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Prudência, ação e virtude

Mariana Cruz

Ética a Aristóteles

O ditado Antiguidade é posto, em muitos casos, traduz a mais pura verdade. Principalmente quando o assunto é filosofia. Muito do que se escreve hoje sobre o tema tem nos gregos antigos a principal inspiração.

Assim, não é nenhum assombro considerar que um dos mais importantes livros sobre ética, Ética a Nicômaco, tenha sido escrito quatro séculos antes de nossa Era por um dos mais importantes pensadores de todos os tempos, o mais ilustre discípulo de Platão, Aristóteles.

A péssima vida do boa-vida

Na filosofia antiga há uma conexão intrínseca entre justiça e boa vida. Antes, porém, de nos debruçarmos sobre ética aristotélica, alguns esclarecimentos vocabulares talvez sejam necessários para que o filósofo nascido em Estagira não corra o risco de ser mal interpretado.

O sentido pejorativo que o termo "boa vida" tomou nos dias de hoje, quando tal expressão é utilizada para nos referirmos àqueles que só pensam em gastar, comer, beber e dormir, está bem distante da concepção aristotélica.

Instinto, sensibilidade e inteligência

Na Ética a Nicômaco, o filósofo irá nos mostrar que para se alcançar a boa vida devemos levar em conta nosso instinto, sensibilidade e inteligência e, através da conjunção destes três elementos, cultivarmos nossa parte melhor.

No livro X da Ética a Nicômaco, Aristóteles coloca-nos próximos dos deuses na medida em que somos possuidores de uma centelha divina, que é a inteligência, de onde se desprendem duas energias: a sabedoria (sophia), que rege a ciência; e a prudência (phrónesis), que rege a ética. A sabedoria corresponde à metafísica, que é a ciência absoluta, o estudo das essências, o conhecimento da estrutura radical de um ser. Tal núcleo radical é eterno, imutável, absoluto. E a ética é uma ciência prática.

Mas não podemos esquecer que além da racionalidade e da inteligência, o homem tem seu lado animal, sendo assim, também sente dor e prazer. O ser humano pode ser definido como uma síntese de três elementos: o biológico, o racional e o divino. O papel da ética consiste em harmonizá-los.

Para Aristóteles, o homem é biologicamente ético, mas o fato de nascermos éticos não significa que seremos éticos necessariamente. Somos racionais, assim tudo irá depender das nossas escolhas, estas são sempre para o mal ou para o bem. Ser ético não é executar atos isolados, e sim realizar um conjunto de ações em diferentes momentos e situações que sejam considerados atos éticos, e isto ocorrerá se agirmos de acordo com a reta razão.

Nem tanto ao céu, nem tanto a terra... 

A prudência (phrónesis) rege a temperança que é aquilo que irá reger nossos instintos. É a prudência que determina o bom exercício da temperança. O sábio nas decisões éticas é aquele capaz de encontrar o meio termo (ne quid nimis: nada em excesso). O homem prudente é o que faz escolhas equilibradas, que tem uma conduta intermediária entre dois extremos.  Um ato bom é aquele que ajuda a alcançar uma finalidade. Escolhas más são as escolhas que fazemos contra as nossas finalidades (thelos).  Para encontrar o thelos do homem, isto é, a finalidade de sua vida, há que o estudar por dentro e ver qual a sua virtualidade maior. 

Uma boa faca é aquela que corta bem, e um bom homem?

Animais, vegetais e objetos criados pelo homem também têm uma finalidade, um thelos. Diz-se destes entes, que são bons quando realizam a sua função. A faca, por exemplo, é boa quando corta bem, uma árvore é boa quando é frondosa, dá bons frutos. Da mesma forma ocorre com o homem, este é bom quando realiza a sua função. Aristóteles vai buscar essa função do homem na alma que, para ele, é a fonte responsável pela movimentação do nosso ser e responsável pela realização de certos desempenhos nossos.

Uma faca que corta bem é uma faca que tem arethé. Passando para o campo humano, alguém que tem arethé é alguém que realiza bem a sua função.

As funções da alma

A alma apresenta três tipos de funções: as irracionais (nutrição, crescimento etc), as motivacionas (geradoras das ações) e as racionais (ligadas à nossa capacidade cognitiva que nos torna capazes de alcançar a verdade).

A parte irracional diz respeito não apenas ao homem, como a qualquer ser vivo. A parte das motivações, está presente tanto nos homens como nos animais (não nos vegetais). E a parte cognitiva (racional) é a parte própria do homem.

A fim de que a boa vida seja alcançada é necessário que as três funções estejam em plena atividade. O homem tem boa vida se tem motivações adequadas para boas ações. Quando desempenha bem a parte motivacional e cognitiva da alma, diz-se que ele tem virtude (arethé).

Viver com virtude

Aristóteles primeiramente irá tentar entender o que é a virtude. Divide, então, as virtudes entre éticas (coragem, generosidade, amizade, justiça etc) e dianoéticas (sabedoria, temperança, inteligência etc).

A virtude é algo que se dá na alma. Ele vê três possibilidades do que poderia ser a virtude: afetos, capacidade, hábitos. Após refletir, exclui os afetos e a capacidade e definirá a virtude como sendo o habitus na alma responsável pelas boas motivações. Ao considerar a virtude apenas como hábito, não dá conta de tudo, pois tanto aquele que é virtuoso como o que não o é, têm hábitos. Assim, devemos investigar qual o tipo de hábito existente nas motivações é capaz de fazer com que uma alma seja ou não virtuosa.

O hábito faz o monge

O hábito virtuoso é aquele que faz a pessoa agir de acordo com o meio termo entre duas situações viciantes em cada situação vivenciada. Nossa vida se dá em vários contextos de ação. De acordo com cada situação, irá exigir um certo tipo de ação. Nos livros II e III, Aristóteles descreve as virtudes adequadas a cada contexto.

As virtudes relacionadas à verdade são as dianoéticas e as motivacionais são as éticas, que se manifestam pelo habito: o homem só pode ser considerado justo ao executar atos de justiça constantemente. A justiça, aliás, é considerada a principal virtude ética.

Aristóteles vai usar como exemplo uma pessoa que, apesar de fazer boas ações e ter condições de alcançar a verdade, não vive uma vida feliz. Tal caso serve para mostrar que apenas a virtude não é o suficiente para que se tenha uma boa vida, na medida em que existem elementos externos que influenciam elementos internos. Ao considerarmos a situação de uma pessoa que esteja passando fome, por mais virtuosas que sejam suas ações, dificilmente ela estará plenamente feliz, pois algo externo a ela (a falta de condição de comprar alimentos)  está impedindo-a de alcançar a felicidade plena. Por outro lado, uma pessoa que agiu corretamente em dada situação, mas não o fez impulsionada por motivações éticas, não pode ser considerada virtuosa por isso.

O homem será virtuoso se em cada situação o seu caráter o levar a agir bem. A virtude dianoética vai mostrar qual é a situação em que a pessoa se encontra, e assim vai possibilitá-la de julgar. O homem se identifica ou não com as regras gerais pelo seu caráter, e as instâncias particulares são identificadas por ele pela sua phronesis (prudência, sabedoria prática). O mais feliz é aquele que age de acordo com a phronesis. A função da virtude dianoética é mapear situações particulares.

No livro VI, Aristóteles irá nos mostrar a phronesis, isto é, a sabedoria prática ou prudência, como a responsável por nos dar a direção certa a seguir.

A finalidade

A ética de Aristóteles busca o fim (thelos) do homem, tal fim é uma tendência que toda coisa tem de se realizar para se tornar aquilo que é, não tem o sentido de encerramento, como muitos podem pensar, e sim de finalidade.  O thelos é intrínseco à natureza da coisa, mais ainda, é uma plenificação da coisa. Por isso diz-se que a ética aristotélica é teleológica, na medida em que busca os fins.

A concepção de fim em Aristóteles é basicamente empírica, uma vez que esse thelos é somente alcançado pela prática. Uma pintura, por exemplo, é o fim do pintor, é aquilo para o qual o pintor se projeta com o objetivo de realizar algo. A fabricação de telas, pincéis, cavaletes, apesar de não fazer parte da arte da pintura diretamente, é essencial a ela. O fim da fabricação do pincel é o próprio pincel, mas ele não terá sentido se não for utilizado para pintar, uma vez que a sua excelência, seu próprio, o seu thelos só será encontrado na pintura. O quadro quando acabado é o que vai dar sentido às outras artes e aos produtos utilizados na sua feitura, já que ele é o fim último ao qual todas essas artes a ele relacionadas são derivadas.

Em certos casos, o bem está na própria atividade e em outros casos o bem encontra-se fora dela, após ela ter sido realizada. Neste segundo caso podemos concluir que o produto, aquilo que foi resultado da atividade, é por natureza melhor que a atividade em si. A atividade do sapateiro, por exemplo, só é satisfeita ao seu término, pois somente quando o sapato está consertado é que podemos valorizar o trabalho do sapateiro, que não é admirado pela atividade em si e sim pelo produto que dela resulta. Já no caso do músico é diferente. Sua atividade só é valorizada enquanto a música está sendo executada. É por isso uma atividade em si; ao término da execução, nada resta.

Existe também uma certa hierarquização entre as atividades, há uma supremacia de um bem sobre os outros, na medida que existem várias atividades que só existem em função de outras atividades, como é o caso da arte de produção de rédeas, que é subordinada à arte da montaria e que por sua vez está subordinada a arte da estratégia. O valor de cada atividade é assim definido de acordo com o grau de proximidade com seu fim.

O bem de cada coisa

Todas as coisas visam o bem, e esse bem (agathón) só é alcançado por meio de uma atividade. O fim e o bem só são encontrados nos seres em movimento e no campo da prática, isto é, pela práxis. Somente o homem é capaz de realizá-lo.

A práxis é singular, nos dá a possibilidade de sermos bons ou maus, mesmo que conheçamos a forma certa de agir. Essa escolha é o momento da ação. O homem dotado de sabedoria prática saberá qual a escolha certa (e desejará tal escolha de modo que a opção por este caminho se torne algo quase natural, mas para que isso ocorra há que se exercer uma dedicação intensa).

O bem próprio do homem é o homem em sua plenitude. Esse bem humano nos pertence potencialmente (da mesma forma que o bem da semente é a árvore). É o bem que Aristóteles identifica como sendo a virtude (arethé).

Qual seria então a função própria do homem? Façamos uma analogia: a função própria do sapateiro é fazer sapatos, a função própria do flautista é tocar flauta, e a do pintor é pintar. Podemos observar em todos esses exemplos que a função própria de cada uma dessas atividades só aparece, só emerge, quando o indivíduo está exercendo-a. O pintor não precisa estar pintando durante as 24 horas do dia para ser um pintor: ele come, dorme, joga, mas tem como atividade mais constante e principal, pintar. Caso fique anos sem pintar, ele poderá dizer que já foi um pintor, mas na medida em ele não exercita mais essa atividade ele perde a função. Para voltar a ser considerado um pintor, terá que voltar a exercer esta atividade, isto é, atualizá-la.

Da mesma forma que diferenciamos um pintor de um bom pintor, assim também ocorrerá com o homem, e quanto melhor ele for, quanto melhor ele exercer a sua função, mais próximo da realização de seu bem ele estará. Importante ressaltar que não basta exercer otimamente sua função por determinado tempo e depois descansar a fim de colher os louros, trata-se de uma atividade incessante que deve ser exercida perpetuamente tal qual Sísifo com sua pedra. A diferença do mito, porém, é que, mesmo sabendo que não terá descanso, isto não causará nenhum sofrimento, nenhuma angústia ao homem, como ocorre com o pobre Sísifo.

A tarefa a ser realizada pelo homem (érgon), a sua ocupação própria, diz respeito ao empenho que ele deve ter na tarefa de realizar o que ele é. Notemos que érgon não pode ser visto como a essência do homem, pois a essência é algo estático, perfeito, imutável, e o érgon é algo a se realizar, o que requer um grande esforço.

Não podemos confundir arethé com érgon, apesar de só ser possível conhecer a arethé através do érgon. Mas diferentemente deste érgon, a arethé não é uma tarefa, a arethé é a excelência no exercício de uma atividade. Aquele que tem arethé é um virtuoso naquilo que faz, como um virtuoso na arte de pintar, que faz com que seus quadros expressem algo de sublime. Apesar do esforço do pintor, de seu empenho, ele apenas cumpriu o que deveria ser por ele realizado, porém cumpriu de maneira excelente, daí ele ser considerado um virtuoso naquilo que faz.

Todo homem tem o érgon, isto é, uma tarefa a ser realizada. Mas isso não quer dizer que ela seja necessariamente realizada. A arethé é a atualização do érgon.

A felicidade

De Aristóteles ao mais simplório dos homens, todos concordam que o objetivo principal da nossa raça, enquanto racionais que somos, é a tal busca da felicidade. Unanimidade em um ponto, discordância absoluta em outro: com os significados de felicidade para cada um, pode-se escrever um tratado. Mas o mestre Aristóteles, em algumas páginas, resolve a questão. Mais precisamente no livro X da Ética a Nicômaco.

A felicidade (eudaimonia) é definida das mais diversas formas para cada pessoa: para quem tem fome, a felicidade pode significar ter o que comer; para quem tem frio, roupas; para quem é ambicioso, dinheiro; para o vaidoso, honrarias; para quem está doente, saúde e assim sucessivamente. Tais bens, no entanto, podem sofrer oscilações. A riqueza, as honras, a beleza ­- coisas comumente consideradas como bens - em determinado momento podem se tornar males. Mas se assim for, não há como sustentar que a felicidade seja o bem dos homens, já que para isso deve trazer consigo algo que seja comum a eles.

A finalidade do homem varia muito de pessoa para pessoa. Existem os que relacionam a felicidade ao agradável, para quem a vida feliz é aquela alcançada pelo prazer, pelo gozo, sem nenhuma dor. Apesar de não ser contra o prazer, Aristóteles recusa a vida dos prazeres, na medida em este tipo de vida visa apenas o imediato.

Para outros, a felicidade está na riqueza, no acúmulo de bens, no consumo. Aristóteles também irá criticar os que escolhem este tipo de vida por ser algo transitório, passageiro, e compulsivo. O homem que pensa encontrar a felicidade em bens materiais está, na realidade, afastando-se dela, pois sua atenção está voltada para fora de si.

A felicidade é autossuficiente, isto é, não é desejável por causa de outra coisa, e ela é desejável em si. Cabe a nós, ao longo da vida, desviarmos o olhar exterior e olharmos para dentro de nós.

Existem também aqueles que consideram a honra, a glória do poder político, como sendo a finalidade (thelos) da vida. O estagirita reprova igualmente este tipo de vida, pois é algo que vem de fora, é concedido pelas outras pessoas, não é inerente ao próprio homem. Isto coloca aquele que recebe honrarias em uma posição subordinada àquele que as concede, pois é dele dependente para ser um homem honrado.O verdadeiro bem não pode ser tirado e concedido a toda hora por qualquer um, o verdadeiro bem é pertencente a quem o possui.

Finalmente, temos aqueles que optam pela vida teorética, contemplativa, intelectual, cujo exercício do pensamento faz com que exerçam suas ações conforme a justa medida.  Tal vida diz respeito a um bem ético, parece ser esse tipo de vida aquele que mais se aproxima da felicidade. O homem feliz faz exercício constante de sua virtude.

A partir desta analise sobre os tipos de felicidade, Aristóteles irá concluir que a felicidade é uma atividade, daí não poder encontrar-se em potência no homem, ela não é considerada uma virtude, embora não ocorra sem ela. Existe dentro de nós uma potência que é capaz de trazer a felicidade à tona.

Depende de nós atualizá-la.

Leia também: Leia Kant!

Publicado em 17 de abril de 2007

Publicado em 17 de abril de 2007