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Dia dos Mortos

Karla Hansen

"A morte não nos assusta, porque a vida já nos curou dos medos"
Octávio Paz

Para nós, brasileiros, diferentemente do que diz o escritor mexicano, Octávio Paz, prêmio Nobel de Literatura, a morte é a maior das assombrações. Aprendemos a temê-la desde a infância e rejeitamos o tema a tal ponto que se considera de mau gosto falar no assunto. Mas se, por descuido, a palavra nos escapa, corremos a bater três vezes na madeira. A exceção a essa regra é o dia de Finados, celebrado no dia 2 de novembro, criado para lembrar nossos mortos, rezar ou chorar por eles, visitar os cemitérios e colocar flores nos túmulos.

A tradição de venerar a memória dos entes queridos falecidos num dia especial nasceu de um culto católico que remonta ao ano 998, quando, na França, o abade de Cluny, Santo Odilon, decretou que em todos os mosteiros da Ordem de São Bento fosse celebrado, depois das vésperas de 1º de novembro - dia de Todos os Santos - o ofício dos mortos. Desde então, o 2 de novembro se tornou uma data importante do calendário católico e se espalhou por todo o mundo cristão.

Na maioria das cidades brasileiras, a celebração do dia de Finados se resume quase que exclusivamente a missas e a visitas, em massa, aos cemitérios. Mas, quanto mais longe das áreas urbanas, no interior ou no litoral, mais se pode encontrar superstições e rituais, a maior parte de origem portuguesa, relativas ao culto do dia dos mortos. Entre elas, a proibição de caçar e pescar nesse dia, a crença em que as almas visitam os lugares onde viveram ou nos quais seus corpos foram assassinados ou, quando afogados, suas almas passeiam sobre as águas do mar e de açudes espalhando pavor. Deve-se, ainda, de acordo com essas crenças, evitar encruzilhadas e locais escuros no dia dos Mortos.

Acredita-se que por essas e outras a morte tenha se enraizado na cultura brasileira com esse aspecto pavoroso e sombrio, por evocar nossos terrores mais atávicos, além dos sentimentos de saudade e de tristeza, pela perda de pessoas queridas, daí querermos manter a maior distância possível dessa "senhora" implacável.

No entanto, esse não é o caso dos nossos "hermanos" do México, que mesmo tendo sido colonizados por espanhóis, povo extremamente católico, lidam com a morte de forma mais cotidiana, mais íntima, como "coisa da vida" mesmo, estabelecendo com ela uma relação bem humorada e até alegre. No México, a Festa dos Mortos, que acontece entre os meses de outubro e novembro, celebra, sobretudo, a vida! E por ser vibrante e culturalmente rica, a festa foi incluída como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Unesco.

A tradição mexicana vem dos povos pré-colombianos, como os astecas, que estavam no poder quando da chegada dos espanhóis, além dos toltecas, maias, olmecas, purépechas, tarahumaras e tojolabales. Tais culturas adaptaram ao cristianismo espanhol seus ritos e sua maneira de se relacionar com os mortos e com a morte (vista como origem e destino, lugar de descanso e de reencontros).

Essa relação tão familiar dos mexicanos com a morte não significa, no entanto, que eles não tenham medo, mas ajuda as pessoas a conviver e a sobreviver ao medo de morrer ou de perder entes queridos. Afinal, morrer é um fato absolutamente natural na vida de qualquer um. Como dizia meu pai, "para morrer, basta estar vivo".

Para nós pode parecer estranhamente mórbido, mas é comum que as crianças devorem caveirinhas de açúcar, bala de goma, chocolate ou amaranto, pães dos mortos e todo tipo de guloseimas que brincam com a figura da morte. Assim, acostumam-se ao contato com uma morte alegre e companheira, personificada em bonecos-caveiras de papel machê. Também há o costume de noivos, depois do casamento, visitarem a tumba de seus pais e parentes para tirar fotografias. Desse modo, não só apresentam o companheiro ou companheira a seus mortos, mas também compartilham com eles o momento de felicidade do casal.

Durante os meses de outubro e novembro são apresentadas, em várias partes do México, peças e canções populares com temas relacionados à morte; montam-se altares públicos em museus e instituições públicas; são inauguradas mostras de cinema e bailes; ministradas conferências sobre os distintos aspectos da morte (médico, antropológico, teológico, histórico etc.); e se publicam as calaveras políticas, tradição que consiste em escrever epitáfios humorísticos de políticos e pessoas públicas.

As festividades que envolvem o Dia dos Mortos, variando de região para região, começam no final de outubro e seguem até a primeira semana de novembro. Os dias são pautados em função do regresso do mortos, de acordo com a forma de suas mortes: no dia 30/10, regressam os suicidas; em 31/10 voltam as almas dos mortos em acidentes; no dia 1º de novembro regressam as crianças; e, no dia 2, as almas dos adultos.

Para quem quiser saber mais sobre o espírito irreverente dos mexicanos diante da morte e compartilhar esse conhecimento com as crianças, vale a pena ler "Só um minutinho: conto de esperteza num livro de...", da escritora e ilustradora mexicana Yuyi Morales, lançado no Brasil este ano pela Editora FTD, com tradução de Ana Maria Machado.

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Publicado em 07/11/2006

Publicado em 07 de novembro de 2006

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