Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O homem que caiu em um buraco de minhoca

Belmiro Wolski

Leocir era um caipira daqueles que nunca visitou uma cidade. O único artefato tecnológico que conhecia era o radinho de pilha, que trocou por mandioca com o dono da venda, que visitava de vez em quando para fazer compras, ou melhor, escambo.

Levava sempre para casa uma volta de salchicho, café, açúcar e sal. Com o restante, se virava. Plantava o que precisava, caçava, pescava e comia pinhão quando era época. Vivia sozinho. Um dos últimos eremitas do século XX. Não tinha amigos. Seus companheiros eram os ariscos bois que criava à revelia, na várzea e no mato fechado de pinheiros em sua propriedade de cento e cinquenta alqueires. Tinha umas duzentas cabeças que procriavam há mais de cem anos de forma selvagem, sem nenhum trato. Nunca vendeu uma só cabeça. Morriam de velhos. A manada até despertara atenção de um órgão do governo que chegou a coletar amostra genética para um banco de gens, para preservar a pureza da raça. Contou Leocir ao dono da bodega que, certa vez, precisou ficar embaixo da casa um dia inteiro, acuado pela boiada enfurecida.

Um dia, Leocir saiu de casa pela manhã se embrenhando pelos carreiros em direção à roça de milho. Enxada nas costas, cigarro de palha na boca. Entre uma baforada e outra, passos largos, os pés descalços, molhados pelo orvalho, faceiro caminhava, se esgueirando por entre os galhos de tupixaba, que pendiam pela trilha. A fumaça do palheiro acompanhava o vácuo de Leocir, formando um pequeno redemoinho e se misturando com a cerração.

Ao chegar a um velho portão de arame farpado, Leocir o abriu e adentrou em sua roça de milho, já espigando. Foi então que algo estranho aconteceu. De repente, a roça de milho desapareceu de sua frente. Leocir sentiu uma pequena tontura e, firmando os olhos, piscou forte várias vezes, não acreditando no que estava vendo. Era uma grande planície deserta, encoberta por uma tênue névoa, que limitava seu campo de visão. O chão era uma espécie de piso polido, constituído de lajotas hexagonais muito brilhantes, beirando o dourado. Ao longe, Leocir avistou um emaranhado de luzes coloridas, que pareciam estar se aproximando. Na verdade, a impressão que dava era a de que ele é que estava se aproximando das luzes, sem, no entanto, estar andando.

As luzes iam tomando forma e, aos poucos, uma estrutura arredondada se delineava à sua frente. Como um grande estádio de futebol, que Leocir nem conhecia, a construção imponente parecia ser de vidro. Um único vidro emitindo luzes coloridas. Sem saber o que estava acontecendo, Leocir viu duas criaturas surgindo na frente das luzes, como se tivessem atravessado a parede de vidro.

Eram humanoides, não mais que um metro e vinte centímetros de altura. Olhos escuros e grandes sobressaindo do rosto. Boca e nariz pequeno, cabeça ovalada. Os braços compridos e mãos magérrimas não faziam nenhum gesto. As pernas não davam para ver, encobertas por uma túnica comprida, esfolando o chão. Não pronunciaram uma só palavra, mas Leocir, de alguma forma, entendeu que devia acompanhá-los. Andaram em direção à parede luminosa e Leocir, meio relutante, hesitou em seguir adiante quando se aproximaram da parede de vidro. Os humanoides olharam para ele e, em tom de autoridade, ordenaram mentalmente que prosseguisse. Leocir, então, atravessou a parede de vidro como se fosse uma cortina de fumaça.

Já dentro da construção, Leocir notou que parecia tudo igual, exceção à uma redoma que também parecia ser de vidro, porém não emitia luzes. A redoma estava bem no centro da grande construção de vidro e não tinha mais do que dez metros de diâmetro por uns três de altura. Os humanoides ordenaram que Leocir se aproximasse da redoma. Ao se aproximar, ordenaram que a atravessasse como fizera anteriormente. Sem ter como não obedecer, Leocir cruzou a parede.

Sem entender mais nada, Leocir se viu em meio ao milharal. A enxada caída no chão, o portão semiaberto. Fora um sonho, que alívio, pensou. Fechou o portão e, ainda muito impressionado, tocou nas folhas e espigas de milho, como a testar se eram reais. Não há dúvida, estou de volta de um pesadelo, pensou.

O tempo passou e Leocir nunca mais apareceu na bodega. Ninguém nunca mais ouvira falar nele. Apenas sua enxada fora encontrada caída próxima ao portão de sua roça.

Enquanto isso, em algum canto da galáxia, um aglomerado de humanoides se formava em torno de uma redoma de vidro, a observar uma estranha criatura em seu interior.

Publicado em 29/08/2006

Publicado em 20 de junho de 2006

Este artigo ainda não recebeu nenhum comentário

Deixe seu comentário

Este artigo e os seus comentários não refletem necessariamente a opinião da revista Educação Pública ou da Fundação Cecierj.