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A História de duas Aldeias e uma Cidade

Leonardo Soares Quirino da Silva

Programa Millenium Village aproxima escolas da África do Sul, da Alemanha e do Brasil

Localizada na Vila de Visconde de Mauá, no meio da Serra da Mantiqueira, o Colégio Estadual Antônio Quirino mantém, desde 2000, um programa de intercâmbio com uma escola alemã de ensino médio. A partir de 2004, cinco escolas sul-africanas também passaram a participar do projeto.

Segunda a professora Lea Caban, um dos objetivos em participar do programa Millenium Village (Aldeia do Milênio) é envolver os alunos com a escola pela educação e pelo estudo. Para os alunos, por sua vez, Lea destaca que o principal ganho foi a convivência com pessoas de outras culturas, nas suas próprias casas. A professora é coordenadora do programa e integrante do grupo gestor do colégio, que mantém outras iniciativas para aproximar os alunos.

Como os professores se encontraram

Lea conta que em meados dos anos 1990, depois que uma artista plástica alemã mudou-se para a Vila de Mirantão, chegaram outros alemães ao Alto Vale do Rio Preto, entre os quais se destacava o professor Harold Kleen, que foi da Unesco.

Uma das primeiras atividades desse grupo foi implantar um Jardim de Infância na Vila, a Escolinha dos Pequenos, de orientação antroposófica. O Jardim foi montado com recursos levantados por uma associação na Alemanha. Como está no site do projeto "primeiro são as pessoas, depois os grupos, as facilidades e então se faz a união".

Em outubro de 1998, aconteceu o primeiro contato formal com os professores alemães, durante um seminário que eles promoveram para discutir a implantação da Área de Preservação Ambiental da Serra da Mantiqueira (APA da Mantiqueira). No encontro foram discutidos temas como ecodesenvolvimento, ecoturismo e educação ambiental, bem como foi a primeira vez que os futuros parceiros estiveram na escola.

O seminário foi repetido na Alemanha, em 1999, com o objetivo de se conseguir apoio para a organização da APA da Mantiqueira.

A coordenadora do projeto observa que das ideias discutidas durante os dois eventos, a única que vingou foi o intercâmbio entre as escolas. Em setembro de 2000, sete professores alemães estiveram em Visconde de Mauá para discutir com seus colegas brasileiros que conteúdos poderiam ser trocados, que projetos poderiam ser desenvolvidos e que poderia ser implantado uma estação climática. O evento foi aberto para todas as escolas da região.

Em fevereiro de 2001, foi a vez de cinco professores do Colégio Estadual Antônio Quirino irem para a Ostrhauderfehn, cidade-irmã na Alemanha, conhecerem e discutirem com seus colegas possíveis programas de intercâmbio. Todos os eventos organizados pelo programa acontecem nos dois países.

Como desdobramentos, houve a troca mensal de informações coletadas pelas estações climáticas das duas escolas, que eram usadas para mostrar a diferença entre o clima temperado e o tropical. Outras atividades foram: a troca de árvores genealógicas; a experiência de trocar de informações sobre os dias de feriados, em que os alunos das duas escolas contavam como era comemorado em seus países; e, também, foi montado um jogo de perguntas e respostas sobre o Brasil e a Alemanha.

Projeto Millenium Village

Em outubro de 2001, houve um encontro de coordenação onde se decidiu que o programa estava indo bem, mas o importante seria fazer os alunos se encontrarem. Isso deu origem ao programa de intercâmbio que tem o nome de Millenium Village. O nome foi escolhido por estarem as duas escolas em zonas rurais e por ter sido criado perto da passagem para o ano 2000. Na época, decidiu-se que os eventos deveriam fazer os alunos refletirem o que pretendiam para o novo milênio. Os problemas linguísticos seriam superados usando-se a arte.

De 2001 para cá foram realizados cinco eventos, em 2002, 2004 e 2005, com três semanas de duração cada, que permitiram a vinda de cerca de 30 alunos alemães e a ida de pelo menos 25 brasileiros. Também houve a troca de professores e artistas, em número um pouco menor.

Nos eventos são realizadas oficinas de dança, teatro, artes plásticas, entre outras, sempre discutindo as ideias para o novo milênio. Depois de cada dia de atividades, acontece uma reunião de coordenação entre os professores. O produto final foi um espetáculo apresentado na região de Visconde de Mauá e na cidade de Resende, no caso brasileiro.

As atividades foram realizadas com apoio das comunidades locais, bem como recursos conseguidos na Bingolotto - uma loteria alemã -, da Igreja Evangélica Alemã e do governo do estado, que dá o translado ao aeroporto e a hospedagem dos alunos e professores alemães.

Lea destaca que, apesar da dificuldade em conseguir recursos para os eventos no Brasil, eles nunca se colocaram na posição de quem precisa de tudo. Sempre se colocaram de igual para igual. Por isso, sempre fizeram questão de dar hospedagem e de garantir a infraestrutura para os eventos em Visconde de Mauá.

- Tudo bem que a gente não tem ainda como dar passagem, mas estamos aqui falando de igual para igual. E tem as diferenças político-econômicas e sociais, que são históricas, e estão aí, mas isso não quer dizer que um é melhor do que o outro.

Em 2003, pela falta de patrocínio, foram realizados eventos locais. Desde então, a escola sempre realiza uma vez por ano, com ou sem a presença de convidados estrangeiros, seu "milênio" local.

Desdobramentos para os alunos

Para alguns dos alunos que participaram do processo, o intercâmbio serviu para mudar sua percepção. Nivaldo dos Santos Rocha e Maira Jane Diniz participaram do milênio de 2005, na Alemanha.

Nivaldo, ex-aluno da escola e membro de um grupo de capoeira, destacou que a viagem foi importante pela responsabilidade de ter que apresentar a cultura brasileira, no caso dele a capoeira, a seus colegas, bem como buscar mais cultura. Ele voltou sentido a necessidade de aprender mais inglês para poder se comunicar melhor no exterior. Como ele mesmo disse, antes só estudavam essa língua para tirar nota.

Para Maira Jane Diniz a ida a Ostrhauderfehn mudou a forma como via a escola:

- Voltei com outro pensamento. A escola não é só um lugar para você vir, ter que estudar e depois voltar para casa. Uma obrigação. Passei a ver a escola de outro jeito.

Outro ponto que os dois destacaram foi a melhor integração e o respeito dos colegas.

Sul-africanos entram para o programa

Durante a reunião de coordenação do primeiro evento, em 2002, foi discutida a inclusão de representantes de um terceiro país no programa. Segundo a professora, a proximidade cultural entre o Brasil e a África fez que os colegas brasileiros achassem que essa seria uma possibilidade interessante.

Os parceiros alemães, por sua vez, já tinham contato com uma associação de cinco escolas da cidade de Mabopane, na África do Sul, o que tornou a adesão possível. Mapobane é próxima a Pretória e é uma cidade dormitório, onde vivem os trabalhadores das indústrias e minas da região.

A professora explica que a cidade fica no antigo batustão ou homeland da etnia tswana. Ela segue contando que durante o regime do apartheid, o Estado racista criou batustões, onde eram recolhidas as pessoas de uma das nove etnias que vivem no atual território da África do Sul. Cada grupo tinha a sua homeland.

Lea explica, ainda, que lá ela aprendeu que o termo bantu significa a educação que os brancos deram aos diferentes grupos étnicos negros sem respeitar suas diferenças culturais e linguísticas.

No evento de julho de 2004, vieram três professores sul-africanos e um aluno. Entre os professores, estava a coordenadora local do projeto, a professora Dorothy Sanyena.

Desse evento, Lea lembra especialmente do aluno sul-africano Abey, que ficou encantado com a diversidade e a convivência entre pessoas de diversas etnias no Brasil, o que não ocorre de onde ele veio em razão dos resquícios do apartheid. Como ela disse:

- Apesar de o Brasil ser um país racista, temos uma outra relação com as pessoas. Tem mesmo. Se no fundo existe um preconceito, no seu lidar no dia-a-dia não é uma coisa que apareça. E ele ficou com isso na cabeça, porque ele nunca teve um contato próximo com um branco. Em Mabopane só há negros.

A primeira participação dos sul-africanos foi no evento de julho de 2004, em Ostrhauderfehn, quando viajaram 23 alunos.

A próxima e última Millenium Village vai ser realizada em outubro de 2006, em Mabopane.

Novo projeto

No momento, Lea observa que o grupo está trabalhando para conseguir recursos para um novo projeto, chamado de Academia do Milênio, que deve durar três anos. O objetivo desse projeto é capacitar os alunos das escolas participantes no desenvolvimento de projetos, desde a concepção, passando pela captação de recursos, até a implementação.

Por isso, todas as segundas e as quartas realiza-se a escola aberta, em que os alunos participam de atividades orientadas. Outra atividade importante são os festivais, como o de poesia.

O Colégio Estadual Antônio Quirino também serve de incubadora, como é o caso do grupo de capoeira de mestre Cláudio. Como resultado do intercâmbio, o grupo vai passar três meses na Alemanha. Entre os integrantes está Nivaldo que disse que dessa vez ele vai mais preparado.

Para os interessados em participar dessas experiências, a professora Lea Caban avisa que está precisando de mais professores. Atualmente a escola tem um deficit de pelo menos cinco professores de língua portuguesa e três de matemática. Hoje, essas vagas são ocupadas por contratados.

23/5/2006

Publicado em 23 de maio de 2006