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A transdisciplinaridade pervertida

Luiz Alberto Sanz

Uma crônica sobre as relações entre a educação e os meios de comunicação

A educação formal e a educação informal via meios audiovisuais se enfrentam, no mínimo, há mais de um século. Desde que dois tecnólogos franceses, Louis e Auguste Lumière, revelaram ao mundo um equipamento que permitia estabilizar a captação e a exibição de imagens em movimento. Era dezembro de 1896 e o aparelho foi batizado de Cinematógrafo. Estava criada a indústria do Cinema.

O embrião desse conflito, na verdade, começara há milênios, quando as elites intelectuais, dominando a escrita e a leitura, privilegiaram-nas como as modalidades nobres de educação e cultura. E, mais tarde - por um longo período - como as únicas formas de avaliar a educação e a cultura de povos e pessoas. Parte significativa dos conhecimentos humanos, antes transmitidos oral, pictórica e corporalmente, passaram a ser registrados e transmitidos quase exclusivamente pelo processo escrita-leitura-escrita, eventualmente apoiado por ilustrações. Ganhou-se, assim, em precisão de registro e relativa qualidade de retransmissão, uma vez que não se dependia mais apenas da memória.

Perdeu-se, no entanto, em qualidade de informação. Foram excluídos componentes como vocalidade, cor, emoção, gesto (no sentido brechtiano de atitude social, física, intelectual etc., que inclui a gestualidade). Ganhou-se em multiplicidade da comunicação, perdeu-se no exercício da memória.

No entanto, o tipo de formação propiciado pelo processo de escrita-leitura não dispensava a presença do educador - necessário, em maior ou menor grau, para ensinar a ler e escrever; para incentivar a compreensão e a reflexão; para trocar conhecimentos por saberes com o educando; para construir novos conhecimentos e desenvolver métodos de ensino-aprendizagem. A Educação era Comunicação e a Comunicação Educação. O homem comum aprendia observando a natureza e os homens e trocando informações com outros homens, seus iguais ou mais sábios. A educação formal passou a desempenhar um papel essencial nesse processo. Com ela, estabeleceram-se parâmetros para os conhecimentos necessários ao desenvolvimento e à gestão das sociedades. Em tese, nos seminários, conventos e escolas estariam concentrados os sábios e a documentação, necessários à formação dos quadros imprescindíveis a esse desenvolvimento e a essa gestão das sociedades.

Entretanto, a difusão das técnicas e equipamentos de impressão possibilitaram a desvinculação do processo escrita-leitura daquele da educação formal (do qual continua a ser o alicerce), fazendo-o, eventualmente, atravessar a fronteira para a não-formalidade. Um escritor-leitor era o suficiente para, em condições de isolamento ou marginalização, criar, pelo menos, outros leitores. Todos conhecemos histórias de crianças ou trabalhadores que, alfabetizados por pais ou companheiros, passaram a ler tudo que lhes caía nas mãos, adquirindo perspectiva diversa sobre a realidade que haviam conhecido.

Essa travessia possibilitou às classes trabalhadoras gerar intelectuais orgânicos que, aliados a parte da elite humanista, conscientizaram-se da necessidade da universalização da educação. Nascia a bandeira da educação para todos, que expandir-se-ia a ponto de, em pouco mais de dois séculos, ser assimilada por governos e políticos liberais, cujos empreendimentos não podem sobreviver sem mão-de-obra parcialmente educada e especializada. Infelizmente, o pensamento liberal cristalizou o conceito de "Igualdade de oportunidades" junto ao de "Educação para todos". Reservaram-se assim, mais uma vez, as migalhas do banquete do conhecimento para os trabalhadores e seus filhos.

Não vou me debruçar sobre os sacrossantos gabaritos de educação, moral e cultura que as corporações e autoridades responsáveis pela educação formal mantiveram e ainda mantêm, e que são praticamente impossíveis de serem atingidos pelo proletariado. A literatura e a filmografia sobre o tema são fartas. Interessa aqui fixar um pensamento básico para o prosseguimento desse trabalho:

Igualdade de oportunidades tem que significar, para ser verdadeira, mais oportunidades para quem nunca teve oportunidades. Para haver igualdade no topo da linha, seja no mercado, na pesquisa, na pós-graduação, é preciso privilegiar quem nunca foi privilegiado. Pestalozzi se rebelou, há uns duzentos anos, contra a forma pela qual as crianças com dificuldade de aprendizagem - como ele - eram desconsideradas na escola. Recolhendo as ideias de Jean-Jacques Rousseau, dedicou-se à universalização do ensino pelo caminho certo, aquele que está na razão deste encontro: o da educação dos trabalhadores. Os trabalhadores e seus filhos precisam de melhores educadores, de materiais didáticos mais adequados. Mas, sobretudo, precisam que se considere e respeite sua cultura. Precisam de uma política educacional verdadeiramente democrática, que não parta da ficção de que, agora, somos todos iguais.

Cultura é categoria transdisciplinar. Não se pode valorizá-la e respeitá-la se insistirmos em não partir dela mesma. Se quisermos adaptá-la aos mesmos manuais e regulamentos que obrigam a diversidade a enquadrar-se em programas mínimos universais. E a cultura dos trabalhadores brasileiros, hoje, permanece tão diversificada e peculiar quanto peculiares e diversificados são os rincões onde vivem e trabalham. Isso, apesar do esforço unificador e globalizador intentado pelos maiores sistemas educacionais do Brasil, os sistemas de comunicação de massas.

Se, em tempo já longínquo, Educação e Comunicação eram aspectos do mesmo processo, o tipo de desenvolvimento adotado pelo homem mudou as duas matérias. Na Era da Informação, as duas foram gradativamente modificadas pelos sistemas de poder e um dia despertaram como veículos de informação. Perderam o retorno direto, interpessoal. Mesmo o professor dos bairros de trabalhadores não tem recursos ou tempo para dar prosseguimento ao sonho de Pestalozzi de uma aprendizagem baseada na experiência. Se o faz é porque encontra forças e paixão em suas ideias, em sua ética, para superar-se.

Transformou-se a educação em linha de transmissão de informações. Nem sequer conhecimentos, pois conhecimentos implicam diálogo com a realidade, contradição, submeter hipóteses à experimentação e construir teorias que, contraditadas, propiciarão conclusões que abrirão novos caminhos, novas hipóteses, novas teorias, numa cadeia infinita de descobertas e revelações.

Os meios de comunicação passaram a despejar - com velocidade, simultaneidade e pluralidade - massas de informação quase impossíveis de serem assimiladas na sua totalidade. À comunicação radiofônica, que se seguira à cinematográfica - lenta, reflexiva -, veio juntar-se a televisiva, potencialmente sintetizadora das anteriores, mas que, em meio século, ainda não conseguiu realizar-se plenamente. Com o desenvolvimento atual da Televisão, consequência das tecnologias de telecomunicações dos últimos 20 anos, imagens e sons de um mundo antes apenas referenciado ou completamente desconhecido chegaram a lugares antes raramente alcançados.

A educação formal passou a perder constantes batalhas e começa a perder a guerra. As redes de Televisão, apoiadas por grandes e pequenos sistemas de Rádio, tomaram conta da Educação no país. E o Governo curvou-se a isso, repassando-lhes recursos para cumprirem o que a Constituição atribui ao estado. O aparato de comunicação educativa montado, durante décadas, por universidades, secretarias de estado e ministérios é sucateado ou ameaçado.

Algumas pessoas ainda consideram que a Televisão afeta a cognição. Precisam entender que a TV educa também. É preciso saber para quê ela educa. Infelizmente, na maioria dos casos, a Televisão educa para um modelo de desenvolvimento em que o homem não está no centro. O homem não é o que importa mais. O que importa mais é o lucro. Agora, a televisão tem um papel a desempenhar e tem desempenhado. Em alguns momentos tem sido preponderante esse papel. O "Sítio do Pica-pau Amarelo", produzido pela Globo junto com a TV-Educativa do Rio de Janeiro foi fundamental. A teledramaturgia tem, em alguns momentos esse papel de incentivar a leitura, a visão das artes plásticas, a difusão da música de qualidade, da diversidade cultural. Mas são momentos raros.

O problema é que quando a televisão trabalha com preconceitos, trabalha com modelos de pensamento que prejudicam o desenvolvimento do ser humano, ela tem muito mais força do que o professor mal remunerado na sala de aula. Esse professor mal remunerado e mal capacitado tem dificuldades de confrontar o poderio dessa linguagem que é a Televisão. E que penetra em quase todas as casas. Só não penetra em todas porque é o Rádio que atinge o maior público, embora tampouco trate bem a questão da educação. Isso porque o Governo abriu mão de seu papel de orientar a educação a distância através de Televisão e Rádio. Pois a televisão dita comercial também tem, até mesmo por lei, um compromisso com a Educação e a Cultura.

O homem tem que ser o centro na televisão. O homem tem que ser o centro na vida. Nós desenvolvemos a sociedade em função do homem, mas, muitas vezes, perdemos a perspectiva disso. Existem alguns programas, fora da linha educativa, como os da linha informativa, que têm um papel educativo muito grande. O Globo Rural, por exemplo, tem um caráter educativo não apenas técnico, instrucional. Eu o acho mais eficiente, no campo ecológico, que o próprio Globo Ecologia. Ali o homem está no centro da Ecologia, para entender o meio em que vive e como transformá-lo harmonicamente e não para destruí-lo ou para dele se isolar.

A questão é realmente humanizar a televisão, não para o benefício do lucro, mas para melhorar as condições de vida do homem, melhorar a convivência, combater a violência, exercer a solidariedade.

Se a televisão não faz isso ou o faz de maneira incipiente e inadequada, na maioria das vezes, cabe ao professor, em sala de aula, e aos ativistas da educação informal dar esse bom combate, o de utilizar como fonte e referência os próprios produtos do sistema para desmitificá-los e fazer com que estudantes e trabalhadores conquistem sua cidadania por meio do único instrumento que realmente permite isso: a consciência, a capacidade de reflexão, a independência do pensamento.

O educador é um agente subversivo. Contra os meios de comunicação desumanizados, contra o sistema que visa exclusivamente ao lucro e contra suas próprias tendências de "fazer a cabeça" de estudantes e trabalhadores. Sobretudo dos estudantes-trabalhadores.

Originalmente apresentado no 12º Congresso de Leitura, em Campinas, julho de 1999. Publicado no livro "Educação de jovens e adultos", organizado por Vera Masagão Ribeiro e editado por Ação Educativa/Associação de Leitura do Brasil e Mercado das Letras, em 2001.

Publicado em 23 de outubro de 2006

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