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Prosa prazenteira

Cláudia Dias Sampaio

Para ler ouvindo Chovendo na roseira, de Tom Jobim

Tarde de domingo. Rio de Janeiro. A chuva boa e prazenteira cai, preguiçosa, refrescando a pista de pouso e decolagem do aeroporto internacional Tom Jobim. O mormaço que sobe, à medida que as gotas caem, aquece o pensamento dos que partem e dos que esperam por alguém querido no portão do desembarque. Cenário perfeito para beijos e abraços há tempos sonhados, sufocados pela imposição da distância.

Mas nem sempre os que estão no setor de desembarque esperam por alguém querido. Pode ser assunto profissional, favor para amigo, uma infinidade de casos que justifiquem uma tarde de domingo à espera do avião.

Bom mesmo é estar esperando por alguém que amamos", dispara a moça, inquieta em seu ir e vir, tentando obter informações sobre um voo vindo de Roma. Ao lado, um rapaz e uma moça trocavam sorrisos e olhares.

Carioca pode ter um monte de defeitos, mas, a disposição para puxar assunto é uma virtude admirável. Bastou sentar próximo, cruzar o olhar mais de uma vez, já se tem motivos de sobra para um dedinho de prosa. Sem falar que, por aqui, todo mundo se conhece de algum lugar.

Alicia e Henrique se reconheceram no aeroporto, naquela tarde morna de um domingo de janeiro. Não era o caso de estarem esperando por alguém amado. Ela estava curiosa em conhecer a mãe da amiga espanhola com quem morava há dois anos e, finalmente, iria visitar a filha no Brasil. Ele esperava o sócio que vinha no voo 276 Lisboa - Rio. O atraso de mais de quatro horas no voo 276 fez Henrique comprar cinco livros, ler algumas páginas de todos, pensar na vida, e encontrar Alicia.

Conversaram por mais de uma hora, sentados no banco, ao lado da moça inquieta, a quem nem prestaram muita atenção. Henrique sabia muito sobre Alicia. Há um ano tinha captado, através de sua câmera, aquele olhar, os gestos, o sorriso. Estava tudo gravado, na fita do teste de elenco que ela fez para o filme em que ele trabalhava como câmera, e na memória dele com detalhes que nenhuma lente alcançaria. Por coincidência, eram vizinhos de bairro. Ela não sabia tanto sobre ele, nem mesmo que eram vizinhos. Lembrava que o conhecia de algum lugar. Mas qual? Ele a chamava pelo nome e ela, angustiada, não sabia o nome dele, pior, faltava-lhe coragem para perguntar. Henrique perguntou se ela ainda trabalhava como atriz, lamentou sobre a dura vida de um técnico de cinema e falou sobre a paixão que nutria pelo fusca vermelho que acabara de comprar.

- O nome dele é Jujuba.

A conversa já estava para lá de íntima quando a mãe da amiga espanhola chegou e, logo atrás, desembarcou o tal sócio de Henrique.

Os dois se despediram, sem promessas de encontros futuros ou qualquer coisa do gênero. Ela, intrigada, sem ter conseguido lembrar o nome dele. O chão da pista de decolagem ainda estava úmido. A brisa refrescante exalava o odor da chuva que acabara de cair. Pétalas de rosa caindo, levando os amores tão puros que permanecem no pensamento.

Pubicado em 19/12/2006

Publicado em 19 de dezembro de 2006