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Speak português?

Adilson Pereira

Um drive thru aqui, um self service ali depois de trabalhar a manhã inteira vasculhando home pages no trabalho, e o sujeito não tem como negar: os estrangeirismos se tornaram parte comum do nosso cotidiano. Para muita gente, algo bastante aceitável, uma das provas de como a dinâmica com que se formam as línguas não poderia ficar alheia à globalização. Para outros, como o pessoal do Movimento pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil, que anda espalhando cartazes pela cidade em sinal de protesto pelo abandono do português, é caso de autoestima do povo verde-e-amarelo. Opinião parecida é a do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), que apresentou, na Câmara, projeto que "dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa". O texto, de 1999, está agora na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Para o filólogo Ricardo Salles, o problema não é exatamente o uso de expressões em língua estrangeira mas, sim, o (ab)uso especificamente do inglês. "Não tem em russo, por exemplo", provoca o bem-humorado estudioso, que vê no excesso de slevs-devskis que engolimos um reflexo da hegemonia dos EUA não só aqui, mas em todo o planeta.

Mas colocando-se fora do time dos xiitas ele avisa logo: "Sou a favor de usar a palavra 'shopping', já que importamos com ela um conceito. Desnecessário é sale se temos liquidação. Se formos olhar a TV a cabo, hoje, a quantidade de filmes violentos é impressionante. Também é parte do estilo americano que importamos. Se formos comparar, prefiro sale a isso", diz. Salles acredita ainda que se as crianças forem ensinadas a ter juízo crítico, o rolo compressor idiomático não poderá deformar a bagagem cultural delas. O que o especialista acha arriscado é o que chama de "nacionalismo linguístico". "Acho perigoso por causa das conotações fascistas que dizem que a identidade tem que ser impermeável a qualquer influência estrangeira", alerta.

O professor Sérgio Nogueira, que ajuda, entre outros, o Jornal do Brasil a tratar bem a nossa língua, prefere não generalizar. "Não sou um purista. A presença de estrangeirismos existe em qualquer língua. Usar a palavra dumping, por exemplo, é melhor do que gastar uma linha inteira para explicar, em português: vender abaixo do preço para prejudicar o concorrente. O mesmo acontece com doping. Não acredito em lei que possa mandar na linguagem do povo", diz o professor.

O deputado Aldo Rebelo não só acredita como vislumbra que a sua proposta, depois de passar pelo Senado, pode ser sancionada pelo presidente Fernando Henrique ainda este ano. Rebelo descarta, porém, o caráter de xenofobismo que tanto preocupa o filólogo Ricardo Salles: "O Brasil tem a legislação mais maleável do mundo para estrangeiros. Aqui nunca existiu risco de xenofobia. Nos primeiros governos republicanos, os imigrantes ganhavam no cais do porto mesmo a cidadania brasileira. Temos uma tradição de boa vontade", destaca o deputado. Apesar de tudo, lembra, "isso aqui não é a casa da mãe Joana. O Brasil tem necessidade de manter sua independência. Gosto muito de futebol e quero perguntar aos locutores dos canais a cabo por que o Estrela Vermelha virou recentemente Red Star Belgrado. Os estrangeirismos têm o dom de empobrecer a língua. Futebol é uma palavra de origem inglesa. E acho restaurante mais adequado do que comedor. Mas são palavras que foram aportuguesadas depois de bem absorvidas."

Rebelo vai falar sobre a lei e outros assuntos, no Rio, na próxima sexta-feira, quando, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, acontece um congresso de estudantes que, segundo a previsão de Wadson Ribeiro, presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), deve reunir cinco mil jovens vindos de todo o país.

O parlamentar vai aproveitar o tema "Produção crítica e literatura brasileira", que também terá como convidados professores de outras universidades brasileiras, para falar, por exemplo, que concorda com uma alteração do seu projeto feita pela Comissão de Educação, Cultura e Desportos da Câmara dos Deputados. A troca prevê "pena alternativa" em lugar de multa por descumprimento da lei. "O sujeito pode ser obrigado a frequentar aulas de português ou a recitar um poema", diverte-se o deputado. A pena se aplicaria no caso de alguém desrespeitar a obrigatoriedade de uso do português no ensino e na aprendizagem, nas relações jurídicas e na produção e consumo de bens.

Um arrastão para resgatar a língua

O cantor Tom Zé é outro que vai estar com os estudantes na UERJ. Deve aproveitar o show para vingar-se um pouco da invasão estrangeira, como já fez numa apresentação recente no Ballroom, no Rio. Na ocasião, o baiano fez uma corruptela-adaptação de termos em inglês. Referiu-se a uma canção rápida como algo "shortzinho, smallzinho" que cantaria, provocando urros e risos na plateia. "Para nós nordestinos, a falência do dicionário em geral é um desastre cósmico. O valor mais alto é o da circulação da palavra. Dizem que os radicais são fomentadores daquilo que a sociedade vai criar dali a cinco anos. Se importamos radicais de outros países, o que vamos criar?, pergunta o artista, que cita com entusiasmo o exempIo dos franceses que renomeiam aparelhos que vêm doutras plagas. No shopping, quando aparece uma lojinha com nome de 'Erva-cidreira', dá vontade de comprar nela mesmo que a gente não precise de nada. Em shopping, tem tanto nome em inglês, é uma coisa tão antipática, tão novo-rico", lamenta.

Tom Zé talvez então não entrasse no Joe & Leo's. Mas se sentiria à vontade para pedir em casa uma comida do restaurante que pode ser achado no São Conrado Fashion Mall e no New York City Center. Os sócios da casa usam e abusam das expressões vindas da terra do Tio Sam para dar ao ambiente o clima que consideram ideal para servir seus produtos, mas, quando encomendaram a uma agência de publicidade uma estratégia para lançarem-se nas entregas em domicílios, fizeram questão de que não fosse usada a palavra delivery. "O projeto acabou não vingando porque nossos produtos são muito artesanais e perdem a qualidade se demoram a ser consumidos. Mas delivery seria exagero. O conceito da casa é bastante americano. Em vez de 'experimente' optamos por 'new' para anunciar um novo prato.

Não funcionaria de outro jeito. Se eu tivesse um restaurante de comida francesa, teria expressões neste idioma", justifica André Cunha Lima, um dos sócios, acrescentando que "só 0,1% do público se confunde com as palavras". Entre este 0,1% esteve um casal que discutiu em frente à filial da Barra, diante do letreiro de néon em que se lia a palavra open. O rapaz achava que isso significava aberto, a moça, fechado. "Em alguns casos, acho over. Agride aos ouvidos. A Barra tem essa tendência", aponta o empresário dos hambúrgueres.

O espanhol Benigno Garcia, um dos sócios da padaria Barra Bakery, concorda com o colega do restaurante. Ele explica que a opção para o batismo da loja foi por acaso. E dá o que considera a receita para o sucesso: "O que faz diferença é qualidade dos produtos", diz, tirando da lista de ingredientes palavras em outro idioma na placa da entrada. Por falar em placa de entrada, o Banco do Brasil teve que mudar - por pressão de clientes -

a sua de "personal banking" para uma outra com frase em português. Se a moda pega, os shoppings ficarão congestionados de operários trocando letreiros nos fins de semana: três grandes centros de comércio deste tipo no Rio têm, em suas dependências, mais de 50% das placas com nomes de lojas fazendo alguma alusão ao inglês, seja apelando para o apóstrofo seguido de "s" ou para as letras "k", "w" ou "y" compondo o nome do estabelecimento. Das 540 lojas do BarraShopping, 60% têm nomes estrangeiros. Em Nova York, não passam de 28% o total de estabelecimentos do World Financial Center que não são batizados em inglês. E em Paris, só 27% dos letreiros do Carrousel du Louvre não são em francês.

O publicitário Lula Vieira concorda que a Barra exagera. Ele não se preocupa com o projeto de lei de Aldo Rebelo (o deputado já declarou que o que ele quer é "provocar a discussão") e tem a impressão de que o excesso de estrangeirismos "já está se tornando brega". "Quando é termo técnico, não tem problema nenhum. E não há como pedir, hoje, que as pessoas usem esboço no lugar de layout, destaca o publicitário. Uma verdadeira loja sofisticada, hoje, não apelaria para nomes em inglês. Na zona norte, para as classes C e D, talvez, mas no Leblon, por exemplo, uma Casa de Pasto Vieira não seria melhor do que qualquer coisa batizada em inglês?", indaga. Lula garante que, se fosse trabalhar hoje na concepção de um nome de shopping, optaria por alguma expressão indígena." Estas expressões já viraram piada. E isso funciona mais do que decreto, você passa a rir dessa mania de Miami da Barra", avalia.

O pessoal do Movimento Pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil parece até disposto a rir, mas só depois de conseguir - não com piadas, mas com panfletagem, cursos e distribuição de livros, entre outras empreitadas - a transformação do cenário que enxergam entupido de estrangeirismos. É um grupo que se declara, hoje, atuando com 50 pessoas mas com um catálogo de outras 700 que se identificam com a causa e prontos para agir. A causa se tornou visível para os cariocas pelos cartazes espalhados pela cidade, em que aparecem riscadas expressões escritas em inglês. Do lado de cada uma delas, o equivalente em português, sugerindo que se opte pelo similar nacional. "Valorize o idioma nacional! A liberdade começa na língua", lê-se também no rodapé da peça produzida pelo grupo que não se considera de direita ou esquerda mas, apenas nacionalista.

"Éramos um grupo de 12 pessoas, estudantes e outros profissionais. Panfletamos e anunciamos nossa intenção de protestar diante da inauguração daquela estátua da liberdade na Barra. A língua é tudo. Um povo sem língua nativa é um povo sem alma", declara Wagner Vasconcelos, de 35 anos, estudante de direito da UFRJ e que se define como "ativista político cultural voluntário de carreira".

O grupo, que também espalha cartazes em que USA aparece riscado e seguido pela frase "resistir é preciso", espera produzir nos próximos meses, "financiado pelo povo", livros e cartilhas que despertem a atenção dos cariocas (e depois dos nativos de outros estados) para a importância de manutenção da língua portuguesa e de outros ícones da cultura brasileira. Quem quiser saber um pouco das propostas deles poderá encontrá-los em sua reunião de hoje em Copacabana, para o que chamam de "arrastão cultural". (A.P.)

Texto originalmente publicado no Jornal do Brasil em 04/02/2001 e cedido para o curso Língua Portuguesa na Educação, da Fundação Cecierj

Publicado em 28 de novembro de 2006