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Projeto "A Cor da Cultura" — Experiências

Professora Multiplicadora: Sheila Conceição Silva Lima

Meu nome é Sheila Lima, sou professora da Rede Pública Municipal de Niterói desde 1997 e estou terminando o Mestrado em História na Universidade Federal Fluminense. Pertenço ao quadro de funcionários efetivos da Escola Municipal Djalma Coutinho de Oliveira, que fica situada à rua Cinco de Março, nº 75, Riodades, Fonseca - Niterói, atendendo uma clientela de baixa renda, em grande parte. Dou aulas em três turnos, todos do primeiro segmento do ensino fundamental. A escola é dirigida pela Professora Aidê Rodrigues e conta com a Coordenação da Professora Ana Maria Borges, no turno da noite. Também desenvolvo as funções de Promotora da Leitura no Contexto Escolar e sou professora de Informática Educativa.

Temos como objetivo, enquanto Comunidade Escolar, a formação integral do educando, acesso aos diversos tipos de conhecimentos e tecnologias, desenvolvimento da autonomia individual e coletiva. O nosso alunado são em número de 320, onde há mais mulheres que homens. Em relação à etnia pode-se definir assim a Escola Djalma Coutinho:

Em relação à faixa etária temos alunos de todas as idades, desde os seis anos, no 1º ano escolar, aos 70, discente que compõem a Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Os profissionais que atuam em nossa U. E. são 24 professores e 13 funcionários.

PROJETO "A COR DA CULTURA":

No princípio do ano, apresentamos um projeto, de minha responsabilidade, para a Escola, o qual englobava a temática da Questão Étnico-Racial no Brasil e o estudo da História e Cultura da África e Afro-Brasileiras, intitulado "Respeitando Diferenças, Construindo Maravilhas". Esse projeto tinha nascido do meu desejo de abordar a problemática do racismo, da discriminação e do preconceito, que ainda é parte integrante de nosso meio. O grande motivador para o desenvolvimento deste projeto veio dos próprios alunos, desde os de 6 anos e, especificamente, os Jovens e Adultos, que não se reconheciam enquanto negros e exerciam de forma acentuada o preconceito contra a negritude mais efetivada, ou melhor, mais identificada no outro. Também não é possível esquecer, do incentivo da Professora Glória Maria Anselmo, Coordenadora de 3º e 4º Ciclos da Fundação Municipal de Educação de Niterói, que muito me incentivou a formalizar num projeto escolar, as ações individualizadas que já vinha implementando sobre o assunto.

Quando surgiu a oportunidade de fazer o curso "A Cor da Cultura", este veio somar com a proposta que já tinha apresentado aos meus pares e aos discentes de uma forma geral. A partir de abril, de 2006, comecei a utilizar o material do kit, implementando, junto aos alunos da EJA, um estudo mais aprofundado e rico em detalhes e um trabalho mais eficaz, diversificado e de excelente qualidade.

Os discentes foram os primeiros a terem contato com o material. Posteriormente, os professores da noite, onde atuo, foram contemplados com a apresentação do kit do Projeto "A Cor da Cultura", apresentação esta ocorrida nos primeiros dias de maio.

Começamos trabalhando com a identidade e a percepção de si, de acordo com a concepção étnica de cada um. A primeira atividade realizada foi a moldagem do rosto na argila, buscando a sua essência, sua matriz. A percepção de si, enquanto ser múltiplo, criava uma possibilidade de olhar para o outro, de forma a respeitar sua diversidade. Assim, introduziu-se a temática da História da África, desmistificando a caótica visão que a mídia acaba construindo desse continente.

Neste enfoque, trabalhei com as atividades sugeridas pelo Vídeo "Nota 10". A partir de um conceito prévio do que seria África para eles, classificaram o Continente por intermédio de cinco pares de antônimos:

Posteriormente a montagem do mapa da África com os recortes de cada região classificadas pelos pares Doença-Saúde, Pobreza-Riqueza, Tribo-Civilização, Atraso-Desenvolvimento, Instabilidade Política-Estabilidade Política, assistimos ao vídeo com a explicação dos estereótipos quando se trata do continente africano. Os alunos, muitos, é verdade, ficaram surpresos por conhecer um outro lado da África que não o veiculado nos meios de comunicação. A mesma atividade foi desenvolvida com os professores que compõem o terceiro turno e a mesma constatação foi feita por um bom grupo de profissionais: a África veiculada pela mídia é a que grassou nos mapas criados por elas. Outra atividade desenvolvida com amparo do kit do Projeto "A Cor da Cultura" foi a Roda de Conversa, momento dedicado ao debate e a discussão sobre as relações de discriminação e racismo existentes na Escola, no Bairro, no Trabalho e na Mídia em geral. Esse trabalho foi muito interessante, pois situações vividas por eles são trazidas à tona, às vezes, de forma dolorida, mas que nos permitem desmistificar certos posicionamentos que são socialmente construídos e ajudam a excluí-los ainda mais da integração social. Como exemplo, posso citar as babás negras que são sempre interpeladas se conhecem a criança, se os patrões estão cientes de que ela levará o bebê e assim por diante. A constatação de que grande parte das profissões com menor grau de instrução, figura sempre o negro e, ao nível inverso, há menos negros em carreiras promissoras.

Mais uma vez, utilizei o vídeo "Nota 10", essencial para o meu trabalho, nesse primeiro momento, e também o apoio do livro Modos de Ver. Esse trabalho permitiu aos alunos a compreensão de que a sociedade constrói certos preconceitos que atingem não só o indivíduo, como perpetua a integração ou a exclusão de todo um grupo. Reinventamos os espaços culturais, ressignificamos os conceitos sobre arte, e trabalhamos, associados à construção de um trabalho escrito sobre a História da África e de sua Cultura, outra atividade, a arte africana desde a arquitetura ao artesanato. Culminamos essa re-conquista do negro no espaço cultural, com a visita ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) para contemplarmos a exposição de Miró.

Por último, e não menos importante, o projeto que estamos desenvolvendo contou com a parceria da Orientadora Educacional da Escola Gleicimar Gonçalves de Lima, que com seu projeto Esportes e Saúde na Escola, nos brindou com a visita do treinador da Seleção Brasileira de Amputados, o Professor Paulo Eduardo Uchôa, que trabalhou a temática de discriminação e superação das dificuldades e do preconceito por este seleto grupo de homens. Trouxe-nos um vídeo, que veio somar com o material do kit, que estávamos trabalhando, sobre a Seleção de Amputados de Serra Leoa e o orgulho daqueles homens de serem negros e terem por intermédio do esporte superado o trauma de terem perdido parte de seus membros na Guerra ou nas minas espalhadas pelo território. A alegria de estarem disputando um campeonato e o orgulho de representarem o seu país e todos, que de alguma forma eram deficientes, inebriaram os alunos da EJA!

Essas atividades tinham um conjunto de objetivos muito próximos: buscar a identidade de cada um ali, presente, desenvolver a capacidade de identificar que, na diferença, se pode construir a unidade; discutir a questão étnico-racial no Brasil, nos espaços públicos e privados; conhecer e dar reconhecimento à História do povo afro-brasileiro e seus valores civilizatórios; inserir a problemática racial no cotidiano escolar e trazer questões que estavam subjacentes à nossa prática docente, levantadas de forma muito particularizadas até então. E, ainda, apresentar a lei 10.639 e informar que a temática discutida era lei e devia ser cumprida e trabalhar a sensibilidade para estimular o respeito às diferenças, enfim, quer afirmar o reconhecimento da História e da Cultura Afro-Brasileiras e Africanas e, dar a conhecer importante matriz da sociedade brasileira, valorizando seus componentes na interação da alteridade.

Para dar estrutura a esses objetivos e por de pé esse projeto, busquei apoio em algumas literaturas importantes: o próprio material da "Cor da Cultura", o livro de Lília Moritz Schwarcz O Espetáculo das Raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil. 1870-1930. O texto da Professora Francisca Maria do Nascimento Sousa: "Linguagens Escolares e Reprodução do Preconceito", o texto de Nelson Fernando Inocêncio da Silva: "Africanidade e Religiosidade: Uma Possibilidade de Abordagem sobre as Sagradas Matrizes Africanas na Escola". De Júlio Emílio Braz Na Cor da Pele, literatura infanto-juvenil. Também não posso esquecer do texto da Lei e das Diretrizes para o ensino de História e Cultura dos povos Afro-Brasileiros e Africanos, literatura do Ministério da Educação e do uso da Internet nos sites Wikipédia, Portalbrasil e Vozes da África, além do uso do portal da Cor da Cultura, da plataforma da e-proinfo e do material do curso "Gênero e Diversidade na Escola".

Nesse ínterim, os alunos da EJA conquistaram um espaço de reivindicação, de exposição e de troca, muito grande, constituindo-se de um vocabulário mais elaborado, concomitantemente, entrando em contato com textos conceituais e tecnologias audiovisual e da informática educativa. Os alunos estão se permitindo questionar "pacotes televisivos e jornalísticos" que "encucam", no receptor, mensagens nem sempre passíveis de "verdades". Discutem historicamente a sua negação no tecido social e buscam construir formas de se inserir, valorizando-se e adquirindo habitus de respeitar o outro. Os discentes aprendem a respeitar as diferenças para construir maravilhas. Entretanto, esbarramos em preconceitos tão arraigados socialmente que, muitas vezes, não nos damos conta de que eles coexistem entre nós mesmos: alunos e professores. Esses obstáculos impedem que progressos sejam construídos de forma eficiente. Outro obstáculo é a construção do mito de democracia racial no Brasil, que impede que a questão racial seja encarada. O racismo social, nesse sentido, é mais identificável e combatível do que o que mexe com uma situação tão difícil e delicada. Outro empecilho é a adesão efetiva de todo o corpo docente em realizar mais esse trabalho, levantar mais essa bandeira, fazer com que essa questão seja trabalhada de forma constante em sala de aula, no cotidiano escolar.

Os discentes deram uma resposta positiva à abordagem feita por mim e propiciaram a discussão e o debate, um brilho especial que seus anos de experiências trazem e, anseiam por sua valorização e o restabelecimento do respeito aos afro-descendentes! Quanto aos professores, querem saber mais, se aprofundar na discussão, procurando outros cursos para fomentar o estudo da lei 10.639 e suas correlações com o cotidiano escolar.

Enquanto responsável pela aplicação do projeto, identifiquei diferentes reações entre os grupos que compõem a EJA, na Escola Djalma Coutinho. Num grupo mais avançado, o de 4ª fase (antiga 3ª série), alguns alunos negros não se identificavam como negros e não admitiam discutir essa questão. Outro grupo, de nível mais elementar, os das primeiras letras e sons, tinha uma consciência muito maior em relação à sua identidade e se autodeclaravam negros com orgulho e determinação, querendo buscar o seu espaço na sociedade e no ambiente escolar (grupo majoritariamente de negros). Os alunos brancos participaram de forma vibrante e procurando se inteirar das conquistas, informações e se integrar cada vez mais no espaço do direito de serem respeitados por serem pessoas humanas e não porque a sua pele é de cor e tonalidades diferentes. Em outro extremo, há os alunos brancos que não conseguiam se ver como brancos e acabavam negando sua condição, se autodeclarando negros. Mas, acredito, que a proposta foi entendida por todos, pois em nenhum momento, os alunos brancos se sentiram ameaçados ou instigados a exercer sua posição de superioridade ou de inferioridade. Pelo contrário, estavam integrados ao projeto em que eles ajudaram a construir e participaram de forma ativa das atividades que eram sugeridas. Mas, não podemos negar que, em alguns momentos, o posicionamento deles dava ao preconceito social (os pobres) um destaque maior do que a questão étnico-racial, quando se discutia inclusão ou exclusão. Contudo, de uma forma geral, o desenvolvimento da proposta foi muito bem aceita pelos diferentes grupos étnico-raciais que compõem a Escola.

Falar de racismo é sempre algo muito complexo. Como venho relatando, a dificuldade esbarra na construção do mito de democracia racial, em que vivemos. É difícil admitirmos que somos um povo racista e que temos atitudes discriminatórias com o outro. Mas, procurei abordá-lo de maneira clara, sem rodeios e subterfúgios, tentando abrir um espaço de discussão e não um espaço inquisitorial, pois temos o interesse de edificar uma equidade racial, e não, condenar os brancos pelo passado-presente de superioridade. Os excessos trazem sempre descontrole e intolerância. Assim, o alunado sentia-se incomodado quando ele se reconhecia como sendo o preconceituoso! Ser identificado numa situação de discriminação validava o discurso social, forjado nas entranhas do tempo, de um país marcado pela condição de desqualificação do outro, sem respeito às suas tradições, suas culturas, seu cotidiano, seu modo de viver, suas opções sexuais, suas deficiências. Mas, quando o detector passava longe de seus atos, a reação era muito boa, proporcionando debates consistentes que tinham eco em suas salas de aula, junto com seus professores de referência. Mas, admitir que somos preconceituosos e fazemos largo uso da discriminação, já é um passo importante para desmistificar a posição cômoda que criamos para essa sociedade, que cruelmente usa da exclusão para perpetuar o poder.

Estamos começando o segundo módulo do projeto na escola, em que se pretende tratar, mais detidamente, de conceitos básicos como etnocentrismo, preconceito, discriminação e racismo, para adentrarmos na cultura do próximo, procurando respeitar seus códigos simbólicos. Nesse sentido, trabalharemos os Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros, procurando sensibilizar os alunos a compreenderem que nossa sociedade é composta também dessa estrutura milenar. Procuraremos reforçar a conquista desse espaço de discussão e criar um lugar de constante movimento de mudança em relação a pequenos gestos do cotidiano, pois sabemos que os grandes gestos dependem da consolidação desses menores. Para isso, iremos usar os vídeos Mojubá e Livros Animados, mesmo trabalhando com Jovens e Adultos, além da Memória das Palavras e o livro Modos de Sentir e Modos de Interagir, pois ali se reúnem os conteúdos importantes, a serem abordados nesta fase. E claro, fomentar uma discussão "quente": a religiosidade e os mitos de origem dos afro-brasileiros.

A continuidade deste trabalho depende da intensidade da sensibilização que os professores multiplicadores exercerão sobre seus pares, pois são eles os porta-estandartes de tal empreitada. Da introdução dessa temática nas problemáticas da equipe técnico-pedagógica, da direção da escola e dos professores, para que todos estejam envolvidos num trabalho que não deve esmorecer. Transformar essa discussão em ações práticas e públicas em que "aprendentes" e "ensinantes" sintam-se acolhidos e consigam se identificar e se reconhecer no trabalho que exercem. Numa instância maior, o comprometimento dos órgãos competentes das instâncias municipais, estaduais e federais, em promover e fomentar políticas que sustentem a temática dentro dos organismos de ensino, dos organismos sociais, políticos, nos meios de comunicação, entre outros, e não permitir que o enfoque dado à questão racial, à diversidade e ao respeito às leis que as regulamentam, transforme-se em modismo ou, até pior, numa imagem distorcida de comemoração de datas festivas.

Para isso, precisamos de políticas públicas ativas, concretas e que procurem garantir o cumprimento das leis e o respeito às diversidades. A mudança nos livros didáticos é fundamental darmos o pontapé inicial dessas transformações e a formação docente também deve estar pautada nessas discussões, assim como a formação dos funcionários, importantes personagens, que nem sempre são lembrados.

Sugestões para a implementação do trabalho

  • Dar instrumentos de trabalho aos professores, acesso a cursos de formação, capacitação tecnológica, acesso a materiais que tratam da questão.
  • Fomentar a leitura do corpo discente com o cotidiano de afro-brasileiros e africanos, para que cada descendente possa conhecer e reconhecer-se como participante da construção dessa sociedade, não mais como vítima ou vilão, mas como um ser respeitável e participante deste processo, de tanto valor como os portugueses ou os imigrantes europeus ou os indígenas.
  • Valorizar a presença de negros em todas as áreas produtivas visando à certificação, por parte daqueles que lotam as salas de aula das escolas públicas, de que podem e devem ter uma trajetória vitoriosa numa sociedade ainda patriarcal, dominada pelo pensamento tradicional de superioridade de um grupo sobre outro.

Concluindo, a avaliação que faço do projeto é muito positiva. Apreciei muito a forma como foi estruturada a capacitação dos professores multiplicadores, a metodologia do curso e o material do kit. Se uma das reclamações do professorado era em relação à falta de material, já temos um substantivo conjunto de fontes para trabalharmos com bastante segurança. Foi tão interessante que quando reunimos todo o efetivo da escola, numa formação continuada para divulgarmos o kit e o curso, eu e a professora Gleicimar, minha companheira de estudo, optamos por utilizar a metodologia do curso para a apresentação, ocorrida em 29 de junho último. Confesso que a motivação já existia em mim. Me descobri negra aos 10 anos e, a partir de então, venho batalhando pelo respeito e equidade para todos, independente de cor, religião ou partido político. Venho buscando o espaço, tão diminuto para os negros, no tecido social, exigindo que sejam praticadas as leis que garantem a integridade dos afro-descendentes, sua tradição, suas histórias, suas crenças, enfim, tentando construir um futuro mais justo, equilibrado e de diversidade na sociedade brasileira. Acredito que participar do projeto "A Cor da Cultura" veio ao encontro da concretização de um sonho: ver problematizadas essas questões para além de minhas quatro paredes da sala de aula ou dos grupos sociais e culturais dos quais participo. Sendo assim, o projeto aguçou minhas capacidades de discussão e de análise e me deu argumentos para querer mais e exigir mais, pois ainda estamos longe de concretizarmos o respeito às diferenças, principalmente as étnicas, para podermos, concretamente, edificarmos uma sociedade de Maravilhas.

Publicado em 01/08/2006

Publicado em 01 de agosto de 2006

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