Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Os professores não são bons leitores.

Giovânia Costa

Mito ou realidade?

Ninguém ousaria duvidar da importância da leitura ou da relação dessa com o sucesso ou insucesso escolar. Muitos aproveitam o tema para questionar as diferentes formas de leitura do mundo contemporâneo. Não é esse o nosso interesse e vocês poderão ler mais a esse respeito na seção poucas e boas que preparamos essa semana.

Aqui, queremos "cutucar" os colegas.É consenso a necessidade de os professores de todas as áreas têm de que seus alunos sejam melhores leitores. Analfabeto funcional, hoje em dia, é um conceito frequente na maioria das rodas de professores que aflitos com as dificuldades de grande parte dos alunos em entender até mesmo enunciados simples, veem impossibilitado o processo da aprendizagem formal. A ausência de políticas públicas eficazes para a realização de projetos de leitura é sentida e reclamada. Não que não existam. É que os poucos que temos e os resultados inexpressivos desses contribuem para pensarmos que muito há para se fazer.

Mas qual seria o melhor caminho? Campanhas de incentivo? Se essas não forem acompanhadas de criação de bibliotecas e de melhoria das que já existem muito pouco poderemos andar. E as bibliotecas das escolas? Quantos títulos têm a biblioteca da sua escola? É possível pegar livros emprestados nela? Tem funcionários em todos os turnos? É um local agradável ou os estudantes fogem de lá pela austeridade exigida naquele local?

Falamos muito para os alunos sobre a importância de ler e com certeza gostaríamos que todos fossem leitores eficientes. Sabemos que os jovens mais carentes não vêm de famílias letradas e identificamos isso como um grande problema. E é. Enfim, culpamos o Estado, a família e nos apegamos ao discurso de que a escola não pode tudo. E não pode mesmo. Mas é o mea culpa quem já fez?

Deixando mais claro a nossa provocação: como exigir dos alunos que leiam se encontramos nas salas de aula professores que pouco leem?

Todos afirmam que ler é importante e prazeroso. Que a leitura é capaz de nos conduzir a mundos fantásticos. Mas se é assim, porque os professores não são leitores vorazes? Eles já conhecem essa verdade e são leitores eficientes. Porque leem tão pouco então? Onde está o bom hábito de leitura entre os mestres? Ou será que isso não corresponde à realidade?

Uma pesquisa divulgada no site da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) mostra que entre as atividades relativas às preferências culturais apresentadas aos docentes, destacam-se aquelas ligadas à profissão. A maioria dos professores, 52%, declara que costuma ler materiais de estudo ou formação. Quanto ao tipo de leitura preferido, a opção que obteve maior número de respostas foi pedagogia e educação, com 49,5%, seguida de livros científicos, com 28,3%. Depois aparecem literatura de ficção, com 27,6% e livros de autoajuda, com 23,8%. Quanto à leitura de jornais, um veículo acessível e que traz informação, 23,5% dos professores declararam que leem uma ou duas vezes por semana, 9,5% que leem a cada 15 dias e 3,7% que não leem jornal nunca.

Está lançada a provocação. Queremos saber se é mito ou realidade que os professores não leem. Para isso abrimos um discutindo para você nos contar o que está lendo agora.São conhecidos todos os fatores que dificultam o acesso aos livros e a outros bens culturais, entre os maiores vilões destacaríamos a falta de poder aquisitivo, a falta de tempo e a não oferta de bons programas em várias áreas do país, pois as programações se concentram nos grandes centros e nesses, como no Rio de Janeiro, por exemplo, na Zona Sul.

Mas apesar dos problemas me parece claro que fazer o que eu falo, mas não o que eu faço, não pode ser um bom caminho. Concordam?

Gostaria de fechar com as palavras de Ana Maria Machado, autora de 107 títulos, sendo 97 voltados ao público infantil, e ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infanto-juvenil:

"O bom educador transforma qualquer coisa em material de aula. Ninguém pode dizer que uma semente é, em si, didática. O bom professor pega a semente e ensina a origem da vida. O mesmo vale para o livro. Em si, ele não é didático. O que existe é a possibilidade de criar muitas aulas com base em seu conteúdo, considerando que os grandes temas da humanidade estão presentes nas grandes obras".

Aguardamos a sua contribuição para o Discutindo!

Publicado em 21/03/2006

Publicado em 21 de março de 2006