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O menino cósmico

Belmiro Wolski

É festa junina! O garoto acende a bombinha e, apreciando sua pequena explosão, expressa sua alegria com sorrisos e um grito de satisfação. Enquanto ainda se vê o clarão e se ouve o estampido, algo de inacreditável ocorre por entre as fagulhas que cintilam na noite escura e que extasiam o olhar do garoto.

Nas proximidades de uma das milhares de fagulhas que se distanciam radialmente do centro da explosão, em um minúsculo grão de pó, ainda um pouco quente, uma vida primitiva ensaia seus primeiros passos. São seres de várias espécies que aos poucos vão se multiplicando e colonizando o pequeno grão de pó, que para eles parece não ter fim.

Alimentam-se de espécies diferentes de vegetais que se desenvolvem em abundância na superfície daquele grão de pó, cuja energia principal provém do calor de uma faísca que está nas proximidades. Alguns desses seres se alimentam de seres de outras espécies, que são caçados e vorazmente digeridos numa cadeia onde, às vezes, o caçador vira caça.

Naquela fração de segundo em que o menino observa a explosão, a vida continua seguindo seu ritmo frenético no pequeno mundo. Milhares de gerações já se passaram e uma das espécies de seres já se destaca entre as demais. Eles evoluíram muito. Aprenderam a construir artefatos para caçar e vivem em grupos. Conseguem se comunicar e seu trabalho em conjunto rende bons frutos.

O menino continua olhando. É como se fosse uma imagem de fotografia. Estático, expressão de felicidade. Os seres estão agora mais inteligentes. O conhecimento vai sendo transmitido de geração em geração e se acumula exponencialmente. Constroem casas para morar. Aprenderam a cultivar algumas espécies comestíveis e não vivem mais só da caça.

As gerações se sucedem rapidamente. O progresso continua ascendendo. As descobertas nas áreas da física, medicina, astronomia e demais ciências se multiplicam espantosamente. Os pequenos seres já desenvolvem aparatos tecnológicos formidáveis. Naves e sondas já visitam outros grãos de pó nas vizinhanças.

A ciência atingiu nível tão espetacular que os pequenos seres chegam a especular sobre sua própria origem. Já sabem que tudo começou com uma grande explosão. Conseguiram até captar o som da grande explosão. Um barulho contínuo proveniente do centro da grande explosão, que eles batizaram de "Big Bang". Não sabem ainda se a expansão de seu universo se dará indefinidamente, terminando num agonizante frio absoluto, ou se um dia voltará a se contrair até o ponto onde tudo começou.

Resguardadas as devidas proporções, a trajetória da humanidade no universo não é menos espetacular. Para uma civilização que nasceu em meio à grande explosão, ou frações cósmicas de tempo após a mesma, é quase um milagre que tenhamos adquirido conhecimento tão fantástico a ponto de especularmos sobre a origem de tudo, sobre as fronteiras do universo e sobre as leis que governam todos os fenômenos.

Não seria o nosso universo fruto da explosão de uma bombinha de um menino cósmico? Quem sabe se a intrigante energia escura que tanto inferniza os cientistas não seja uma interferência do planeta do menino cósmico, talvez a gravidade!

A explosão da bombinha terminou. Será que a civilização dos pequenos seres teve tempo suficiente para evoluir a ponto de realizar uma fuga para o hiperespaço? Ou será que se autodestruíram muito antes, por conta da ganância e das guerras?

O menino sorri.

Pubicado em 28/6/2006

Publicado em 27 de junho de 2006