaginado por ela quando era uma simples camponesa, e no qual ela consegue se tornar uma pessoa livre. Encontra aliados, como a fiel Nyneve, bruxa e protetora quase maternal, com quem aprende a ler e a escrever, e com o mestre Roland, com quem a jovem aprende a dominar as armas e as táticas de combate, tornando-se um autêntico guerreiro.

Com o domínio dessas "armas", a palavra e a espada, Leola está pronta para garantir sua sobrevivência. É disfarçada de cavaleiro que ela se apresenta na maior parte do romance, às vezes, sendo descoberta, às vezes, se descobrindo, por vontade própria, como mulher. É assim que Leola faz e vê "coisas maravilhosas", conhece o amor e a traição, e vive, por algum tempo, num mundo de "milagre", tendo sempre, por perto, a ameaça da escuridão, representada pelo avanço das Cruzadas e pela intolerância da igreja católica, cada vez mais crescente.

O romance de Rosa Montero nos mostra que ao contrário do que se costuma crer, a Idade Média não foi um período de estagnação e obscurantismo. Entre os séculos século XII e XIII a Europa vive um período de intensas transformações que seriam as raízes do Renascimento. Ainda que seja um mundo agitado por guerras entre senhores feudais, começam a surgir manifestações de um pensamento livre, nos calorosos debates filosóficos e religiosos, de onde se vislumbram as primeiras luzes do Humanismo, que logo seriam ferozmente perseguidas pelas forças das trevas, notadamente a Inquisição.

E o Rei Transparente? Onde entra nisso tudo? Essa é uma das magias do romance. A história do Rei Transparente é uma espécie de maldição, sempre que alguém começa a narrar a história algo de terrível acontece com o narrador, levando-o invariavelmente à morte. Mas, esse mistério só é revelado, caro leitor, cara leitora, no final da aventura.

Ficha técnica do livro:

  • Título: História do Rei Transparente
  • Autor: Rosa Montero
  • Gênero: Romance
  • Produção: Editora Ediouro, 2006

Publicado em 15/5/2006

Publicado em 16 de maio de 2006