Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Plenária dos prosadores

Moacyr Scliar e Antonio Torres

Especial: X Congresso Internacional ABRALIC

Por um mundo melhor é preciso ler, ler, ler...

O clima afetuoso do encontro entre Moacyr Scliar, Antônio Torres e o professor de literatura Ítalo Moriconi, que mediou a mesa, aqueceu com uma maciez aconchegante o público que esteve presente na Plenária dos prosadores, do X Congresso da Abralic. Vale a pena conhecer o depoimento destes dois escritores e pensar nos porquês de o livro ser a porta de entrada para um mundo melhor, como nos diz Moacyr Scliar.

Moacyr Scliar

Quanto mais eu participo dessas experiências literárias, mais eu admiro o trabalho dos professores. Se nós estamos formando leitores no Brasil, e estamos formando, isso se deve ao trabalho, muitas vezes anônimo, dos professores de literatura de todos os lugares desse país, em todo os níveis.

Tem duas coisas que me constrangem nesses eventos: uma é quando entro no avião, e hoje aconteceu isso, sempre tem alguém que fala "esse avião não cai, porque aqui tem um imortal da academia brasileira de letras". Até agora não caiu! O outro motivo de constrangimento é quando é dito o número de livros que escrevi. Fico envergonhado, com medo que alguém levante indignado e diga "mais não faz outra coisa na vida a não ser escrever esses seus livros!".

Eu faço outras coisas, mas sempre parti do princípio, que para mim parece elementar, de que escritor é o cara que escreve. Nesse sentido, morar em Porto Alegre é uma coisa muito boa porque, na falta de programas melhores, nós temos sempre o programa da literatura. Eu produzi 78 livros, dos quais muitos são fininhos, outros são coletâneas de crônicas, de modo que isso reduz um pouco a minha culpa.

A minha história é basicamente ligada a essa cidade de Porto Alegre. Quando a gente era pequeno, o Jorge Amado e a Zélia Gattai iam para Porto Alegre visitar a cidade e ficavam hospedados na casa de nosso tio Henrique Scliar, pai do Carlos Scliar. E minha mãe me levava lá para ver o Jorge Amado, era só para ver o Jorge Amado, porque eu não tinha coragem nem sequer de falar com o grande escritor brasileiro. Mas olhar para aquele homem que escrevia livros, era para mim uma coisa absolutamente deslumbrante. E a Zélia Gattai se lembra disso. Em um livro de memórias que ela escreveu, "Um chapéu para viagem", ela diz que eles iam a Porto Alegre, se hospedavam na casa do tio Scliar, e que muita gente ia visitar, incluindo um garotinho bonitinho loirinho que depois seria o escritor Moacyr Scliar.

Agora vocês olhem para mim e vejam o que a vida faz com garotinhos bonitinhos! O tempo realmente passa, mas, pelo menos vai deixando um rastro e a gente vai marcando de alguma maneira o mundo em que a gente vive.

As pessoas me perguntam a troco de quê eu, um médico, me tornei escritor. É uma pergunta que, no Brasil, não faz muito sentido considerando o número de médicos escritores que nós temos, a começar pelo Guimarães Rosa. No meu caso, eu já escrevia muito antes de entrar na faculdade de medicina.

Fui alfabetizado em casa. Minha mãe era professora e uma grande leitora, uma pessoa que fazia questão de que os filhos lessem. Aliás, toda a família tinha uma abertura cultural muito grande. É uma coisa interessante porque nós éramos pobres, lutávamos com dificuldades, mas nunca faltou dinheiro para comprar livros, por mais que faltassem móveis e roupas. Eles tinham uma visão quase mágica dos livros, viam na palavra escrita uma forma de sabedoria.

Mesmo assim, minha mãe tinha certas restrições literárias. Por exemplo, ela não deixava os filhos pequenos lerem os livros do Érico Veríssimo, porque eram considerados imorais. Se comparados com o que a gente vê hoje na TV, são de um amadorismo constrangedor. Mas minha mãe chaveava os livros no roupeiro, eram as únicas coisas chaveadas lá em casa. Só que eu sabia onde estavam as chaves e, logo que ela saía, eu entrava no roupeiro para essa dupla iniciação: no sexo, que não era grande coisa, e literária. Esta, sim, foi muito importante. O Érico era o nosso escritor, a pessoa que nós víamos na rua, com quem a gente convivia, conversava e para quem a gente mostrava as coisas que a gente tinha escrito.

Mostrei para o Érico um dos meus primeiros contos. Ele me recebeu, pediu para que eu voltasse alguns dias mais tarde e me elogiou muito, era muito gentil. Só que uns dias depois, encontrei na minha casa a última folha daquele conto. Eu tinha esquecido de levar, tinha dado o conto sem o final! Ele não deve ter entendido nada, mas entre a possibilidade de estimular um jovem, ou de dizer que não tinha entendido nada ele, generoso como era, optou pela primeira.

Além da formação, um escritor tem também um componente que podemos chamar, na falta de um termo melhor, de vocação, que explica porque algumas pessoas escrevem, outras fazem música e outras pintam. Nós não sabemos como isso surge e provavelmente não descobriremos tão cedo, também não há nenhuma necessidade de descobrir. É melhor que o processo de criação envolva algum mistério, para que as pessoas se sintam atraídas pela própria possibilidade da criação artística.

Tem um componente que foi muito importante na minha motivação. Sou de uma família de contadores de histórias e o meu pai, particularmente, era um grande contador de história. Hoje parece uma abstração falar em famílias que contam histórias, pois agora o que reúne a família é a televisão. Daqui a pouco, cada um vai para o seu próprio computador e a comunicação vai se reduzir ainda mais.

Mas, naquela época, lá onde a gente morava, na cidade de Porto Alegre, a convivência era feita quando as pessoas se reuniam em casa ou na rua, se era uma noite de verão, e ficavam contando histórias. Essas histórias eram basicamente histórias de imigrantes: as experiências deles na Europa, a viagem que eles tinham feito para o Brasil, os primeiros tempos no novo país. Sobretudo, o que nos comovia era o otimismo com que eles encaravam as adversidades, a coragem e o humor que eles tinham, esse humor tão característico do judaísmo: melancólico e meio filosófico. É um humor que por si só já é um gênero literário, a base do trabalho de muitos escritores no passado e ainda no presente.

Então, essas coisas todas me encantavam. Eu preferia ouvir as histórias que os adultos me contavam, do que brincar com os meninos da minha idade. E muito cedo eu sabia que isso era uma coisa que eu iria fazer, que eu seria um contador de histórias. Era só o que eu queria ser. Não me lembro de ter tido o projeto de ser um escritor, uma pessoa com livros publicados, com nome na capa de livros, texto no jornal, membro da academia brasileira de letras, eu nem sabia o que era isso!

Eu sentia uma vontade de botar no papel aquelas coisas que ouvia e imaginava. É claro que as experiências de vida foram alargando essa possibilidade. Quando entrei na faculdade de medicina e comecei a frequentar os hospitais e a atender à população, de alguma forma, fui entrando na realidade brasileira. Saúde pública é uma grande porta de entrada para a gente conhecer nosso país.

Eu ia escrevendo e publicando no jornal da faculdade. Faltava pouco para terminar o curso e meus colegas me incentivaram para que eu publicasse um livro. Aceitei a sugestão e fiz o que foi meu primeiro livro "Histórias de um médico em formação". O título é horroroso, o livro não é melhor. Aparentemente, fez um certo sucesso. Primeiro, porque o editor fez poucos exemplares e segundo, porque meus pais obrigaram todo mundo a comprar o livro. Em termos de venda não foi mal. Mas, como acontece com muitos escritores e é uma experiência difícil, resolvi reler o que eu tinha escrito. O efeito foi catastrófico, comecei a me dar conta de que aquilo que eu pensava que fossem boas histórias não eram e, em alguns casos, eram bem 'ruinzinhas'.

Fiquei tão frustrado, que resolvi parar de escrever. Achei que tinha me enganado, confundido o prazer de contar histórias com o de fazer literatura. Fui trabalhar como médico clínico e depois em saúde pública, que foi o que fiz durante toda a minha vida. Curioso é que não parei de escrever. Era um impulso, de repente pegar uma folha de papel e começar a escrever uma história. Mas aí eu já tinha aprendido, já não publicava, não tinha nenhuma pressa, guardava, reescrevia. Fiz isso ao longo de seis anos. Depois de seis anos eu tinha uma coleção de histórias, era o que eu podia fazer de melhor.

Nesse meio tempo o país tinha mudado muito. Em 1961, quando eu estava terminando a faculdade de medicina, houve a renúncia do Jânio Quadros e uma tentativa de golpe militar que foi abortada por um espantoso movimento que ocorreu na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, do qual os estudantes participaram, inclusive eu. Mas, três anos depois veio realmente o golpe, e aí nós entramos naquele trilho que iria se prolongar por 20 anos e que marcou a minha geração.

Muitos escritores viveram esse período de repressão, a começar pelo Antonio Torres, que está aqui, e outros como Ivan Ângelo, Silviano Santiago e Loyola Brandão. Uma coisa interessante foi como nós reagimos a essa conjuntura. Eu não vejo muitos estudos de como foi a cultura no período de repressão no Brasil. Na Argentina, por exemplo, tem centenas de livros sobre o assunto. É claro que a repressão da Argentina foi muito diferente da do Brasil. Mas exatamente porque a repressão que nós tivemos foi diferente, é que ela precisa ser estudada, porque entender como a repressão dialogou com o resto do país, é entender um pouco da mentalidade brasileira.

Nesse período surge um tipo de literatura que representava uma reação a essa situação de ditadura: o realismo mágico, que teve como expoente Gabriel García Marques. Tem outros escritores também, como Cortazar, ele é um escritor importante no sentido do uso da metáfora e da fabulação para descrever um clima político adverso.

Meu livro foi publicado em 1968, o pior período da ditadura, chamava-se "O carnaval dos animais" e quando eu releio esse livro, me dou conta que estava falando era da sensação que a gente tinha naquela época. Os contos são fábulas em que os animais são os personagens principais, são animais ferozes e de alguma maneira refletem aquele clima da repressão. Essa geração teve uma participação política importante. Os recursos literários simbolizavam um protesto contra aquela situação.

Olhando a minha trajetória, vejo algumas influências importantes: Ércio Veríssimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e, especialmente, Kafka que releio até hoje, sempre com admiração e espanto. Independente disso, a vida modela a trajetória de cada um. A minha condição de filho de imigrantes, de morador de um estado que tem um clima político e cultural muito peculiar que é o Rio Grande do Sul e minha experiência como médico: tudo isso foi muito importante. Eu me considero um escritor que traz para a literatura da minha geração esses componentes dos quais a imigração é o principal deles, pois é uma outra visão do nosso país.

Então, acho que para um início de conversa já está bom.

Antonio Torres

Para mim é um prazer imenso voltar à Uerj e ter ao lado os amigos Ítalo Moriconi e Moacyr Scliar, esse velho companheiro de tantas palestras. Vocês leiam os livros do Scliar que vão rir muito. Quero agradecer ao professor Jobim, diretor do Instituto de Letras, que me convidou para esta mesa tão afetuosa e tão importante literariamente.

Tive a honra de participar aqui na Uerj do projeto "Professor visitante" com a professora Teresa Barbieri e com o Ítalo Moriconi. Fiquei durante seis anos neste projeto, fui para São Gonçalo e adorei o trabalho, aquela faculdade de formação de professores virou o meu xodó.

A professora Teresa se inspirou em um projeto semelhante ao da Universidade de Stanford, nos EUA. Vocês vejam que há certas coisas que são boas para os Estados Unidos e são boas para nós também, mas nem tudo. João Gilberto Noll, Sérgio Santana, Joaquim Ferreira dos Santos, Ferreira Gullar, Rubens Figueiredo e Carlito Azevedo foram os escritores que participaram desse projeto.

Sou de uma geração que é muito grata à universidade, porque ela nos acolheu mesmo enfrentando a repressão. A primeira universidade que me chamou foi a Uerj, em 1976, nos anos mais duros da ditadura militar. O professor Ivo Barbieri foi me buscar no trabalho e me trouxe aqui para a Uerj, reuniu várias turmas que estavam estudando meu romance "Essa terra". Eu respondi às questões dos estudantes e depois teve um coronel que ficou fazendo perguntas, porque todo lugar tinha um coronel. Ele queria saber quem se responsabilizava por minha presença, e a professora Dirce Côrtes Riedel enfrentou o coronel. Ele dizia que minha palestra era inadequada para um ambiente de universidade, ou seja, não era eu, era o próprio estudante que era inadequado àquela situação, quer dizer, a ditadura é que era inadequada para todos nós! Mas vi uma postura muito firme.

O grande barato da vida é a sua dialética, a sua dinâmica. Nós estamos num país cheio de canalhas, mas nem todos são canalhas, existem os mocinhos.

Essa jornada do escritor com a universidade vem dos anos 70, fomos nós que a inauguramos: João Antônio, Inácio de Loyola Brandão, Juarez Barroso, José Louzeiro, Flávio Queiroga. Todos estão na antologia do Ítalo Moriconi, "Os cem melhores contos brasileiros do século". Este livro virou moda, best-seller.

Não é a primeira vez que ouço o Scliar reclamar que essa geração foi pouco estudada, ele tem razão. Recentemente, eu tinha acabado de ler os contos do Marçal Aquino e falei para ele: "não fica chateado, mas o que você está fazendo é uma releitura de João Antônio com Rubem Fonseca". E ele disse que não queria ser outra coisa se não um releitor desse conto dos anos 70 que foi muito marcante.

O problema é a tendência obsessiva pelo novo e a falta de interesse por tudo o que não é novidade. O leitor de autoajuda só lê autoajuda, ele fica viciado naquilo, como um toxicômano. Infelizmente, é bom para o mercado, e o mercado está na moda.

Eu estava em Paris fazendo uma conferência na universidade de Paris VIII, de repente, um estudante me disse assim: "como se explica um país como o seu, que tem Machado de Assis, Mario de Andrade, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Jorge Amado e Guimarães Rosa, ter a lista de best-sellers que tem?". Eu respondi: "são as mesmas listas de Paris!".

Esse mundo ficou absolutamente igual no que tem de pior, não foi no que tem de melhor.

Mas, apesar disso, estou otimista. Por exemplo, com a comemoração pelos 50 anos do "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa começa a virar moda e essa é a moda que a gente quer!

Publicado em 12/09/2006

Publicado em 12 de setembro de 2006