Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

O que os estudantes pensam das escolas?

Mariana Cruz

Dias desses li uma pesquisa divulgada pela Agência do Estado alertando para o fato de que a maioria dos estudantes do ensino médio dos Estados Unidos se aborrece em sala de aula. O estudo - realizado pela Universidade de Indiana em 26 estados do país - contemplou 81 mil alunos. Constatou-se também que mais de 20% deles já cogitaram abandonar a escola e outros tantos acham que os professores não se importam com eles.

Assim são os alunos norte-americanos. Não sei bem como são as escolas por lá, mas aproveitei o mote, importei e estendi a enquete para os solos tupiniquins: resolvi perguntar aos alunos daqui não apenas sobre o que os aborrece, como também o que os agrada. Para que só se preocupar com as amarguras?

O fato de ser professora do ensino médio da rede pública e privada já era meio caminho andado para meu projeto de pesquisa, afinal, tinha acesso direto ao público-alvo. A outra metade do trecho foi mais mole ainda: nos últimos 10 minutos de aula pedi a algumas de minhas turmas que fizessem um textinho pequeno sobre as coisas chatas e legais da escola.

Findos os textos, iniciei a leitura na certeza de que encontraria uma lista de reclamações sobre o conteúdo de todas as matérias. Extensos relatos sobre as dificuldades mentais causadas pela física; críticas às insolúveis soluções químicas; insultos ao indesejável presente do futuro do pretérito; ofensas às famigeradas equações de qualquer número, gênero e grau da matemática; afirmações de que a teoria evolucionista nunca deveria ter nascido, questionamentos sobre a utilidade das aulas de filosofia (sempre querem saber "pra que serve" a exótica disciplina), neste mundo onde tudo sempre tem que $$$ervir para alguma coisa. 

Mas, felizmente, enganei-me a respeito do massacre que sofreriam as disciplinas. Quase todas foram poupadas, exceto uns parcos alunos que consideraram perda de tempo aprender certas matérias e afirmaram que a coisa mais legal na escola é "zoar" com os amigos (zoar: neologismo adolescente que significa "fazer bagunça").

Na rede pública, no turno da manhã, dou aula para cerca de 150 alunos do 1º ano do ensino médio, e à noite pego uma turma do segundo ano formada por jovens e adultos. Já na rede particular, minhas aulas são dadas para o terceiro ano. Nesta jornada deparo-me com diferentes universos, como os de classe social, que separam os alunos da escola pública  da  particular; os da diferença de idade e perspectiva, que separam os alunos do turno da noite, da tarde e da manhã.  Os primeiros já trabalham, muitos já têm filhos, são de uma faixa etária mais avançada e não estão na escola para "zoar". Querem o diploma e ponto. A faculdade é um sonho distante. Para os alunos da manhã, tanto do estado quanto do ensino privado, este sonho está bem mais próximo.

Do ensino particular...

A escola particular onde leciono apresenta um perfil mais liberal do que a maioria. O uso do uniforme não é obrigatório, os alunos têm (quase) livre acesso à diretoria, não existem penalidades para atrasos, os adolescentes podem sair das salas durante as aulas (eles é que são responsáveis pelos seus atos), não existe um inspetor encarregado de manter a ordem. Deste modo, aquele que abusa da liberdade -  ausentando-se de diversas aulas ou chegando frequentemente atrasado - terá que arcar com as consequências ao final do bimestre se, porventura, tirar uma nota que o desagrade. Liberdade com responsabilidade, ao contrário do que muitos pensam, não é para qualquer um.

As salas de aula são amplas e não chegam a comportar vinte alunos. São limpas e frescas, mas sempre há a tradicional competição pelo lugar mais ventilado (tal disputa, porém, dá-se mais por diversão do que por necessidade). Os banheiros são impecavelmente limpos e a água nos bebedouros é geladinha.

...ao público

No turno da manhã da escola estadual, logo na hora da entrada, tenho os ouvidos massacrados pelo incansável apitinho dos dois inspetores de turno que, heroicamente, tentam conduzir o rebanho de dezenas, centenas, milhares de alunos às salas de aula. Os corredores abarrotados de estudantes, por vezes, me fazem lembrar os shows de rock de minha adolescência.

Após dez minutos de gritos, apitos, alunos para todos os cantos, sobe-e-desce de escadas, alcanço, enfim, a porta da sala. Um bafo quente me recepciona logo na entrada. Os dois ventiladores não são suficientes para cessar o calor dos mais de quarenta agitados alunos que estão à minha espera. À medida que entro no recinto, novos problemas se apresentam: paredes pichadas, carteiras quebradas, conversas paralelas, professores nas outras salas esgoelando-se...

Descrevendo assim, parece um caos... E é. Mas se o filósofo pré-socrático Heráclito fosse vivo e lecionasse nesta escola, talvez enxergasse a ordem que existe naquela bagunça toda. O caos só existe por causa da ordem e vice-versa. Um se transforma no outro, pois, segundo o pensador, tudo sempre muda o tempo todo. E não é que o mesmo acontece com as aulas? Às vezes entro em sala e está aquela berraria, os alunos de pé ou sentados na mesa do professor, escutando i-pod nas alturas. Céus! Mas a aula tem que começar e começa no meio da baderna. Vai, vai, vai, até que, sem que se sinta, minha voz destaca-se das outras e ecoa absoluta pela sala. Os alunos estão quietos e seus olhos fixos. Mas a voz solitária, depois de um tempo, quer escutar a deles e faz perguntas, lança provocações, pede para que leiam alto, questionem, critiquem. Aí um fala algo, o outro contesta, um terceiro não entende e pronto, como uma mágica: da bagunça gerou-se a ordem e desta, a reflexão. Tem dias, porém, que a sentença de Heráclito não funciona e da bagunça gera-se mais bagunça e nada do contrário surge. Tudo pode acontecer, cada dia é novo, o esforço é grande e - quando a aula fica redonda - a gratificação é dobrada.

No turno da noite a escola se modifica: a primeira vez que cheguei lá, achei que haviam cancelado as aulas e tinham esquecido de me avisar. O colégio fica desértico, parece um casarão fantasma, só um andar funciona, os outros andares descansam na mais profunda escuridão. As dezenas de turmas cheias, a gritaria dos corredores, as risadas, batuques e apitos do turno da manhã desaparecem, a multidão se reduz a quatro ou cinco salinhas, com, no máximo, 30 alunos cada. O silêncio é senhor. Parece uma outra escola no mesmo cenário. Os alunos bem menos agitados, cansados depois de um longo dia de trabalho. A rua está mais deserta e o bairro, mais perigoso. Mas lá estão eles, uns jovens outros nem tanto, chegando aos poucos, sentando em suas carteiras, prontos para a segunda jornada de trabalho do dia.

Descritos os universos da pesquisa, vamos aos depoimentos das fontes.

Liberdade: heroína e vilã

Os textos dos meninos do colégio particular enfocaram em grande parte o relacionamento com os outros alunos, a proximidade deles com os professores e a liberdade que têm dentro da escola. A média de idade deles varia entre 16 e 17 anos. Nicholas diz que gosta da escola na medida em que é nela que se aprende a interagir com os outros; pensa, porém, que poderia haver uma grade mais interessante, pois há muitas coisas inúteis ensinadas que os fazem perder tempo. Só não falou que coisas inúteis são estas. João Paulo faz uma comparação da sua escola atual com a anterior e diz que no antigo colégio era muito humilhado por ser desastrado, atrapalhado e, principalmente, ser uma pessoa gorda. Na atual escola o que o incomoda é a falta de atitude severa da diretoria em relação a certos assuntos.

Na opinião de Carolina, sua escola lhe dá liberdade de se desenvolver sozinha. Neste ponto, segundo a adolescente,  assemelha-se a uma universidade, pois só depende do próprio aluno correr atrás dos estudos. A menina, contudo, não deixa de apontar o outro lado da moeda ao observar que certos colegas não sabem fazer bom uso de tal liberdade. Nesses casos, a escola poderia ter mais pulso firme em relação aos alunos que ficam zoneando na sala.

Anna Carolina diz que nesta escola todos são considerados iguais, sem levar em conta o nível social. Além disso, elogia o fato de não haver inspetores para vigiar, pois uma vez livre ela tem mais prazer de ir à aula. Rafael critica seu antigo colégio pela rigidez. Os alunos de lá não tinham direito a nada, nem de escolher suas próprias roupas, pois o colégio só aceitava alunos uniformizados. A liberdade da vestimenta e das regras também é elogiada por Larissa e Ana Clara, mas não é um consenso: Natalia considera os professores amigos dos alunos e, apesar de gostar muito da liberdade que lhe é dada, acha que por vezes ela muito alta.

Jonatas queria que as salas fossem equipadas com ar-condicionado e recrimina a postura de alguns colegas fofoqueiros. Tainá acha que na turma tem muita panelinha. As coisas que a agradam no colégio são as aulas, os professores e a direção com quem sempre contou para resolver seus problemas ou dúvidas a respeito de tudo.

Os concretos problemas do ensino público

Na rede pública as reclamações são mais estruturais - literalmente - pois a maioria delas diz respeito ao espaço físico do colégio. No turno da manhã dou aula para o primeiro ano, e os alunos têm entre 15 e 16 anos em sua maioria, e à noite, a idade dos alunos do segundo ano vai de 16, 17 a mais de 30 anos (esta faixa etária, porém, é minoria).

As turmas têm, normalmente, mais de 40 alunos. Assim como todos os colégios estaduais, o uso do uniforme é obrigatório. No turno da manhã, Jéssica reclama do banheiro sujo, da água quente do bebedouro, da superlotação de alunos na hora do recreio, da bagunça no corredor na hora da aula e do trote - veremos que tal queixa é recorrente.; em compensação, elogia a simpatia dos professores. Daiane, Marcelle e Rachel concordam quanto à sujeira do banheiro: tem um cheiro muito forte de urina, diz a última. Edward critica as salas pichadas, e muitos concordam com ele como Joana, Paulo Ricardo, Clebson, Tuane, Rafael, Felipe e Felippe. Este último reprova os alunos escrevendo na parede deixando tudo sujo, e Winni completa: me aborrece a escola toda pichada. Tudo bem que são os alunos que picham, mas eu acho que todo mundo tem que cuidar do ambiente que vai estudar.

Felippe não gosta de ficar dentro de sala devido ao calor. Daiane considera as salas pequenas e quentes. Marcelle tenta ver o lado bom das salas lotadas. Para ela isso significa que, apesar do desconforto, muitos alunos vêm para escola para ter um futuro melhor.

A falta de ventiladores também é bastante citada entre as coisas que aborrecem na escola. Rafael ainda acrescenta um problema decorrente deste: a sede provocada pela falta de ventilação, e o pior é que quando vai mata-la, a água é quente. Vários alunos reclamam da alta temperatura da água.

Clebson incomoda-se com os trotes que os garotos mais velhos dão nos moleques do primeiro ano. Para Débora, o trote é uma experiência muito difícil. Ewerton não gostou de ter levado trote e ter ido todo colorido para casa.  Valéria considera esse negócio de dar trote uma palhaçada. É gente que não tem o que fazer e fica pintando a cara dos outros, completa. Thiago acusa os alunos das séries mais adiantadas de fazerem discriminação com as idades e alturas das pessoas. Só porque os outros são mais velhos pensam que podem mandar nos outros, querem botar medo, reclama.

Tais opiniões relacionadas a trotes, pichações, limpeza do banheiro, falta de ventilação, água quente dos bebedouros estão presentes em grande parte das redações. Mas como gosto é algo bastante particular, nos textos ficam expostas também as especificidades que cada um observa na escola.

Bianca não gosta das brincadeiras de mau gosto que são feitas na escola, como colocar apelidos, pois por causa disso ela já viu muitas pessoas chorando; Deyvison recrimina os grupos que só andam com roupas caras e de marca e que outra pessoa que não tem condições financeiras para comprar as roupas de marca não pode andar no meio deles. Débora ficou feliz por perceber que na escola não há nenhum tipo de preconceito. A vaidosa Mariana sente falta de espelho na banheiro. Marcelle aponta a falta de manutenção das quadras e o abandono dos vestiários que podem servir de abrigo aos bandidos. Vivielle fica aborrecida quando os professores são ignorantes com os alunos, pois sendo assim, só nos dá o direito de sermos também ignorantes, mas gosta muito quando o professor é educado e bem-humorado, é interessante quando os professores entram na sala descontraídos, brincando com a galera e fazendo os alunos rirem. E conclui: penso que mesmo que a disciplina seja chata, se o educador for legal deixará também a disciplina melhor e conseguirá fazer o aluno prestar mais atenção...pois se aprende brincando, mas brincando não se aprende.

O democrático Wanderson gosta das garotas do colégio, diz que tem de todos os jeitos: feias, bonitas, gostosas, chatas, legais. Álvaro Vinícius também é fã da mulherada, mas vai além dizendo que uma das maiores qualidades do colégio é a quantidade de garota bonita, o tamanho do colégio e a comida da cozinheira. Meu Deus! É muito gostosa! Ingrid dá sugestões para acabar com o abarrotamento dos corredores e do pátio na hora do recreio: o intervalo teria que ser organizado por turmas, primeiro o 1º ano, depois o 2º e depois o 3º. Rhaysa elogia a força de vontade dos inspetores que tentam organizar a escola. Já Wilver discorda de sua colega, acha os inspetores muito chatos e cheios de marra. Renan reclama da falta de autoridade dos professores, diz que em alguns momentos acha que eles deveriam ser mais chatos. Reclama também da falta de modernização, pois são dados os mesmos tipos de aula de anos atrás (...) hoje temos muita informação e equipamentos que deixariam as aulas mais interessantes, como um DVD ou um computador. Diz que a zoação dos alunos é muito legal, nas horas certas, acha que deveria haver curso para professores, para que não haja despreparo, e constata que a escola precisa de manutenção, pois parece mais um prédio abandonado.

Wange não gosta quando um professor dá esporro sem motivo. Pâmela fica incomodada quando as aulas de filosofia e religião abordam questões religiosas, pois isso faz com que fique confusa. Gabriele pensa que o jeito de dar aula de alguns professores poderia ser mais produtivo para que desse mais vontade de aprender, as aulas são chatas e sonolentas. Marcelle discorda: segundo ela, os professores fazem o máximo para que os alunos aprendam. Jéssica, do turno da noite, não gosta de ter que chegar de um dia exaustivo e ver a poluição visual das salas de aula; Francisco, também do período noturno, nota que há falta de claridade no pátio e na frente da escola. Vitor não gosta do jeito que o estado e o governo tratam a escola. Para ele, é como se fosse botar um filho no mundo e não assumir, esquecer que existe. Há escolas que não são tratadas como de deve e, por isso, há professores que não dão aula porque não recebem dinheiro, daí fazem greve e os alunos não têm aulas e não aprendem o suficiente para ter um futuro melhor. E por outro lado, o que o agrada é ver o desempenho do professor, mesmo não tendo verba, a disposição dele em passar da melhor forma possível o conhecimento para o seu aluno, e gosta de ver o aluno dando o melhor de si para reter o aprendizado.

Conclusão

Tais opiniões, exíguas amostras do gigantesco universo dos estudantes de ensino médio de nosso país, talvez não reflitam a realidade, nem das escolas particulares, pois como havia dito anteriormente, a escola pesquisada destoa da maioria das outras pelo caráter mais liberal, nem das escolas estaduais, pois nem todas devem ter as paredes pichadas e os ventiladores quebrados. De qualquer maneira, tais depoimentos podem servir como ponto inicial para uma reflexão a respeito do pensamento dos alunos sobre o ensino. E se somássemos a isso as opiniões dos professores, diretores e funcionários? O ponto em comum entre todas essas forças poderia servir de leme na busca de uma escola melhor.

Publicado em 27 de março de 2007

Publicado em 27 de março de 2007