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Sobrenatural

Karla Hansen

Uma forcinha de São Pedro

Vou contar uma história que tem algo de sobrenatural. É uma história muito simples, mas tenho medo de tocar nessas coisas do outro mundo, por menos importante que elas sejam. Tenho um medo que me pélo. Acho que de ser castigada, por colocar o nariz onde não devia. Mas, vá lá, vou me arriscar.

Tudo começou numa noite muito agradável, na casa de amigos, com um convite: "vem passar uns dias na Praia do Sono!" À parte o nome do lugar, motivo de piada e de risinhos irônicos, a Praia do Sono era descrita por ele, como um paraíso. Uma praia reservada, habitada por pouco mais de uma dezena de famílias de pescadores, descendentes dos índios Caiçaras, com casinhas de sapê, sem luz elétrica, floresta de Mata Atlântica e rio que ia desaguar no mar.

Para ela, que andava feito uma nuvem, leve e sem compromisso, naquela noite, o convite pareceu irresistível e resolveu aceitar: "Vou. Mas, como é que eu faço para chegar lá?" E ele explicou, pacientemente, como sempre fazia.

No final de semana seguinte, sem avisar a ninguém, ela fez uma pequena mala e partiu. Pegou um ônibus para Parati e, chegando lá, esperou por outro com destino a Laranjais. Nesse, seguiu até o ponto final, de onde tomou a trilha que passava por dentro da floresta e subiu o morro, fazendo tudo, exatamente, como ele havia explicado. Quando já descia o morro, teve a primeira vista da Praia do Sono - pareceu-lhe mesmo a visão do paraíso. E imaginou um mundo de aventuras na nova terra, como se ela estivesse numa das caravelas de Cabral!

Aos poucos, perguntando daqui e dali, achou a casa do amigo, um casebre, de telhado de palha e paredes de barro, na beira do rio. Imagine a surpresa dele! Acostumado a fazer convites e a ouvir promessas de gente que dizia que ia e nunca aparecia, a presença dela foi comemorada como um fato excepcional.

Era final de tarde e ele se preparava para uma pescaria noturna com outros companheiros. Perguntou se ela queria ir. Ela nem pensou duas vezes, estava ali mesmo para o que desse e viesse.

Caminharam por beira de praia, pisando em pedra, por dentro de mato, ele, ela, mais dois companheiros, um deles pescador experiente do lugar, com sua mulher. Quando chegaram, enfim, ao lugar determinado, era noite escura. Sentaram-se numa grande pedra plana aonde a água do mar vinha bater. Cada um escolheu um pedaço de chão, tomou posse de seu caniço - eles tinham sido previamente preparados com anzóis e iscas, pelo pescador - e jogaram ao mar. Como um aviso, ela anunciou que, em pescaria, era mera aprendiz, e depois se pôs quieta, lembrando de quando era menina, de uma vez, muito remota, em que tinha ido pescar na companhia do pai e dos irmãos.

Depois de uma hora passada, ninguém havia pescado nada, embora os anzóis voltassem vazios. Comentaram a esperteza dos peixes dali, o mar agitado, houve troca de lugares e resmungos de desânimo. Ela, no entanto, permaneceu silenciosa, confiante nas lições aprendidas, que era virtude de pescador esperar. Então, por um breve momento, uma lembrança lhe riscou o pensamento: "São Pedro era pescador". Foi então que dali a poucos instantes, seu caniço começou a se curvar em direção ao mar, sendo puxado com força para o fundo. Ela se levantou e, muito agitada, começou a pedir ajuda - não sabia o que fazer! O pescador, mais experiente, veio a seu socorro e tirou um parati da água, peixe típico da região, de uns quarenta centímetros. Sua agonia era tal qual a do peixe, que se agitava na mão do pescador.

A alegria era enorme em seu espírito, e tanta que ela precisou se acalmar para voltar ao sossego necessário de antes. Afinal, um peixe só não basta para encerrar uma pescaria. E não teve de esperar muito. Pouco tempo passou e lá veio outro peixe, morder o seu anzol. O caniço se encurvou com força de novo e ela se excitava como uma criança, enquanto os outros gritavam: "puxa, puxa, segura com força!". Era outro parati.

A noite correu, outros peixes vieram e, aos poucos, São Pedro deixou que os outros também se alegrassem. No caminho de volta, estavam cansados, mas, satisfeitos, não paravam de falar e de lembrar a sorte da pescadora principiante.

No dia seguinte, prepararam o peixe à moda caiçara, enrolado na folha de bananeira, com pirão e bananas verdes cozidas. A pescaria da noite anterior foi recontada ainda umas tantas vezes, em que sobressaíam as proezas da moça da cidade. Mas o segredo, entre ela e o santo pescador jamais fora revelado antes.

Pubicado em 28/6/2006

Publicado em 27 de junho de 2006