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Racismo ilustrado

Guilherme Sarmiento

O que me levou a comprar o livro O noivo da Morte, de Vicente Azevedo, foi a curiosidade de saber um pouco mais sobre a biografia de Álvares de Azevedo, o poeta romântico brasileiro. Nem imaginava que o pequeno exemplar seria o motivo para uma futura crônica sobre racismo – muito menos para a descoberta de um personagem sem sobrenome.

Achei o exemplar por um acaso. A capa, de um rosa arroxeado nada atrativo, estava surrada, mas o título chamou minha atenção em meio a uma mesa lotada de livros baratos, oferecidos por apenas um real em um sebo de Niterói. Após a aquisição, deixei-o esquecido na estante até algumas semanas atrás, quando pesquisas sobre o romantismo fizeram com que, finalmente, encarasse sua leitura.

Logo nas primeiras páginas fiquei sabendo que O noivo da morte foi publicado em 1970, pelo Clube do Livro. Tem-se uma longa “nota explicativa” feita por Mário Graciotti, na qual se enaltece a iniciativa do acadêmico Vicente de Azevedo, que oferecia um “quase completo perfil de uma figura tão cara a nós todos, paulistas e brasileiros de Piratininga”. Nada se diz de mais esclarecedor sobre o biógrafo. Na internet, entretanto, descobri que ele fazia parte da Academia Paulistana de Letras e que, desde a década de 1930, publicava material sobre Álvares de Azevedo. Antes de morrer, em 1978, ainda deixaria a organização das cartas do poeta e uma nova e mais audaciosa biografia chamada Álvares de Azevedo desvendado

A escrita de Vicente de Azevedo às vezes soa melodiosa demais para o século XXI; e aqueles que leram O noivo da morte a época do lançamento devem ter sentido a mesma dissonância parnasiana que se sente hoje ao acessar suas imagens. Nascido em 1895, o autor mostra-se impermeável à informalidade moderna. Sua expressão trás à tona a sentimentalidade positivista da Belle èpoque, atualiza noções que não foram de todo extintas de nossa cultura pós-modernista. Para um leitor crítico e atento, na medida em que se avança na leitura do livro, os preconceitos do biógrafo sobrepõem-se à melancólica e curta vida de Álvares de Azevedo, o biografado.

Certamente, se o livro fosse publicado hoje causaria grande polêmica, atraindo o repúdio daqueles que lutam pelos Direitos Humanos – sobretudo os engajados no Movimento Negro. Talvez O noivo da morte encontrasse sérias dificuldades de comercialização. Mas em 1970, Vicente Azevedo sentiu-se à vontade para expor seu racismo de maneira tão “convencional” que chega a beirar o ingênuo.

Os exemplos de racismo explícito são inúmeros, mas vou destacar dois bem emblemáticos. O primeiro, refere-se a sua obsessiva busca por uma genealogia dos Azevedo, cuja origem remontaria a uma linhagem europeia nobre e branca,  herdada pelo lado paterno. “No velho Portugal, foram almirantes do reino, claveiros do Mestrado de Avis, comentadores de Jurumenha e São Pedro d’ Elvas”, disse em determinada altura do livro, completando em seguida “sempre sem que nas ditas gerações houvesse raça de judeu, mouro ou mulato”. Por ser também um “Azevedo”, Vicente parece barganhar para si a “limpeza de sangue” rastreada desde a época heroica das Cruzadas.

A segunda manifestação racista, mais contundente, e que interessa em especial a um espaço como o Portal da educação pública, narra um fato ocorrido na Faculdade de Direito de São Paulo, por volta de 1850. Vicente de Azevedo retira-o do livro de memórias de Almeida Nogueira chamado Tradições e reminiscências, onde as excentricidades do professor Prudêncio Giraldes Tavares da Veiga Cabral são reapresentadas ao público com uma descontração tão deslocada que, em determinados momentos, beira ao sadismo. Dentre as “implicâncias” do lente de Direito Civil que passaram para a história, o episódio ocorrido com o aluno “Fogaça” tem especial destaque aqui.

Fogaça era negro. E o professor Cabral, segundo o biógrafo, não admitia a presença de negros e mulatos em salas de aula. Ignorava o aluno, insistindo em prejudicá-lo com falta, recomendando ao bedel que colocasse “ponto” no diário caso ele estivesse presente e dois pontos quando realmente faltasse à faculdade. Esta indisposição fez com que Fogaça – como era de praxe nestes casos –  fosse procurá-lo em seu gabinete às vésperas do exame. O sarcasmo com que foi recebido estendeu-se por todo o encontro. Antes de se retirar do recinto, o professor fez com que seu cozinheiro, “escravo retinto”, aconselhasse-o a desistir do direito e ser cocheiro. Vicente de Azevedo terminou a narração do episódio com uma frase estranhamente seca para seu estilo pomposo: “acrescentava-se que o estudante abandonou os estudos e voltou para Minas”.

A imagem deste estudante abandonando a faculdade, o sonho de uma vida melhor, e voltando cabisbaixo para sua terra, contrasta com o fundo irônico que, no final das contas, é o endosso de Vicente de Azevedo a atitude do professor Cabral. Para o autor de O noivo da Morte, a triste e sumária cena de Fogaça não possuía tintas suficientemente trágicas para compor uma biografia elegíaca. Entretanto, as 148 páginas em que descrevera a trajetória do poeta de Se eu morresse amanhã na direção de uma morte desejada, cortejada, não superam a tragédia deste jovem evadindo-se da faculdade pelo simples fato de ser negro. Sua silhueta abandonada pela narrativa e pela sorte avulta-se, torna-se emblema de uma intolerância cujos frutos colhemos até os dias de hoje.

Depois deste trecho, não pude mais continuar a leitura sem inquietação. Prossegui-la seria um atestado íntimo de cumplicidade aos comentários de Vicente de Azevedo. A presença daquele livro em minha estante também não me eximia da crueldade, nem a aparente frivolidade com que me entregava à pesquisa me imunizava contra o veneno de uma cultura conservadora e reacionária. Abandonei o Noivo da morte antes da metade, com a impressão de que Fogaça ainda vivia e que só aguardava alguma palavra de estímulo, alguma manifestação de apoio, para deixar de penar sobre a paisagem mineira e retornar, enfim, a sua desejada faculdade de direito.

Publicado em 8 de maio de 2007.

Publicado em 08 de maio de 2007