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Importância do ambiente democrático

Leonardo Soares Quirino da Silva

Entrevista: Celina Maria de Souza Costa

Toma posse no fim de janeiro de 2006 a nova diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAP/UFRJ), a professora Celina Maria de Souza Costa. Com licenciatura em Biologia e graduação em Física, ambos na Universidade de São Paulo (USP), Celina é professora do colégio desde 1992. Antes de ser eleita, no final do ano passado, ela já havia assumido cargos na direção dessa tradicional escola.

Além de professora do CAP/UFRJ, Celina também trabalha no Pré-Vestibular Social da Fundação Cecierj, onde foi coordenadora de Biologia e fez parte da equipe que preparou as apostilas, junto com o professor Maurício Luz.

Segundo Celina, o CAP/UFRJ foi fundado em 1948 com a missão de ser uma escola para a experimentação de novas práticas pedagógicas e a formação de futuros professores.

Até o começo dos anos 1980, o colégio era subordinado diretamente à Faculdade de Educação. Desde então, a escola passou a ser um órgão suplementar da UFRJ. Com isso, o colégio passou a ter um quadro de carreira próprio. Hoje, a escola tem 800 alunos nos níveis fundamental e médio.

Nessa entrevista, Celina fala sobre suas principais propostas para a direção do colégio, o diferencial do CAP/UFRJ, a formação de professores, a importância da participação dos estudantes em grêmios de escolas e as mudanças no concurso de admissão.

Como é eleito o diretor do CAP/UFRJ?

Pela legislação, ele é nomeado pelo reitor. O que pode existir é uma consulta à comunidade e, a partir daí, se elege o diretor. Quem elege de fato é a congregação, mas existe um acordo tácito de se respeitar a consulta. Tradicionalmente, no CAP, a consulta tem sido feita paritariamente - nesse tipo de processo de eleitoral, os votos de professores, de estudantes e de funcionários têm o mesmo peso. A congregação, então, envia uma lista tríplice com nomes tirados da chapa vencedora.

Quais são seus principais objetivos na direção do colégio?

O principal motivo da existência do CAP na universidade é o estágio e, hoje, a gente vive uma situação um pouco complicada institucionalmente e também em termos da política do governo federal, porque a carreira de ensino fundamental e médio é uma carreira que existe nos colégios federais - Colégio Pedro II, Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet) etc. - e em alguns colégios de aplicação que são subordinados às universidades federais. Então, hoje, há uma disputa com o governo federal de querer subordinar os colégios de aplicação ao Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional). Só que historicamente, os professores dos colégios de aplicação têm sido sindicalizados ao Andes (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). O governo atual tem, desde a campanha salarial passada, feito acordos em separado e colocado os professores dos colégios de aplicação nos acordos com o Sintrasefe. Isso a revelia dos profissionais dos CAPs, que no caso da UFRJ, participam dos movimentos da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufr). Por conta disso, existe um movimento dentro desses colégios de discussão da carreira que visa a sua vinculação a carreira universitária, porque além das atividades no ensino fundamental e médio, também orientamos a formação dos futuros professores, supervisionando o estágio de prática de ensino. O fortalecimento dessa atuação é outro dos compromissos de minha chapa, fortalecendo cada vez o papel da unidade na formação de professores e também na formação continuada. O CAP tem também atuado, não muito formalmente, há um ou dois anos, em iniciativas com outras unidades da UFRJ, na oferta de cursos para os professores que já estão na rede. O último foi o Programa de Melhoria e Expansão do Ensino Médio (Promed), que começou com o Proifen, que é um programa do governo federal que oferece recursos para as secretarias estaduais de Educação contratarem universidades que pudessem dar cursos de aperfeiçoamento. A UFRJ foi selecionada para fazer a capacitação de cerca de mil professores da rede estadual. A participação nesse programa foi importante para estreitar laços com outras unidades e principalmente com a Faculdade de Educação. Internamente, também há a proposta de reforçar, incentivar os espaços democráticos de decisão.

Como funciona essa etapa de formação de professores? Todos os estudantes de licenciatura da UFRJ passam pelo CAP/UFRJ?

Não. Até o ano passado, cerca de 400 estagiários fizeram estágio no CAP. A escola é pequena e acaba tendo um estagiário para cada dois alunos. Temos 27 turmas, sendo três de terceiro ano do ensino médio, onde tradicionalmente não tem estágio. Em geral, o estagiário passa um ano no CAP, esse tempo varia um pouco em cada departamento. Semanalmente, o estagiário tem um horário com o professor de prática e outro com o supervisor de estágio, fora de sala de aula. Durante o ano, o programa de trabalho dos estagiários é bem dividido. No primeiro bimestre, eles observam nosso trabalho em sala, conhecem a turma. A partir do segundo bimestre, eles começam a aplicar pequenas atividades e programas junto com a gente, acompanham o planejamento, preparam atividades com os alunos, aplicam localmente, o que a gente chama de coparticipação. No segundo semestre, eles fazem a regência. Em cada setor, o formato que se dá a essa regência varia de uma a três aulas. Por exemplo, se recebo um grupo de cinco e cada um dá três aulas é um bimestre. Aí eles elaboram o plano de unidade, o plano de aula, as avaliações, eles corrigem as avaliações que eles preparam.

A senhora falou em reforçar os espaços de participação política. No que consiste? Tem grêmio atuante?

Os alunos participam da congregação, mas o grêmio está passando por um momento de desmobilização. Nós queremos ter uma política de incentivar os alunos a participar. Claro que não é papel da direção organizar os alunos, mas de criar espaços democráticos, especialmente acolhedores para os alunos.

Quais as razões que você e seus colegas de chapa identificam para essa desmobilizam?

Achamos que é reflexo de uma conjuntura maior. De uma descrença na participação política. Claro que o CAP não é um oásis. Tem também uma desagregação social, uma juventude mais preocupada com o mercado. A juventude, hoje, não tem mais ideais coletivos. Há um deslocamento de ideais coletivos para saídas individuais e isso acaba desagregando. Essa mudança é acelerada pela situação do Brasil e tem uma situação mundial que a reforça. No microcosmos da escola, isso resulta na falta de interesse em se organizar.

Mudando um pouco, qual o diferencial do CAP em relação às outras escolas? Qual o diferencial do projeto pedagógico do colégio?

O diferencial do CAP é basicamente a forma de gestão. É um colégio em que o planejamento é um planejamento coletivo, mas cada departamento tem autonomia para definir as suas diretrizes curriculares de planejamento. Este pode ser mudado a cada ano, dependendo exclusivamente do grupo de professores. A discussão da aplicação desse planejamento também é feita coletivamente pelo corpo do departamento. Então, para mim, eu acho que esse é o diferencial. As discussões interdisciplinares, de integração, são feitas em reuniões abertas, coletivas. Existem plenárias pedagógicas, uma vez por mês. Essas plenárias reúnem todos os professores para discutir questões de caráter pedagógico, ou político, ou administrativo. Por exemplo: até 1997 o ingresso no CAP era por prova. Os alunos entravam na primeira série do ensino fundamental alfabetizados. Na prova, claro, passa a maior nota, do aluno que fez uma escolinha, que já entra sabendo tudo - embora a prova fosse fácil. O que acontece com uma prova fácil? Todo mundo tirava 9,5 ou 9,8. Então, uma criança que fez uma alfabetização normal, que não era nenhum gênio da língua portuguesa, tirava sete ou oito. Em 1998, fizemos o sorteio. Em 1999, introduzimos a classe de alfabetização. E esses passos foram decididos em uma plenária da escola. A direção da escola elege o tema, os próprios professores, na congregação, elegem os temas que consideram fundamentais para a escola naquele ano. Depois, são marcadas reuniões mensais - as plenárias - onde esses temas são debatidos pela direção. No caso, o CAP/UFRJ decidiu, em uma plenária pela realização do sorteio. As reuniões são quinzenais e os temas divulgados com quinze dias de antecedência. Espera-se que nesse meio tempo os departamentos tenham realizado duas reuniões para discussão. Esse processo faz com que a direção da escola não seja fácil. A direção tem que ser uma direção atenta às discussões que estão acontecendo na congregação. Dificilmente você consegue bater de frente o tempo todo com uma congregação, com certeza ela vai criar problemas porque as mudanças não são implementadas. Acho que isso é importante no CAP/UFRJ. E isso é uma das questões que a chapa que me elegeu preza muito. E, mais do que o respeito às decisões, é perceber que somos um grupo que está lá para gerir a escola, para apresentar suas propostas - importante que a direção tenha propostas políticas para a escola -, mas que essas propostas sejam levadas às instâncias democráticas, debatidas, ganhas ou perdidas. Porém, uma vez que elas sejam debatidas - perdendo ou ganhando - a direção se compromete a encaminhar aquilo que foi amplamente debatido.

A decisão de se fazer a admissão por sorteio, essa foi uma decisão tomada pela plenária. Quais os motivos que estava atrás dessa decisão e seus desdobramentos?

Até o final de 1998, tínhamos concurso para a 5a série. Essa mudança não foi o resultado de uma reunião, foi o resultado de uma série de plenárias em que, ao longo do ano, discutimos o perfil da escola. Ela é uma escola que atende a clientela de classe média, média alta, é uma escola que seleciona, por mérito, é verdade, mas nessa faixa etária o mérito não se distingue da posição econômica, porque quando você faz uma prova você vai selecionar o menino que o pai conseguiu colocar durante um ano em uma boa escola particular. Dificilmente você vai receber alunos medianamente formados. E isso é uma contradição com o papel da escola pública. Essa foi a principal questão da discussão. A escola pública tem que ser uma escola para todos. De que maneira você pega uma escola de qualidade como o CAP/UFRJ e a transforma em uma escola para todos? Num espaço realmente aberto para todos? Não é fazendo prova. Então, optamos por fazer sorteio, por ser a única forma de se realmente democratizar o acesso à escola. O primeiro sorteio que nós fizemos foi para a primeira série. A escola não tinha, e ainda não tem, uma infraestrutura, por ser pequena, para classes de alfabetização. Embora todos os nossos professores pudessem atuar nessas classes, há anos trabalhavam com crianças já alfabetizadas. Foi feito primeiro sorteio, como a classe de alfabetização não é obrigatória, a escola não podia exigir um certificado. E aí tinha de tudo. Tinha criança que não sabia escrever o "o" com o fundo do copo, as que liam Monteiro Lobato etc. Por que isso? Porque tem aquela coisa do pai que tem a criança que já fez a 1a série e resolve voltar um ano para aproveitar a chance de entrar para o CAP/UFRJ. Então, muita criança entrava alfabetizada e isso criava uma dificuldade. Se existem muitas turmas, o que você faz? Você rearranja as turmas. Por conta disso, fizemos durante um ano trabalho de avaliação dessa turma e discussões ao longo do ano, em novas plenárias, e no fim do ano decidimos que o ideal seria realmente nós abrirmos uma classe de alfabetização um ano mais nova. No final de 1999, optamos por manter o sorteio, mas não mais para a 1a série.

Isso mudou o perfil de seus alunos?

Mudou. Temos crianças de todo o Rio de Janeiro, mas ainda temos muita criança do entorno. Fazemos divulgação no jornal Folha Dirigida. Fizemos uma pesquisa do perfil da procura pela escola, que ainda não foi divulgado, mas é bem distribuído por todas as regiões do Rio de Janeiro, com ênfase na Zona Sul e Barra. Ainda tem muitos pais com nível superior, mas já começa a ter os alunos que os pais são empregados domésticos, do comércio. Há crianças carentes - coisa que a gente não tinha -, crianças que não têm dinheiro para comprar o lanche, que não têm dinheiro para comprar material.

Voltando aos espaços democráticos da escola, qual a influência deles nos alunos?

O fato de as decisões serem tomadas em colegiado é interessante também porque ela cria para os alunos um referencial. A escola se orgulha de uma tradição que é a Festa Junina. Ela não é feita nem pela direção da escola nem pelos professores, ela é organizada do primeiro ao último dia pelos próprios alunos que cuidam desde a segurança aos ensaios da quadrilha pelos alunos do ensino médio. Os próprios alunos entram participando do colegiado, entram em contato com os professores que dão aula para as crianças de 1a a 4a série e estabelecem horários de ensaio da quadrilha. Eles ensaiam as crianças da classe de alfabetização, eles ensaiam a quadrilha da 1a série. É muito bonito. Isso cria um vínculo das gerações da escola. Tem aluno da 2a série do ensino médio que fica a tarde na escola para ensaiar a quadrilha dos pequenininhos. Eles suam para fazer isso. Eles cuidam do dinheiro, imprimem o convite, enfeitam a escola, prestam contas. Eles fazem tudo. Acho que é um exercício de autonomia. Isso era, muitas vezes, feito pelo grêmio, mas há três anos estamos com o grêmio sem autogestão, quer dizer está meio abandonado. Mas mesmo com o grêmio abandonado, existe sempre um grupo de alunos que organiza. O grêmio se apoia também no conselho de representantes de turma. Cada turma tem um representante e os alunos têm quatro representantes no Conselho de Classe e não há Conselho sem a participação deles. Eles têm voz, eles falam. A partir da 5a série, o serviço de orientação educacional os ajuda a se organizarem, como ser representante. À medida que eles vão crescendo o serviço de orientação dá só um suporte externo, já não dirige a reunião. Os alunos também tiram representantes para a congregação e no último ano eles participam ativamente da congregação. Bom, na universidade, onde a pessoa tem mais de 18 anos, que tem uma visão política um pouco mais amadurecida, já acho difícil, imagine para um adolescente vivendo nesse mundo em que a gente está, em que há um acúmulo de pressão mercadológica e individualista, acho difícil eles acharem o caminho deles. O CAP/UFRJ oferece espaço para que os alunos se auto-organizem e isso é uma coisa que queremos reforçar porque para a direção da escola essa participação compromete o aluno com as deliberações, com a escola, com a manutenção, com a existência da escola, com a coisa pública, com o papel da escola. Qual o papel dessa escola no quadro do ensino público no Brasil? E esse é outro ponto que a nova administração vai trabalhar: a importância da participação dos alunos na formação de novos professores. Os próprios alunos têm uma consciência boa do papel que eles desempenham na formação dos professores. Então o licenciando é muito bem recebido.

10/1/2006

Publicado em 10 de janeiro de 2006