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Como surgiram as diferenças

Leo Silva

Em 1972, quando estudava pássaros na Nova Guiné, o biólogo evolucionista Jared Diamond conheceu Yali, uma das lideranças políticas da futura Papua Nova Guiné. Durante a conversa, Jared ficou desconcertado por uma pergunta simples e direta de Yali: "por que vocês brancos desenvolveram tanta 'carga' e a trouxeram para a Nova Guiné e nós negros tínhamos tão pouca 'carga' nossa?". O biólogo só conseguiu formular uma resposta a essa pergunta 25 anos depois no livro Armas, germes e aço (2001, Editora Record, 476p), que parte de novos conhecimentos em arqueologia, antropologia e genética.

Em seu trabalho, Jared amplia a pergunta para tentar entender o porquê de a história ter se desdobrado de formas diferente nos diferentes continentes. A resposta, simplificada, é que essas diferenças decorreram das condições iniciais dadas pelo meio ambiente em que esses grupos se desenvolveram. Assim, as raízes da desigualdade moderna se encontrariam na pré-história e não em diferenças biológicas entre os diversos grupos humanos.

O livro está dividido em quatro partes. Na primeira, com três capítulos, o autor mostra como a humanidade se espalhou pelo planeta, para depois estudar os polinésios nas ilhas do pacífico. Ele procura mostrar como o desenvolvimento de um mesmo grupo pode encontrar respostas diferentes em função das condições ambientais, para depois discorrer sobre o choque de civilizações que partiram de bases diferentes. Neste caso, o confronto entre espanhóis e incas em Cajamarca, em 1532.

A parte seguinte, sobre a importância da agricultura, pode ser considerada o ponto alto do livro. A domesticação das plantas e animais tornou possível o nascimento e a sobrevivência de um maior número de pessoas. Estas, por sua vez, eram capazes de plantar e criar mais animais, o que permitia o nascimento e a sobrevivência de mais pessoas. À medida que as populações cresciam, as sociedades se sofisticavam e se expandiam.

Para que isso fosse possível, a condição inicial era que houvesse plantas e animais passíveis de serem domesticados. Jared analisa essas condições em todos os locais em que surgiram civilizações. O ponto levantado no livro é que no Oriente Médio havia maior número de animais e vegetais mais propícios a essa domesticação. Até hoje, essas culturas são as principais fontes de alimentos da humanidade. Entre elas estão plantas como o trigo e a cevada e animais como porcos, cavalos, cabritos e carneiros.

Dentro do que se pode considerar como rápido na pré-história, esse conhecimento foi difundido pela Eurásia. A razão disso, para Jared, estava no fato desse continente ser uma massa de terra que se estende de Leste a Oeste. Assim, as culturas desenvolvidas em um lugar podiam ser levadas para outro na mesma latitude, logo, com clima semelhante, mas muito distante de seu ponto de origem.

A geografia da Eurásia também possibilitou maior troca entre as diferentes civilizações, ao contrário das condições existentes nas Américas.

Na terceira parte do livro, o autor analisa as implicações desse processo. A primeira delas foi o surgimento de novas doenças. Germes que antes contaminavam apenas os animais de criação passaram a desenvolver formas especializadas para atacar os seres humanos. Como essas sociedades tinham maior número de habitantes, a possibilidade de haver pessoas menos sensíveis aos germes era maior. Depois, elas passariam sua resistência para a geração seguinte, mas o agente causador da doença continuaria entre elas.

Nos contatos entre civilizações, esses germes eram especialmente fatais. Jared cita o caso dos índios das grandes cidades pré-colombianas que havia na América do Norte antes da chegada dos colonizadores europeus. Ele estima que 95% dos habitantes originais tenham sido exterminados por essas doenças.

O excedente agrícola também permitiu o surgimento de uma classe encarregada de administrar a sociedade, o de pessoas especializadas como artesãos e artistas e de outras com tempo ocioso para pensar e inventar. Entre essas invenções está a escrita - fundamental para transmitir e conservar informação.

Na terceira parte do livro, Jared estuda o desenvolvimento da humanidade na África, China, Polinésia, Américas e, claro, na Papua Nova Guiné, à luz dos pontos anteriormente expostos.

A leitura de Armas, Germes e Aço pode oferecer subsídios para aulas de biologia, história e geografia, ao mostrar como o relacionamento entre o homem e o meio ambiente é decisivo para o destino das sociedades.

Ficha técnica do livro:

  • Título: Armas, germes e aço
  • Autor: Jared Diamond
  • Gênero: Ensaio
  • Produção: Editora Record

Publicado em 17/10/2006

Publicado em 17 de outubro de 2006

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