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Cada um em seu lugar: o Relacionamento entre a Escola e a Família no Limiar do Século XXI

Bruno Malheiros

É consenso que o processo educativo acontece em todos os lugares e a todo o momento na vida do ser humano. Família, clube, igreja, enfim, são inúmeros os espaços em que a aprendizagem ocorre. Entretanto, nossa sociedade atribui à escola grande parte da responsabilidade pela formação do cidadão. Pode-se afirmar, neste sentido, que a escola é a instituição educacional por excelência.

Frente a esta certeza é necessário compreender alguns pontos de discussão sobre o papel da escola e a relação que ela estabelece com seu exterior. O tratamento dado à família e seu ponto de vista, por exemplo, afetam diretamente o modelo que a escola estabelece para sua política pedagógica e que, por certo, afetará sua concepção de homem e seus relacionamentos. E à medida que estabelece relações com a sociedade em geral e com os grupos próximos a ela, em específico, contribui para a formação do conceito de identidade do aluno.

Nos últimos anos, as mudanças sociais, representadas principalmente pelas alterações nas relações de trabalho e no modelo de homem necessário para a estabilização e o avanço deste milênio, fizeram com que a instituição familiar também sofresse fortes mudanças, superando a ideia de que a família deve, necessariamente, atender ao modelo tradicional que herdamos.

Uma das mudanças mais relevantes que marca o modelo educacional atual é a saída da mulher, principalmente nas duas últimas décadas, para o mercado de trabalho. Quando o mercado a absorve, a questão da educação das crianças tende a ficar relegada exclusivamente às escolas. Isso porque os pais, cada vez mais ausentes, tendem a direcionar a ela, a responsabilidade total pela educação de seus filhos.

E é aí que os papéis começam a se confundir. A escola, na busca de atender esta nova demanda, inicia um processo de valorização do lado afetivo, tentando suprir a carência familiar. Óbvio que a escola não consegue "ser família" e, por consequência, acaba deixando de "ser escola". Uma situação muito comum, nesta tentativa de preenchimento do espaço deixado pela família, é a escola direcionar seu foco para os pais, buscando compreender o que se passa na casa do aluno e trabalhar sobre estes fatos.

As relações entre escola e família sempre foram fundamentais para o sucesso de um projeto pedagógico bem formulado. As relações estabelecidas, entretanto, foram moldadas para o atendimento às demandas de uma instituição familiar que não existe mais. A velha ilustração dos livros didáticos, que apresentam a família composta por um pai, uma mãe e dois filhos (normalmente um menino e uma menina), já não traduzem a realidade na qual as crianças deste início de século estão inseridas. O desenho das famílias muda constantemente gerando a necessidade de a escola repensar a forma como se relaciona com os alunos.

O impacto da confusão de papéis que se estabelece atualmente pede uma análise profunda de sua origem, bem como de suas consequências. O movimento de atribuição de responsabilidades educacionais pelos pais à escola não ocorre de modo unilateral. A escola, em resposta, começa a direcionar ações pedagógicas à família, o que pode ser entendido como uma busca de equilíbrio frente às novas responsabilidades que assume, principalmente as de caráter afetivo.

Um exemplo são as tarefas de casa. Nestas situações, o professor delega a responsabilidade pela orientação pedagógica aos pais que, sem dúvida, devem ter uma participação ativa na formação de seus filhos. O problema surge quando a escola tenta isentar-se da responsabilidade pelo desenvolvimento pleno do aluno, em consonância com as necessidades contemporâneas, atribuindo a responsabilidade pelas dificuldades de aprendizagem, geradas dentre outros motivos, por esta inversão de papéis, a questões familiares. Com isso, a importância dada às relações familiares pode, por vezes, ser valorizada em demasia. O grande perigo aqui é o fato de a escola acabar "identificando o problema" antes mesmo de analisá-lo, sem um diagnóstico adequado.

Estas questões pedem uma análise de dois cenários distintos: o primeiro, do aluno oriundo de uma família favorecida econômica e culturalmente. Este aluno, na medida em que possui mais recursos para sua orientação e auxílio, tende a superar as questões trazidas pela confusão de papéis. Contudo, para o aluno de classes menos favorecidas, a situação torna-se crítica. Este aluno tende a ficar sem uma instituição escolar, capaz de preencher seu papel pedagógico no sentido necessário para sua formação e, ao mesmo tempo, carece de uma estrutura familiar propícia a seu desenvolvimento social.

Quando se afirma que a escola deve ater-se a seu papel pedagógico, não se busca ignorar a relevância das relações afetivas e sociais estabelecidas pelas diversas instituições envolvidas no processo de aprendizagem. Em outras palavras, não significa dizer que a escola deva isentar-se de relacionamentos com seus alunos, até porque isto não seria possível. O que se propõe é uma definição clara do papel de cada um dos sujeitos envolvidos na construção do conhecimento.

É necessário, portanto, repensar o campo de atuação de ambas as instituições: familiar e escolar. Colocar o aluno no centro do processo educacional exige que a escola exerça plenamente seu papel pedagógico, direcionando ao corpo discente, as atividades necessárias para seu desenvolvimento. A grande necessidade encontrada pelas escolas na atualidade reside em rever e qualificar de forma adequada o papel das instituições na formação do aluno. Este é um dos grandes desafios para profissionais da educação em geral.

Referências:

FANTINI, M. e WEINSTEIN, G. The Disadvantaged: Challenge to Education. Nova Iorque: Harper & Row, 1968.

GARCIA, Paulo Sérgio. Uma nova relação professor-aluno. São Paulo: Cortez Editora, 2000.

SCHUSTOFF, Suely. Psicopedagogia II. Rio de Janeiro: UFRRJ / CEP - EB, 2005

SEAGOE, May V. O Processo de Aprendizagem e a Prática Escolar. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1970.

Publicado em 18 de julho de 2006