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Guimarães Rosa na travessia do Grande Sertão

Ieda Magri

- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.

É assim que começa um dos livros mais estudados da literatura brasileira: Grande sertão: veredas. Já leu já, meu doutor?

Não sofra gastura, não. É sempre tempo e cumpre aproveitar o ano, que é de aniversário. Publicado em 1956, o livro causou espanto; não que a linguagem de Guimarães Rosa fosse novidade. Ele já havia publicado Sagarana dez anos antes, em 1946. Este, uma amostra do que ainda viria e que já dava sinais da genialidade do autor, principalmente pela ousadia da linguagem e pelo mergulho fundo na cultura popular do Brasil, mais propriamente a do sertão mineiro.

Mas, compadre meu Quelemén me disse que falar de uma coisa querendo dizer de outra é perda de tempo. Então, Grande Sertão: veredas, o livro que conta a história de Riobaldo, um jagunço dos brabos, é recheado de fantasiação, de melancolias, do razoável sofrer de amor, de desconfiança, de medo do diabo na rua no meio do redemunho. É Riobaldo mesmo que conta sua história de jagunçagem, de pacto com o diabo, num diálogo com um doutor que lhe serve apenas de ouvinte, um monólogo cumpre dizer, posto que o tal doutor não fala uma única palavra em toda a história. E precisa? O que Riobaldo quer nos contar não deve nada à instrução da gente urbana, dos doutores que ele admira e tem inveja. Diz ele: "Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração". Mal sabia ele, ou vai ver o danado sabia mesmo, que o doutor é que podia ficar com uma inveja das grandes de uma história daquela do Riobaldo pra contar pra todo mundo. Riobaldo conta a sua vida de jagunço combatendo pelo sertão de Minas Gerais, num viver que é muito perigoso. Mas o combate não é só no sertão sem fim, imenso território, as veredas se mostram dentro do peito de Riobaldo: "o sertão é dentro da gente". Imaginem: um sertanejo perigoso, desses que fazem perigar o viver de muitos homens, um cabra macho que, tornado fazendeiro, no tempo presente onde acontece a conversa com o doutor, medra por causa do diabo poder existir. Essa é sua grande dúvida, pois, tempos antes, numa encruzilhada das Veredas-Mortas, ele, precisado de ajuda pra vencer uma luta das tenebrosas, das grandes mesmo, invoca o dito cujo e vê um vento, e vê uma transformação qualquer nos acontecimentos e vence a luta. Pois então, e se o de quem não se deve dizer o nome tinha aceitado o pacto? E agora ele era dele? A resposta que Riobaldo procura no contar de sua história é a de sua vereda do peito. Então ele tinha mesmo vendido a alma? Sucedia uma duvidação.

Em Diadorim pensava também. Mas Diadorim é minha neblina. Sim, Riobaldo, jagunço, Tatarana, experimentou a dor do amor. E não quero estragar o romance contando essa história: segundo alguns, a rede globo já estragou porque fez uma minissérie e todo mundo ficou sabendo do desfecho. Pra que ler o romance se já se sabe o final? Pois essa questão não cabe em Guimarães Rosa. O livro, se degusta em cada linha. Mas não é que o cabra macho se apaixonou por Diadorim, homem, jagunço também? Assim cria ele e não entendia aquele quê nos olhos muito verdes de Diadorim que teimavam em enredar o jagunço. Não interessa se depois se sabe que Diadorim era disfarçado. Era mulher, o homem dos olhos verdes. Mas Riobaldo não sabia, e não entendia: "amor é pássaro que põem ovos de ferro". E amor há. "O diabo não há...existe é homem humano".

Travessia. Será que dá tempo? Vinte e um dias pra findar o ano do cinquentenário. Vamos nessa? Pode procurar em sebo que tem. Pode pedir pela internet e pode entrar numa dessas livrarias da Gávea ou do Leblon. Há que se aproveitar as edições de aniversário.

Ficha técnica do livro:

  • Título: Grande sertão: veredas
  • Autor: Guimarães Rosa
  • Gênero: Romance
  • Produção: Nova Fronteira

Publicado em 12/12/2006

Publicado em 12 de dezembro de 2006