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Uma maravilhosa forma de ensinar

Guilherme Sarmiento

Lanterna mágica e as origens da pedagogia audiovisual

Quando abrimos um jornal e vemos alguém defendendo o uso de tecnologia no ensino como a grande panaceia, o toque de midas proporcionado pela nossa época, nem podemos imaginar que este conceito encontra suas raízes bem antes da invenção do vídeo, do computador, e de todas as mídias que tornaram as aulas atuais acessíveis e prazerosas através da imagem. Nem lembramos de experiências como a de uma obscura associação de ilustres brasileiros que, no distante século XIX, utilizava projetores óticos em salas de aula: o Clube Politécnico.

Certo é que os desenhos, as figuras, sempre foram recomendados desde a Antiguidade como elemento de apoio à memória. Na Idade Média, Santo Tomás de Aquino iria ampliar sua utilização, dizendo que as ilustrações eram de grande valor para disseminar a palavra de Deus entre os analfabetos. Imagens sacras realçariam com traços e cores a mensagem escrita no livro sagrado, a Bíblia, dando mais “vida” ao evangelho.

Com o avanço do “espírito científico”, as questões relativas à divulgação do pensamento tornaram-se urgentes. No final do século XVII, novas formas de pedagogia foram sistematicamente promovidas, especialmente após o surgimento da lanterna mágica (1645), um antigo projetor de imagens cuja invenção divide-se entre o astrônomo e matemático holandês Christiaan Huygens e o jesuíta belga Athanasius Kircher. O invento consistia em uma caixa de madeira ou folha de flandres munida de um conjunto de lentes e um sistema interno que unia luz de velas e espelhos. Através deste mecanismo simples, imagens feitas em vidros eram ampliadas e projetadas sob uma tela branca, como os slides dos dias de hoje.

A utilização das invenções óticas como artefato de ensino desenvolveu-se dentro de um ambiente híbrido e complexo de popularização da ciência e seus produtos, sendo inaugurada pelo sábio alemão Johannes Zahn (1641-1707) por volta de 1685. Zahn manipulava a lanterna mágica para exibir animais vivos, que colocava entre duas placas de vidro atravessada por forte fonte luminosa, e que levava silhuetas tanto mais nítidas quanto maior a transparência dos corpos dos insetos, vermes e cobras projetados.

A prática chegaria até o século XIX empurrada pela nova onda de crédito na ciência e na tecnologia dada pelo positivismo. Na França, veremos a iniciativa do abade Moigno que, em 1852, abre no Boulevard des Italiens, em meio a teatros e atrações populares, seus cursos científicos. O ensino do Cosmos, segundo ele, dar-se-ia mediante uma série de “experiências brilhantes e grandiosas”, que reproduziriam “os fenômenos em todo os seu esplendor e arrebatamento à imaginação”. No Brasil, os fluidos dessa ideologia viscosa e combustível far-se-iam sentir em todas as instâncias do pensamento, e o papel dos cientistas bissextos em sua progressão não deve ser menosprezado. Sua expressão mais consagrada pode ser conferida através das ambições didáticas do Clube Politécnico.

Sabe-se que os trabalhos do clube iniciaram-se em 1872, atravessando toda a década de 70, sendo a última notícia que temos sobre um evento datado de 1878. Sua atuação contava com a proteção do Imperador D. Pedro II, e em suas atas de fundação constam nomes como o do Conde d’Eu, presidente honorário do clube, e do escritor Alfredo d’Escragnolle Taunay. As reuniões ocorriam na sede, um sobrado da rua da Constituição, 47, onde, além das aulas recreativas, promovia-se saraus dançantes para a sociedade esclarecida da época.

Segundo a crença dos membros do Clube Politécnico, o Brasil só chegaria à tão almejada “civilidade” quando o ensino das leis da gravidade, do calor, da luz, do magnetismo, da eletricidade e da cosmografia chegasse até o público leigo, ao invés de ser um privilégio de poucos iniciados. Mas não era só isso: para que um maior número de pessoas entendesse as matérias, os professores deveriam lançar mão de “efeitos”, de experimentações, que atraíssem a atenção da plateia. Conforme declarado pelo secretário, Pedro de Alcântara Lisboa, no jornal Sentinela da Instrução, de 22 de janeiro de 1876,

para propagar o ensino das ciências que prestam tão valioso auxílio às indústrias, não basta o conhecimento delas, a lucidez do estilo do professor, a clareza de suas demonstrações; são indispensáveis modelos, pequenos aparelhos funcionando, instrumentos para facilitar o ensino, experiências deslumbrantes para arrebatar a imaginação, maravilhar a inteligência. Ainda assim, todos esses instrumentos tão eficazes para a propagação das ciências mecânicas, física, química etc, não são suficientes. No intuito de satisfazer as justas exigências do público, cumpre que esse ramo de instrução lhe seja apresentado de modo ao mesmo tempo proveitoso e recreativo. Para que uma revolução científica possa se propagar em uma nação nova, não basta formular as leis e as teorias das ciências. É necessário que a população esteja preparada para as receber.

Com uma sede própria e uma programação regular, o clube passou a atrair a presença de figuras importantes da sociedade carioca, todo um espectro de homens curiosos por ciências, que encontravam naquele espaço um lugar aprazível, esclarecido, progressista, conforme o exigido pelos espíritos positivos do tempo. O prestígio a que chegou as sessões politécnicas durante o ano de 1877 tem seu maior exemplo na presença do engenheiro formado pela Escola Central das Artes e Manufaturas de Paris, Eduardo Laplane, que colaborou com o conde Lesseps na construção do canal de Suez, em uma palestra promovida pela associação, em 20 de agosto de 1877. Laplane deve ter aprovado a perícia pedagógica dos brasileiros. No início de setembro,  voltaria lá, mas agora como palestrante. Fez uma exposição sobre a cidade do Cairo. Apesar de muito agradar os presentes, maior admiração ficou guardada para a segunda parte da sessão, pois nela se aplicou o método de auxiliar pela ótica o ensino das ciências realizadas pelos sócios do Clube Politécnico.

O formato das palestras seguia mais ou menos a mesma configuração da realizada na presença de Laplane. Eram feitas, geralmente, por Saturnino Ferreira da Veiga e Theóphilo das Neves Leão. O primeiro manipulava a lanterna mágica, enquanto o segundo efetuava as explicações diante das imagens luminosas.

Em 14 de novembro de 1877, os dois iriam novamente realizar suas aulas recreativas diante do Imperador Dom Pedro II. Mais uma vez o Dr. Teophilo das Neves Leão faria suas preleções de cosmografia, compreendendo alguns conhecimentos da alta astronomia: a determinação do raio da terra, a distância deste planeta do sol, a comparação de suas massas respectivas.  Ainda com o auxílio de um aparelho, evidenciaria que a terra, pelo movimento de translação e pela inclinação de seu eixo sobre o plano de órbita, estava sujeita às variações de temperatura que constituem as várias estações. Ao final, na segunda parte, novamente auxiliado pelo Sr. Saturnino Ferreira da Veiga, exibiu nítidas e interessantes projeções, entre as quais, a composição das cores do espectro, a cascata do Niágara, algumas vistas do Vaticano, os mais célebres vulcões, o retrato de Morse, e outras figuras coloridas e luminosas. Os cursos dados pelos membros do Clube, entretanto, não se confinavam ao prédio localizado na rua da Constituição. Tem-se notícia de uma conferência dada por Theóphilo das Neves, no dia 19 de agosto de 1877, na escola pública da Glória, a convite do Sr. Conselheiro Pereira da Silva.

 Ao que parece, tanta atividade e prestígio não foram capazes de manter a autossuficiência do projeto. Sozinhos, os sócios não conseguiam manter todo o aparato para movimentar suas pretensões pedagógicas, o que os obrigou, desde o início de sua fundação, a buscar parcerias com grêmios e associações afins. Os primeiros sinais de falência surgiram em dezembro de 1877, quando os membros da associação divulgaram na imprensa um leilão no qual se liquidaria a mobília de mogno medalhão e dunquerques de seus interiores, o piano Pleyel, dois grandes ricos espelhos ovais em vidro francês, cortinas, toilletes, bronzes, instrumentos de física e química, tapetes franceses de Gobelin para sofá, mobílias austríacas diversas, e o grande e magnífico salão em forma de chalet, coberto por ferros de armar e desarmar, com uma claraboia de vidro, onde os esclarecidos membros do clube realizavam suas pesquisas físico-químicas. Há mais de um ano a iniciativa vinha se arrastando com seus poucos mantenedores. Os últimos saraus musicais realizados antes do leilão dos bens, apesar de animados, atraíram um diminuto número de pagantes.

Assim, no final da década de 1870, logo após o anúncio da liquidação de alguns itens do patrimônio do clube, passou a funcionar na parte superior do sobrado da Rua da Constituição o primeiro Clube de Xadrez do Rio de Janeiro, sob a direção do Visconde de Pirapetinga, pai do exímio enxadrista brasileiro Caldas Vianna. Dentre os que não perdiam uma oportunidade de praticar ali o esporte encontrava-se Machado de Assis. Certamente, o escritor estava informado sobre as atividades do Clube Politécnico, ou até mesmo tomou parte de um de seus saraus, como bem demonstra em uma crônica publicada em A Semana, em 11 de agosto de 1878. Enumerando as muitas atividades que ocorriam na cidade, disse que

A patinação (...) começa a adicionar alguns hors-d'oeuvre, como a ondina, moça que respira debaixo d'água. Não gosto de ver esta ondina enrodilhada com a patinação; cheira-me aos saraus dançantes do Clube Politécnico –  duas coisas bem pouco conciliáveis. Bem sei que é um tempero, a ondina; e, a dar crédito ao retrato que anda aí exposto na Rua do Ouvidor, um tempero de algum sabor, mas, enfim, é um tempero. Voltemos às comidas simples.

Na curta manifestação do escritor, enigmática por seu contexto fugidio, nota-se uma pontada de desaprovação pelas atividades híbridas, que não se contentavam com sua especificidade, unindo-se sempre aos acessórios para atrair os mais diversos gostos. Os rings de patinação precisavam de ondinas; o Clube Politécnico, de “saraus”,  o que, na visão de Machado, produzia certas aberrações circenses, pouco apreciáveis aos que cultivavam um olhar sem arestas. Isso era notado também por outros escritores e intelectuais contemporâneos ao autor de D. Casmurro, para os quais os dilemas envolvidos na relação arte e indústria, ciência e diversão, ainda estavam longe de serem equacionados de forma razoável. Hoje, através de uma ótica totalmente engajada na disseminação de uma infocultura e uma infoeducação, as palavras do escritor carioca soam longínquas e sua ironia atravessa o tempo desbotada pela inocência dos dias futuros, onde tais limites, aparentemente, perderiam a razão de ser.

Bibliografia Básica

MANONNI, Laurent. A grande arte da luz e da sombra. – arqueologia do cinema.. São Paulo: Senac/Unesp, 2003

PECHMAN, Robert  Moses. Cidades extremamente vigiadas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos –  a fotografia e as exposições na era do espetáculo(1839-1889). Rio de Janeiro: Rocco/Funarte, 1995.

Revistas

SARMIENTO, Guilherme. O fascinante espetáculo da luz e da sombra. Revista Nossa História. n. 8, junho/2004.

Periódicos

O sentinela da instrução, 1876.

Jornal do Comércio,  1877

Publicado em 10 de abril de 2007

Publicado em 10 de abril de 2007