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A vingança dos normais

Karla Hansen

A Pequena Miss Sunshine, o filme, em cartaz desde outubro nos cinemas, nos põem diante do cotidiano nada convencional dos Hoover, uma família americana de seis pessoas que vivem numa pequena cidade do Novo México: um casal, dois filhos - um adolescente, Dwane (Paul Dano), e Olive (Abigail Breslin), a protagonista, uma menina de 7 anos inteligente e adorável - o tio das crianças, Frank (Steve Carrel), professor homossexual que acabou de sair do hospital por ter tentado suicídio e o avô (o veterano Alan Arkin), um velho hippie, que foi expulso do asilo por usar heroína. É ele quem prepara Olive para participar de um concurso de beleza para meninas.

O pai (Greg Kinner) vive de fazer palestras de autoajuda, pretendendo ensinar 9 passos para se vencer na vida. Para ele, só existem dois tipos de pessoas: as vencedoras e as perdedoras. Dwane, o filho mais velho fez um voto de silêncio, só se comunica por escrito, idolatra o pensador alemão F. Nietzsche, diz odiar a todos e tem como meta tornar-se piloto da Força Aérea Americana. A mãe (Toni Collette) tem os olhos esbugalhados, é desajeitada e aflita.

A primeira impressão é de que se trata de uma família desequilibrada, esquisita, cheia de problemas, enfim, pouco comum. A questão é: Olive, finalmente, conseguiu uma vaga para se inscrever no concurso de beleza Miss Sunshine, que acontece, anualmente, na Califórnia. É o seu maior sonho e, para realizá-lo, todos viajam juntos para esse estado, numa velha Kombi amarela.

Durante a viagem, a família passa por inúmeros percalços, alguns hilários, outros dramáticos, mas cujas experiências acabam por aproximar as pessoas e revelar um mundo artificial e hipócrita, dominado por padrões de beleza e de comportamento aprisionadores à sua volta. Assim, aos poucos, cada um deles se mostra como realmente é, nem perdedor, nem vencedor, apenas, normal, ou melhor, humano.

É essa, a meu ver, a questão central abordada pelo filme, uma verdadeira obsessão para a cultura americana, que é rotular as pessoas entre perdedores e vencedores (losers e winners), sendo que esses são uma espécie de super-heróis perfeitos, não-humanos, já que os perdedores seriam aqueles que falham, que são imperfeitos, que fraquejam, que hesitam, que sofrem, que têm vontade de desistir.

Esse não é, no entanto, um mal só dos americanos, mas da sociedade ocidental contemporânea. Nós também costumamos classificar os outros e a nós mesmos como fortes e fracos, normais e anormais, como se essas categorias fossem absolutas e não se alternassem numa mesma pessoa. Nesse sentido, o filme é extremamente libertador, já que nos faz refletir sobre o que nas entrelinhas, ele diz: somos quem somos e a vida inclui perder e ganhar, ser forte e ser fraco, errar e acertar, sofrer e ser feliz, aceitar nossos limites e superá-los.

No final, depois de rir e de chorar - o filme é classificado tanto como drama quanto como comédia -, torcemos eletrizados pelos Hoover, na verdade, torcendo por nós mesmos. É a nossa vingança contra o mundo dos pretensos vencedores, dos perfeitos, dos belos, dos fortes. Afinal, descobrimos que esse mundo, além de ideal, é artificial e desumano. E saímos do cinema acreditando que vale à pena ser quem somos, assim, frágeis, cheios de dúvidas, de medos, de enganos, mas também de acertos, de força, de grandeza, apenas humanos, demasiadamente humanos.

Por tudo isso e pelo excelente trabalho de toda a equipe de atores, A Pequena Miss Sunshine ganhou prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Sidney, 2006, e foi ovacionado no Festival de Cinema de Sundance, a Meca do cinema independente dos EUA.

Ficha técnica do filme:

  • Título: Little Miss Sunshine
  • Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris
  • Gênero: Ficção
  • Produção: Diversos

Publicado em 13/11/2006

Publicado em 14 de novembro de 2006

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