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Origem da exclusão social do surdo

Julio César P.P. de Souza

Revisão de texto: Emílio Ipaves Cruz

Introdução

Escrevo este artigo com a sincera intenção de contribuir para que a enorme distância que separa a sociedade da comunidade surda, seja cada vez mais estreita, possibilitando a convivência de maior qualidade entre ambas.

Após ter ficado surdo, fato que ocorreu aos 32 anos de idade, tenho me dedicado a ajudar pessoas com este tipo de deficiência. Principalmente crianças e adolescentes.

Por ser ex-jogador de futebol, desenvolvi projetos educacionais para surdos através do esporte, e por intermédio da secretaria de esportes da cidade de São Paulo, introduzimos o projeto nas escolas especiais municipais para surdos.

Paralelamente a este programa de esportes, venho há anos observando os motivos que levam a comunidade surda a estar infinitamente menos qualificada que a comunidade ouvinte e que, evidentemente, precisam ter uma vida plena e normal, pois somente o fato de não ouvirem, não justificaria tamanha desigualdade.

O maior motivo, sem sombra de dúvida, é o preconceito e a educação deturpada que o surdo recebe desde pequeno pela sociedade de uma forma geral, que não consegue qualificá-lo a ocupar o seu lugar de direito. Isso contribui para sedimentar o comportamento de incapacidade do surdo, imposto por uma sociedade preconceituosa e ignorante dos fatos.

É óbvio que qualquer deficiência que uma pessoa tenha, necessitará de alguns cuidados especiais. No caso do surdo, estes cuidados são muito pequenos. Com um pouco de atenção e paciência, esta barreira da comunicação se desmorona, proporcionando a ambos uma vivência plena e abrangente.

A base de tudo

Os transtornos têm início na família. A partir da constatação da surdez. Principalmente em crianças pré-linguísticas, (antes de aprender a falar, ler e escrever). Após o processo de aceitação dos fatos, (nenhum pai está preparado para um filho deficiente), a família começa a procurar uma forma de conseguir conviver com o problema da forma mais natural possível. Mas quase sempre esbarra na falta de recursos financeiros para contratar profissionais habilitados a qualificar o surdo como: fonoaudiólogos, escolas especializadas em educar crianças com este tipo de deficiência, curso de LIBRAS, (linguagem brasileira de sinais), para a família se comunicar com o filho, etc...

Não conseguindo, portanto, obter uma comunicação satisfatória entre o filho surdo e a família ouvinte, inicia aí o processo de exclusão, afinal é mais fácil ignorar o surdo que tentar se fazer entender por ele. Nasce então o sentimento de incapacidade que gera a frustração a ambos, e normalmente a família compensa o sentimento de culpa, permitindo o comportamento abusivo sem nenhuma imposição de limites ou de responsabilidade a este filho. Este, por sua vez, se aproveita ao máximo da situação, aprendendo desde cedo a usar a chantagem emocional, (síndrome do coitado) e não a capacidade, como forma mais fácil de atingir seu objetivo. Entretanto, mal sabe o ônus e as dificuldades que estará acumulando para conquistar uma vida adulta independente e feliz.

Após alguns anos vivenciando este relacionamento neurótico com a família, o surdo chega à escola. Teoricamente, a escola especial, deveria ser o local no qual os jovens pudessem de fato se qualificar para enfrentar os obstáculos normais da vida futura, somados aos obstáculos específicos que terão devido à surdez.

Porém para isso deveria ser observado pelos órgãos governamentais competentes, o espaço físico adequado, equipado com tudo que o surdo necessita para ser educado de forma condizente com sua deficiência. Os profissionais - porteiros, cozinheiras, inspetor de aluno, etc, que ali trabalham, deveriam ser capacitados a se comunicar com o surdo, bem como participarem de cursos básicos de conhecimento da pedagogia aplicada para conseguirem ensinar ética e educação aos alunos.

Entretanto, o quadro deprimente que existe em algumas escolas, que não contam sequer com uma quadra esportiva em suas dependências, para o desenvolvimento das atividades física, esportiva ou recreativa para os alunos, mostra o tamanho do descaso do governo e da sociedade de uma forma geral, pelo deficiente auditivo.

Os professores

Os professores em sua maioria são pessoas responsáveis, que tem plena consciência da importância do bom desempenho das suas disciplinas na vida do surdo, porém, esbarram na falta de estrutura e na burocracia do sistema para resolver os problemas operacionais básicos no dia a dia da escola. Soma-se a isso os baixos salários dos professores e a falta de tempo para reciclagem profissional. Instala-se assim o desanimo e a frustração nestas pessoas que deveriam estar motivados a serem além de professores, também educadores destas crianças.

Não tenho a mínima intenção de desmoralizar os responsáveis pela educação do surdo, até porque sou um deles, mas é demasiado importante divulgar para a sociedade todas as dificuldades que temos que transpor em nosso cotidiano profissional, para tentarmos nos manter motivados a continuar atuando.

Especificamente em minha área, a educação física, percebemos que essa disciplina não foi instituída de fato nas escolas especiais municipais para surdos. Não havendo, por exemplo, o professor de educação física em nenhuma delas. E para se fazer cumprir a lei que obriga todo órgão de ensino a ministrar três aulas de educação física semanais, as escolas que não contam com um profissional habilitado para esta disciplina, designam um pedagogo, para cumprir esta função, mesmo que ele não tenha qualquer conhecimento, principalmente prático, desta matéria.

Segundo a direção das escolas, para que um professor de educação física possa prestar concurso público municipal, e se efetivar como professor nas escolas especiais, ele tem que apresentar currículo contendo pós-graduação em deficiência física, (abrange todas as deficiências), e curso básico em LIBRAS, (linguagem brasileira de sinais). Como os poucos profissionais que existem tendo estes requisitos preferem trabalhar em instituições particulares, não só pelas melhores condições de trabalho, mas também por melhores salários, o aluno do ensino municipal fica sem a oportunidade de desenvolver todos os benefícios que o esporte e a atividade física poderia lhes dar.

Reconheço que a lei que regulamenta as exigências acima descritas foi sancionada para que se preservasse o aluno surdo, de profissionais que não estivessem aptos a desenvolver esta atividade. Deste modo é de fato necessário observar certos critérios na contratação destes profissionais. NO ENTANTO, AQUI COMO EM OUTRAS SITUAÇÕES, A LEI ENTRA EM CHOQUE COM A REALIDADE DE UM PAÍS SEM RECURSOS, OU PELO MENOS NO QUAL OS RECURSOS NEM SEMPRE SEGUEM NA DIREÇÃO CERTA.

À LUZ DA REALIDADE E DAS NECESSIDADES DOS DEFICIENTES SURDOS E OUTRAS CATEGORIAS, É CLARO, acredito que se poderia amenizar as exigências, e melhor adaptar as leis, às exigências do surdo. Entendo que as leis são criadas para regular e beneficiar a grande maioria da população, mas é justo dizer que a partir do momento que se tornam arcaicas, obsoletas, ou simplesmente impraticáveis, deveriam ser revogadas ou, no mínimo, recicladas para atender seu real objetivo.

Uma observação mais apurada deixará claro que fisicamente o aluno surdo e o aluno ouvinte estão no mesmo patamar de aprendizado, e a única dificuldade que qualquer profissional de educação física enfrentaria, em princípio, seria a barreira da comunicação. Porém, ressalto que este entrave seria mínimo se levarmos em consideração que muitos destes alunos conseguem escutar relativamente bem com o auxílio de aparelhos auditivos, muitas vezes sendo intérpretes para os demais. Sem levar em consideração que pela importância de se realizar esta disciplina a todos os alunos, não seria inoportuno dizer que o custo em virtude do benefício seria nulo ou baixíssimo para qualquer município que tivesse a iniciativa de fazer parceria, ou mesmo contratar intérpretes formados em instituições reconhecidas pelo governo, (FENEIS), para desempenharem suas funções, dando suporte inicial aos profissionais de educação física.

Desta forma conseguiríamos democratizar de fato a educação física nas escolas, propiciando a todos os alunos surdos a oportunidade de se educarem e qualificarem através do esporte no que diz respeito ao desenvolvimento: Físico, psicológico e social.

Conclusão

Urge, portanto, que os responsáveis pelo ensino do surdo ousem mudar, criar, e estabelecer uma pedagogia educacional onde cada educador seja operante e responsável em contribuir cada vez mais com a qualidade do ensino do surdo. Somente assim estaremos realizando com responsabilidade nossa nobre função de educadores, contribuindo para uma sociedade mais justa onde todos tenham direito à verdadeira inclusão social.

Confira projeto de educação através do esporte do mesmo autor.

Publicado em 5 de setembro de 2006

Publicado em 05 de setembro de 2006