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Querida

Anísio Teixeira

Querida:

De propósito lhe escrevo neste papel transparente e leve. Vou, daqui a pouco, mandá-lo pelos ares para você. Quero-o assim leve, ligeiro para dar-me a impressão de que é um pouco de asa, um pouco de espírito, um pouco de coração que lhe mando nesta tarde, em que estou tão fatigado e o ar, o céu, tudo está tão doce, que a minha saudade parece que se diluiu em uma vaga incerta de tristeza.

Havia esperado dias e dias pela sua carta. Afinal, domingo, recebi-a. Fez-me tanto bem que eu perdoei o atraso do correio e o atraso do estafeta, que tendo-a recebido sábado, só a entregou no domingo. Desde domingo tenho estado de olho para um momento de sossego. Mas, além de aulas, caiu-me de chofre sobre os ombros uma avalanche de política: amigos do sertão, a chegada de políticos, e visitas imperiosas... Creia, não me sobra tempo. E assim perdi o avião de quarta. Jurei, então, comigo mesmo, não perder o de amanhã. Por isso aqui estou, para uma longa conversa com você. Como isso me soa prosaico e triste. Conversa e conversa pelo Correio. Mas, não era isto que eu queria. Hoje, eu dava dez páginas de carta, para poder vê-la um instantinho. Vê-la somente e dizer num olhar, tudo que essa pena não lhe sabe, nem lhe pode dizer. O seu bom espírito ainda quer encontrar vantagens nas distâncias que nos separam! Deus sabe o que faz diz você. Que pequena confiança, minha querida Emilinha, tenho eu nessa sabedoria. Prefiro a minha, que me diz que seria infinitamente melhor que estivéssemos juntos. E que você pudesse já começar a me ajudar a reconciliar-me com a vida. Custo tanto a andar sozinho. São encontradas aqui, conflitos acolá, erros além, toda uma caminhada incerta, em que a gente não sabe bem para onde vai, nem porque vai... Você com a sua boa alma simples há de me ajudar nessas incertezas. Eu não sei bem tudo que espero de você. Sei apenas que um impulso cego e instintivo me arrasta para você. Sei que por essa inclinação estou disposto a sacrificar o que, há bem pouco tempo, era tudo que eu mais queria no mundo: o meu orgulho, a minha independência, a minha liberdade de viver sozinho. É muito, pois, o que espero de você. Tenho uma confiança muito grande, muito profunda que errarei se não fizer isso, se não obedecer.

Caminho, assim, para você com essa humildade e essa confiança, certo de que terei no seu coração esse grande apoio permanente que me ajudará a compreender, a sentir e a sofrer a vida.

Não peço, nunca pedirei coisas do outro mundo, que nos são tão fácil de imaginar, nesses momentos, em que uma grande aflição nos absorve.

Mas, a sua naturalidade, a sua compreensão fácil e simples da vida, a ausência de orgulho de sua alma, - tudo isso vai ajudá-la a ser a companheira do homem complicado, difícil e incerto que eu sou. Eu lhe procuro, como quem procura um pouco de sombra onde se abrigar. E nessa sombra, eu quero aprender a minha filosofia de vida, a ser mais simples, mais humilde, mais natural e mais contente. Quer, pois, você, minha querida, ser a professora de alegria e de contentamento e de paz, para a minha vida? Não queiramos julgar que tudo isso seja sonho e fantasia. Por que há de ser? As coisas melhores que pude construir até hoje foram as minhas amizades. O nosso amor há de ser qualquer coisa de maior e de melhor. Ajude-me, pois a construí-lo. Com o seu auxílio, ele há de ser tão alto, tão sólido, tão humano e tão bom que irá para além do nosso sonho. Adeus. Saudades e saudades e saudades. Escreva-me muito.

Todo seu

Anísio

TEIXEIRA, Anísio. Carta a Emília Ferreira Teixeira, Bahia, 31 jul. 1930.
Fundação Getúlio Vargas/CPDOC - Arquivo Anísio Teixeira - ATc 30.06.22.

Pubicado em 25/7/2006

Publicado em 25 de julho de 2006