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Tijolos ecológicos feitos de garrafas PET

Mariana Cruz

Vida útil
Dicas para simplificar a vida

Ao ser procurado por um grupo de alunos de engenharia a fim de sugerir um trabalho que diminuísse os impactos ambientais nos igarapés, o professor de física Newton Lima, da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) de Manaus (AM), acabou criando um inusitado tijolo feito de garrafa PET. Com a iniciativa,  matou dois coelhos com uma garrafada só: além de despoluir os igarapés com a retirada desse material, o tijolo-PET se mostrou um ótimo isolante térmico, bastante útil nas regiões quentes. A invenção tem tudo para impulsionar outras benesses como geração de empregos e construção de casas populares feitas desse novo material.

Nesta entrevista, o professor Newton fala sobre o início do projeto, explica o processo de feitura dos tijolos, enumera as vantagens do material e aponta os maiores beneficiados com a sua utilização. 

Como surgiu a ideia de fazer um tijolo feito de garrafa PET?

Em 1996/1997, eu trabalhava para uma Escola de Manaus que prestava serviços educacionais para uma grande empresa multinacional de lâminas de barbear do pólo industrial da Zona Franca, na educação de adultos e conclusão de escolaridade de funcionários. Foi lá que li em uma revista de divulgação interna que uma unidade desta empresa, localizada na Via Dutra no Rio de Janeiro, dava fim da borra das lâminas após a afiação, misturando com argamassa e fazendo tijolo.

Quando fui procurado em 2003 por alunos de Engenharia Civil da ULBRA Manaus para sugerir um trabalho simples, porém de grande alcance social, de fácil confecção pela população, e que ajudasse nos impactos ambientais dos igarapés de Manaus, pensei: "se deu certo com borra de lâminas de barbear, pode dar certo com a garrafa PET de refrigerante". Alguns ensaios iniciais mostraram logo que era verdadeiro o que propunha aos meus alunos. Aí surgiu o tijolo ecologicamente correto - tijolo com PET. 

(P.S.: A escola que trabalhava em Manaus na época era a Objetivo, e a empresa de lâminas de barbear foi a Gillete do Brasil S/A). Na ocasião, eu era o coordenador do projeto frente à empresa.   

O senhor poderia explicar brevemente o processo de feitura do tijolo-PET?

Faz-se uma forma de madeira qualquer, inclusive de compensado, com dimensões 14,0cm x 14,0cm x 39,0cm ou 35,0cm. Inicia-se a  mistura de cimento e areia de quartzo, na proporção de 1:4 ou uma medida de um de cimento por quatro de areia. Homogeneízam-se os dois ingredientes. Em seguida, acrescenta-se água aos pouco até a mistura ficar tipo farofa de ovo, hidrata-se um pouco mais a massa sem exagerar na água. Um teste prático que funciona muito bem é você bater com a mão na mistura de cimento e areia e ela não ficar ligada à sua mão (nem seca e nem molhada demais). Depois é só colocar um pouco da massa no fundo da forma e compactar com pedaço de ripa de madeira, coloca-se a garrafa PET e vai preenchendo com a argamassa até fechar o bloco. Após 12h ou 24h desenforme. Este intervalo de tempo é grande, ele pode ser menor, porém no início aconselha-se isto para não perder material. Logo, tem-se que fazer várias formas. 

(Veja o processo sendo realizado em uma  comunidade do Rio Juruá, no Amazonas, disponível em:  www.defesa.gov.br/projetorondon).    

Quais as principais vantagens do tijolo-PET? Existe alguma desvantagem em relação ao tijolo "tradicional"?  

As principais vantagens observadas no tijolo ecologicamente correto são o isolamento térmico e acústico oferecido pelo "AR" confinado dentro da garrafa; seu baixo custo de fabricação e também o fato de, após estar pronto, não necessitar de reboco, pois sua superfície externa encontra-se acabada. Pode ser confeccionado por qualquer pessoa sem uso de grande tecnologia ou energia elétrica ou térmica, somente acompanhando as orientações de um folder. (Hoje  disponível em: newtonulbra@gmail.com).

...além de ajudar a Natureza com a coleta das garrafas de PET hoje jogadas nos rios, córregos e mananciais. Sem preço para a humanidade.

Desvantagem: o corte do tijolo tem que ser feito com uma cortadora tipo Maquita ou serra manual de cortar tubo de PVC, porém ele pode sofrer corte tanto longitudinal quanto transversal, sem comprometer sua estrutura. As ligações elétricas e hidráulicas são recomendadas a serem aparentes.   

Existe algum projeto de comercialização do tijolo-PET?

Até hoje ainda não.

Já existe alguma construção feita de tijolo-PET? Há algum projeto em andamento?

Hoje no Campus da ULBRA, em Manaus, estamos iniciando a construção de uma casa de modelo popular com este tipo de tijolo, com a minha supervisão. Também ainda neste ano realizei uma oficina de como fazer o tijolo ecologicamente correto no Projeto Rondon, em Carauari, no Amazonas, para a cooperativa de coletores de lixo seletivo da cidade. A prefeitura local ficou interessada em construir sarjetas na periferia e centro da cidade. Foram treinados 27 colaboradores, todos conseguiram fazer o tijolo corretamente no final do curso. 24h depois foram desenformados, com aproveitamento de 100%. Uma aplicação do tijolo, através de uma consulta  do SEBRAE-BA em agosto de 2006, também pode ser acessada na internet.

Em que tipos de construção e para que tipo de público o senhor gostaria que o tijolo-PET servisse?

A finalidade deste trabalho foi para pessoas de baixa renda melhorarem sua qualidade de moradia. Também de propiciar renda em comunidade e gerar emprego para pessoas de baixa escolaridade. Melhorar a qualidade das águas em nosso país. Criar esperança e autoestima na população que vive sem proteção do Estado. 

Para mais esclarecimentos o professor Newton Lima se colocou à disposição através do e-mail newtonulbra@gmail.com.

Publicado em 17 de abril de 2007.

Publicado em 17 de abril de 2007