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Leve Desespero

Pablo Capistrano

A história trágica da modelo que morreu aos 21 com 40 quilos é sintomática desses anos. Um dos conceitos mais caros ao estoicismo de Sêneca é o de que, na maioria das vezes, somos pegos na ilusão de que podemos mudar os fatos do mundo quando na verdade temos controle apenas sobre a nossa própria reação diante desses fatos. A riqueza da virtude, numa visão estoica, reside justamente nisso. Só ela é completamente nossa. Só ela é permanente. Num universo no qual tudo passa, no qual todas as coisas que surgem não duram muito tempo, a única estabilidade que se pode encontrar é a do nosso próprio caráter. Só ele não me pode ser tirado. Só ele será meu quando a fortuna, com sua inconstância e sua ironia sarcástica, vier para arrancar de mim tudo que tenho.

A beleza é uma dos elementos da vida que facilmente é arrastado pela fortuna (uma deusa romana antiga que carregava numa mão, um leme e na outra uma cornucópia). Na verdade, a beleza é uma angulação. Ela não está no corpo, que é, aparentemente, seu objeto. A ilusão que anda matando essas meninas é a de que a beleza é algo que pode se reter. Mas esse é o erro de juízo fundamental. Não há nada que se possa fazer, no corpo, para reter a beleza. Nenhuma cirurgia plástica, nenhuma dieta mágica, nenhum programa miraculoso de torneamento mecânico dos músculos. Isso porque a beleza é um momento, é um direcionamento do olhar em determinadas circunstâncias. Greta Garbo sabia disso. Ela adorava manipular com a luz. Os fotógrafos de cinema costumavam dizer que ela era linda porque sabia encontrar o caminho da luz e posicionar o próprio rosto para roubar, da luz, toda a beleza que necessitava.

Garbo era genial porque entendia que a beleza não estava contida em seu rosto, mas no ambiente que a envolvia. Ela compreendia que a beleza era uma construção mental e não uma arquitetura especifica de um amontoado de músculos e ossos. Ela era tão consciente dessa construção que desapareceu dos holofotes da mídia na hora certa e não agonizou em praça pública, tentando reter aquilo que não se contém.

Nosso corpo não nos pertence. Ele faz parte da massa natural que nos compõe e nos rodeia. Ele é um estranho e flácido casulo de carne no qual nossa mente se mantém aprisionada por certa quantidade qualquer de anos. A história da evolução e decadência de nosso próprio corpo é uma narrativa que todos vamos ter que vivenciar mais cedo ou mais tarde. O grande sintoma da doença dessa geração de saradinhos e saradinhas é que essa narrativa está a cada dia virando um conto de horror. O corpo deixou de ser um espaço de prazer e passou a ser nosso mais instigante objeto de tortura. Nossa mais agonizante e miserável fonte de angustia e ódio. Quando penso nessas modelos morrendo de fome penso no self-hate dos suicidas (desculpe Ariano Suassuna, mas não há palavra em português que possa sintetizar melhor esse estado). Morrer de fome, destruir o próprio corpo, esquartejar a beleza que te escraviza, arrasar o objeto do seu desejo, pode até mesmo ter suas fundamentações bioquímicas, mas também guarda em si um significado profundo.

Odiamos nosso corpo justamente porque ele não nos pertence, porque ele vai passar, porque ele não nos obedece, por que ele não se encaixa no modelo mental que construímos para nós mesmos, porque ele, atrevido, miserável, rebelde, não quer reter a beleza. Ele não quer fazer com que a beleza que aparece uma vez ou outra no espelho, fique para sempre. Mas uma vez nos lembramos de Sêneca e de seu Praemeditatio (seu remédio para as nossas ilusões mentais de eternidade): "Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer". Minha princesa... aprenda a não confiar na beleza. Aprenda a não depender dela para viver. Deixe que ela seja uma luz, uma angulação, um brilho que nasce e morre num segundo no canto do teu olho. Porque a beleza é uma dama vagabunda. Foge de quem tenta retê-la e gruda em quem a despreza.

Pubicado em 5/12/2006

Publicado em 05 de dezembro de 2006