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Amazônia: Brasil precisa investir mais em pesquisa

Léo Silva

Investir em tecnologia e inovação é vital para explorar racionalmente a floresta

O desenvolvimento de novas formas de produção, que respeitem o meio ambiente e passem a zelar pelo patrimônio natural sem deixar de atender às demandas do mercado, foi defendido pela professora Bertha Becker em sua palestra durante o I Simpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais, realizado no Rio de Janeiro nos dias 11 e 12 de março.

Para a professora, nos próximos 20 anos as oportunidades estarão abertas ao Brasil em função de seu extenso e diversificado território. Becker falou isso com a autoridade de quem se dedica há 40 anos aos estudos geopolíticos da região Amazônica.

Ao discorrer sobre a importância da inovação tecnológica no desenvolvimento regional, ela aproveitou para comentar a proposta do embaixador Rubens Ricupero, citada na véspera pelo professor Carlos Nobre (Inpe), do Brasil tornar-se uma potência ambiental. Becker implicou com o termo "potência" e declarou preferir uma outra visão de país:

- Seria muito mais interessante o Brasil tornar-se um país tropical - abençoado por Deus, bonito por natureza - desenvolvido, utilizando as fantásticas ofertas de seu território, que estão aí à disposição. Mas para isso, os cientistas têm que colaborar, encontrando novas formas de produção, mesmo. Não adianta. Tem que inovar e deixar de ser um país só exportador de matéria-prima bruta, como está sendo no momento, por que isso não traz o que mais queremos, que é o desenvolvimento da sociedade.

Segundo a professora, a adoção dessa alternativa implicará a superação de um falso dilema que atrapalha muito as ações para o desenvolvimento da região. Essa dicotomia opõe a conservação ao uso dos recursos naturais. Ainda este ano ela deve lançar o livro Inventando um futuro para a Amazônia no qual defenderá a importância dos investimentos em ciência e tecnologia voltados ao desenvolvimento da região.

Políticas continentais

Bertha Becker afirmou ainda que a globalização tornou obrigatória a adoção de uma escala continental, o que significa que não se pode mais pensar apenas na Amazônia brasileira, mas que as discussões sobre o desenvolvimento da região devem envolver todos os países da bacia. Como exemplo, citou a construção da estrada transoceânica, que pretende ligar o Centro-oeste do Brasil ao Pacífico, passando pelo Peru, e dois projetos que pretendem levantar os recursos hídricos dos rios amazônicos.

- A escala mudou. Então, a gestão de todo esse imenso potencial que é a Amazônia continental é de grande importância em nível global para o desenvolvimento nacional dos diferentes países amazônicos e, sobretudo, para as populações regionais. Então não posso pensar e ver, do ponto de vista de minha ciência - a geopolítica -, vários interesses ligados ao problema da Amazônia.

Continuando seu raciocínio, ela identificou os atores em três níveis de conflito. O primeiro, global, está interessado na saúde do planeta, sem dúvida, embora também haja interesses econômicos. No nível seguinte estão os Estados Nacionais preocupados com seu desenvolvimento. Por fim -  e mais importante -, há os 20 milhões de habitantes da região que demandam melhores condições de vida e maior inserção social.

Ela notou que os brasileiros, por terem a maior parte da Amazônia, têm que considerar os três níveis de conflito na formulação de suas políticas.

Três momentos da ocupação

Durante sua exposição, Becker aproveitou para fazer uma revisão do processo de ocupação da região nos últimos 40 anos. Ela dividiu-o em três fases.

Na primeira, associada aos regimes militares, estava a política de integração nacional entre 1967 e 1985. Se por um lado sua adoção gerou grandes conflitos sociais e ambientais - desmatamento, desterritorialização de populações -, por outro dotou a região de recursos importantes como telecomunicações, estradas, indústrias e urbanização, o que a transformou em uma "floresta urbanizada". Hoje, 70% da população da Amazônia brasileira vive em núcleos urbanos.

Ela observou que o que ficou de mais importante nesse processo foi a conscientização e a organização da sociedade civil, o que não tinha sido visto antes. Como exemplo, citou os grupos indígenas, que têm organizações poderosas na região.

Na fase seguinte, que começou com a abertura política, em 1985, e foi até o início deste século, a ênfase foi na preservação. A política ambiental criou áreas de conservação que cobrem cerca de 35% da região, o que trouxe benefícios claros para o clima e a biodiversidade.

Todavia, não foram previstos recursos para o desenvolvimento regional, tornando-o insuficiente. Não gerou trabalho e renda para atender os anseios da população amazônica, que estava muito mais consciente e que tem grandes demandas de inclusão social e melhores condições de vida. Com isso, a política tornou-se incapaz de barrar a expansão da fronteira móvel.

Essa pressão está na origem do momento atual, caracterizado pela expansão da soja e da pecuária de corte. Becker chamou a atenção para o fato desse processo não ser apenas um problema específico da Amazônia, como geralmente se pensa, mas a resultante de uma pressão da economia global.

- Esse ímpeto, essa retomada da fronteira móvel, derrubando a floresta por meio das madeireiras, do gado e da soja, revela um conflito gestado em nível global que expressa um confronto entre dois tipos de mercado. Um mercado das proteínas, que valorizou extraordinariamente a soja e a carne, que transformou o Brasil em maior exportador de carne hoje, e um outro mercado que se tenta organizar, dos bens naturais, que é o da biodiversidade e o da água.

Como exemplo dessa relação, ela citou a expansão da soja que é controlada por meia dúzia de grandes corporações transnacionais.

Políticas de desenvolvimento

A professora deixou claro que a participação no mercado da soja é importante para o Brasil, mas ressaltou que isto não significa que se deva dizimar indiscriminadamente a floresta para transformá-la em uma imensa plantação ou pasto para alimentar os rebanhos suínos da Europa. A força do mercado não deve justificar a submissão rápida e irrefletida a seus ditames. A inserção na economia mundial necessita da contemplação de outras oportunidades e conceitos abertos por um desenvolvimento que leve em conta as demandas das populações locais. Em algumas áreas, a soja pode ser a solução mais adequada; em outras, pode se explorar a biodiversidade para a nutricêutica e a produção de remédios.

Durante sua apresentação, Becker manifestou a preocupação de que as discussões sobre preservação ambiental sirvam de base para o surgimento de um novo malthusianismo.

- A questão da preservação da natureza pode representar uma tentação enorme de retornar a Malthus. Todo mundo sabe que Malthus disse que a produção do planeta cresce em ritmo aritmético e que a população em ritmo geométrico. Portanto, haverá um momento em que o planeta não vai mais conter a população do mundo. Essa ideia é recorrente. Ela apareceu também na ideologia do espaço vital para justificar a guerra. Se o Estado cresce, ele precisa de mais espaço. Se não se pode ter mais espaço, inverte-se a equação. Essa ideologia foi muito desenvolvida nos anos da geopolítica alemã.

A professora Bertha Becker observou que estudos demográficos posteriores desmentiram essas afirmações. O que se observou foi que o desenvolvimento fez a população declinar, pois os custos de criação dos filhos contribuíram para reduzir o tamanho das famílias.

Leia mais

  • Amazônia: clima,...
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Publicado em 27 de março de 2007.

Publicado em 27 de março de 2007