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Filosofia, poesia e a sabedoria de Benedito Nunes

Cláudia Dias Sampaio

(...) as coisas que não podemos dizer é melhor calar, pois quando a linguagem filosófica ou poética se cala, ela está mostrando algo que não pode dizer inteiramente

Benedito Nunes

Foto: Elza Lima

Há mais ou menos cinco anos, um amigo pernambucano chegou ao Rio com a missão de finalizar o documentário A Composição do Vazio, sobre a vida do professor e filósofo Evaldo Coutinho. Marcos Enrique Lopes, o Marquinhos, ficou lá por casa durante uns dois meses, dividíamos com mais duas moças - uma atriz uruguaia e uma produtora de cinema pernambucana que hoje vive em Londres - um pequeno apartamento no Curvelo, em Santa Teresa, à semelhança de uma comunidade típica dos anos 60. Os olhos pretos de Marquinhos cintilavam ao falar do professor Evaldo, e isso representava cerca de 90 por cento de seu assunto, os outros dez, se relacionavam às agruras de quem decide fazer cinema no Brasil, sem pai banqueiro, ou padrinho presidente de escola de samba, mas movido pela angústia de vida ou morte peculiar aos verdadeiros artistas.

Um dia ele chegou, sorriso rasgado, cacoetes de menino, havia finalmente editado a entrevista mais importante do filme, depois da do próprio professor Evaldo: Benedito Nunes. "Você não conhece?", me perguntou em desafio. "Benedito e Evaldo são os maiores filósofos do Brasil! E estão vivos!".

Quando voltava para casa tarde da noite, após ter subido a pé a escadaria da Ladeira de Santa Teresa - que une o bairro ao Centro da Cidade -, Marquinhos revia a fita onde estavam gravadas as entrevistas do filme. Mostrava a cena dos dois professores conversando sob uma imensa amendoeira e lamentava por não ter conseguido fazer o plano cinematográfico que sonhara para a ocasião. Os dois velhinhos no meio da cena, lá, ao longe, a câmera se aproximando. "Puxa! A câmera balançou!" "Mas o plano está ótimo, poético", e de fato estava, mas a autocrítica era imensa, ele sabia onde havia se metido. O filme precisava, de alguma forma, dialogar com a dimensão poética e filosófica que constituíam seu enredo. Com o encanto dos apaixonados pelo que fazem, Marquinhos tentava explicar aos seus interlocutores o pensamento filosófico do professor Evaldo, escritor, crítico de cinema, professor e filósofo pernambucano, que aos 90 anos vive recluso em Recife.

Quando me dei conta, estava completamente absorvida pela A Composição do Vazio. Ajudei no trabalho de finalização do filme convencida pelos ideais daquele jovem, de cabelos longos e cacheados, que me mostrou haver ali, algo de muito especial. Mas somente agora, com o passar dos anos, consigo compreender a dimensão do pensamento desses homens que são as estrelas do documentário de Marquinhos.

Benedito Nunes foi o principal responsável pela rara divulgação da obra de Evaldo Coutinho pelo Brasil. Graças a ele e a Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) - venerado crítico de cinema - a obra literária de Coutinho chegou às mãos do semiólogo e proprietário da Editora Perspectiva, Jacó Guinsburg, que também está no elenco dos entrevistados de A Composição do Vazio.

No jogo da linguagem

"O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse".

(Clarice Lispector, "Mais do que jogos de palavra". Descoberta do mundo. RJ: Rocco, 1999, p.465).

Após este preâmbulo, soando como negaça ao assunto que prometíamos tratar neste texto, torcemos, finalmente, nosso foco de palavras para Benedito Nunes - filósofo brasileiro, professor emérito da Universidade Federal do Pará, UFPA, onde vive dedicado aos estudos de uma área movediça constituída pelas relações entre a literatura - principalmente a poesia - e a filosofia.

A literatura está na origem das inquietações intelectuais de Benedito Nunes que voltou especial atenção à obra de Clarice Lispector, assunto de seu primeiro livro, O mundo de Clarice Lispector, publicado em 1965, e de O drama da linguagem, de 1989, ambos dedicados à artista, "dona de uma escrita absolutamente ímpar", nas palavras do professor.

Recentemente, no alto de seus 90 anos, Benedito deu uma pausa em sua rotina de conferencista em Universidades Europeias e Americanas e suas aulas gratuitas de filosofia e arte que oferece à população paraense, para vir ao Rio de Janeiro.

Ensaio Aberto Gerd Bornheim- Arte brasileira e Filosofia

O encontro celebrado por professores dos Institutos de Filosofia e Letras, da Uerj, entre eles, Ana Lúcia Oliveira, debateu as múltiplas relações das artes brasileiras com a filosofia, seguindo a orientação dos filósofos brasileiros Benedito Nunes, Bento Prado Júnior e Gerd Bornheim, que pensaram de forma especial essa articulação. Professor Evaldo bem que poderia estar presente, ninguém melhor que ele para falar, por exemplo, sobre filosofia e cinema, a presença da ausência dele se fez notar.

Benedito Nunes proferiu a conferência de encerramento e emocionou a plateia ao falar sobre a fecunda relação entre Filosofia e poesia. Professores de diversas áreas, um auditório lotado, o que tornou o Encontro ainda mais especial, afinal, ainda são raros os momentos em que paramos tudo para nos dedicarmos ao tempo da poesia e da filosofia, ao tempo do pensamento.

Selecionamos alguns links para que você conheça mais sobre o precioso pensamento desse filósofo brasileiro. Não deixe de ler também o texto que o próprio Marcos Enrique Lopes escreveu sobre Evaldo Coutinho.

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Publicado em 17 de outubro de 2006

Publicado em 17 de outubro de 2006