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Educação Física e Esporte

Francisco Eduardo Caparroz

Boletim Brasileiro de Educação Física

A visão mecanicista que impera nas análises sobre a influência do esporte na educação física escolar, entendendo-a meramente como decorrência das determinações macro estruturais, impede uma reflexão sobre a constituição desta prática social (esporte) como forma cultural construída pelos homens que foi sendo assimilada e valorizada pela sociedade, tornando-se um elemento fundamental da cultura (corporal) e que, por isso, passa a ser apropriada, incorporada pela escola como um conhecimento a ser transmitido.

Não há análises do esporte como produção cultural que permitam extrair daí decorrências possíveis para sua inclusão como conteúdo de um componente curricular. Há apenas análises que revelam o caráter exclusivamente utilitário que levou essa prática social a adentrar o currículo.

Não há também considerações que reflitam sobre a existência ou não de reações aos impactos da introdução do esporte sobre uma educação física desenvolvida fundamentalmente com base na ginástica tradicional, e que havia a presença de atividades mecânicas, estereotipadas, como por exemplo a ginástica calistênica. Há um tratamento superficial dessa questão, não havendo um aprofundamento sobre as razões de o esporte ser introduzido na escola, dos motivos que fizeram com que o Desportivo Generalizado fosse apropriado, de uma verificação em relação a tal método ter sido o indutor de tal inclusão ou sistematizador de uma prática que já se desenvolvia no interior da escola. São questões que não podem ser respondidas sem que se vá às fontes, sem que se operem estudos mais consistentes e aprofundados sobre as formas, as causas e as consequências da referida inclusão.

Influência do esporte

As análises a respeito da influência do esporte sobre a educação física escolar, de modo geral, caracterizam-se por operarem a discussão da incorporação pela escola desta forma de prática corporal, o esporte, com base numa visão mecanicista, em que recorrem à história dessa incorporação basicamente para comprovar uma hipótese que já davam como certa: a da utilização dessa manifestação como forma disseminadora de ideologia dominante.

Assim as análises sobre a inclusão e o desenvolvimento da educação física como componente curricular, ou seja, os estudos da trajetória histórica dessa área no currículo da instituição escolar não gravitam para além do âmbito das macrodeterminações, prevalecendo desta forma a irremediável ideia de dominação e controle social dos conteúdos escolares. E, nesse sentido, entendem que a educação física escolar sobre, ao longo de sua história, influências externas, de determinadas instituições sociais como a militar, a médica e o esporte. A consequência disso é a impossibilidade de se compreenderem os elementos constituidores e conformadores dessa área, pois suas análises redundam na ideia de que a educação física é incorporada pela escola em virtude de ser um instrumento potencial para a manutenção do status quo. Não reconhecem assim a instituição militar e médica como aquelas que praticamente constituíram a gênese da educação física escolar e o esporte como uma manifestação cultural que historicamente conquistou uma determinada importância social e que, por isso, passou a ser incorporado como um elemento dessa área na escola.

A visão mecanicista permeia as análises da produção teórica dos anos de 1980, primeiro porque se detêm única e exclusivamente aos fatores externos, às determinações do currículo pela estrutura econômica, política e social; praticamente não há um debruçar sobre os fatores internos dessa área. Creem que a inclusão e o desenvolvimento da educação física se deu de forma linear e unilateral com base num consenso e, ao procederem dessa forma, eliminam a contradição, pois, tomando-se por base suas afirmações, só resta pensar que a educação física teve que obedecer e seguir cegamente o caminho para ela traçado pela classe dominante.

Entretanto, alguns desses mesmos autores, ainda que se guiando por essa visão, paradoxalmente, trazem à tona elementos que auxiliam na compreensão de que as determinações se deram tanto por fatores externos como internos; que possivelmente existiram contradições entre o discurso, as propostas, leis e as condições objetivas cuja prática da educação física se dava; que ocorreram conflitos de interesses quando das discussões sobre sua implantação na escola; enfim, que mais que por soluções consensuais, a trajetória histórica dessa área é marcada por soluções negociadas.

Produção teórica

A produção teórica dos anos de 1980 parece entender que essas influências externas imprimiram em caráter negativo e pernicioso a esse determinado componente curricular no que tange aos objetivos de uma educação integral e humanizante. Com isto produziram análises que não procuraram descrever e explicar como esta área foi se constituindo, de fato, como um dos componentes do currículo escolar. Dessa forma, o passado da área é visto como algo que mais do que superado precisa ser extirpado, o presente como um momento de transição, de denúncia e o futuro como algo a ser alcançado valendo-se das virtudes levantadas pela produção dos anos de 1980.

Na medida em que esta literatura não adentrou, de fato, a constituição da educação física como componente do currículo da escola brasileira, considerando que a sua incorporação deu-se, basicamente atendendo aos interesses das classes dominantes, a busca de novos caminhos teve que se pautar, necessariamente, na busca de fundamentos externos, que pudessem configurá-la dentro de uma perspectiva 'progressista'.

Isto é, ao negar o passado da área, consubstanciando na incorporação pela instituição escolar de elementos de uma cultura corporal que foi sendo construída pela moderna sociedade industrial, expressos na preocupação com a saúde física por intermédio da ginástica e, posteriormente, do desporto, incorporação esta permeada de conflitos e contradições, a única possibilidade de avanço possível seria a de buscar soluções em novas fontes, que se contrapusessem aos interesses dominantes.

Capítulo retirado do livro Entre a educação física na escola e a educação física da escola, de Francisco Eduardo Caparroz.(2. ed. Campinas: Autores Associados, 2005. p. 136-138).

Publicado em 28 de março de 2006