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B.O. de verão carioca

Giovânia Costa

Hoje entrei para o rol das vítimas de uma cidade violenta. Violência? Não. "Nenhuma".

Às 14h38 viro a esquina, aperto o passo, outra esquina, um ônibus parado. Corridinha e - tola - abro a bolsa, pego a carteira. Dois cartões brilham (agora na memória) e nenhum dinheiro. No compartimento das moedas, dois beija-flores encontram-se esmagadinhos. Sobra da noite anterior, que uma carona generosa me fez economizar, deixando-me em casa. Subo no ônibus. Antes, espero um senhor que chega à minha frente e que, por sua vez, cede a primazia a duas alunas do Pedro II.

Será que sou só eu que, a cada vez que vejo as alunas do Pedro II, as vejo pelos olhos de Nelson Rodrigues, e por isso mesmo, imagino-as desejáveis? As meninas iam na frente e o senhor ia atrás, "para devorá-las com os olhos", foi o que pensei enquanto subia no ônibus.

- Ela vai pagar. Pague aí.

Falou o senhor a alguém atrás de mim.

Nesse momento vi uma horrível boca e um hálito de cachaça que passava entre os dois dentes. Nojo. Da boca ou da fantasia?

Do outro lado da roleta, outra cena. Ônibus vazio, viagem calma, pensamentos em colchões. Chegada tranquila em Copacabana, quase às três. Dentro do horário! Campainha e nada. Um telefonema e me frustro. Horário errado. Uma decepção e Au revoir, mon plazir!

Uma passadinha no banco para pegar algum do salário que chegou ontem. R$ 481,00 - professora do Estado!?!

- CADÊ A CARTEIRA?

Pânico. Nada disso, porque o caso é grave. O cérebro precisa de oxigênio. Respire fundo e pense.

Pego o celular .(Pôxa! E eu que só reclamo dessa chatice. Aproveito a ocasião para perguntar a um dos meus colunistas favoritos e declarar que ele tem 18 e não 17 fãs. -Como eram os roteiros de filmes antes do celular?).

Prioridade 1: ligar para o banco. Que bom que não levaram a agenda.

- Digite os 4 números de sua agência, a conta e sua senha.

Ok. A agência eu sei de cor, a conta não. Com quantos números temos que conviver! Será que existe uma lei que nos obrigue a decorá-los? O jeito é voltar para casa e ligar de lá com alguma fatura na mão.

Chegando em casa, uns 30 minutos depois, comecei a falar com as maquininhas até que uma voz humana me atendeu. Aí o cancelamento foi fácil. Dos dois cartões. Pronto procedimento para o bloqueio. Mas em meia hora, duas compras foram realizadas. Não houve conferência de assinatura e é provável que eu ganhe a contestação e reverta esse prejuízo. Só que a contestação só será possível fazer quando a fatura chegar. Mesmo sabendo o valor da compra e os estabelecimentos. Sou burra ou não tem nenhuma lógica nisso? Quem se beneficia com essa demora? Por favor, me expliquem!

Me pergunto porque com tanta tecnologia as bandeiras de cartões de crédito não colocam a serviço da sociedade um meio de, em se bloqueando o cartão como roubo, na próxima tentativa de compra com aquele número, um discreto alarme ser acionado e o ladrão preso em flagrante. Mas parece que a lei da selva de maquininhas é se proteger, então basta que não se possa mais comprar.

Hora do Boletim de Ocorrência (B.O.). Pela 1ª vez numa delegacia. Perdi o jejum. Anos em São Paulo, anos no Rio de Janeiro, noites em Recife, Vila Velha, Salvador, do lado escuro do pelourinho, não do lado bonito e nunca tinha tido um prejuízo. Mesmo esse agora, não foi lá essas coisas. Deus aperta, mas não enforca. O cara vem dando uma mãozinha esses anos todos. Lamento a carteira que se foi. Era velha, mas até que estava boa. Couro legítimo, comprada lá em Poá (Porto Alegre), noutros tempos. Tempos que meu trabalho me fazia viajar. Agora sou professora. Sei não, mas acho que não vai dar para comprar outra daquelas nunca mais. Mas sonhar é bom. Quem sabe uma daquelas de couro vegetal, bonita, ecológica e caaaara!!!

Mas cá pra nós. Não é uma glória ser assaltada pela 1ª vez em 40 anos e saber que quando abriram a carteira não tinha nem aqueles dois beija-flores? Eles já tinham voado para a mão da trocadora, lá atrás. Dor de cabeça vou ter, mas por enquanto sigo uma velha política que deve ter sido inventada lá nas terras gerais e trazida pra cá em algum dos meus genes: quando for muito sério leve com muito bom humor.

Passei em casa, troquei o vestidinho molhado de chuva por algo menos...uhuhuh... sensual. Afinal, era para ir numa delegacia e meu imaginário é capaz de produzir coisas horríveis.

Delegacia-legal! Assistente - social simpática, inteligente. O estagiário também. Todos ali sorridentes num espaço horrível. Não tem planta, não tem água, não tem telefone público, tem três cadeiras, não tem jornal, tem uma boa charge numa caixa de sugestões e um papelzinho ( ). Sim ou ( ) Não ( ) com algumas perguntas. Fora isso, muito tempo pela frente para observar.

Tarde movimentada. Casal brigando, assalto com refém, câmera de TV, alunos do Pedro II, (será que é um aviso? Repetições, coincidências. Adoro-as. São pedacinhos deliciosos do real, quase um piscar para "Madagascar". Ou será alguma culpa cristã que os uniformes me lançam lembrando da fantasia que passava na minha cabeça enquanto me roubavam). Vai! Distrai, boba!

Mas tem mais lá na salinha. Tem advogadas estranhas que falam de criminalidade no sangue, e no final as "focas" que eu só conhecia de nome, ali na mesa ao lado, com seus gravadores e celulares. Claro! Ops. Isso não é propaganda, mas se quiserem me mandar uns créditos, agradeço.

Criminalidade no sangue. Pode essa? Eu olhei para o outro lado, mas ainda bem que a assistente social não foi tão covarde e rebateu. Não falei que a moça era inteligente? E bonita. Se cuida... Tinha lá uma revistinha da Avon. Cresci o olho. A minha faxineira sumiu e preciso fazer um pedido. O Renew acabou. E eu que achei que não tinha jeito para publicidade, hein? Querendo contar uma história e os merchandisings se impõem. Vai ver que é isso que aconteceu com aquele filme de "Santa" lá do Sul, que tinha uma lojinha de "artesão" da Azaleia, em pleno século XIX. Todo mundo viu, pois éramos estimulados pelos olhos arregalados da protagonista que entende que representar é isso, ou então, porque acha que olho azul é pra mostrar mesmo. Vai ver é inveja minha! Deixa pra lá.

Quem se impôs mesmo lá na delegacia foi um grupo do CORE que chegou. O que é CORE?

Uma voz lá de cima responde: Coordenadoria de Recursos Especiais. De cima de mais ou menos 1,75 de músculos muito bem distribuídos. Olha, se toda polícia fosse assim até que eu podia perder o medo de pedir informação na rua! Recursos especiais. Isso pra mim é dinheiro, mas ali no caso deve ser recursos humanos. Que homem! Será que a tal tara por fuzil que acontece por aí, por aqui e por acolá funciona com os "meninos" e não funciona com os policiais porque a barriga atrapalha? É um caso a se pensar...

Não. Não. Não. Nada disso. Não estou sugerindo nenhuma monografia de psicologia ou assistência social Sobre Fuzis e Sexualidade na Presença e na Ausência de abdômen. Por favor!

A figura que mais me chamou a atenção foi a irmã do assaltante. Sempre no celular e lágrimas no coração, que de vez em quando chegavam ao rosto. Os meninos do Pedro II (não as meninas, àquelas do ônibus), mas os de um assalto de ontem continuavam tentando explicar ao funcionário-policial como tinham reconhecido o assaltante do dia anterior. Enquanto isso seus amigos de escola tentavam acompanhar a minha conversa com o estagiário. 5º período. Acha que política é coisa séria, de gente grande e não de garotinhos. Concordo. Lúcido! Sobe a indignação ao falar sobre a mistura de religião e política.

- Vivemos sob um Estado laico.

Estado laico? Só rindo. Estou lisa. Fui roubada. Tem uma nota aí? Beija-flor, arara, oncinha, garoupa. Essa é difícil. Nem nunca vi. Mas vale qualquer uma. Tem? DEUS SEJA LOUVADO. Emissão de moeda nacional do nosso Estado laico. Sei!

A tarde foi divertida. Sem tédio. Aventura de verão carioca, tarde abafada e temporal. Hora de ir embora. Penso no alagamento lá fora. Um sorriso ao me despedir e uma recomendação ao estagiário.

- Assista ao filme Justiça, da Maria Augusta Ramos. Tchau! É que a experiência de hoje me fez sentir na pele branca que carrego, a voz do filme.

Saio da delegacia um pouco cansada da espera, mas fui bem atendida. Será que os pais dos meus alunos, quando precisarem, sairão de uma delegacia com um sorriso na despedida e com um pedido de Avon para ser entregue depois? Tenho curso superior, olho nos olhos, falo um português (quase) correto e consigo me distrair com meus botões numa delegacia. Menos mal pra mim. Mas vejam o filme. Ela conta tudo. Nossa justiça é de classe.

Penso que enterraram o velho Marx cedo demais.

Pubicado em 14/3/2006

Publicado em 14 de março de 2006