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Madame Butterfly e o Noturno de Belo Horizonte

Pedro Paulo Cava

A solidão da poesia anda rondando a cabeceira da minha cama.

São livros e mais livros espalhados, empilhados, lado a lado, esquecidos - alguns nunca lidos, outros já desmanchados, engordurados, folheados apenas. Poemas esparsos, obras reunidas, antologias, obras completas e incompletas de autores vários, diversos, famosos, inéditos, alternativos, bissextos, de ocasião e livros que compro para agradar aos amigos e outros pela total incapacidade de dizer não ao apelo do vendedor ou pela simples imobilidade diante do autor que me intima a adquiri-lo, mesmo que eu não o saiba poeta.

Dia desses, um domingo ensolarado qualquer, uma borboleta surgiu na moldura da minha janela e parecia me olhar intrigada enquanto eu lia "transversado" sobre a cama. Logo pousou suave sobre Mário de Andrade e fez ali uma espécie de moradia, bem sobre as páginas abertas do Noturno de Belo Horizonte. Ficou assim um tempo, concentrada como se lesse lenta e atenta cada palavra e observasse pela janela, a noite que vinha se aprochegando de mansinho.

Depois mudou-se para Drummond que era vizinho de Emílio Moura de um lado e de Eduardo Frieiro de outro. Chegou perto de Alphonsus e Affonso Romano que abriram para ela suas páginas mágicas.

De madrugada, transferiu-se para mais longe e foi viver com Cecília e Lya Luft que se aninhavam num dos cantos da estante e dividiam espaço apertado com Quintana e Bandeira e, na segunda-feira chuvosa, descreveu uma parábola no ar e foi visitar Vinícius e João Cabral que por sua vez morava acima de Ferreira Gullar e abaixo de Castro Alves que quase esmagava o pequenino Cruz e Souza.

Fui me acostumando com a presença negro-amarelada da inusitada visitante e apesar de achá-la uma intrusa em meus livros, passei a considerar sua presença quase normal, embora estivesse atento a todos os seus movimentos.

Apelidei-a carinhosamente de Madame Butterfly e fomos vivendo um caso intenso de amor pela poesia esparramada, desorganizada, diluída à nossa volta.

Na quarta-feira à noite, cheguei em casa e encontrei-a dentro das páginas de Cora Coralina, não sem antes ter passado pela gramática de Manuel de Barros, devorado as obras completas de Murilo Mendes e se deliciado com os poetas inconfidentes, especialmente com as liras de Gonzaga.

Tempos depois ela tomou coragem, atravessou um oceano de livros e papéis e foi conhecer, em outros quadrantes do quarto, Baudelaire, Maiakóvsky, Whitman, Lorca, Goethe, Fernando Pessoa, Púschkin e acabou se apaixonando por Neruda, que era companheiro inseparável de Miguel Torga e Brecht no exílio. O tempo foi passando e minha borboleta - eu já me permitia a sua posse - fazia parte das minhas noites de insônia, parecendo compreender minhas aflições e temores noturnos. Só depois que a exaustão me vencia e eu mergulhava num sono entrecortado várias vezes pelos sonhos constantes, ela, vigilante, adormecia dentro de algum poeta maior ou menor. As obras de Henriqueta Lisboa pareciam ser seu ninho preferido.

Assim vivíamos, silenciosos, cúmplices da poesia circundante. Seu gosto era tão eclético quanto o meu, pois ela descobriu Adélia, com quem manteve uma longa relação de amizade e, vez por outra, aterrisava sobre Borges, Ernesto Cardenal, Sá Carneiro e Aníbal Machado, que era seu favorito e onde ela adormecia velando por mim.

Como se não bastasse, passou a frequentar a roda dos alternativos e independentes e se espantou com a crueza de Ana Cristina César, divertiu-se com a irreverência de Tião Nunes, admirou a beleza formal de Ronald Claver, blasfemou com Paulinho Assunção e a sensualidade de Thais Guimarães a fez dançar nas alturas. Era tão intensa a sua presença na minha vida que vez por outra eu voltava mais cedo pra casa só para me maravilhar com sua presença. É bom dizer que, por esse tempo, ela já tinha adquirido multicores poéticas.

Um belo dia, quando o sol do fim da tarde já se esfumava num roxo-azulado daqueles de fazer parar o tempo e capturar a natureza em sua plenitude para que não se acabe nunca, minha companheira, discretamente, levantou voo, e ainda no recorte da janela, ficou suspensa por uma fração eterna de segundo como que se despedindo e depois sumiu dentro da noite que vinha comendo o dia.

Em vão esperei pela sua volta...

Meses depois, ao acordar, percebo movimentos sutis à minha volta e estupefato, vejo saírem farfalhantes de dentro dos meus livros, centenas de borboletas multicoloridas que vão levando em suas asas fragmentos de poemas subtraídos aos meus preciosos poetas colecionados desde a infância.

Cada uma delas vai ganhando as ruas e sobre as cabeças das pessoas preocupadas e tensas, derramam versos, rimas, palavras, emoções, como uma chuva de inigualável emoção. Naquele dia os jornais, rádios e as redes de TV noticiaram o fenômeno como uma aparição de seres extraterrestres radiantes e luminares que tinham invadido a cidade.

Só eu sei que Belo Horizonte ganhou seu mar e quase naufragou na poesia vária que inundou a cidade.

Sorri intimamente e pensei em voltar a dormir. Virei-me de lado e percebi sobre a mesinha de cabeceira que havia restado apenas o último número da Veja, que estampava como manchete de capa o aumento da criminalidade no país.

Pubicado em 21/2/2006

Publicado em 21 de fevereiro de 2006